DISCROMATOPSIA - Conto de Terror - Lewis Medeiros Custódio
DISCROMATOPSIA
Lewis Medeiros Custódio
*16 Fevereiro 2011*
Acordei e ela ainda estava a dormir. Tinha o braço direito dormente de dormir em cima do corpo. Pus-lhe a mão na cara e ela começou a acordar, esticando o braço direito em direcção do sol que entrava pela janela como um velho amigo que irrompe pela nossa porta. O cão veio lamber-me a cara e pôs a pata em cima dela. A Catarina finalmente abriu os olhos. Acho que devo ter olhado demais para a luz, havia algo… não, não estava a ver bem.
*10 Março 2013*
Fui buscá-la ao emprego. Eram 3 da tarde e o sol estava particularmente brilhante. Ela entrou no carro e deu-me um beijo. Olhei melhor para ela. Havia algo de estranho nos olhos. Hesitei em retribuir o beijo. Baixei o pára-sol. Devo estar a imaginar coisas, só pode.
*5 Julho 2013*
Fomos ao parque passear o cão. Ela estava radiante. Parámos para comer gelado. Olhei para ela.
— Por que estás a olhar assim? — perguntou ela curiosa.
— Nada — respondi eu disfarçando. Mas não era “nada”. Os olhos dela tinham mudado de cor. Levemente, mas tinham. De azul marinho para azul esverdeado. Peguei no cão ao colo e apertei-o contra o meu peito.
*8 Novembro 2015 *
Fomos jantar ao café. Por que não? É um óptimo sítio para se jantar. Sempre gostámos das sandes do café. Mas ela nem lhes tocou. E os olhos mudaram novamente de cor. Eram azuis, agora estão cada vez mais e mais verdes.
*12 Janeiro 2016 *
Ela já estava acordada quando acordei. Tinha o cabelo diferente. Mais comprido, mais liso, mais escuro. Os olhos parecem castanhos. Ela olhou para mim sem sorrir. Perguntei se estava tudo bem. Ela saiu do quarto sem dizer nada.
*Dezembro 2019 *
Querem enganar-me. Não sei quem é ou quem são. Mas não são a minha Catarina. Querem enlouquecer-me, mas eu já percebi. Hoje uma cor, amanhã outra. Encontrei a camisola da Catarina cheia de sangue seco.
* Janeiro. Ou… talvez… não, Março 2022. Ou 2024 *
Ela mudou outra vez de olhos. Só um demónio pode fazer isso. É um demónio! Fui à polícia com a camisola da minha Catarina, mas o demónio enfeitiçou-os — só pode! Foram a minha casa e prenderam-me. Ela — o demónio! — fingiu chorar enquanto eles me levavam. E o que ela fez à minha Catarina! Enterrou o corpo dela no quintal com o nosso filho por nascer e culparam-me a mim. Eu que a amava mais que tudo! E matou mais mulheres. E o juiz culpou-me — eu que nunca ouvi sequer falar delas! Nem sei quem são! Maldito demónio!
Daqui a pouco, ela — aquilo, o demónio — vai entrar neste quarto branco almofadado, mas eu já arranjei uma caneta para lhe arrancar os olhos…1
Nota:
1Conto redigido conforme o Acordo Ortográfico de 1945.


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