ERGUENDO-SE DO ESQUIFE - Narrativa Verídica de Horror - Autor anônimo do séc. XX
ERGUENDO-SE DO ESQUIFE
(E cumprimentando os circunstantes!)
Autor anônimo do séc. XX
Pedindo esmola para enterrar o marido
Há poucos dias, uma pobre mulher, entre lágrimas, foi ao escritório da Fábrica Industrial Mineira, em Mariano Procópio.
Imediatamente todos a cercaram e indagaram que fatalidade a havia atingido.
A pobre mulher então contou que seu marido havia falecido e, sem recursos para fazer o seu enterramento, recorria à generosidade alheia para cumprir o piedoso e triste ato.
O morto havia sido operário da fábrica e, assim, não teve a mulher dificuldades em obter os recursos necessários para dar sepultura ao corpo de seu malogrado companheiro.
De donativo em donativo, reuniu o necessário e saiu para dar as providências.
E todos a acompanharam com um olhar triste e com a frase costumeira:
—Pobre mulher.
O “quarto” do defunto
À noite, em sua casa, amigos velavam o cadáver do esposo. E ela, mal retendo os soluços, increpava o destino mau que lhe roubava o companheiro.
Não faltaram, como é natural, as palavras de consolo e de bondade.
O cadáver, no seu caixão pobre, permanecia em cima de uma mesa tosca.
De quando em quando, alguém dele se aproximava e dizia uma frase curta, à guisa de elogio. E de novo tomava assento entre as pessoas amigas que faziam o “quarto”, como se diz geralmente.
Ressurreição
A casa do defunto, encravada no local denominado Borboleta, é cercado por denso arvoredo, isolado e profundamente triste. A noite ia alta e a piedade dos amigos velava ainda o corpo do operário. Em dado momento, surpresa geral. Pânico e pavor. Cabelos arrepiados, gritos pela noite a dentro, fugas precipitadas, desordenadas, a quebrar o profundo silêncio da estrada deserta. Não se detiveram na carreira. E quando chegaram à cidade, mal refeitos ainda do espanto e do terror, narraram comovidos aos que foram atropelados pela fuga desabalada: — O “morto” levantou-se do caixão. Um dos assistentes, mais calmo, contou então o impressionante fato. O operário, deitado era seu caixão, às tantas da noite, levantou-se e olhou surpreso para os assistentes, para o caixão, para as velas…
—Boa noite, meus senhores — disse ele…
O pavor
Foi o bastante. Ninguém ficou na sala e deu-se então a fuga desabalada pelo morro abaixo…
O “morto” ficou sozinho, a pensar no que lhe havia acontecido. Serenados os ânimos, verificou-se então que o pobre operário tinha sido vítima de um ataque de catalepsia.
E a estas horas ele deve bendizer o destino que não lhe permitira acordar, no fundo de uma estreita quadra de sete palmos de altura…
Acordou a tempo, graças a Deus!…
Fonte: “Aviso”/PI, edição de 30 de março de 1929.

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