LENORE - Poema em Prosa Clássico de Terror - Gottfried August Bürger
LENORE
Gottfried August Bürger
(1747 – 1794)
Extremamente popular e influente em sua época, “Lenore” é uma narrativa gótica, escrita originalmente em versos, do poeta alemão Gottfried August Bürger. O poema está na origem da célebre frase que Bram Stoker imortalizou no romance “Drácula”: “Die Toten reiten schnell” (Os mortos cavalgam rápido). Nesta fantasmagórica narrativa, Lenore, tendo perdido o marido na guerra, antes que se consumasse o casamento, renega o Criador. Certa noite, cavalga, em fuga, na companhia de quem supõe ser o seu esposo. Mas não galopa, como imagina, a caminho do tão sonhado leito de núpcias, senão ao encontro de um destino aterrador... “Lenore” foi, provavelmente, a primeira obra ficcional estrangeira a ser publicada no Brasil em folhetim — mas sem indicação do autor e do tradutor (edição de 26 de outubro de 1836 do periódico “O Chronista”, do Rio de Janeiro).
Lenore se levanta ao raiar do dia. Está livre de seus tristes sonhos:
— Wilhelm, meu marido, estás morto? És-me infiel? Quanto tempo ainda vais demorar?
Na mesma noite de seu casamento, Wilhelm acorrera à batalha de Praga, na esteira do rei Frederico, e desde então não se soube mais dele.
O rei e a imperatriz, cansados de suas sangrentas querelas, apaziguando-se pouco a pouco, fizeram finalmente a paz. E… ram, tam, pam, tã, tã, tã…, ao som das trombetas e dos timbales, cada exército voltou para casa, coroando-se de alegres guirlandas.
E em toda parte e sem cessar, nos caminhos e nas pontes, jovens e velhos formiguejavam a seu encontro.
— Louvado seja Deus! — exclamavam muitos filhos, muitas esposas.
— Sejas bem-vindo! — exclamava mais de uma noiva.
Mas, ai! Somente Lenore aguardava em vão o beijo do regresso.
Ela percorre, por todos os lados, as fileiras. Em todos os lugares, pergunta por ele. De todos os quantos voltaram, não há um que possa dar notícias de seu amado marido. Eis que já vão longe. Então, arrancando os cabelos, atira-se ela ao chão e se rebolca em delírio.
A sua mãe vem acudi-la.
— Ah, Deus te ampare! O que foi, minha pobre filha?
E a estreita entre os seus braços.
— Oh, minha mãe! Ele morreu! Morreu! Que o mundo e tudo mais pereçam. Deus não tem piedade. Infeliz! Infeliz de mim!
— Deus nos ajude e nos perdoe. Minha filha, implora ao nosso Pai. O que Ele faz, está bem feito, e jamais nos nega o seu socorro.
— Oh, minha mãe! Minha mãe! A senhora se equivoca… Deus me abandonou. De que me serviram as minhas orações? De que elas me servirão agora?
— Meu Deus, tende piedade de nós! Quem conhece o Pai, sabe que Ele não abandona os seus filhos. O Santíssimo Sacramento aliviará todas as tuas dores.
— Oh, minha mãe! Minha mãe! Nada pode acalmar o fogo que me devora! Nenhum sacramento pode devolver a vida aos mortos.
— Minha filha, escuta. Quem sabe se o pérfido não formou outras relações com alguma jovem estrangeira? Esquece esse rapaz! Faz isto, senão as coisas não terminarão bem e as chamas do inferno esperarão por tua morte.
— Oh, minha mãe! Minha mãe! Os mortos estão mortos. O que está perdido está perdido e a tumba é o meu último recurso. Oxalá jamais tivesse eu nascido! Tocha de minha vida, apaga-te. Apaga-te no horror das trevas! Deus não tem piedade... Oh, que desgraçada sou eu!
— Ó Deus! Tende piedade de nós. Não julgueis a minha filha. Ela não conhece o valor de suas palavras. Não as tem por pecado. Filha, esquece os pesares da terra. Pensa em Deus e na felicidade eterna, pois te resta um marido no céu.
— Oh, minha mãe! O que é a felicidade? O que é o inferno? A felicidade está onde está Wilhelm; o inferno, onde ele não está. Apaga-te, tocha de minha vida! Apaga-te no horror das trevas. Deus não tem piedade… Oh, que desgraçada sou eu!
Assim, o ardente desespero despedaçava o seu coração e a sua alma e a fazia insultar a providência de Deus. Ela golpeou o peito e retorceu os braços até o ocaso, até a hora em que as estrelas douradas resvalam suavemente na abóboda do firmamento.
Mas que ruído é este que vem lá de fora? Pacatá, pacatá, pacatá!… É o mesmo que o passo de um cavalo. E depois parece que um cavaleiro apeia, com um roçar de armaduras. Sobre as escadas. A campainha toca docemente. Ding dong!… E, através da porta, uma voz agradecida assim fala:
— Olá, olá! Abre-me a porta, querida! Estás acordada ou dormes? Pensas sempre em mim? Nadas em alegria ou em pranto?
— Ah, Wilhelm! És tu, tão tarde pela noite? Estava acordada e chorava. Ai, tenho sofrido cruelmente… De onde vens em teu cavalo?
— Montamos os nossos cavalos à meia-noite. E venho das profundezas da Boêmia. Por isto cheguei tão tarde para levar-te comigo.
— Ah, Wilhelm! Entra primeiro aqui, pois ouço o silvar do vento na selva. Entra, meu amor, para que eu te estreite nos meus braços.
— Deixa silvar o vento na selva, menina. Que importa que o vento uive? O cavalo cavouca a terra. As esporas ressoam. Não posso ficar aqui. Vem, alma minha, calça-te. Salta à garupa de meu cavalo, pois resta-nos andar cem léguas para corrermos ao nosso leito nupcial.
— Ai, como queres que andemos hoje cem léguas, para corrermos ao leito nupcial? O sino da meia-noite ainda está a ressoar.
— Olha! Olha como brilha a Lua… Nós e os mortos vamos a toda pressa. Prometo que te levo ainda hoje à nossa alcova.
— Diz-me, pois, onde está o teu quarto e como é a tua cama de noivo.
— Longe, muito longe daqui. Silenciosa, úmida e estreita.
— Há, nela, lugar para mim?
— Para nós dois. Vem, alma minha, sobe à garupa. O festim das bodas já está preparado e os convidados nos esperam.
A moça se calça, corre e salta à garupa. Cruza as mãos de açucena entorno do cavaleiro que ama e, depois... Pacatá, pacatá, pacatá!... Assim ressoa o galope... A duras penas, respiravam o cavalo e o cavaleiro e, sob os seus passos, faiscavam os seixos.
Oh, como à direita e à esquerda voavam a seus passos os prados, os bosques e os campos! Como, sob eles, ressoavam as pontes!
— Tens medo, minha menina? Brilha a lua. Hurra! Os mortos vão depressa. Tens medo dos mortos?
— Não… Mas deixa os mortos em paz. O que significam esses ruídos e esses cantos ao longe? Para onde segue esta bandada de corvos? Escuta… É o ruído de um sino e são cantos fúnebres…
— Temos um morto a enterrar — respondem os passantes.
E a comitiva fúnebre se aproxima com o acompanhamento de cantos que se parecem com as roucas inflexões dos habitantes dos pântanos.
— Depois da meia-noite, sepultareis esse cadáver com todos os vossos concertos de lamúrias e cânticos sinistros — disse o cavaleiro. — Eu levo a minha esposa e vos convido ao banquete das bodas. Vem, sochantre, adianta-te com o coro e entoa o hino do casamento. Vem, sacerdote, lança-nos a bendição para lançarmo-nos depois no leito nupcial.
Cessaram-se os cantos e as lamentações... O féretro desapareceu... Sensível ao seu convite, eis a comitiva a segui-los. Hurra! Hurra! Ele aperta o flanco do cavalo, que dispara adiante. Pacatá, pacatá, pacatá! Assim ressoa o galope... A duras penas, respiravam o cavalo e o cavaleiro e, sob os seus passos, faiscavam os seixos.
Oh, como à direita e à esquerda voavam a seus passos os prados, os bosques e os campos! Oh, como à direita e à esquerda voavam as aldeias, as vilas e as cidades!
— Tens medo, minha menina? Brilha a lua. Hurra! Os mortos vão depressa. Tens medo dos mortos?
— Ah, deixa os mortos em paz!
— Olha, olha! Vês agitar-se, ao lado desses patíbulos, aéreos fantasmas que prateiam e fazem visível a Lua? Dançam em torno do círculo. Eia, pícaros, aproximai-vos! Cuidai de seguir-me e de fazer a contradança das bodas… Vamos ao alegre banquete nupcial!
Husch, husch, husch!... Toda a horda se lança atrás deles entre as folhas secas... E depois, avante! Pacatá, pacatá, pacatá! Assim ressoa o galope. A duras penas, respiravam o cavalo e o cavaleiro e, sob os seus passos, faiscavam os seixos.
Oh, como voavam, como voavam ao longe e ao redor do casal aqueles entes que iluminavam a Lua... Como fugiam os céus e as estrelas sobre suas cabeças!
— Tens medo, minha menina? Brilha a lua. Hurra! Os mortos vão depressa.
— Oh, meu Deus! Deixa os mortos em paz.
— Coragem, meu negro cavalo! Creio que o galo canta. A areia da ampulheta correu quase toda. Sinto o ar da manhã. Cavalo meu, apressa-te. Concluída está a nossa jornada. O leito nupcial está pronto para abrir-se. Os mortos vão depressa… Aqui estamos nós!
Ele corre a toda velocidade contra uma grade de ferro, toca-a ligeiramente com o chicote… Os ferrolhos se quebram, e as folhas do portão se apartam gemendo. O ímpeto do cavalo o leva entre túmulos que aparecem por todos os lados ao fulgor da Lua.
Ah, olhai! No mesmo instante tem lugar um prodígio espantoso: o manto negro do cavaleiro cai pedaço por pedaço como uma mecha queimada. Sua cabeça não é mais que uma caveira descarnada e seu corpo se converte em um pálido esqueleto que traz uma gadanha e uma ampulheta.
O cavalo negro se empina furioso, vomita centelhas e de repente… Ai! Abisma-se e desaparece nas profundezas da terra. Descem uivos dos espaços aéreos. Levantam-se gemidos das tumbas subterrâneas. O coração de Lenore palpitava da vida à morte.
E os espíritos, à claridade da Lua, se formaram em círculo ao seu redor e bailaram, cantando assim:
Paciência! Paciência.
Mesmo quando o sofrimento destroça o teu coração
Jamais blasfemes contra o Deus do céu.
Teu corpo já é nosso.
Que Deus conceda o perdão à tua alma.
Versão em português de Paulo Soriano a partir das traduções em prosa de A. C. (espanhola), 1840, e Gerard de Nerval (francesa), 1829. A onomatopeia empregada foi, em boa parte, extraída da primeira publicação da narrativa no Brasil.
Ilustração: Johann Frank Kirchbach (1859-1912).
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