MADAME HERMET - Conto Clássico de Loucura - Guy de Maupassant

MADAME HERMET

Guy de Maupassant

(1850 — 1893)

Tradução de autor anônimo do séc. XX



Os loucos atraem-me, pois vivem num país misterioso de sonhos bizarros, numa nuvem impenetrável de demência, onde tudo o que viram na terra, tudo o que amaram, tudo o que fizeram recomeça numa existência imaginada, fora de todas as leis que governam as coisas e regem o pensamento humano.

Para eles, o impossível não existe, o inverossímil desaparece, o feérico torna-se constante e o sobrenatural familiar. Essa velha barreira, a lógica, essa velha muralha, a razão, essa rampa das ideias, o bom senso, partem-se, tombam, desmoronam diante da sua imaginação deixada em liberdade, fugitiva no país ilimitado da fantasia, e que segue em saltos fabulosos sem que nada a detenha. Para eles, tudo acontece e tudo pode acontecer. Não se esforçam para vencer os acontecimentos, dominar as resistências, triunfar dos obstáculos. Basta um capricho da sua vontade ilusionista para que eles sejam príncipes, imperadores ou deuses, para que possuam todas as riquezas do mundo, todas as coisas saborosas da vida, para que desfrutem de todos os prazeres, para que sejam sempre fortes, belos, jovens, queridos! Só eles podem ser felizes na terra, pois que, para eles, a realidade não existe mais. Gosto de me debruçar sobre esses espíritos vagabundos, como se me debruçasse sobre um abismo em cujo fundo borbulhasse uma torrente desconhecida, que viesse não se sabe de onde e não se sabe aonde fosse.

Mas não adianta a gente curvar-se sobre essas brechas, pois que nunca se saberá de onde vem essa água, e para onde vai ela. Ademais, não passa de água, igual à que corre à luz do dia e vê-la não nos ensinaria nada de mais.

Não adianta também curvar-se sobre o espírito dos doidos, pois que as suas mais esquisitas ideias não passam das mesmas ideias já conhecidas, apenas estranhas, por não serem mais encadeadas pela razão. Seu curso caprichoso surpreende-nos, porque não se sabe onde ele brota. Terá, talvez, bastado uma pedrinha caída no curso da água para produzir esses borbulhos. No entanto, os loucos sempre me atraem e a eles volto, atraído, contra a vontade, pelo mistério banal da demência.

Ora, um dia, em que visitava um asilo de loucos, disse-me o médico que me conduzia:

Vou mostrar-lhe um caso interessante.

Levou-me a uma cela, onde uma mulher de cerca de quarenta anos, ainda bonita, sentada num grande sofá, olhava com obstinação o rosto num pequenino espelho. Mal nos viu, levantou-se, correu para buscar um véu que estava atirado numa cadeira, envolveu com ele o rosto, cuidadosamente, depois voltou, respondendo com um cumprimento de cabeça à nossa saudação.

Como vai passando hoje? — disse o doutor.

Ela soltou fundo suspiro.

Mal, muito mal, doutor. As marcas estão aumentando cada dia mais.

Acho que a senhora está enganada. Não aumentaram, não.

Ela, porém, se aproximou, para murmurar-lhe:

Tenho certeza. Contei hoje mais dez buraquinhos, três na face direita, quatro na esquerda e três na testa. É horrível, horrível! Não quero mais que ninguém me veja, nem mesmo meu filho! Estou perdida, desfigurada para sempre.

Caiu sentada no sofá e pôs-se a soluçar. O médico sentou-se ao seu lado e, com uma voz doce e consoladora, murmurou:

Vamos ver isso; não há de ser nada. Com uma pequena cauterização, isso desaparece.

Quis tocar-lhe o véu, mas ela o segurou com ambas as mãos, com tanta força, que os dedos o rasgaram.

A senhora bem sabe que todas as vezes eu tiro esses buraquinhos feios, e que, depois que trato deles, ninguém mais os percebe. Se não quiser mostrá-los, não posso curá-la.

Ao senhor, ainda vá lá; mas não conheço o outro — murmurou ela.

Ele é médico também, e vai tratar da senhora ainda melhor do que eu!

Então ela deixou que lhe víssemos o rosto: mas o medo, a emoção, a vergonha de ser vista punham-na vermelha até o pescoço. Baixava os olhos, virava o rosto, ora à direita ora à esquerda, para evitar nossos olhares. E balbuciava:

Sofro horrivelmente por me deixar ver assim! É horroroso, não é mesmo?

Contemplava-a surpreso, pois que nada tinha no rosto, qualquer mancha, marca nenhuma, nenhum sinal, nem cicatriz. Virou-se para mim, com os olhos sempre baixos:

Foi tratando de meu filho que adquiri essa horrível moléstia, doutor. Salveio-o, mas fiquei desfigurada. Dei-lhe a minha beleza, ao meu pobre filho. Enfim, cumpri meu dever; minha consciência está tranquila. Se sofro, só Deus o sabe.

O doutor tirara do bolso um minúsculo pincel de aquarela.

Deixe estar; vou resolver isso.

Ela apresentou a face direita e ele começou a tocá-la em golpes secos, como se a estivesse colorindo. Fez o mesmo na face esquerda, depois no queixo e na testa. Enfim, exclamou:

Veja! Não tem mais nada! Nada!

Ela tomou do espelho, contemplou-se longamente com atenção profunda, aguda, violenta, a fim de descobrir alguma coisa. E suspirou:

Não se está vendo muito, não. Agradeço-lhe infinitamente.

O médico levantou-se. Cumprimentou-a, fez-me sair. E assim que a porta se fechou, disse-me:

Está é a história atroz dessa desgraçada. Chama-se madame Hermet. Foi linda, muito coquete, muito amada e feliz. Era uma dessas mulheres que não possuem senão a sua beleza e o seu desejo de agradar, e por eles são sustentadas, governadas e consoladas na vida. O cuidado constante da sua frescura da sua cútis, das mãos, dos dentes, de todas as parcelas do corpo que se podem mostrar tomava-lhe todas as horas e sua completa atenção.

Ficou viúva, com um filho. Este foi educado como o são todos os filhos das mundanas muito admiradas. No entanto, ela o amava.

Ele cresceu e ela envelheceu. Não sei se ela viu chegar a crise fatal. Terá ficado a olhar, como tantas outras, cada manhã, durante horas e horas, a pele outrora tão fina transparente e clara, que agora se enruga um pouco sob os olhos, se parte em mil traços ainda imperceptíveis, mas que se cavarão cada dia mais, cada mês mais? Terá visto crescerem, de maneira lenta e segura, as rugas da testa, essas delgadas serpentes que nada detém? Terá sofrido a tortura, abominável tortura do espelho, do espelhinho de cabo de prata que não se pode pôr de lado, porque logo é retomado, para rever, de perto, a odiosa e tranquila devastação da velhice que se aproxima? Terá permanecido fechada, dez, vinte vezes, num dia, deixando sem motivo o salão onde conversam as amigas, para trancar-se no quarto, e, sob a proteção dos ferrolhos e fechaduras, contemplar ainda o trabalho de destruição da carne madura, que murcha, para verificar com desespero o progresso ligeiro do mal que ninguém ainda parece ter visto, mas que ela bem conhece? Bem sabe onde foi atacada, onde recebeu as mais profundas mordidas da idade. O espelho, o espelhinho redondo na sua moldura de prata trabalhada, conta-lhe, antes de mais nada, coisas horríveis, pois que fala, parece rir, caçoa e anuncia-lhe tudo que virá, todas as misérias do corpo e o atroz suplício de seu pensamento, até o dia da morte, que será o da libertação.

Terá chorado, desatinada, de joelhos, a cabeça no chão, e rezado, rezado, pedindo àquele que assim mata os seres e só lhes dá a juventude para tornar mais dura a velhice, e só lhes empresta a beleza para retomá-la logo; terá ela suplicado para obter o que nunca nenhuma obteve, para permanecer até o seu último dia com o encanto, a frescura e a graça? Depois, compreendendo que implora em vão o inflexível Desconhecido, que empurra os anos, uns atrás dos outras, terá rolado, torcendo os braços, nos tapetes de seu quarto, batendo com a fronte nos móveis, retendo na garganta gritos horríveis de desespero?

Sem dúvida, terá passado por essas torturas. Pois eis aqui o que aconteceu:

Um dia (tinha então, trinta e cinco anos), seu filho, com quinze, adoeceu. Foi para a cama, sem se saber ainda de onde lhe vinha o sofrimento, qual a sua natureza. Um padre, seu preceptor, cuidava dele, enquanto madame Hermat vinha saber, todas as manhãs e todas as noites, notícias. Entrava, de manhã, de robe, sorridente, já toda perfumada, e perguntava, da porta:

“— Então, Georges? Como vamos?

O rapazinho, vermelho, de rosto inchado, comido pela febre, respondia:

“— Um pouquinho melhor, mãezinha.

Ela ficava um momento no quarto, olhava os frascos das drogas com um ríctus de nojo nos lábios, e exclamava:

“—Ah! Esqueci-me de uma coisa muito urgente.

E escapava correndo, deixando após si finos odores de toalete.

De noite, reaparecia de vestido decotado, ainda com mais pressa, pois estava sempre atrasada; mal tinha tempo para perguntar:

“— E que foi que o médico disse?

O padre respondia:

“— Ainda não sabe o que é, madame.

Ora, uma noite, o abade respondeu:

“— Madame, seu filho está com sarampo.

Ela deu um grito de medo e fugiu.

Quando, no dia seguinte, a sua empregada entrou no quarto, sentiu logo um cheiro forte de açúcar queimado, e encontrou a patroa, de olhos escancarados, com o rosto empalidecido pela insônia, tremendo de angústia no leito. Madame Hermet perguntou, assim que a moça abriu a janela:

“— Como vai Georges?

“— Não vai bem, não, senhora.

Só se levantou ao meio-dia, comeu dois ovos com uma xícara de chá, como se estivesse doente; depois, saiu e perguntou numa farmácia quais os métodos preservativos contra o contágio do sarampo. Só voltou para casa à hora do jantar, carregada de vidros; e, fechou-se no quarto, onde se impregnou de desinfetantes. O padre esperava-a na sala de jantar. Mal apareceu, ela exclamou, numa voz cheia de emoção:

“— E então?

“— Não melhorou, não, madame. O médico está inquieto.

Pôs-se a chorar, e não pôde comer, tal a sua aflição.

No dia seguinte, de madrugada, mandou saber notícias, que não foram das melhores, e passou o dia inteiro no quarto, onde subia a fumaça de pequenos braseiros espalhando fortes odores. A criada contou que a ouviram gemer a noite toda.

Passou-se uma semana inteira sem que ela fizesse outra coisa senão sair uma hora ou duas por dia para tomar ar, de tarde. Perguntava notícias a todas as horas, e soluçava quando estas eram piores. No décimo primeiro dia, de manhã, o padre foi vê-la no quarto, com a fisionomia grave e pálida, e disse, sem aceitar a cadeira que lhe indicaram:

“— Madame, seu filho está muito mal, e deseja vê-la.

Ela atirou-se de joelhos, exclamando:

“— Ah! meu Deus! Meu Deus! Não tenho coragem! Meus Deus, socorrei-me!

O padre disse:

“— O médico tem alguma esperança, madame, e Georges espera-a!

Duas horas mais tarde, como o rapazinho se sentisse morrer, e chamasse outra vez a mãe, o abade foi ao quarto dela e encontrou-a ainda de joelhos, chorando e repetindo:

“— Não quero… Não quero… Tenho muito medo… Não quero…

Tentou convencê-la, fortalecê-la, arrastá-la. O que conseguiu foi ocasionar-lhe uma crise de nervos, que durou muito tempo e a fez dar gritos.

O médico voltou à noite, soube dessa covardia e declarou que a levaria à força. Mas, após haver experimentado todos os argumentos, ao erguê-la pela cintura para levá-la à cabeceira do filho, ela se agarrou na porta com tal força que não conseguiu arrancá-la. Depois, quando a soltaram, prosternou-se aos pés do médico, pedindo perdão, desculpando-se por ser uma miserável.

E gritava:

“— Oh, ele não vai morrer! Por favor diga-lhe que eu gosto muito dele, que o adoro…

O rapazinho agonizava. Vendo-se nos últimos momentos, suplicou que convencessem sua mãe a ir dizer-lhe adeus. Com essa espécie de pressentimento, que os moribundos às vezes têm, compreendeu, adivinhou tudo, e disse:

“— Se ela não tiver coragem de entrar, peçam-lhe ao menos que venha à varanda junto da minha janela, para que eu a veja, para que eu lhe diga adeus com um olhar, já que não posso beijá-la.

O médico e o padre voltaram ainda:

“— Não há risco para a senhora, pois que haverá uma vidraça entre ambos.

Ela consentiu, cobriu a cabeça, tomou de um vidrinho de sais, deu dois passos na varanda, mas de repente, escondendo o rosto nas mãos, gemeu:

“—Não… Não… Não tenho coragem para vê-lo… Nunca… Tenho vergonha… Tenho muito medo… Não, não quero.

Quiseram arrastá-la, mas ela agarrava-se na grade da varanda e soltava tais gritos, que os transeuntes, na rua, se voltavam para ver.

E o agonizante esperava, os olhos voltados para a janela; esperava, para morrer, pela última vez avistar a face doce e amada, o rosto sagrado de sua mãe.

Esperou muito tempo, e a noite chegou. Então voltou-se para a parede e não pronunciou mais nem uma palavra.

Quando o dia surgiu, estava morto. No dia seguinte, a mãe estava louca”.


Fonte: “Fon Fon”, edição de 14 de novembro de 1953.

Fizeram-se adaptações textuais.


 

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