O DUENDE DE SÃO ROQUE - Conto Clássico de Mistério - Silvio Horacio Taranto
O DUENDE DE SÃO ROQUE
Silvio Horacio Taranto
(Séc. XX)
Tradução de autor anônimo do séc. XX
— É para se morrer de medo! — exclamou Braulio, o peão da estância de Mister Pearson, ao terminar a sua narração.
Transcorreram, apenas, quarenta e oito horas desde que minha mulher e eu chegamos a São Roque, com o propósito de desfrutarmos juntos os quinze dias das minhas férias.
Era, pois, natural que o que esse homem nos estava contando me desgostasse sobremaneira, principalmente pela inquietação que produzira em Elena, e que ela, a custo, mal dissimulava.
Em mim, o efeito da narrativa, francamente, não fora forte.
—Vieram os senhores... — prosseguiu Braulio. — Ontem à noite, eu vinha justamente para casa, depois de ter visitado uma irmã que mora em Bialet Massé, uma vila próxima. Ainda não acabara de passar o lago com o meu cavalo, quando de novo ele me apareceu com a sua terrível gargalhada.
O rosto do peão contraiu-se num ríctus que inspirava compaixão e terror.
— Continue — solicitou-lhe minha mulher.
— Senhora — suplicou Braulio —, já falei muito e… demais — disse, depois de uma breve pausa, e em voz tão baixa que, com dificuldade, pudemos ouvi-la —, o finado pode aborrecer-se.
— Mas… você acredita que se trata de algum morto? — perguntei-lhe, sem poder reprimir o riso.
— Não se ria, senhor — replicou com firmeza. —Não creio, somente… Até sei quem é.
— Bravo!
— Não o interrompas, Luis — disse-me Elena.
— Haverá coisa de dois meses, senhora, desapareceram deste mesmo hotel algumas peças de cozinha. O hoteleiro fez a denúncia ao comissário, o qual averiguou que, uns instantes antes de se dar pela subtração, Juan Fernandez, peão do dique, tinha estado aqui, para levar alguns restos de comida a sua mulher e filhas. Sem hesitar, o comissário foi ao rancho dessa gente. Não encontrou nada, mas quando o senhor comissário tem uma ideia metida na cabeça... Por isso, quis prender Juan Fernandez, mas este resistiu. O comissário castigou-o com o rebenque e ameaçou-o de o meter na prisão por muitos anos pelo crime de furto e atentado contra a autoridade. Juan Fernandez, desesperado, aproveitando uma distração do comissário, fugiu, e, ligeiro como uma lebre, correu para as serras... Subiu, subiu até que, segundo contam, chegou ao pico mais alto. Aquele. Veem? — indicou a montanha que mais sobressaía. —Uma vez ali — prosseguiu —, quis sentar e para tomar folego, mas… que injustiça, senhor! Um movimento em falso o fez vir por aí abaixo, tal como uma pedra que se houvesse desprendido. Na manhã seguinte, Mister Pearson e eu o encontramos despedaçado, quase na beira do lago.
Como reparei que a intranquilidade de Elena ia aumentando excessivamente, pareceu-me oportuno pôr um fim à pouco alegre palestra em que estávamos empenhados, e, então rematei:
—Bom, amigo Braulio, parece-me que é tempo de ir dormir. Sossegue. Tenha um sono tranquilo.
—Obrigado, senhor — respondeu o peão, pondo-se a caminhar-se para a estrada, distando umas três quadras do hotel. Porém, como quem fala com os seus botões, comentou: — Em vida foi um bom. Mataram-no pior que a um cão... por isso, o seu espírito se atiça contra os cristãos.
Despediu-se cortesmente, embora nervoso, e, olhando à volta para se certificar se o “outro” estava por ali, afastou-se em direção à estância.
Eram aproximadamente onze horas da noite.
A lua, desafiando a imponente majestade das serras, irradiava a sua luz serena por esses cimos altaneiros.
No hotel, excluídos minha mulher e eu, só o cozinheiro se achava de pé. Era um galego simpático, trabalhador e muito disposto para toda a gente.
Ao ver que nos retirávamos, deu-nos “boas noites”, desejando que “nada” perturbasse o nosso sono. Calculei o que queria dizer com aquele augúrio, e, sorrindo, interroguei-o:
— Dar-se-á o caso que o senhor também dê credito ao “aparecido”?
— Eu lhe digo — replicou. — Uma pessoa pode duvidar daquilo que os seus próprios olhos viram e que muitos outros indivíduos, que merecem fé, afirmam ter visto também.
Afastou-se para fechar as portas e entregar-se ao repouso tão bem ganho.
Entramos no nosso quarto. Com o intuito de tranquilizar Elena, comentei:
—Esta gente é demasiadamente ignorante. Não admira o engano coletivo em que todos estão. Penso que tu não tens a menor dúvida de que se trata de um caso de sugestão coletiva.
—Talvez — respondeu-me com voz sumida e trêmula… —Mas tenho medo.
Fazendo uma experiência, abri as portas da janela do quarto de par em par e lancei a vista para o alto das serras.
Tínhamos tido a sorte de obter o melhor quarto do hotel.
Estávamos em frente ao lago, a uns cinquenta passos de distância, no máximo. Um pouco mais além, desenvolvia-se a cordilheira.
—Olha e diz se é possível sentir medo ante um tão lindo quadro da natureza.
E em tom de brincadeira, acrescentei:
— Ou é que pensas que alguém poderá animar-se a deitar as suas garras à prata que reflete as águas deste lago, ao receber a pródiga luz da lua.
Elena, porém, parecia não me escutar, e olhava para além de um modo tal, que, confesso, também comecei a inquietar-me.
Repentinamente, ouviu-se o canto de uma coruja, que passou roçando pela janela, e foi pousar num poste próximo.
—Fecha, Luis, fecha a janela — suplicou Elena, quase soluçando.
Obedeci.
Imaginando que só o sono seria capaz de desterrar o pavor, já agora excessivo, que a invadia, pedi-lhe para se deitar. Deitou-se. Reflexionei um instante. Com mil cuidados, retirei o revólver de uma das gavetas do guarda-vestidos. Certifiquei-me de que estava bem carregado e meti-o debaixo da almofada, sem que Elena desse por isso. Depois, deitei-me. Desliguei a luz e adormeci.
O meu sono durou pouco.
Acordei sobressaltado.
—Luis! Luis!
Era Elena que, presa de enorme excitação, impossível de descrever, chamava-me em voz baixa, como receosa de que pudessem escutá-la outros ouvidos que não fossem os meus.
Com um assombro fácil de compreender, notei que havia claridade no quarto. Tanta era a luz que pude ver o rosto de minha mulher completamente transfigurado. Os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas.
Jamais poderei esquecer aquela noite.
—Elena, que foi que aconteceu?
—Olha! Olha! Na janela!
Como um automato, circungirei o olhar.
Ante os meus olhos apresentou-se então um quadro do “Grand Guignol”1.
A janela, que a solicitude de minha mulher fechara cuidadosamente um pouco antes, estava agora completamente aberta. Apoiado, com os cotovelos sobre o parapeito, de fora para dentro, em atitude contemplativa, via-se... O que direi? Uma figura, uma figura repulsiva! Reluzia-lhe uma calva completa e o lado direito da cara era uma massa disforme de carne, sulcada de rugosidades, como se dela os vermes se tivessem apoderado. Apenas um olho, o esquerdo, fixamente cravado nos meus olhos. Esse olhar estranho seria o bastante para infundir terror. O nariz e a boca, em ominoso duo, formavam uma careta...
À proporção que me afundava na minha rápida contemplação, “ele” olhava-me trocista, gozando o meu perplexo desespero.
Ao ver-me impotente, imóvel no leito, soltou uma gargalhada como se provinda da catacumba.
Achava-me voltado para o lado esquerdo, tendo o braço e a mão direita cobertos pelas cobertas. Semi-inconsciente, deslizei essa mão debaixo da almofada, empunhei o revólver e, antes de que a macabra aparição desse pelo movimento, desfechei-lhe uma bala em pleno peito.
Ao mesmo tempo, experimento um grande susto. Medo de que a bala, seguindo a sua trajetória através daquilo que pensei que podia não ser matéria, e que uma nova gargalhada nos fazia estremecer a mim e a minha mulher. Mas não. O “duende” caiu como um boneco de trapos, com o busto tombado no parapeito para o lado de dentro, ficando equilibrado pelo próprio peso.
Nesse comenos, bateram à nossa porta o hoteleiro e bom numero de hospedes, alarmados por aquelas estranhas gargalhadas e pela detonação do meu revólver.
Acendi a luz.
Quando abrimos, uma exclamação de estupor escapou dos lábios de toda aquela gente, ao dar com o quadro trágico que se oferecia a seus olhos.
Por meu turno, calculei que o “duende” não era mais que uma obra de maquilagem.
Aproximei-me sem receio e, de um esticão, arranquei-lhe a cabeleira simuladora da impressionante calva, ao mesmo tempo que, resultante da violência do golpe, muitos pedaços de argila se desprenderam do rosto do “duende”, deixando-o descoberto.
Estava desmascarado.
As últimas palavras do agonizante precederam o meu grito de espanto.
— Perdoem… vinha rou… bar…
Exalou o último suspiro.
Estávamos em presença de um cadáver… o cadáver de Braulio, o peão da estância de Mister Pearson.
Fonte: “Vamos Ler!”/RJ, edição de 22 de setembro de 1938.
Nota:
1Antigo teatro parisiense especializado em espetáculos macabros e de horror.

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