O PROFETA E O CONDENADO - Narrativa Verídica Sobrenatural - Johann Peter Hebel
O PROFETA E O CONDENADO
Johann Peter Hebel
(1760 – 1826)
Como se sabe, não se podia acusar o grande rei Frederico da Prússia de ingenuidade em assuntos sobrenaturais. Ao contrário, às vezes ele divertia-se com os crédulos, embora nem sempre nisso tivesse sucesso.
Certo dia, um pregador garantiu-lhe que profetizava, e que tudo o que ele previra se realizara. O rei, então, ordenou que o novo profeta fosse trazido à sua presença.
Entrementes, o rei perguntou se havia algum soldado preso por haver cometido um crime capital. Responderam-lhe que sim. Então, ordenou que o condenado fosse colocado, na hora marcada, sob guarda, do lado de fora de sua sala real.
Quando o pregador chegou, o rei perguntou-lhe:
— Você recebeu o Espírito Santo?
— Majestade — disse o pregador —, seria bom se todos o tivessem.
— Você tem o dom da profecia?
— Algo disso, como dizem.
— Por exemplo — continuou o rei —, o que devo lhe perguntar prontamente? Tragam o rapaz que está sob custódia lá fora!
Vindo o prisioneiro, prosseguiu o rei:
— Quantos anos esse homem viverá? E de que morrerá?
O pregador respondeu que aquele homem morreria muitos anos depois, já em idade avançada.
— Você falhou no teste — retrucou o rei. — Você sabe que amanhã mandarei enforcar este rapaz? Ele é um delinquente.
O pregador disse:
—Ele seria o primeiro a salvar-se de uma profecia minha.
E, assim, na manhã seguinte, o delinquente foi levado para fora de Potsdam, rumo à execução.
As irmãs do rei — a duquesa de Brunswick e a princesa Amália — viajaram para Potsdam naquela mesma manhã para saudar o rei e lhe trazer uma alegria inesperada com sua visita.
Mas aquela manhã estava perfeita; estava bela demais para um enforcamento.
Assim, ao passarem pelo cortejo, e verem o pobre homem em sua árdua marcha para a morte, uma terna tristeza surgiu em suas almas principescas.
— O que será deste pobre homem?
— Oh, nada demais, vossa alteza. Ele será enforcado.
— O que ele fez?
— Isto e aquilo.
Era uma questão de enforcá-lo ou deixá-lo ir, conforme desejassem. A princesa, então, ordenou que a execução fosse adiada até que novas ordens chegassem. O rei, de sua feita, recebeu suas irmãs com alegria fraternal.
— Nós temos um pedido a fazer-lhe, querido irmão — disseram elas —, que você nos concederá, caso assim o queira. Dê-nos sua palavra real!
O rei estava de bom humor e acedeu.
— “Se for possível”… — disse ele. — Então a resposta deveria ter sido “não”.
Assim ele falou porque pensava que elas tinham a rogar algo para si mesmas. Mas, para sua surpresa, elas pediram o perdão do delinquente. O que fazer? A sua palavra havia sido dada.
Então, ele enviou um ajudante com um pequeno lenço branco para que o criminoso fosse libertado.
O rei faleceu em 17 de agosto de 1786.
Versão em português de Paulo Soriano.

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