O RESSUSCITADO - Conto de Terror - Paulo Soriano

O RESSUSCITADO

Paulo Soriano


Eu vi Lázaro retornar dos Vales das Sombras. Vi com os meus olhos. Sob a ordem do Rabi, remo­vemos a grande pedra, e o olor deletério, expulso do intestino da gruta, foi como um murro no estômago. Retrocedi de asco e de pavor.

O Rabi dissera: “Lázaro, vem para fora.” Com os pés e as mãos atados ao sudário, o defunto saiu, desajeitado como uma enguia em terra, arrastando-se pela superfície áspera e pedregosa de seu tú­mulo.

Os que se seguiram ao retorno de Lázaro fo­ram dias tensos. Ele caiu num mutismo desespera­dor. Supúnhamos que Lázaro não gostara nada da experiência da morte. Seus olhos transpiravam os horrores que se ocultavam na eternidade prome­tida. Era evidente que Lázaro não gostaria de a ela retornar.

Certa feita, Lázaro desaparecera. Fora encon­trado nas cercanias da herdade, babando como um lunático e rasgando, com os dentes que ainda lhe restavam, o tenro abdome de uma gorda ratazana. Com que avidez Lázaro, meu patrão, sugava e ex­traía, alucinadamente, do ventre do animal, o seu alimento! Lembro-me bem: era véspera do Sabá, e Marta e Maria haviam deixado Betânia às pressas, condoídas pela notícia da prisão do Rabi.

À terceira hora, quando o solo tremeu (a par­tir de Jerusalém, porque era morto, naquele ins­tante, o Senhor), os serviçais viram um Lázaro alu­cinado. O homem lacerava as vestes e se contorcia de dor. Sua tez estava pálida e de sua fronte escor­riam grossas bagas de um líquido fétido e viscoso. E, das mãos e dos pés sudorosos, vi que fluía uma substância deletéria, de tonalidade verde-musgo. Os suores eram de uma pestilência pungente, que enodoava os grossos lençóis e infiltrava-se até nas ranhuras do chão de ladrilho.

Então, num átimo, Lázaro gritou. Gritou por­que suas carnes, de tão podres, se rasgavam; e sua alma, de tão aterrorizada, retornava ao Sheol, de onde nunca deveria ter-se evadido.

Eu, Levi, filho de Benjamim, fui o único que se atreveu a recolher a massa pestilenta em que se convertera o cadáver do ressuscitado1.


Nota:

1Conto originalmente publicado na antologia "Histórias Nefastas".  

 

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