O VELÓRIO DO HORROR - Conto Clássico Fúnebre - Visconde de Vogüé

O VELÓRIO DO HORROR

Eugène-Marie Melchior, Visconde de Vogüé

(1848–1910)

Tradução de autor anônimo do séc. XX


No último outono, caçávamos no governo de Riazan, Rússia. Toda a manhã, perseguíramos os patos selvagens sobre um grande tanque. Era, visivelmente, um antigo lago artificial, cavado ali para embelezar algum parque senhorial. Mas o esforço da mão do homem desaparecera desde muito tempo, sob o trabalho fácil da natureza. Feita senhora desse local, ela mudara o desenho primitivo segundo sua fantasia, apagando as linhas direitas graças a um renque de juncos, salgueiros e faias. Na extremidade do brejo, uma clareira aberta entre as árvores permitia vislumbrar-se, a alguma distância, em uma dobra do terreno, um vasto trecho de habitação, em parte mascarado pelos restos de um muro ameiado. Essa aparição feudal intrigou-me vivamente; nada vira ainda de semelhante nos campos russos. As construções de pedra são aí quase desconhecidas, e as casas senhoriais contentam-se com uma simples paliçada, como divisa, e quando muito, com um muro de tijolo da altura de um homem. As altas muralhas, armadas de barbacãs e ameias, não são encontradas senão em torno de velhos monastérios, servindo outrora de fortalezas avançadas contra as invasões tártaras. Quando o almoço reuniu os caçadores, perguntei a meu vizinho, um proprietário do distrito, se por acaso seria, a habitação, um antigo convento.

Não, absolutamente — disse-me ele. — Estamos na propriedade dos B... (a presente história, sendo rigorosamente exata em seus mínimos pormenores, não julgamos conveniente imprimir um nome de família bastante conhecido na Rússia). — O amigo ignora, então, a historia deste castelo e de quem o construiu, o famigerado Yassili Ivanovitch B...? Eis aí uma das lembranças mais sombrias do tempo da servidão!

Conhecia eu vagamente as legendas presas ao nome desse Vassili B..., que foi um dos mais ricos e cruéis fidalgos da Rússia, no reinado do imperador Alexandre I. Desconfiava dessas legendas, sabendo perfeitamente de que modo os dramaturgos vêm enegrecendo, a seu bel-prazer, o tempo da servidão. O poder arbitrário era quase sempre temperado pelos hábitos patriarcais e a nobreza russa. Expus essas duvidas ao meu companheiro.

O amigo tem razão — replicou. — Éramos, na verdade, menos feios do que nos têm pintado. O princípio era detestável, mas a aplicação dele foi mais suave do que a do código feudal em muitos pontos da Europa. Nosso grande erro, sendo os civilizados de ontem, foi o de mostrar semelhantes costumes ao Ocidente na hora em que este estava desabituado da violência, e se tornara austero e pronto a se escandalizar. Sua consciência acusava-o de velhos pecados; ela se aliviou nas nossas costas… Mas, seja dito, para descargo de consciência, é preciso confessar que houve dolorosas exceções e Vassili B… foi a mais clamorosa de todas. Nos primeiros anos do século, tratou este distrito como país conquistado. Eu teria muito que contar a respeito desse terrível fidalgo, se repetisse ao amigo todas as histórias que horrorizaram a minha infância; ouvi-as de meu pai, seu contemporâneo e vizinho.

Vassili B... vivia encerrado num reduto de pedra, rodeado de uma guarda de lanceiros, salteadores sem fé nem lei, que executavam as altas proezas ordenadas pelo amo. Um fato vai dar-lhe uma ideia de suas justiças sumárias. Os camponeses de uma aldeola que confinava com seus domínios tinham se revoltado contra o proprietário. Este último queixou-se diante de B… de não poder abafar a revolta.

Venda-me a aldeia, que eu me encarrego de chamá-los à razão — disse Yassili Ivanovitch a seu amigo

A transação foi efetuada no mesmo instante. No dia seguinte, B… fez-se conduzir com sua guarda para o meio dos sediciosos. Os lanceiros puseram cerco à aldeia, com a ordem de não deixar passar nem homem, nem mulher, nem cabeça de gado.

Que não passe nem uma galinha! — ordenara Vassili.

Trouxeram palha e archotes para os quatro cantos da aldeia e botaram fogo. Tudo ardeu, até a cabana mais afastada, e nem uma galinha saiu. B… cumprira sua palavra, e a revolta fora esmagada para sempre.

Esse homem gostava de flores. Em casa dos pobres-diabos que hoje somos, nada pode dar ao amigo uma ideia do luxo real, dos grandes fidalgos de outrora, desses, pelo menos que, como Vassili B…, não sabiam a conta de sua fortuna. Todo o sítio no qual caçamos era então um parque cuidadosamente tratado. O amigo avista, lá ao longe, os grandes álamos-brancos, que entram pelo charco. É o resto de uma península artificial, hoje em dia desfigurada pela lama e os juncos. O povo tinha dado a esse canto do parque um apelido significativo: “O Jardim Terrivel”. Era o lugar de justiça do perverso fidalgo: um pelourinho, um patíbulo, uma roda aí eram exibidos permanentemente. Aqueles que para lá eram levados não voltavam nunca mais, e os servos, pela menor falta, eram para lá conduzidos.

Por diversas vezes, as autoridades administrativas tentaram intervir nessa tirania, mas sempre em vão.

Vassili B… tinha o braço forte, a bolsa bem provida, e advogados poderosos em Petersburgo. Um conjunto de jurisdições servia-o na perfeição, permitindo sempre que ganhasse tempo.

A casa que o amigo vê daqui é construída no limote dos governos de Biazan e de Vladimir. A linha de demarcação que separa, as duas províncias passa exatamente pelo eixo do grande salão, onde é figurada por uma ranhura no assoalho.

Quando o governador de Biazan vinha fazer um inquérito, B… recebia-o com polidez, passava para o outro lado da ranhura, e declinava da competência desse funcionário, que não tinha mais o direito de o apreender. Se o governador de Vladimir lembrava-se de importuná-lo a seu turno, Vassili Ivanovitch logo retrocedia no salão de Biazan e despachava o delegado do Czar, mandando-o cuidar dos negócios de sua competência.

Uma vez, depois do escândalo da aldeia queimada, os dois governadores resolveram pôr um termo a tudo, marcando um encontro no castelo. Na última estação dos correios, o governador de Biazan encontrou um rápido, portador de uma carteira recheada; voltou ao ponto de partida, bruscamente, pretextando negócios urgentes que o chamavam. Mais tarde, as más linguas afirmaram que a carteira encerrava cem mil rublos.

De todas as narrativas que fazia meu pai acerca de Vassili B…, uma cena ficou particularmente gravada em minha imaginação infantil. Parece-me até que assisti a ela, tanto a ouvi contar pelo homem verídico que foi sua testemunha ocular. Vassili Ivanovitch já estava velho, quando uma enfermidade surpreendeu-o, dando cabo dele em alguns dias. Uma manhã, o sino da igreja senhorial revelou aos servos que o patrão estava morto. O amigo pode crer que esse sino soou para eles como o mais alegre Te Deum. De todas as aldeias vizinhas, os camponeses precipitaram-se no encalço do padre, para verificar com seus próprios olhos a feliz notícia. Invadiram o castelo. O apavorante fidalgo estava deitado na grande sala, mais horrível do que nunca, com o poder da morte impresso no rosto. Jazia sobre a mesa, sozinho entre os círios. Os parentes, chamados de Petersburgo, não tinham chegado ainda. Os lanceiros estavam escondidos em qualquer parte, temendo as represálias populares. O padre fechou-lhe os olhos, disse o ofício fúnebre e partiu, deixando, segundo o uso, seu sacristão, a fim de salmodiar, até o dia seguinte, preces sobre o corpo.

Mas os camponeses não se retiraram com o pastor. Não se cansavam de contemplar o inimigo morto. Ficando senhores do castelo, escutaram, a princípio, em silêncio, as litanias do sacristão, que murmurava, em um ângulo da sala, as palavras de vingança divina. Bem depressa tornaram-se atrevidos pela alegria que sentiam e as palestras ruidosas cobriram a voz do salmista. Um joão-ninguém, ainda moço, ofereceu-se para ir buscar aguardente. Trouxeram frascos e começaram a beber, embriagando-se.

Meu pai e outros vizinhos tentaram, sem resultado, impedir essa orgia sacrílega. Os camponeses não tinham mão em si: dançavam à roda, em volta do cadáver, dando-se as mãos, cantando, urrando, enchendo o defunto de injúrias e desafios. Os mais furiosos puxavam-lhe os bigodes e arrancavam-lhe punhados de cabelo. O rapazola que fora buscar a vodca despejou o copo de água benta, encheu-o de bebida e introduziu-o à força entre os dentes do morto, gritando:

Bebe à saúde de teus pobres escravos, grande malvado!

De repente, o copo caiu de suas mãos e quebrou-se no chão. O homem saltou para trás, pálido de terror.

Os olhos que o padre vinha de fechar estavam de novo abertos. Percorriam a sala e fixavam na assistência um olhar diabólico, cheio de coisas vistas no inferno. Em um segundo, o silêncio e a imobilidade reinaram na multidão. Cada qual ficou petrificado no sítio em que o olhar o surpreendera. A maioria caiu de joelhos. Não se ouviu mais nada, a não ser o murmúrio nasal do sacristão, que continuava com o seu oficio debruçado sobre o livro de salmos, lendo:

Levantar-me-hei, agarrarei os que me insultam, e reduzi-los-ei a pó…

Mal acabou o versículo, o fidalgo levantou-se lentamente sobre a mesa. Depois dos olhos, abriram-se os lábios. Pareceu aos camponeses aniquilados que a voz também vinha do inferno, essa voz que subia aos lábios do senhor. Era, entretanto, a voz habitual do amo.

A voz ordenou:

Eustáquio, você que me ultrajou, venha cá. E você, Paschoal, que me bateu na cabeça. E você, Miguel, que puxou meus bigodes…

Nomeou, um por um, os que tinham posto a mão nele, recordando-se exatamente da falta:

Amanhã, serão todos enforcados. Os outros sofrerão a pena do açoite. Olá, minha gente, tragam cordas e amarrem estes aqui!

O velho mordomo foi em busca dos lanceiros. Até que chegassem, ninguém teve a ideia de se mexer, resistir ou fugir. Quando os homens entraram, o amo estava de pé, dominando a multidão ajoelhada. Indicou os que deviam ser amarrados. Em seguida, tirando um rublo da algibeira do criado de quarto, jogou-o ao sacristão, com esta advertência:

Quanto a você, imbecil, vá embora depressa. Se você voltar aqui, a fim de exercer seu mister antes que eu lhe dê essa ordem em pessoa, será surrado como os outros!

No dia seguinte, os culpados balançavam-se dependurados das forcas no “Jardim Terrível”.

B… contou depois a meu pai que, durante aquele acesso de catalepsia, não tivera um só instante de desfalecimento mental: reconhecera todas as vozes, notara todos os incidentes, até o momento em que a paralisia cedera, seja ao influxo de um violento movimento de cólera, seja pela ação da bebida ardente que lhe fora derramada na garganta. Mas quando o médico do distrito quis explicar a alguns camponeses de que forma seu amo voltara a si da letargia, perdeu seu tempo, como deve pensar. Para toda a gente de Riazan, Vassili Ivanovitch tinha saído de novo do inferno, a fim de fazer enforcar alguns servos, ainda.

Desde esse dia, os pobres coitados perderam toda e qualquer esperança de libertação. Fora-lhes provado que seu amo zombava do poder de Deus, como zombara do poder do Czar. Muitos se persuadiram que o patrão era, nem mais nem menos, que o próprio Satanás imortal.

B… viveu e fez crueldades por longos anos ainda: não se ousou sequer murmurar nas aldeias. Quando, emfim, morreu de fato, ninguém quis acreditar nisso, e os herdeiros assombraram-se por muito tempo da docilidade exemplar de seus servos. Essas almas simples esperavam sempre a volta de Vassili, o réprobo. Hoje em dia, ainda, os velhos camponeses se persignam quando passam por este brejo.

Os moços, os espíritos fortes, admitem perfeitamente que Vassili Ivanovitch acabou morrendo mesmo. Mas acrescentam que seu corpo não apodreceu no túmulo senão depois do 19 de fevereiro, data da emancipação. No fundo, têm razão, a seu modo: foi somente depois desse dia que a raça dos Vassili B… extinguiu-se para sempre na Rússia.

E agora, o sol descamba; vamos perseguir esse bando de albatrozes que vem de pousar aos fundos do “Jardim Terrível”…


Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 10 de abril de 1929.

Ilustração: PS/Stablediffusion.


 

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