RETIRADA VIVA DE UM SEPULCRO - Narrativa Verídica de Horror - Autor anônimo do séc XIX

RETIRADA VIVA DE UM SEPULCRO

Autor e tradutor anônimos do séc. XIX


Os viajantes que percorreram a Itália pelo lado oriental admiraram a pitoresca beleza da paisagem, especialmente no intervalo que separa Ancone de Rimino. Nos flancos e no cume de uma dessas ricas e verdejantes colunas, que pareceu ter-se destacado dos Apeninos para virem banhar suas faldas no Adriático, no próprio lugar em que se descobre a cidade em que Dante nos fez assistir ao fim trágico da célebre Francesca, não se contavam menos de sete conventos de frades antes da primeira revolução francesa. Os reverendos, como se sabe, eram hábeis na escolha dos locais e dos pontos de vista; hoje, diz-se ainda, em forma de elogio, para a posição de uma quinta: “Está situada como um convento.”

Suprimidos no tempo do reino da Itália, repovoaram-se esses conventos com a restauração. Hoje, estão em estado assaz florente, e os religiosos das casas centrais aí vêm sucessivamente passar felizes momentos. Entretanto, como os bens dos estabelecimentos monásticos tinham sido vendidos na época da sua supressão, e como tinha o congresso imposto ao papa a obrigação de respeitar essas vendas, os antigos conventos não foram todos restituídos ao seu primeiro destino. A resignação dos compradores aos reiterados convites da Santa Sé não foi geral. Algumas mesmas das residências monacais ficaram no domínio particular, e a feliz escolha de seus locais as transformaram em deliciosas quintas.

A quinta da condessa B… é desse número, a mesma que durante seis meses foi por Lorde Byron habitada com a bela Guiccioli. Havia algum tempo que a Sra. B… fazia algumas obras nessa quinta. A solidez e a grossura das paredes, o feitio em abóbada das salas e dos corredores tinham gradualmente dado lugar a construções mais modernas. Foi, enfim, decidido que se fariam desaparecer os últimos vestígios da arquitetura fradesca.

Trabalhava-se em demolir uma maciça parede que parecia não ter tido outra utilidade senão repartir em duas a antiga cava. De súbito, ouviu-se som oco e sonoro: sem dúvida, eram os esconderijos famosos daquelas vizinhanças em que haviam sido escondidos os tesouros na época das conquistas francesas. O mordomo da condessa foi avisado; apressou ele os trabalhadores, seus olhos penetraram primeiro do que as pontas dos seus instrumentos; já ele vê ouro, prata, vasos preciosos rolando aos seus pés. O grito ninguém lhes toque está a sair-lhe da boca. Abala-se uma pedra enorme e descobre como uma cela de dois pés de largo, cinco de altura e em forma de funil, cujo orifício se perdia na abóbada e ia corresponder ao chão do antigo refeitório. Estava ela vazia: outra cela, igual a esta, nada ofereceu à ávida curiosidade dos trabalhadores; mas duas outras, as últimas, pagaram de sobejo sua longa impaciência, se não satisfizeram a sua cobiça: dois esqueletos apareceram aos olhos assustados dos assistentes.

As túnicas que os envolviam estavam inteiras. As duas cabeças, que sucessivamente rolaram nas ruínas, estavam ainda cercadas de cabelos, em forma de coroa clerical: eram, evidentemente, os corpos de dois frades que tinham sido sepultados vivos nesses horríveis sepulcros.

Espalhou-se com rapidez a notícia desse descobrimento, e os curiosos da vizinhança o vieram presenciar.

A lembrança de um crime horrível, cometido, havia longos anos, por dois frades, e ficado até então sem autêntico castigo, ofereceu-se em breve a todos os espíritos.

Quando os frades possuíam ainda essa quinta, uma moça dos arrabaldes desapareceu sem que fosse possível achar os seus vestígios. Uma noite, o sacristão, fechando, como costumava, depois do ofício, as portas da capela, não viu o camponês que havia adormecido em um dos confessionários. E este, acordando tão tarde que não podia, sem risco, chamar o guardião, tinha-se resignado a esperar tranquilo que o dia o viesse libertar.

Fez, pois, os seus arranjos para passar o mais comodamente o resto da noite. Já tinha outra vez pegado no sono, quando o despertou o barulho que fez abrindo-se a porta da sacristia. Olhou assustado para o lado donde viera o ruído, e viu dois frades, um trazendo uma lanterna e uma alavanca, e o outro arrastando uma mulher que mal lhe opunha fraca resistência. O mísero camponês sentiu gelar-se-lhe o sangue. Sufocou a sua respiração, pois percebeu que seria o sinal da sua morte o menor movimento que revelasse a sua presença.

Chegando no meio da nave, os frades pararam. O que trazia a lanterna e a alavanca largou-as no chão, o outro deixou cair a mísera sobre as lajes. Em pouco tempo, levantaram uma dessas lajes que cobrem as sepulturas nas igrejas da Itália. A desgraçada, a quem iam sepultar viva, fez então ouvir alguns gritos não de todo sufocados pela mordaça. Bem que suas mãos estivessem amarradas, e que se achasse em estado de gravidez muito adiantada, tinha conseguido levantar-se, e implorava aos seus algozes.

Estes conversaram algum tempo e pareceram hesitar sobre o que lhes convinha fazer. Pelo gesto que fez um deles, julgou o camponês que iam ceder a um último sentimento de humanidade, tirando ao menos a vida à sua vítima antes de a sepultar, e esteve a ponto de não poder refrear a sua indignação. Felizmente, o pavor tinha paralisado todos os seus membros: sua intervenção só teria tido em resultado a sua perda e a da mísera a quem queria salvar.

A coragem do assassinato imediato faltou sem dúvida aos malvados, pois, com ríspido movimento, repeliram a vítima suplicante; a qual foi cair no abismo. A laje foi cuidadosamente colocada no seu lugar, e os dois infames desapareceram com passos vagarosos na direção que tinham seguido ao virem executar o seu crime.

Nada diremos do que se passou na alma da muda testemunha dessa assustadora cena, até que a hora do ofício da manhã trouxe o irmão servente para abrir as portas da capela. Saindo então espavorido, sem dar uma palavra a quem, na sua passagem, foi encontrando, foi rápido à residência do grande inquisidor. Sua denúncia estava palpitante de pavor e de verdade: o chefe do santo ofício pareceu não duvidar da realidade do crime. Antes, porém, de ceder aos urgentes convites do camponês, lembrou-lhe dos perigos de uma calúnia sacrílega, e disse-lhe que responderia com a vida se não justificasse a sua acusação:

Foi talvez algum pesadelo — acrescentou —, e a sua imaginação foi só quem levantou a laje e precipitou essa mulher na sepultura.

Fareis de mim o que quiserdes — disse o camponês. — Mas, em nome da Virgem, não percais um minuto para salvar a mísera… Ela está ali… com os mortos!

O inquisidor cedeu. Acompanhado por alguns agentes, pôs-se a caminho com o camponês, tendo-o primeiro amarrado, para que não pudesse fugir, pois respondia com a vida da verdade de sua denúncia.

Chegaram à fatal capela. Levantou-se a pedra indicada. Dois homens desceram à cavidade. E, em breve, uma mulher, tendo as mãos atadas, foi tirada da sepultura. Tinham chegado a tempo, pois ainda respirava.

Um grito geral de surpresa e de horror rompeu dentre a multidão que cercava os agentes do Santo Ofício. Foi reconhecida a moca que havia oito meses desaparecera.

Alguns dias depois, a mísera pôde narrar as horríveis particularidades de seu rapto e do seu suplício. Trazida pela violência de dois frades ao convento, fechada na cela de um deles, tinha a princípio sido objeto de seus desvelos e de seus afagos. Depois, trataram-na com indiferença; depois, com aborrecimento! Enfim, uma vez, depois de tratos mais cruéis do que costumavam, tinham-lhe declarado que tratasse de sua alma. Suas lágrimas, suas súplicas, seus juramentos de inviolável segredo, tudo foi inútil.

Com a revelação desses crimes, o convento, como fácil é imaginar, ficou em consternação. A voz pública designava os dois criminosos, já mal reputados na terra. O camponês, chamado a passar em revista a comunidade, reconheceu-os, apontou-os com o dedo: o terror lhe embargava a voz.

Ainda havia que sujeitar os acusados a uma última confrontação com sua vítima, e a mísera não se pôde subtrair a essa horrível entrevista. Os dois frades, que já tinham confessado o seu crime, foram levados perto da cama da enferma. Cobriu ela o rosto com as mãos, e pediu que lhes perdoassem. Tudo ficou aí: os dois culpados desapareceram.

O que havia sido deles? Afirmou-se então que haviam sido transferidos para um convento remoto. Alguns, porém, que conheciam a implacável severidade do grande inquisidor contra os frades que comprometiam a honra do hábito, suspeitaram que os dois infames tinham sofrido a pena de talião; hoje, a descoberta dos dois cadáveres veio confirmar esta opinião.

Os ossos foram transferidos, sem cerimonial algum, para as catacumbas do convento mais próximo.

No dia seguinte, uma pobre velha levou ao padre guardião a esmola de uma missa pela alma dos dois desconhecidos. Era a vítima que vinha ainda uma vez rezar pelos seus algozes.

(Le Siècle, 16 de dezembro [de 1843])


Fonte: “Publicador Maranhense”/MA, edição de 1º de maio de 1844.

Fizeram-se breves adaptações textuais.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE - Conto de Terror - Edgar Allan Poe

O BARBA AZUL - Conto Clássico de Terror - Charles Perrault

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O RETRATO OVAL - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe