O HABITANTE DE CARCOSA - Conto Clássico de Terror - Ambrose Bierce

O HABITANTE DE CARCOSA

Ambrose Bierce

(1842 – 1914?)

Tradução de Paulo Soriano



Pois há diversas espécies de morte. Em algumas, o corpo é preservado; noutras, desaparece por completo, juntamente com o espírito. Isto acontece, geralmente, em solidão (conforme a vontade de Deus), e, não sendo visto este final por ninguém, dizemos que o homem se perdeu para sempre ou que partiu numa grande viagem, o que é de fato verdade. Mas, às vezes, este fato acontece na presença de muitos, cujo testemunho é a prova. Em uma espécie de morte, o espírito também morre, e se sabe de casos em que tal ocorreu quando o corpo continuou vivo por muitos anos. E, às vezes, como verdadeiramente testificado, o espírito morre ao mesmo tempo em que o corpo, mas, depois de algum tempo, ergue-se novamente no mesmo lugar em que o corpo se decompôs.”


Meditando sobre estas palavras de Hali (que Deus o tenha), e perguntando-me qual seria o seu verdadeiro significado, como quem domina certos indícios, mas receia que talvez haja algo mais além do que pôde discernir, não notei o lugar para onde havia vagado até sentir na face um vento gelado, que em mim reavivou a consciência do ambiente em que eu me encontrava. Observei, com espanto, que tudo ali me parecia estranho. Ao meu redor, estendia-se uma desolada e erma planície, coberta de ervas altas e murchas que estalavam e sibilavam ao vento outonal, portadoras de Deus sabe que mistérios e inquietudes. Sobre a erva, a amplos intervalos, afloravam rochas de estranhas conformações e de cores sombrias, que pareciam manter entre si um mútuo entendimento, e trocar olhares de macabro significado, como se estivessem erguendo a cabeça para observar a realização de um vaticínio. Aqui e adiante, algumas árvores, derrubadas pelos ventos, pareciam ser as líderes desta malévola conspiração de silenciosa expectativa.

O dia — pensei — malgrado o Sol estivesse invisível, deveria estar deveras avançado, e, embora percebesse que o ar estava frio e úmido, a minha percepção de tal fato era mais mental do que física: eu não experimentava qualquer sensação de desconforto. Acima da lúgubre paisagem, flutuava uma cúpula de nuvens baixas e plúmbeas, suspensas como uma maldição visível. Havia em tudo uma ameaça e um presságio, um quê de malignidade, um indício de fatalidade. Não havia um pássaro, um animal, um inseto. O vento suspirava nos galhos desnudos das árvores mortas, e a erva cinzenta curvava-se para sussurrar à terra seus horrendos segredos. Mas nenhum outro ruído, nenhum outro movimento abalava a calma terrível daquele sombrio lugar.

Observei que havia, no ervaçal, um certo número de pedras desgastadas pela intempérie, e evidentemente lavradas a cinzel. Estavam partidas, cobertas de musgos e meio afundadas no chão. Algumas estavam caídas, outras se inclinavam em vários ângulos, mas nenhuma estava de pé. Eram, sem dúvida alguma, lápides sepulcrais, embora não mais houvesse propriamente túmulos, seja como montículos, seja como depressões no solo. Os anos haviam nivelado tudo. Espalhados aqui e acolá, blocos maciços de pedra marcavam o lugar onde algum sepulcro suntuoso ou ambicioso monumento lançava uma vez o seu débil desafio ao esquecimento. Tão revelhas pareciam aquelas relíquias, esses vestígios da vaidade humana, esses monumentos de afeto e piedade ― tão maltratados, tão desgastados, tão maculados ―, e o lugar estava tão negligenciado, abandonado e esquecido, que não pude deixar de imaginar-me o descobridor do cemitério de uma raça pré-histórica de homens cujo próprio nome estava extinto há muito tempo.

Mergulhado em tais reflexões, permaneci um bocado desatento à sequência de minhas próprias experiências, mas, depois de algum tempo, pensei: “Como vim parar aqui?” Um momento de reflexão pareceu-me tudo esclarecer e explicar ― malgrado de maneira inquietante ― o caráter singular com que a minha imaginação havia revestido tudo o quanto eu via e ouvia. Eu estava doente. Agora eu me recordava que estivera prostrado por uma febre súbita, e que a minha família me contara como, em minhas crises delirantes, eu gritara, várias vezes, por ar e liberdade, e como me haviam mantido à força na cama para impedir que eu fugisse. Agora eu havia escapado à vigilância dos que me assistiam e viera para… para onde? Eu não podia sequer conjecturar. Era evidente que eu me encontrava a uma considerável distância da cidade onde vivia, a antiga e famosa cidade de Carcosa.

Não havia, em parte alguma, sinais visíveis ou audíveis de vida humana. Não se via fumaça a subir, nem se ouvia o latido de um cão de guarda, o mugido de um gado ou gritinhos de crianças a brincar. Nada além que este lúgubre cemitério, com sua atmosfera de mistério e de terror, resultante de meu cérebro transtornado. Será que eu estaria delirando novamente, ali, fora do alcance de qualquer ajuda humana? Tudo isto não seria a ilusão provocada por minha loucura? Clamava por minhas mulheres e filhos, estendendo as mãos à sua procura, enquanto caminhava por entre as pedras desmoronadas e sobre a erva murcha.

Um ruído atrás de mim fez com que eu me voltasse. Um animal selvagem ― um lince ― se aproximava. Veio-me um pensamento: “Se eu caio aqui, no deserto, se a febre voltar e eu desmaiar, esta fera cairá sobre a minha garganta”. Saltei em direção a ele, gritando. Ele passou, trotando tranquilamente, a um palmo de mim, e despareceu por trás de uma rocha.

Um momento depois, a cabeça de um homem pareceu assomar do solo, um pouco adiante. Ele estava subindo a encosta mais distante de uma baixa colina, cujo topo mal se distinguia da planície circundante. Toda a sua silhueta, recortada sobre o fundo de nuvens cinzentas, logo veio à tona. Estava meio nu, meio vestido com peles de animais. Seus cabelos estavam desalinhados e tinha ele uma barba comprida e emaranhada. Em uma das mãos carregava arco e flecha; a outra segurava uma tocha acesa, que produzia um longo rastro de fumaça negra. Caminhava lenta e cuidadosamente, como se temesse cair em um sepulcro aberto, oculto pela erva alta. Essa estranha aparição me surpreendeu, mas não me alarmou. Tomei um rumo hábil a interceptá-lo, até que ficamos frente a frente. Eu o abordei com a familiar saudação:

Deus o proteja.

Ele não me deu a mínima atenção, nem diminuiu o seu ritmo.

Bom estrangeiro ― continuei ―, eu estou doente e perdido. Mostre-me, eu lhe peço, o caminho de Carcosa.

O homem pôs-se a entoar um canto bárbaro, numa língua desconhecida, e seguiu o seu caminho, até desaparecer.

Sobre um galho de uma árvore seca, uma coruja soltou um pio sinistro e outra a respondeu à distância. Ao erguer os olhos, vi, através de uma súbita abertura formada entre as nuvens, Aldebarã e as Híades! Tudo levava a crer que era noite: o lince, o homem com a tocha, a coruja. Todavia, eu enxergava… via até as estrelas, mesmo na ausência de escuridão. Eu via, mas, aparentemente, eu não era visto ou escutado. Sob que terrível feitiço eu passara a existir?

Eu me sentei à raiz de uma grande árvore para refletir seriamente sobre o melhor a fazer. Já não tinha dúvidas de que estava louco, mas ainda assim reconhecia alguma incerteza nesta convicção. Não tinha vestígio algum de febre. Além disso, tinha uma sensação de euforia e de vigor que me era completamente desconhecida: uma espécie de excitamento físico e mental. Todos os meus sentidos estavam alerta: podia sentir o ar como uma substância tangível. Eu podia ouvir o silêncio.

A enorme raiz de uma gigantesca árvore ― em cujo tronco eu me apoiava ― envolvia, num abraço opressivo, uma laje de pedra que emergia parcialmente de um recesso formado por outra raiz. Assim, a pedra se encontrava protegida das intempéries, embora estivesse bastante decomposta. Suas bordas estavam recurvas pelo desgaste; seus ângulos, carcomidos; sua superfície completamente fendida e escamada. Viam-se na terra, ao seu redor, cintilantes partículas de mica, vestígios de sua desintegração. Aparentemente, essa pedra assinalava uma sepultura da qual a árvore havia brotado há várias eras. As raízes dominadoras haviam saqueado o sepulcro e feito prisioneira a sua lápide.

Uma repentina lufada de vento varreu as folhas secas e os galhos da superfície da lápide. Distingui, então, as letras em baixo-relevo de uma inscrição e inclinei-me para lê-las. Deus do céu! Era o meu nome completo! A data de meu nascimento!... E a data de minha morte!

Um feixe uniforme de luz iluminou todo o lado da árvore no momento em que, num salto, eu me ergui, cheio de terror. O Sol despontava no oriente róseo. Eu permanecia entre seu imenso disco vermelho e a árvore, mas não projetava sombra alguma sobre o tronco!

Um coro de lobos uivantes saudou o amanhecer. Eu os vi sentados nas patas traseiras, solitários ou em grupos, nos topos dos montículos e dos túmulos irregulares que preenchiam em parte a deserta perspectiva, que se estendia até o horizonte. E então me dei conta de que estas eram as ruínas da antiga e famosa cidade de Carcosa.


***


Estes são os fatos transmitidos pelo espírito de Hoseib Alar Robardin ao médium Bayroles.

 

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