O PARRICIDA - Conto Clássico Fúnebre - J. H. Rosny
O PARRICIDA
J. H. Rosny
[Joseph-Henri-Honoré Boex (1856 – 1940) e Séraphin-Justin-François Boex (1859 – 1948)]
Tradução de autor anônimo do início séc. XX
Estávamos todos em silêncio. A noite estava maviosa. Divisava-se uma ligeira névoa sobre o rio. As faias encarnadas, as acácias os sicômoros do parque cochichavam baixinho. Erguia-se do roseiral um aroma tão suave que apetecia viver uma eternidade. As estrelas subitamente se tornaram pálidas, um clarão cor de cobre se foi elevando cada vez mais, pouco depois surgiu a lua enorme e cor de coral na chanfradura das colinas.
Então Carlos teve um prolongado calafrio e encobriu com as mãos o rosto. Eu o ouvi suspirar.
—Que é isso? —disse eu, estupefato.
—Tudo isto me faz lembrar uma noite horrível da minha infância — balbuciou elo sem levantar a cabeça — e sinto o coração confrangido…
Ele quase nunca falava da sua infância e, quando o fazia, era sempre com pronunciada melancolia. Eu disse, mecanicamente:
—A tua infância, ao que parece, não foi muito feliz.
—Foi cheia de encantos até aos dez anos. Posteriormente, foi-me assaz penosa… Não posso pensar nela sem grande amargura.
Volveu os olhos úmidos para o astro rutilante. Continuou:
— É isto uma confidência que nunca fiz a pessoa alguma... E bem que o meu segredo me tenha bastas vezes sufocado.... Nem sei mesmo por que razão vou abrir-me contigo esta noite: nós somos assim um mistério para nós próprios!... Talvez melhor me fosse levar comigo para o túmulo tal recordação. Enfim!...
Encostou-se aos cotovelos e, sem desviar da relva o rosto, narrou a sua história:
—Como ia dizendo, tinha eu então apenas dez anos de idade. Era um homenzinho semelhante a muitos outros, não era mau, antes era afetuoso e meigo, bastante obediente, mas com crises de curiosidades que me faziam cometer tolices.
“O interior do nosso lar era delicioso. Vivíamos no campo, numa propriedade mui extensa, na qual meu pai auferia os seus rendimentos. Era ele um homem de bem, hábil, e, sem avareza, retribuía convenientemente o seu pessoal, e contentava-se com uma existência simples, se bem que confortável. A nossa casa tinha o nome de castelo, mas não passava de um grande edifício que se assemelhava a uma habitação de fazendeiro. Era espaçosa. Minha mãe tirava dela o melhor partido para o nosso bem-estar e o nosso recreio. Duas boas empregadas faziam perfeitamente o nosso serviço, julgavam-se tão felizes como nós mesmos e estavam bem longe de pensarem em sair da nossa casa, a não ser para o cemitério. Em suma, éramos ao todo cinco: pai, mãe, um menino e dois rapazes. Era uma verdadeira família neste sentido — que todos tínhamos o sentimento da nossa estirpe. Meu pai era um homem sério, cuidadoso, de gênio inalterável, todo ufano com sua mulher e seus filhos. Mamãe, essa tinha um gênio um pouco fraco, muito sensível, impressionável até, boa dona de casa e possuía a arte de tornar o seu lar encantador. Ter-se ia dado mal com empregadas preguiçosas ou sorrateiras; assim como lhe teria sido impossível torcer um mau gênio de qualquer de seus filhos. A sorte, porém, nesse ponto, a favorecera, dando-lhe a cozinheira Teresa e a eivada grave Eulália, que faziam timbre em cumprir bem os seus deveres, e filhos que, embora às vezes barulhentos, estouvados, curiosos, eram, não obstante, obedientes, estudavam as suas lições e escreviam os seus temas.
“Portanto, vivíamos felizes quando o meu pai caiu enfermo. De que doença, é coisa que nunca cheguei a saber ao certo. Teve que ficar de cama. O médico do bairro receitou-lhe poções e pílulas. Minha mãe e Eulália desfaziam-se em cuidadosa roda dele. Davam-nos licença de ir ver papai, de manhã, de tarde e à noite. Ele apreciava muito nossas visitas, incomodávamos muito, porque elas eram bastante curtas.
“Uma tarde, estando mamãe fora de casa, eu vi Eulália descer pela aleia de tílias. Não sei por que curiosidade me deu na cabeça ir ver o doente. Isso não era absolutamente defeso: só havia uma convenção tácita, algumas recomendações gerais. Eu não pude resistir. Subi devagarinho ao andar superior, levantei sem fazer barulho o trinco e achei-me no grande quarto azul.
*
“Meu pai havia pegado no sono. Deitado para o lado direito, tinha a cara voltada para a parede. Fui-me aproximando pé ante pé, escutei a sua respiração regular e forte, depois olhei atentamente em volta de mim, aterrado com o silêncio e com a imobilidade das coisas. Ao fim, os meus olhos foram atraídos pela mesa de cabeceira. Achava-se ali uma garrafinha branca, um copo por metade cheio de um liquido claro, dois frascos que vinham da farmácia e um açucareiro pequeno. Por que razão me deu na veneta provar a bebida contida no copo, é segredo dos impulsos misteriosos do ente humano, a respeito dos quais a ciência nada nos informa. Essa vontade, fraca a princípio, foi em breve aumentando, tornou-se irresistível. Escutei de novo a respiração do doente: achando-a sempre igualmente regular, estendi a mão, peguei no copo e bebi. Era água açucarada, com um gostinho a xarope e com um aroma que me deu no goto. Sorvi um gole, depois outro, depois outro maior e, verificando que o meu ato viria a ser descoberto, fui dominado de uma espécie de vertigem e escorropichei o copo. Momentos depois, fiquei atônito, melancólico, um pouco assustado. Queria fugir; não me, atrevia. E veio-me à ideia reparar a minha falta.
“Com mão trêmula, deitei água no copo, em seguida um pouco de açúcar, lancei dentro, fosse o que fosse, uma parte das poções, mexi brandamente com acolher. Apenas derretido o açúcar, traguei uma lágrima da mistura para ver si ela tinha ‘mesmo gosto’. Mas qual! Não lhe achei o sabor de xarope, nem o mesmo aroma.
“— É preciso deitar também da outra garrafinha! — disse eu comigo mesmo.
“E ajuntei uma colherada do segundo frasco. Desta vez, o gosto lá estava. Então, reanimado, retirei-me na ponta dos pés e desci para a relva.
*
“Decorreu meia hora. Eulália tinha voltado. Subiu ao quarto de meu pai. De repente eu ouvi um doloroso grito. Tive, então, não sei que pressentimento, que primeiro me fez fugir, depois tornar a entrar para casa... Gemidos, palavras mal-articuladas da empregada de quarto... Batendo-me fortemente o coração, subi as escadas — sentia-me arrebatado como por um turbilhão — e cheguei até à porta do quarto. A porta estava ainda meio aberta, vi meu pai que se debatia, lívido. Eulália hesitante e desvairada... De repente, meu pai deu com os olhos em mim. Os nossos olhares se encontraram... Eu pus-me a tremer com todos os meus membros.
“—Eulália — disse o enfermo com voz rouca —, vá buscar um vomitório à farmácia…
“Enquanto Eulália saía, atarantada, ele dizia murmurando:
“— Carlos!
“Eu aproximei-me, cambaleando, com fulminante consciência do que havia sucedido. Meu pai, balbuciou:
“—Tu vieste aqui enquanto eu estava dormindo?
“Como eu não me achava com ânimo de responder, disse sim com a cabeça.
“—Tu… acaso… deitaste…?
“Bagas do suor jorravam de sua fronte, a sua voz tornava-se rouquenha. O o seu olhar fitou-se em mim, cheio de meiguices, de tristeza, de resignação — e assustador!
“— Mormente… mormente… — murmurou ele —, é preciso que isto não chegue aos ouvidos de tua mãe… Nunca! Tu bem me entendes. Que ela nunca venha a saber!
“Caiu para trás. Um quarto de hora depois, era cadáver.
*
“Eu fui refugiar-me no fundo do parque. Durante muitas horas, estive escondido, sem força, sem alento, acabrunhado pelo honor e pelo desespero. Eu bem via que isso não convinha chegar aos ouvidos de minha mãe. Eu sentia também que, na minha terrível febre, não poderia conservar-me em silêncio.
“Convinha primeiro domar-me a mim próprio. Ah, foi uma luta titânica! E, durante a qual, o homem que eu havia de ser parecia já retratar-se na alma da criança. Enfim, chegada que foi a noite, julguei-me com força bastante para sepultar o segredo no âmago do meu coração. Caminhei ao quarto paterno como se houvesse caminhado para a morte. No horror do momento, poucas perguntas me fizeram, e nenhuma delas se relacionava com o drama. Aceitaram minhas breves respostas e a noite acabou de me dar a necessária energia…
“Quantas vezes, com o andar do tempo, não inflamou a confissão meus lábios! Ah, eu te declaro que foi uma luta prolongada e melancólica! Ela causou em mim uma transformação completa. Não houve mais, para mim, segurança real, não houve, nunca mais, verdadeiro bom-estar: cada alegria era seguida de temor e aborrecimento... E, ainda hoje, vinte anos depois, há horas sinistras em que a cena ressuscita, em que me parece estar vendo meu pai, sentado em seu leito, e olhando para mim, com seus olhos tão meigos, tão resignados e tão espantosos!... Por mais que diga a mim mesmo que o meu ato foi involuntário, e mais desculpável ainda por sor um ato infantil, sempre, até o meu último instante, terei a impressão de haver cometido um crime. Até ao meu ultimo instante me julgarei um parricida.
Fonte: “O Seculo”/RJ, edição de 17 de março de 1908.
Fizeram-se adaptações textuais.

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