CLARIDADE - Conto de Terror - Maurício Limeira



CLARIDADE

(Maurício Limeira - 7º Lugar no Concurso Bran Stoker de Contos de Terror)


Você tem certeza quanto a essas correntes?”
Passava da meia-noite e os dois homens, Pelejero e Amílcar, verificavam o quão firme estavam presas ao solo as correntes que prenderiam o filho do Doutor Ávila Cardeal. Era véspera de noite de lua cheia. Um mês antes, estavam na floresta, caçando o lobo que andara rondando o minúsculo distrito de Claridade, quando Adônis, filho do Doutor Ávila Cardeal, que liderava a expedição, foi atacado.
Ainda que o rapaz, de apenas dezessete anos, tivesse sobrevivido, todos sabiam o que estava para acontecer.
“Está bem firme”, falou Amílcar.
“Coitado do Doutor Ávila Cardeal. Perder um filho desse jeito.”
“Pois eu acho que ele já esperou demais. Você pensa que se fosse filho seu, ou meu, ele ia esperar esse tempo todo? Pra verificar? Acha que ele esperaria, se fosse o seu Quinzinho ou a minha Domitila? Nada. Matava na hora. Agora ele fica lá, com o menino trancado dentro de casa. Vivo. Tinha que matar logo.”
“Mas e se ele não virar lobisomem, homem? A gente vai matar um inocente?”
“Ele vai virar. E eu quero estar aqui pra enfiar uma bala na cabeça dele quando acontecer.”

*

No luxuoso casarão do Doutor Ávila Cardeal, o jovem Adônis repousava em sua cama. O ferimento decorrente do ataque do lobo já havia cicatrizado, e a rapidez com que acontecera era um motivo a mais para que todos, inclusive seu próprio pai, acreditassem na maldição que se abatera sobre o clã dos Ávila Cardeal.
“Meu filho”, o Doutor Ávila Cardeal se lamentava. “Meu próprio filho. Se Deus queria me castigar, não podia ter escolhido melhor forma.”
“Isso não é coisa de Deus”, Dona Iracema, a esposa, interrompeu. “Você precisa ajudar o seu filho.”
Vieram o médico e o padre. Primeiro um, depois o outro. Depois os dois vieram juntos. Nada encontraram no garoto que fosse motivo de preocupação. Se algo havia em Adônis que indicasse a presença das forças do mal, estava muito bem escondido.
O rapaz apenas estava mais silencioso, o que o médico, o Doutor Aimoré, diagnosticou como um natural resultado do trauma do ataque. Qualquer um que se visse em situação semelhante reagiria igual.
“O senhor então acha que ele está bem, doutor”, concluiu, quase suplicando, Dona Iracema. “Que não está amaldiçoado.”
“Não foi o que eu disse.”
Como qualquer um podia perceber, Dona Iracema estava inconsolável. Era a única pessoa em Claridade a se opor à sentença a que a população condenara o seu filho. A única a duvidar de que, na próxima noite de lua cheia, um menino tão bondoso e gentil como o seu Adônis se converteria numa fera, numa criatura demoníaca.
“É seu filho, Ávila”, ela insistia com o marido. “Você vai entregar o seu filho assim pra essa gente? O que esse povo fez alguma vez por nós? O quê?”
Tampouco o Doutor Ávila Cardeal achava justo o destino que estava reservado para o garoto. Mas a vida não era justa. Além do mais, ele argumentava, seria apenas uma verificação. Se subisse a lua cheia e Adônis continuasse do mesmo jeito, então era só libertá-lo das correntes e mandá-lo de volta para casa.
“Estivesse no lugar dele, e eu ia exigir o mesmo tratamento”, bradou o Doutor Ávila Cardeal. “Que me acorrentassem. E, se Deus quisesse que eu virasse bicho, que me matassem. Eu morreria, mas vocês estariam livres da maldição.”
Dona Iracema, no entanto, pensava diferente. Para ela, nada garantia que aqueles homens cumpririam o combinado. Duvidava de que fossem capazes de se controlar com uma arma na mão. Homem gosta de matar, ela pensou. Mata, e só depois vai conferir se o morto mereceu ou não merecia morrer. Ao contrário das mulheres, no coração dos homens só havia ódio e escuridão. Dona Iracema tinha a certeza de que, ao ver o pobre Adônis, amarrado e indefeso, no centro de uma roda esperando que a lua cheia o transformasse numa aberração, o povo de Claridade só pensaria numa coisa: morte.
Bastaria que apenas um daqueles homens armados apertasse, mesmo sem querer, o gatilho. Todos o acompanhariam na execução, excitados, e no final seria tarde demais para se desculpar com o cadáver estirado no chão. Seria outra, mais outra, vitória do ódio encerrado no coração dos homens.
Por isso Dona Iracema se decidira a fazer alguma coisa pelo filho. Porque em seu coração de mulher — e de mãe — não havia lugar para o ódio. Dentro dela o sentimento que lhe incendiava o peito, e mais do que nunca em tempos como aquele, de ameaças à sua família, era o amor.
“Meu querido”, Dona Iracema segurava comovida a mão do rapaz. “Você não precisa me olhar assim. Eu não vou deixar que ninguém faça mal a você.”
Deitado na cama e sem nada dizer, Adônis limitava-se a receber a onda apaixonada de sentimento que a mãe lhe derramava. Passivamente ia deixando que ela chegasse mais perto e lhe tocasse os cabelos e o rosto com a mão trêmula de emoção.
“Hoje à noite”, Dona Iracema prosseguiu, “quando todos estiverem dormindo. Você está me entendendo?”
Adônis estava. Fez que sim com a cabeça.
“Hoje à noite você vai fugir. Eu vou lhe dar mantimentos e dinheiro. Vou lhe dar a minha bênção. E vou abrir a porta para que você vá embora desta casa para sempre. Desta casa e desta cidade terrível. Você está entendendo? Aconteça o que acontecer. Seja você quem for. Eu ainda sou a sua mãe. E vou ser sempre a sua mãe. Você é bom demais para eles. Esta cidade não merece você.”

*

Escureceu.
Havia na cidade uma sutil inquietação consumindo todos os seus habitantes. Claridade estava a apenas uma noite de, testemunhando a transformação de um homem, confrontar-se com a própria encarnação do mal. Pela primeira vez um evento como aquele, motivo de descrédito e chacota para o morador da cidade grande, seria visto por tantas pessoas. Todo um conjunto de crenças e temores no oculto estaria se confirmando com o espetáculo nefasto que o Doutor Ávila Cardeal a contragosto patrocinava.
E tanto se falou na captura de um lobisomem vivo, que a notícia se espalhou. Das cidades vizinhas de Três Mães, Aconchego e Machadinho — até a distante Vila Morena — começaram a aparecer curiosos perguntando pela besta-fera trancafiada na casa de um figurão. O horror, o desconhecido, o sobrenatural estavam em Claridade. Naquela noite, véspera da lua cheia, nenhum leito receberia a visita do sono. E, nos lares onde ele, o sono, porventura compareceu, nenhum sonho se livrou das formas escuras e dos sentimentos apavorantes.
Dona Iracema abriu a porta do quarto de Adônis, após deixar sorrateira a cama onde o marido dormia um sono assustado. Dentro do peito da mulher, o coração pulsava com violência pelo temor de que seu plano pudesse fracassar.
Na cama, Adônis permanecia deitado. Os olhos abertos brilhavam no cômodo às escuras.
“Adônis”, Dona Iracema abaixou-se junto ao filho. “Está na hora.”
Trazia nas mãos um pequeno embrulho de pano, que entregou ao rapaz.
“Aqui tem comida e dinheiro. Você vai pra bem longe, está bem? Vá para bem longe. Não deixe eles encontrarem você. Não deixe, meu filho, não deixe.”
Já não conseguia dominar a emoção. Sabia que era a última vez que olhava para o filho. Aos soluços, Dona Iracema abraçou Adônis com força, fazendo todas as recomendações e declarações que fazem as mães preocupadas com o destino daqueles a quem trouxeram ao mundo. Mamãe vai sempre amar você. Mamãe vai pensar em você todos os dias. Você vai sempre ser o meu filho. Aconteça o que acontecer.
Ela então o beijou. Na face, uma, duas vezes, mas a cada beijo aproximando mais os seus lábios dos dele. Não resistiria a beijá-lo na boca. A experimentar o sabor que, inconscientemente, desejava. Mal conseguiu conter a própria língua de atravessar a fronteira que separava a mãe do filho.
“Você precisa ir”, ela enfim se recompôs, recuando. “Vá, antes que seja tarde.”
Levantando-se da cama, o jovem Adônis seguiu a mãe pelas sombras da casa até a porta, que ela abriu. A noite clara e silenciosa parecia indicar o melhor caminho para uma fuga em segurança. Sem dizer nada, e sem olhar para trás, Adônis deu dois passos desconfiados na direção da floresta, e então se pôs a correr como um lobo recém-libertado.
Diante do portão de casa, Dona Iracema ficou olhando em prantos o seu único filho desaparecer no meio da vegetação.

*

“O que você fez, mulher?”
Ao urro inquisidor, furioso, do marido, Dona Iracema a princípio responderia com negativas. Terminaria, no entanto, assumindo a culpa pela fuga de Adônis na noite passada. Naquele instante, porém, estava mais preocupada com a saúde do marido, que parecia prestes a sofrer um colapso.
Primeiro ele erguera um dos punhos como se fosse esmurrá-la. Depois levou as duas mãos à cabeça e agora estava andando de um lado para o outro e gritando. As faces vermelhas e a veia proeminente na testa suada sugerindo que, a qualquer instante, a cabeça do Doutor Ávila Cardeal estouraria como um balão que encontra um alfinete.
“Você tem ideia do que fez?”, ele gritava como se gritar doesse. “Você tem ideia, Iracema? Você tem ideia de que, se ele matar alguém, a culpa vai ser sua? Tem ideia?”
Iracema não se atreveu a responder. Medo, preocupação e culpa pareciam estar selando a sua boca. Fosse o que fosse, porém, ainda que não admitisse em voz alta, a mãe de Adônis não se arrependia do que fizera pelo filho.
A notícia da fuga do lobisomem causara alvoroço em Claridade. Fosse outro a dar o anúncio, outro sem o prestígio e o respeito conquistados pelo Doutor Ávila Cardeal, e certamente as consequências teriam sido piores. Ainda assim, houve manifestações e protestos diante do casarão, e até uma pedra de bom tamanho teria sido arremessada contra uma das janelas.
“Eu deveria denunciar você!”, o Doutor Ávila Cardeal bradava, o dedo em riste, para a esposa. “Deveria jogar você lá fora e dizer pra eles quem foi que soltou o lobisomem! E, quando ele começar a atacar os rebanhos dos vizinhos, deveria dizer pra eles mandarem a conta pra você! Louca irresponsável!”
“Ele é meu filho!”
“Vá dizer isso a eles!”
O fato é que uma nova incursão à floresta seria marcada. Desta vez, contendo perto de uma centena de homens, não apenas de Claridade, mas de toda a região. Levando cães farejadores, o grupo armado percorreria as matas, atravessaria os riachos e subiria os morros atrás do lobisomem. Não havia registro, na história daquelas cidades, de tamanho entusiasmo. Que, na verdade, não passava de sede de sangue.
Naquela noite, porém, não encontrariam nenhum sinal de Adônis, exceto pelas pegadas junto ao casarão dos Ávila Cardeal, deixadas na noite da fuga.
Isto levaria a novas incursões noturnas em busca da fera fugitiva, ações que se repetiriam até que a lua começasse a minguar. Então o agora decepcionado grupo se dispersaria, e a terrível história da execução que não aconteceu seria relegada às conversas de bar.

*

Havia se passado um mês desde a noite em que Dona Iracema se despedira de seu único filho. Não bastasse a perda, ainda sofreria a punição do marido que, além de não mais lhe dirigir a palavra, a proibira de sair de casa. O casal ainda dormia no mesmo quarto, e ele ainda a procurava à noite, apesar de o sexo não ser mais o mesmo.
Na janela, o Doutor Ávila Cardeal olhava a lua cheia. Nenhum ataque havia sido relatado desde a fuga e, ainda que não quisesse, o pensamento do homem insistia em buscar Adônis no meio da floresta. Forçava o pai a admitir que sentia falta do filho. E então ele terminaria por reconhecer, decerto influenciado pela beleza do luar que contemplava, que a tragédia que atingira a sua família não passava mesmo disto. Uma tragédia. Uma calamidade, da qual ninguém tinha culpa. Tanto o rapaz, quanto a mãe, seriam na verdade vítimas. O próprio Doutor Ávila Cardeal seria uma vítima. Assim, sentindo o coração iluminar-se como a noite sob a lua cheia, o marido se voltou para a esposa na cama, com o intuito de finalmente fazer as pazes.
“Iracema...”
Iracema Ávila Cardeal estava na cama. Aguardava em silêncio, o rosto oculto numa faixa de sombra que impedia a identificação do vazio em seus olhos. Uma maior proximidade talvez permitisse perceber que a respiração estava mais ofegante do que o normal. Ela mantinha-se quieta, aparentemente tranquila, mas podia sentir o que estava para acontecer. Estava ansiosa, mas não se movia. Mesmo desconhecendo a razão — talvez a saliva trocada durante o beijo, talvez apenas o amor que a mantivera tão intimamente ligada ao filho —, a mulher tinha plena ciência do que havia pela frente, nos novos e estranhos rumos que sua vida iria tomar a partir daquela noite de lua cheia.
Assim, quando o Doutor Ávila Cardeal puxou o lençol e, redescobrindo a paixão pela esposa, veio deitar-se ternamente ao seu lado, Iracema apenas respirou fundo. Estava sentindo as mudanças, a febre, a fome, tendo início em seu corpo. Estava enfim acontecendo. Um último olhar para a lua após a janela, e ela fechou os olhos. Então aconteceu.


Maurício Limeira é carioca, funcionário público formado em História. Escreve desde a adolescência e vem disponibilizando parte deste material na internet, ou inscrevendo em prêmios literários, ou através da autoedição. Dois de seus contos foram publicados na revista Cult, um foi premiado em concurso da Fundação Ceperj. Lançou o romance de terror O Adversário, a novela de humor Taras, Fobias & Contas a Pagar e a monografia Nas Horas Mortas: Avida noturna no Centro do Rio de Janeiro (1920-1929). Seu terceiro romance, O Terraço e a Caverna, foi premiado pela Fundação Cultural do Estado do Pará.


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