UM PRESENTE DE NATAL - Conto Clássico Cruel - O. Henry

UM PRESENTE DE NATAL

O. Henry

(1862 – 1910)

Tradução de autor anônimo do início do séc. XX


A causa do conflito levou vinte anos a crescer. Mas, também — palavra de honra! —, valia a pena. Se o leitor vivesse num raio de trinta milhas em redor do rancho do Sol Levante, todos lhe falariam dela. Tinha os cabelos e os olhos negríssimos, a cútis cor-de-rosa um rir que parecia gorjeio de passarinho.

Chamava-se Rosita McMullen e seu pai orgulhava-se mais dela que do seu bem tratado rancho.

Acabava ela de fazer os vinte anos quando dois admiradores começaram a frequentar assiduamente a casa do velho McMullen.

Dava um pelo nome de Madison Lane, e outro pelo de Frio Kid ou, falando melhor, pelo de Johnny McRoy, porque aquele apelido de guerra não conquistara ainda celebridade.

Não julgue, entretanto, o leitor, que só houve estes dois pretendentes à mão de Rosita McMullen. É que estes dois eram os mais renitentes da dúzia deles que, geralmente, ao entardecer, deixavam os cavalos amarrados aos postes de entrada e iam visitar o velho, mas com a idia única de ver Rosita. Esta, porém, preferia aqueles dois, e para eles iam as suas melhores falas, mas, não podendo casar com ambos escolheu um, e esse um foi o Madison Lane, que se tornou seu marido no dia de Natal.

Caubóis e peões suspenderam, em honra ao acontecimento, as rivalidades profissionais, e acudiram ao rancho do Sol Levante, para festejar a boda com grandes descargas de fuzilaria, e bebendo bons copos de uísque.

Quando o banquete do casamento estava no apogeu, apareceu Johnny McRoy, louco de raiva, empunham do um revólver.

De um berro, manifestou a intenção:

— Aí vai o meu presente de núpcias!

E fez fogo.

A primeira bala levou metade de uma orelha de Madison Lane, e a segunda teria dado a Rosita o passaporte para o outro mundo, se não fosse a agilidade de um dos convidados, John Carson, que jogou uma travessa, com assado e tudo, na cara do assaltante, desviando com isso o projétil.

Todos os convidados puxaram as armas indignadíssimos. Jamais se vira nada semelhante: querer matar uma noiva no dia de seu casamento!

Antes, porém, de que pudessem ferir MacRov, este desaparecia gritando:

— Cuidado! Previnam-se! No próximo Natal, terei melhor pontaria!

John Carson foi o primeiro a chegar à porta, a persegui-lo, mas McRoy tirou-lhe a vida com certeira bala.

A obscuridade e a confusão favoreceram a fuga do assassino, que se perdeu ao longe em meio de uma chuva de balas. Foi o seu batismo de sangue, a valer, com o nome de Frio Kid. Daí em diante, tornou-se o terror da região. Perseguido por um destacamento de policia, não se amedrontou e matou-lhe dois homens, ferindo gravemente três.

Ninguém lhe superava a habilidade de atirador, pois era perito no manejo da arma com ambas as mãos.

Era visto frequentemente chegar, a galope, a qualquer aldeia ou rancho e, depois de haver bebido abundantemente, provocar uma questão sob qualquer pretexto, a fim do se poder dar ao luxo de descarregar os seus dois revólveres sobre o grupo de pessoas aterrorizadas.

O seu sangue frio, a sua audácia incrível, a rapidez e segurança de seus tiros paralisavam os adversários.

E quando, por fim, o revólver de um insignificante mestiço, de um peão medroso, lhe deu fim, havia no seu ativo nada menos de dezoito 38 assassínios, dos quais metade levada a efeito como simulacros de duelo e a outra parte como crimes vulgares, com emboscadas e aleivosia por motivo.

Narram-se até hoje mil anedotas da sua audácia inaudita, mas ninguém cita um só exemplo da piedade e da misericórdia dele.

E, não obstante, como é bom ser justo com todos, é preciso contar o que Frio Kid fez um dia de Natal, em vésperas de dar a alma ao diabo.

É voz geral, por aqueles sítios, que aquela que sofreu uma decepção não deve aspirar o perfume da flor da giesta, porque esse aroma lhe desperta na memória a lembrança da sofrida humilhação e acende no coração o desejo da vingança.

Naquele inverno, de extrema benignidade, haviam florescido todos os giestais, formando um manto áureo que se estendia até se perder na imensidade das pradarias.

Frio Kid e seu companheiro de aventuras, Mexican Frank, passavam a cavalo perto dos giestais. Kid deteve bruscamente o cavalo, aspirou o embriagador perfume, e os olhos fecharam-se. O cheiro das giestas parecia haver chegado até o mais íntimo de seu ser, revolvendo coisas já esquecidas.

Abriu os olhos e disse ao companheiro:

—Agora me lembro, Mex, que prometi há muito tempo a uma pessoa um presente de Natal, e que ainda não lhe dei. Mas… antes tarde do que nunca. Amanhã, entrarei em casa de Madison Lane, e este receberá uma bala em pleno coração. Tirou-me a noiva e casou-se com ela. Como é possível haver-me eu esquecido disto e só agora me lembrar?

—Não faças tolices, Kid, respondeu secamente Mex. — Sabes muito bem que isso te pode custar a vida. Ainda ontem, vi o sogro dele, o velho McMullen, e soube de sua boca que a Rosita dá uma festa amanhã, e que foram convidados todos os rapazes dos arredores. Certo, ainda se lembrarão todos da ameaça que fizeste no dia do casamento e devem estar preparados. Julgas que Madison Lane se esqueceu, e que não tem bons revólveres? Deixa de te meter em um mão negocio dessa natureza… Não vás lá.

Frio Kid respondeu com a maior tranquilidade:

—Juro-te, Mex, que entrarei em casa de Madison Lane, no dia de Natal, e que o matarei quando se ache em meio de seus convidados. Há muito tempo já que eu deveria ter saldado esta conta. A noite passada, sonhei que Rosita era minha mulher, que estava a meu lado e… Ah! Pelo mesmíssimo diabo te juro, Mex, que o matarei como a cachorro! Lembra-te disto… Arrebatou-me Rosita em um dia de Natal. Terá, portanto, que a deixar em um dia igual.

—Há muitos modos de fazer as coisas — observou Mex. —Por que não te queixas do esbulho que ele fez?

—Matá-lo-ei! — replicou Kid, cerrando os dentes.


*


O dia de Natal daquele ano foi temperado como se estivesse na primavera e as flores das pradarias perfumavam o ambiente.

Os cinco ou seis cômodos, de que se compunha a casa de Madison Lane, estavam iluminados a giorno1. Haviam sido reservados para a árvore de Natal as maiores e melhores lâmpadas, em torno da qual o filhinho de Rosita e outros meninos de sua idade permaneciam extasiados. Os convidados iam e vinham pelos vários cômodos, saíam às vezes para a ampla galeria.

Madison Lane chamou três dos seus melhores amigos de parte e disse-lhes: —Quero recomendar-lhes uma coisa. Vocês sabem que por motivo do meu casamento Frio Kid não tem cessado de proferir ameaças contra Rosita e contra mim. Esta noite, devemos vigiar bem a casa e os arredores. É aniversario de sua primeira visita e da morte daquele pobre John Carson. Se algum de nós o descobrir, não deve hesitar um segundo, e atirará sobre ele até o deitar a baixo. Acabaremos, assim, com esse cão danado. Pessoalmente, o bandido não me faz medo, mas Rosita vive sempre desassossegada e, especialmente, quando o Natal se aproxima... Estamos de acordo todos, não é?

Prevenidos os demais convidados, revezaram-se, cada meia hora, três homens para rondar a casa. A festa ia alegre e a ceia preparada pelas mãos de Rosa, magnífica.

Quando voltaram ao salão onde se achava a árvore, todos se espantaram de encontrar ali um Papai Noel venerável, de longas barbas brancas, ampla capa de veludo vermelho, e um cesto cheio de brinquedos.

—É vovozinho, tenho certeza! —disse Rily Simpson, um garotinho de seis anos.

E aproximou-se com os outros pequenos a pedir a Papai Noel um brinquedo.

A poucos passos estava Rosita, conversando com Berkly, um velho caubói a serviço de Madison.

—Espero — dizia Berkly — que terá perdido o medo de que apareça Feio Kid, em meio da festa. Já pode estar tranquila.

—Sim, estou — respondeu Rosa, em voz alta —, mas o senhor concordará em que qualquer um no meu lugar teria certo medo. Lembre-se do que aconteceu no dia do casamento.

—É o homem mais abominavelmente cruel de que se tenha ouvido falar na região — disse o caubói. — Deveria era organizar-se uma batida e dar-lhe caça como a animal feroz.

—Realmente, dizem-se coisas terríveis a respeito dele, e pesam sobre seu nome muitos e muitos crimes. Mas, apesar de me dizerem que ele me designou para vítima de uma dessas crueldades, eu não acredito em tudo quanto dele se diz… Há de haver qualquer coisa de bom no fundo da sua alma… MacRov ou Frio Kid não é o malvado que dizem por aí. Lembro-me bem do que ele era quando me fazia a corte… É impossível que tenha desaparecido dele tudo quanto de bom tinha. Quando me vinha ver, só tinha frases amáveis e palavras doces.

Chamado por Madison, Berkly afastou-se do lado de Rosita e esta se dispunha a passar ao outro salão quando se encontrou com o velho Noel.

—Ouvi tudo quanto a senhora disse àquele caubói — falou ele —quando ia preparar-me para tirar deste cesto o brinquedo para dar a seu marido. Mas, mudei de ideia e o presente será para a senhora. Vá ao seu quarto que lá o encontrará, do lado direito.

—Oh! Obrigado! Obrigado, Papai Noel! — exclamou Rosa. —O senhor é muito bom… Vou ver o presente…

E encaminhou-se para seu quaro, enquanto o velho se esquivava por uma porta que dava para a galeria. No quarto, do lado direito, Rosita só encontrou o marido.

—Como? —disse ela. — Estás aqui? Viste o presente que o velho Noel deixou aqui para mim?

—Aqui ninguém deixou nada — respondeu Madison, beijando a esposa. — E, e a não ser que o presente seja eu, não vejo nada aqui do lado direito.


*


 No dia seguinte, Gabriel Radd, o dono do rancho H. O., entrava na agência dos Correios a procurar correspondência.

—Sabe a notícia? — perguntou-lhe o agente.

—Que notícia?

—Frio Kid recebeu uma boa dose de chumbo e não se levantará mais.

—Há mais tempo deveria ter sido. E a quem se deve a façanha?

—Ora, a um peão, palerma e medroso, justamente uma dessas pessoas que ele mais desprezava. Foi ontem, na noite de Natal. O peão viu passar uma coisa que parecia um fantasma e, aterrorizado, despejou-lhe em cima toda a carga de seu revólver. E quer saber o mais curioso?

—O que é?

—Frio Kid estava fantasiado de Papai Noel.


Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 10 de janeiro de 1925.

Fizeram-se breves adaptações textuais.


Nota:

1Giorno significa dia em italiano.

 

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