O ESPELHO ENCANTADO - Conto Clássico Fantástico - Anton Tchekhov



O ESPELHO ENCANTADO
Anton Tchekhov
(1860 – 1904)

Entrei no salão acompanhado por minha esposa. Sentia-se no ar o mofo e a umidade. Quando iluminamos a peça, fato que não se dera durante todo um século, centenas de ratos e ratazanas correram de todos os cantos, procurando fugir. Uma lufada de vento entrou quando cerrávamos a porta e lançou folhas de papel para todos os lados. Gravados nesses papéis, percebemos velhos caracteres e figuras da Idade Média. Pendiam das paredes retratos de ancestrais que nos fitavam com severidade e orgulho, como se quisessem nos dizer: "Mereces uma sova, rapaz!". Nossos passos ecoavam pela casa inteira. A minha tosse era respondida por um eco, o mesmo que em algum dia remoto respondera a meus avós.

O vento uivava. Alguém chorava na chaminé e em suas lágrimas percebia-se o desespero. Grossas gotas de chuva quebravam-se contra as sombrias janelas e aquele barulho nos enchia de tristeza.

— Ah, ancestrais, ancestrais! — exclamei, dando um fundo suspiro.  — Se eu fosse escritor, haveria de escrever um longo romance, buscando inspiração em vossos retratos. Cada um desses velhos foi moço algum dia. Cada um ou cada uma teve o seu romance, e que romance! Olha, por exemplo — disse para minha esposa —, essa velha, minha bisavó. Esta mulher feia, desajeitada, viveu uma história tremendamente curiosa. Está vendo aquele espelho suspenso ali?

E eu lhe mostrava um grande espelho, numa moldura de bronze enegrecida, que estava colocado ao lado do retrato de minha avó.

— Aquele espelho tem poderes mágicos e foi a causa da desgraça de minha avó. Por ele, pagara ela um preço altíssimo, e durante toda sua vida não se quis separar dele. Mirava-se no espelho dia e noite. Mirava-se mesmo durante as refeições. Punha-o ao seu lado quando ia dormir e, no seu leito de morte, pediu que o colocassem no seu caixão. Se seu último desejo não foi atendido, deve-se apenas ao fato de que o espelho não cabia na sepultura.

—Era ela, então, uma grande vaidosa? — perguntou minha mulher.

—Podemos admitir isto. Entretanto não possuía ela outros espelhos. Por que amava ela precisamente esse e não outro espelho qualquer? Não possuiria outros mais finos e de maior preço? Não, minha querida, há neste caso um mistério tremendo. Não pode ser de outra sorte. Conta a lenda que nesse espelho há um demônio, e que minha bisavó tinha uma manifesta e terrível atração pelo demônio. Certamente, é uma loucura, mas não se pode negar que daquele espelho, com moldura de bronze, irradia-se uma força misteriosa.

Com um gesto rápido, limpei o pó que se acumulara sobre ele, olhei-me e dei uma gargalhada. Surdamente, o eco respondeu ao meu riso. O espelho deformava o que nele se reproduzia. Minha fisionomia se contorcia. Meu nariz parecia entrar pela face esquerda, meu queixo duplicou de tamanho e ficou inteiramente torto.

—Minha bisavó tinha gostos estranhos, comentei.

Minha esposa chegou-se, hesitante, e também se mirou. Foi aí que sucedeu qualquer coisa de terrível. Ela empalideceu, pôs-se a tremer da cabeça aos pés e deu um grito. O castiçal escorregou de suas mãos, tombou no chão e a vela apagou-se. A escuridão nos envolveu e, no mesmo instante, ouvi uma queda surda. Era minha mulher que desmaiara.

Continuava o vento a uivar cada vez mais lamentosamente. Os ratos corriam por todos os lados e parece que brincavam com os papéis espalhados pelo chão. Meus cabelos se arrepiaram quando uma veneziana se abriu. A lua surgiu à janela. Levantei minha mulher, apertei-a nos braços e conduzi-a para fora da casa dos meus ancestrais. Somente na tarde seguinte foi que ela recobrou os sentidos.

—O espelho! —  disse logo quando voltou a si. — Dê-me o espelho! Onde está ele?

Durante toda uma semana não quis comer, beber ou dormir, e pedia incessantemente que lhe trouxessem o espelho. Soluçava, arrançava os cabelos, enfurecia-se, e quando o médico declarou que ela podia morrer de fome e que seu estado era bastante crítico, dominei meu medo e trouxe-lhe o espelho que fora de minha bisavó.

Ao vê-lo, riu prazenteiramente. Envolveu-o carinhosamente entre seus braços e em seguida mirou-se demoradamente nele. Há mais de dez anos que ela se olha sem um minuto de descanso.

—Será verdade que sou eu mesma? — murmura de quando em vez. E seu rosto, rubro de prazer, mostra uma expressão de beatitude e de êxtase.

 —Sim, sou eu! Com exceção desse espelho, todos os outro mentem. As pessoas que me conhecem, meu marido, todos mentem. Ah, se eu tivesse visto antes, não me teria casado com esse homem! Não é digno de mim. Aos meus pés deveriam estar os mais belos, os mais nobres cavalheiros!

Um dia, estando por acaso atrás de minha esposa, olhei, sem querer, para o que o espelho refletia e foi então que descobri o tremendo segredo. Vi refletida no cristal imagem de uma mulher de raríssima formosura, bela como eu nunca vira outra em minha vida. Era um prodígio da natureza, uma harmonia de beleza, de elegância e de amor. Mas o que significava aquilo? Que acontecera? Por que motivo minha mulher, feia e desgraciosa, me surgia tão linda refletida naquele espelho?

Por quê? Simplesmente porque o espelho encantado deformava a feia aparência de minha esposa e o desencontro das linhas fazia com que ela se transformasse numa linda mulher. Menos com menos dava mais.

E agora minha esposa e eu passamos os dias diante daquele espelho sem nos afastarmos por um instante sequer. Meu nariz enterra-se pela face esquerda, meu queixo duplica-se, mas o rosto de minha esposa é alucinantemente belo. Uma paixão louca me empolga e eu gargalho selvagemente:

—Ah, ah, ah!

 E minha mulher murmura apenas como um sussurro:

 —Como sou bela!


Tradução de autor desconhecido.
Fonte: “A Cigarra’, edição de dezembro de 1947.
Imagem: Theo van Rysselberghe (1862 – 1926).

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