ANA DE LISBETH - Conto Clássico Fantástico - Hans Christian Andersen


ANA DE LISBETH
Hans Christian Andersen
(1805 – 1875)

        Ana de Lisbeth era uma moça linda. Seu rosto irradiava juvenil alegria. Os dentes pareciam pérolas finas, os olhos brilhavam como diamantes, diamantes risonhos. Na dança, os pés muito breves saltavam com maravilhosa ligeireza. Infelizmente, seus pensamentos eram ainda mais ligeiros. Apesar de inteligente, deixou-se seduzir por um aventureiro, que em breve a abandonou. Nunca mais houve notícias de tal homem.

Ana teve um filho, criança forte e sadia, mas terrivelmente feia; a mãe sentia vergonha do fruto da sua leviandade e encarregou da criação a mulher do coveiro, sua vizinha. Depois, entrou como ama de leite em casa de uma condessa.

No opulento palácio, deram-lhe um quarto elegante. Deram-lhe também vestidos de veludo e de seda. Então, fez-se exigente e embirrenta. Não aceitava observações. A mínima contradição atacava-lhe os nervos.

O pequeno conde era delicado como um príncipe, belo como um anjo. Ela consagrava-lhe todos os seus cuidados e caricias. E o seu filho continuava na casa do coveiro. Lá, poucas vezes assobiavam as chaleiras; em compensação, não faltavam más palavras. O pobre menino estava quase sempre só, ninguém se importava com seus gemidos. Chorava até dormir: quando se dorme, não se sente fome ou sede.

Vaso ruim não quebra, diz o provérbio. O filho de Ana de Lisbeth não o desmentiu. Cresceu, cresceu sem conhecer a mãe. O coveiro recebera dinheiro para guardar segredo.

Terminada a criação do filho da condessa, despediram a ama, que foi morar na cidade, onde se fez passar por burguesa honesta, vivendo de rendas, bem vestida, melhor tratada, donairosa. Abandonara o filho à desgraça, como o pai a havia abandonado.

O coveiro tirava do rapaz todo o partido possível. O filho de Ana de Lisbeth passava uma vida dura, sem vislumbre de esperança. Sempre maltratado, suportando frios e chuvas sem queixume. E, como era feio — muito feio! —, toda a aldeia motejava dele. Ninguém o amava.

 Mais tarde, entrou como grumete numa chalupa miserável, e aí encontrou novos sofrimentos. O capitão embriagava-se frequentemente, e em tais ocasiões o rapaz sofria uma chuva de pancadas. O pequeno Lisbeth parecia ter nascido sob má estrela. Um dia estourou um vendaval. O capitão mal podia aguentar o leme, e, de repente, uma tromba d’água envolveu o pobre barquinho e o fez voltear, já sem governo.

— Jesus! Meu Deus! — gritou o rapaz.

E chalupa, capitão e grumete, tudo mergulhou na voragem.

Ninguém presenciou o terrível acontecimento; só as gaivotas e os peixes poderiam contar alguma coisa.

Nenhum fragmento ficou boiando à tona para indicar onde o filho de Ana de Lisbeth havia perecido. Ademais, a ninguém fazia falta. Ninguém sentia saudades dele.

Ana vivia na cidade. Muita gente a tratava por "minha senhora". Gostava de contar a história da sua mocidade, de quando habitava no palácio da condessa e andava de carro e conversava com baronesas e damas muito distintas. E não faltavam elogios ao filho da condessa; era o seu “ai, Jesus!” —lindo, lindíssimo, um verdadeiro anjo!

—Vou visitar o meu menino e o grande palácio campestre onde passei tantos dias de esplendor — disse ela certo dia. —Ele há de lembrar-se de mim, daquele tempo em que me queria tão ternamente e me rodeava o pescoço com os bracinhos brancos de neve. Sim, hei de voltar a vê-lo.

Partiu, e depois de uma longa jornada, ora em diligência, ora a pé, chegou à nobre residência da condessa. Os criados eram-lhe estranhos, nenhum ouvira falar de Ana de Lisbeth.

Depois de ter esperado por muito tempo na antecâmara, um criado lhe abriu a porta do salão e ela entrou pouco antes da condessa e de seu filho. A dama recebeu-a muito bem e dirigiu-lhe palavras muito amáveis. O condezinho estava alto e delgado, formosos ainda os olhos, a boca, pequena e delicada. Olhou friamente para Ana de Lisbeth. Sem proferir uma palavra, deixou-se abraçar por ela com indiferença, desviando-se logo um pouco, e saindo em seguida. Esse foi o acolhimento que ela teve da sua maior afeição, da criança amada de que se sentia tão vaidosa. Retomou o caminho da cidade, sem poder conter as lágrimas. E, de súbito, um grande corvo negro como azeviche, crocitando em ásperos gritos, veio pousar num ramo à beira da estrada.

 —Ah! Que mau agouro! — murmurou ela. — Parece mesmo que está gritando para mim. Que desgraça teremos?

E pela mente correram-lhe negros pensamentos, e sentiu calafrios por todo o corpo. Pouco depois, passava ela pela casa do coveiro. A mulher, que estava sentada à porta, disse-lhe:

—Como estás sadia e bem conservada, Ana de Lisbeth! Tens passado boa vida, sem cuidados e sem misérias.

—Nem sempre, nem sempre...

—Nunca mais houve notícias da chalupa, nem do grumete — continuou a mulher do coveiro. — Afogaram-se, é o mais certo. E tenho pena, porque o rapaz, continuando naquela vida, podia de vez em quando mandar-me algum dinheiro.

— Ah! Julgas que morreram afogados? — disse Ana de Lisbeth.

E passaram logo para outro assunto. Ana estava ressentida pelo frio acolhimento do condezinho. Nada disse, porém, à mulher do coveiro. Queria que toda a gente julgasse ainda que estava em íntimas relações com o aristocrático palácio. E, de súbito, apareceu outra vez o corvo com o seu crocitar lúgubre.

— Essa ave negra me quer mal, anda hoje a me perseguir — disse Ana, inquieta e nervosa.

A mulher do coveiro preparava o café e Ana, deitando-se no sofá, em breve adormeceu. Viu, então, no sono agitado, pela primeira vez, aquele com quem nunca sonhara: o filho das suas entranhas, que naquela mesma casa havia sofrido fome e pancadas, e que repousava agora no fundo do mar, sabe Deus onde.

Parecia-lhe que um rapaz, alto e robusto, quase tão formoso como o condezinho, abria a porta e dizia:

— Aí vem o fim do mundo, agarra-te bem a mim, tu és minha mãe! No paraíso há um anjo que só quer te salvar. Segura-te bem, para que ele te leve para o céu.

E sentiu-se abraçada pelo jovem. Mas logo ouviu-se um grande ruído, como se o mundo baqueasse, e o anjo elevou-se para o céu, sustentando-a pelas roupagens. Então, começou uma luta tenaz, pois ao mesmo tempo que o anjo tentava levá-la para cima, uma multidão de mulheres a segurava pelo vestido, loucas, desesperadas, clamando em tumulto:

— Nós queremos salvar-nos, também! Seguremo-la bem! Não a larguemos de modo nenhum!

Por fim, rasgaram-se-lhe as roupas e Ana de Lisbeth viu-se abandonada do anjo, despenhada em fundo abismo... e nisso acordou de repente, porque ia caindo do sofá abaixo. De tal modo a perturbaram aquelas ideias que, a dizer a verdade, não poderia contar o extravagante sonho. Todavia, estava cheia de desconsolo, de vagos, inexplicáveis sobressaltos.

Tomou uma chávena de café com a mulher do coveiro e partiu logo, para não perder a diligência. Chegou, porém, atrasada, e só no dia seguinte partiria outra carruagem. Não quis, contudo, passar a noite em casa do coveiro, e, como havia esplêndido luar, resolveu ir a pé pela estrada, à beira-mar.

Na campina, nenhum ruído: nem o coaxar das rãs, nem os assobios das corujas, nem mesmo o brando marulhar das pequenas vagas. Naquele silêncio, havia um certo quê de solene, de lúgubre.

Ana caminhava. Seguia resoluta pela estrada. A princípio, sem pensar em coisa alguma. Os pensamentos, porém, nunca abandonam completamente a mente humana. Às vezes parecem adormecer, mais nada. Há muitas pessoas sempre tranquilas porque sabem que nada têm a temer das leis, da justiça de seu país; não pensam nas contas severas que têm de prestar ao Supremo Juízo das suas ações boas ou más, até das mais ocultas. Ana de Lisbeth era assim: passava por pessoa honesta e boa, e isso era-lhe o suficiente.

De súbito, parou para ver um objeto que se destacava na praia: era um chapéu velho, provavelmente arremessado pelo mar.

Depois de ter examinado o chapéu por um instante, recomeçou a caminhar e estacou de novo ante um objeto mais singular: julgou ver o corpo de um homem estendido sobre uma pedra comprida. Um calafrio de terror lhe percorreu o corpo. Tentou fugir. As pernas tremiam-lhe. E nada havia que temer: era apenas a sombra de uns altos caniços projetada pelo luar.

Pouco a pouco, porém, o pavor se apoderou dela e, agora, os seus pensamentos excitados concorriam para essa impressão. Em criança, ouvira falar em fantasmas do mar, das almas penadas cujos corpos, não tendo sido enterrados, apareciam aos viajantes, agarrando-os para que os levassem ao cemitério e os cobrissem de terra sagrada.

—Segura! Agarra! — gritavam sempre os lúgubres fantasmas.

Essa lembrança recordou-lhe o pesadelo, o grito das mulheres que a tinham segurado, o jovem querendo levantá-la ao momento supremo. Seu filho, a criança que ela nunca amara, que havia esquecido, e que havia perecido tão miseravelmente no naufrágio, não poderia voltar como espectro a bradar também: “Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada?” Esses terríveis pensamentos caíram como marteladas no coração de Ana de Lisbeth. A custo, respirava. Inquieta, olhava o mar. Uma névoa espessa surgia das águas e vinha rodear as árvores e os arbustos, dando-lhes aspectos inesperados.

Olhou para a lua, e o astro melancólico pareceu-lhe agora frio e esquálido como um rosto cadavérico. E no silêncio soturno do mar e na campina surgia, sim, surgia agora, uma voz indefinida, nem grito nem gemido, mas pronunciando rápida e constantemente:

— Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada!

Seria a alma errante de seu filho? Da criança nunca amada que se perdera no mar?

Ana de Lisbeth apertou o passo. Ia nervosa, febril. Resolveu tomar a direção da igreja; ali, talvez, encontraria a paz. Tentou seguir o caminho mais curto, mas sentiu, então, um peso sobre os ombros e a tal voz, agora mesmo próxima do ouvido, a murmurar, como num sopro a repetir sem cessar:

 —Enterra-me, enterra-me!

Ana tropeçou, ajoelhou-se e por um bocado caminhou de rastros. Se o túmulo fosse o esquecimento de tudo, ela mesma teria aberto o seu túmulo. Levantando-se, viu, então, quatro cavalos relinchando e vomitando fogo pelos olhos e ventas. Puxavam um carro fúnebre, e no carro ia sentado um malvado senhor que, havia um século, muitos crimes cometera naquele lugar.

Todas as noites, à hora dos fantasmas, rezava a tradição, ele entrava no velho castelo, e o seu rosto, em vez da palidez da morte, era escuro como carvão.

Passando, acenou a Lisbeth, dizendo-lhe:

—Cautela! Em breve esquecerás do filho e poderás andar como eu nesta carruagem brasonada.

Impelida pela coragem do desespero, Ana desatou a correr e entrou no cemitério. Estava coberto de cruzes e de corvos negros como azeviche, que, ao luar, agora fraco, mal se podiam distinguir.

—A mãe dos corvos! Olhem a madrasta! — crocitaram as aves fúnebres, avistando Ana de Lisbeth.

Um pavor imenso se apoderou da mulher. Temia ser mudada numa daquelas aves, se a sepultura não fosse aberta logo. Deitou-se sobre o solo e começou a abrir a cova. A terra estava dura. Em breve, ficou com as mãos ensanguentadas. O queixume do fantasma continuava a soar nos seus ouvidos. Receava ouvir o cantar do galo ou de ver o primeiro raio do sol, pois, em tal caso, estaria perdida.

Ora, ao cantar do galo, ao romper da aurora, só havia metade da cova; sentiu uma gélida mão pousar-lhe sobre a fronte, e outra no coração.

—Metade de uma sepultura não basta! — gemeu o fantasma, que logo sumiu no fundo do mar.

Ana de Lisbeth caiu sem sentidos, como morta.

Naquela manhã, dois camponeses encontraram-na assim. Não no cemitério, mas na praia junto do mar. Ela abrira um buraco na areia e estava com os dedos feridos pelos seixos.



Ana padeceu prolongada enfermidade. As angústias da consciência despertada pelo temor de Deus transformaram-lhe a cabeça. Acreditava ter só metade da alma. O filho havia-lhe arrebatado a outra metade, levando-a para o fundo do mar. Sem ela, não poderia jamais entrar no Reino da Graça.

A custo, reconheceriam-na agora. Só falava do espectro do mar que devia enterrar em terreno sagrado, para ganhar a sua alma. Muitas vezes, passava a noite à beira-mar, à espera do fantasma. Um dia, desapareceu.

Na tarde desse dia, quando o sineiro entrou na igreja, à hora do Angelus, viu Ana de Lisbeth de joelhos ante o altar. Estava fraca, muito curvada. Mas os olhos luminosos, o rosto risonho e os últimos raios do sol, caindo sobre a Bíblia aberta, fizeram sobressair estas palavras do profeta Joel:

"Rasgai os vossos corações e não as vossas túnicas; lembrai-vos sempre ao senhor".

Foi acaso, dirá alguém; mas há muitos acasos como esse.

Contou ela, depois, que durante a noite lhe aparecera a alma do filho. "É verdade — ouvira ela — que tu só me cavaste metade da sepultura; mas faz agora um ano que me sepultaste inteiro no teu coração, e é aí que as mães guardam bem os filhos".

E, entregando-lhe a outra metade da sua alma, conduzira-a à igreja.

—Agora — acrescentou ela —, agora estou na Casa do Senhor, onde se é sempre feliz.


Quando o sol mergulhou não horizonte, a alma de Ana de Lisbeth subiu morada onde nada temem os que muito se arrependeram e muito padeceram.

Tradução de autor desconhecido.
Fonte: Revista Carioca, edição nº 624, de 18 de setembro de 1947.


Share:

Nenhum comentário:

Postar um comentário