A IMAGEM NO FUNDO DOS OLHOS - Conto Clássico Fantástico - Maurice Renard



A IMAGEM NO FUNDO DOS OLHOS

Maurice Renard

(1875 – 1939)

 

O que lhes vou narrar aconteceu ao mais célebre dos oculistas franceses quando não era ainda o professor Fagus, mas, simplesmente, o doutor Fagus. Certo dia, ele teve que tratar de Frederico Arcier, homem rico e poderoso, cognominado na França “o rei do papel”.

Arcier escrevera-lhe, como eu ou o leitor, para obter uma entrevista.

E a hora da consulta chegou.

Antes de abrir a porta que comunicava o seu gabinete com a sala de espera, Fagus não pôde evitar um movimento de orgulho ao pensar no considerável personagem que aguardava a sua decisão. Sentia-se muito altivo por ter trabalhado tanto, e ser tão útil aos seus semelhantes que uma espécie de monarca recorria agora às suas luzes.

O milionário entrou. Era um perfeito gentleman, de trinta a quarenta anos.

Fagus notou-lhe o ar fatigado, a coloração de cera branca, as dolorosas rugas. Recordou-se, imediatamente, de que o poder industrial de Arcier era uma herança e que “o rei do papel” herdara a sua coroa do velho Arcier, de Arcier, o parvenu, que a conquistara com o suor do seu rosto. Fred nada tinha de lutador. Porém, naturalmente, a atenção do ocultista concentrou-se nos olhos do recém-chegado. Eles estavam tão fixamente abertos que faziam pensar nos olhos de uma ave noturna ou — o que é mais horrível — em dois olhos de vidro. Habitava neles um horror perpétuo. Tudo quanto Arcier olhava parecia amedrontá-lo. No entanto, o homem de ciência nada tinha de terrível; compreendera que um ser muito miserável estava diante dele, e toda a sua bela alma estava estampada em seu semblante.

Sem preâmbulo, numa voz em que se misturavam a angústia, a vergonha e o amargo desejo de uma misteriosa libertação, Arcier explicou-se. Foi, a princípio, em um grito surdo esta confissão e esta súplica:

— Só tenho esperanças no senhor. Salve-me!

Braços pendentes, mãos abertas, parecia sacrificar-se.

 —Eis aí — continuou ele, fazendo esforço e como se confessasse uma falta abjeta. —Tenho nos olhos, no fundo dos olhos, uma imagem indelével... Uma imagem como a que fica impressa na retina quando fixamos a vista ao Sol.

— Escotoma —disse Fagus.

— É isto. Uma imagem semelhante à que se acha nos olhos dos assassinados, nos olhos dos que morreram de morte violenta, e cuja retina conservou a última visão...

Fagus não pestanejava.

 — O senhor não ri? — admirou-se o milionário. — Não zomba de mim?

— Não, disse Fagus.

— Ah! — replicou Arcier, cujos traços distenderam-se. —Se o senhor soubesse quantos incrédulos encontrei entre os oculistas a que me dirigi! Nenhum compreendeu. Nenhum acreditou em mim. E nada, nada viram nos meus olhos! Uns mofaram! Outros, enviaram-me aos neurologistas... Desgraçados! Escute, doutor: examine-me bem, e diga-me a verdade, pelo que tem de mais caro. Porque não posso continuar a viver com esta imagem no fundo dos olhos. Estou condenado a vê-la por toda a parte e sempre. Ela se interpõe horrorosamente contra mim e o mundo. Vejo-a com os olhos abertos, com os olhos fechados, mesmo á noite. Só o sono a faz desaparecer. Mas ai! O sono! Compro-o a custo de sacrifícios; e muitas vezes revejo em sonho a coisa infernal.

—Há quanto tempo tem esta mancha nos olhos? — Perguntou Fagus, tranquilamente.

— Oh, não é uma mancha! É uma imagem, uma cena instantânea. Não falta nada ali: cenário, personagens, cores, sombras, relevo, detalhes monstruosos... E quando quero olhar, não importa o que, não importa quem, é sempre a imagem que está “no ponto", não o objeto ou o ser que eu queria ver, e que me aparecem indecisos, através da odiosa fantasmagoria...

— Há quanto tempo? — Insistiu Fagus.

— Há treze meses. Há treze meses que essa imagem de danação me vela o universo e possui meus olhos... Para curar-me, seria necessário apagá-los. Ai! É uma rude confissão a que lhe faço! Apagá-los, não é? E estive prestes a terminar com eles, quando me falaram no senhor. Então, condescendi.

— Extingui-los? — disse gravemente Fagus.  — E se isso não bastasse?

O outro baixou os olhos, depois levantou-os acanhadamente para o médico:

Não posso viver com esta imagem no fundo dos olhos.

Logo continuou, com terror:

É preciso que eu tenha no senhor uma confiança de que eu próprio me admiro para dizer-lhe isso.

— Peço-lhe a sua inteira confiança, replicou-lhe Fagus. — Ela é  indispensável. Diga-me: de que natureza é a imagem?

Arcier desviou o assunto.

—É — disse ele —, como o senhor bem supõe, a viva reprodução de uma coisa que me apareceu imprevistamente, um espetáculo que me surpreendeu violentamente e que eu divisei no tempo de um relâmpago, no tempo que me foi preciso para afastar uma cortina e desmaiar de horror, uma visão mais insustentável para mim que o brilho do sol, e mais terrível que a aparição de um punhal levantado ou de um revólver engatilhado.

*

Enquanto ele assim falava, retardando com todo o seu poder a narrativa pedida, Fagus considerava-o.

Arcier estava de frente para a janela. Desta vez, ele parecia fixar "voluntariamente" a imagem, submetê-la ao seu olhar e deleitar-se com ela amargamente. Sua palidez aumentara, os traços endurecidos acusavam sobremaneira as rugas; via-se, por momentos, crisparem-se-lhe os músculos das faces, alargando a parte inferior do rosto, muito estreita em relação à superior. Rosto de sensual, de impulsivo, de um afetivo. Mas Fagus prendia-se aos olhos. Suas pupilas não cessavam de contrair-se e dilatar-se. A íris era parda, bem pigmentada. O branco da esclerótica dava para amarelo, e vasos vermelhos a ensanguentavam.

Esses olhos, estranhamente duros e secos, os cílios longos e cerrados os teriam suavizado com uma bela sombra, se as pálpebras rígidas e não pestanejando nunca, não parecessem presas por invisíveis pegadores. Sobre eles as sobrancelhas negras, desenhadas com força, uniam-se, fazendo um só traço enrugado rio centro. Rosto de nervoso e de ciumento.

No entanto, o rei do papel se interrompera.

Um clarão equívoco quebrantava-lhe as pupilas.

— Mas — disse ele — para que descrever-lhe a imagem? Se o senhor for mais sábio do que os outros, irá vê-las sozinho. Senão, para que informá-lo?

— Seja —respondeu Fagus. — Vou, pois, examiná-lo por minha vez. Mas advirto-o de que a imagem, se eu a vir, aparecerá minúscula e invertida. Nada distinguirei, sem dúvida! E, depois, estou contrariado com a sua desconfiança.

— Perdoe-me — implorou o pobre milionário. — Se o senhor soubesse...

— Faça o favor de entrar, disse simplesmente Fagus.

Penetraram na câmara escura.

— O senhor não mede nem a acuidade nem o campo visual? — perguntou o consultante.

Fagus reprimiu um sorriso.

—Não. É  inútil... Vejo que tem o hábito... E não farei mesmo o exame lateral. O oftalmoscópio, imediatamente.

*

A câmara escura estava iluminada por uma lâmpada elétrica encapuzada por um refletor. Arcier sentou-se, dando as costas para a lâmpada. Fagus elevara o oftalmoscópio à altura da sua vista. A lente côncava concentrava nos olhos de Arcier os raios da lâmpada. Pelo orifício que a atravessava no centro, Fagus examinava aquele olho inundado de luz.

Houve um silencio em que a sombra e a claridade dominavam todas as coisas.

A lâmpada mudou várias vezes de lugar. O operador examinava os dois olhos alternadamente. Sua fisionomia permanecia impenetrável. Ouvia o coração de Alcier bater rapidamente.

Entretanto, sem se apressar, apanhou uma lente e dobrou o oftalmoscópio.

Alcier perguntou:

— Não vê nada?

Nenhuma resposta. O exame continuava.

Afinal, o doutor levantou-se e se pôs a passear.

Depois, sentou-se a uma mesa, com as mãos na testa:

— Nada?

Sempre mudo, Fagus remexeu em um cofre, de onde tirou uma lâmpada elétrica e substituiu a lâmpada incolor por uma vermelha.

— Ah! Isso é novo! — disse Arcier.

Recomeçou o exame a lente.

— Estou vendo — disse Fagus.

Respondeu-lhe um grito de alegria abafado.

Porém, ele prosseguiu:

—Vejo a imagem, em negativo. Um escotoma afeta a sua púrpura  retiniana. A luz — uma luz intensa — decompôs a macula lutea, o ponto sensível da sua retina, absolutamente como uma chapa fotográfica. Quero dizer: de uma maneira persistente. Porque, para que haja visão, é necessário que haja decomposição da púrpura. Somente no caso de uma visão comum, a púrpura se regenera instantaneamente; ao passo em que, no caso de um escotoma, fica decomposta algumas vezes por pouco tempo, algumas vezes...

— Algumas vezes para sempre. Sei! Mas diga: vê a imagem? Claramente?... Ah! Bendita seja esta luz vermelha! E abençoado seja o senhor!

— Extremamente curioso — murmurava Fagus. — Os seus olhos funcionaram exatamente como um binóculo estereoscópico. É uma perfeita imagem fotográfica... Vejo a curva de uma cortina levantada para um espaço brilhantemente iluminado. Vejo...

*

Não terminou.

O rei do papel escondia o rosto nas mãos.

Basta! Suplico-lhe. Não! Não! Cale-se!

A claridade vermelha emprestava-lhe uma lividez de cera.

Ele disse, ainda, em voz rouca:

"Ela" e "ele", o senhor e eu, somos os únicos a conhecer esta abjeção... Compreende agora que essa imagem precisa desaparecer, embora deva eu desaparecer com ela...

Fagus empurrou-o para fora da câmara escura. Depois, falou:

— Diga-me primeiro o que se passou logo após...

Ela fugiu — respondeu Arcier, desviando-se.

— Quero dizer: o que se passou com o senhor, logo depois da aparição.

—Ai! — disse o desgraçado num suspiro de alívio. — Eu caí como uma massa. Encontraram-me sem sentidos. Quando voltei a mim, no dia seguinte, a imagem estava lá. Ela ainda está...

— Depois?

— Procurei ocupar-me com os meus negócios, tomar a direção das minhas usinas... Mas a imagem, a imagem! Minha vista permanecia impregnada dessa infâmia! O mais horrendo instante do meu passado continuava presente para mim... Quis distrair-me. Lancei-me nas festas mais loucamente que nunca. Pratiquei os mais duros esportes... Porém, eu estava já gasto para tudo isto... E eis-me aqui. E estou só no mundo, com esta imagem no fundo dos olhos... Há treze meses ela não mudou. Está sempre do mesmo modo nítida. É de crer que, adiantando-me, vou poder tocá-la, segurá-la, bater-lhe!...

Arcier estendia as mãos vibrantes. Seus olhos secos refletiam uma dor aguda.

Peça-me tudo que quiser! — replicou ele. — Mas faça o impossível para apagar isto!

Fagus disse, como se não tivesse ouvido:´

Vamos ensaiar um tratamento. E tenho muita esperança.

— É verdade?

Arcier apertou os braços do doutor, que se desprendeu, mansamente.

Creio que o senhor encontrará a cura — disse ele. — Mas será preciso vir ao hospital onde dirijo o serviço de oftalmologia. Tenho lá uma instalação, um dispositivo idealizado por mim, que já me tem dado excelentes resultados, e que prepararei para o senhor, de uma maneira muito especial. Se quiser, começaremos amanhã.

— Ah, o mais cedo possível!

— Venha às dez horas. Reservarei ao senhor quarenta minutos pela manhã e à noite.

Durante quanto tempo?

Ah! Isto... 

O rosto de Arcier coloria-se de um desusado calor. Assim que ele partiu, Fagus seguiu para o hospital. No dia seguinte, um pouco antes das dez horas, uma limusine de um luxo sombrio e sóbrio parava em frente ao edifício. Dela desceu o rei do papel.

Depois de alguns minutos de espera no cubículo do porteiro, um interno de blusa branca veio procurá-lo.

— O doutor Fagus está às suas ordens — disse ele. — Faça o favor de seguir-me.

*

Ele guiou então o milionário pelos meandros do imenso estabelecimento, velho hospício quase abandonado, depois reconstruído segundo os princípios de higiene moderna. No caminho, desculpava-se o interno da vetustez do lugar: pátios sinistros, antigas galerias, corredores tristes.

A indigência pintava-se nos muros caiados.

Nas portas, alinhavam-se inscrições glaciais: termos patológicos, tabelas de serviço, nomes de médicos. Atravessavam enfermeiras. Era hora da visita. O cheiro dos antissépticos enchia a atmosfera. Cruzavam enfermeiras e freiras que iam à sua lida quotidiana. Arcier experimentava ali a sensação dos ricos, que são sempre desagradavelmente surpreendidos quando a ocasião lhes apresenta o lado coletivo na vida dos pobres. Ser doente à dúzia, tratado em grosa, morrer em série! Arcier estremecia.

— E pena que estejamos tão mal alojados — dizia o interno. — Estão uns sobre outros. O gabinete do doutor Fagus é inacreditavelmente apertado. O senhor vai ver a nova instalação, como é pequena e pouco cômoda! Separada do resto, além disto! É tempo de mudar-nos!... Chegamos.

Acabavam de entrar numa longa sala inteiramente branca, onde se alinhavam pequenos leitos de um e de outro lado, formando uma aleia, no fim da qual lia-se sobre uma porta, em gordas letras vermelhas, pintadas de fresco: "Oftalmologia", e, por baixo: “Doutor Fagus".

O interno bateu, e disse em voz alta:

— É o Sr. Arcier, doutor.

Daí a pouco a porta se abriu e Fagus, aparecendo, entregou ao interno uma mulher, cujos olhos estavam ocultos por uma atadura.

— Às suas ordens, senhor — disse o doutor.

Arcier viu-se então em uma câmara escura. Porém, esta diferia de todas as outras. Nesse cubo de um negro profundo, acreditava-se estar no interior de um aparelho fotográfico gigantesco: no meio da parede oposta à porta, uma espécie de reduto cilíndrico mergulhava na sombra como que para algum objetivo colossal.

A pedido de Fagus, o milionário colocou óculos verdes e sentou-se no centro da "cabine", em frente ao orifício do grande tubo. Fez-se a escuridão. Arcier, intrigado, cheio de esperança, esperava um ruído que lá, do fundo do tubo, revelasse... o quê? Fez-se ouvir, efetivamente, um ruído. E o que apareceu imediatamente foi um disco de brancura absoluta. Arcier, olhando por cima dos óculos, viu que na realidade esse disco era vermelho e de um vivo esplendor. Pensou: “os complementares”, e perguntou:

— Que luz é esta?

— É segredo por algum tempo ainda — respondeu Fagus. — Saiba somente que não são os raios visíveis que operarão... Continue a olhar pelos óculos.

Dez minutos depois, Fagus substituiu os óculos verdes por óculos azuis. O disco tornou-se então de um amarelo intenso. Mais tarde, os óculos foram vermelhos e o disco verde. E azul quando eles eram amarelos. E sempre, quaisquer que fossem as cores, Arcier viu o mesmo sol cândido onde se inscrevia a imagem impiedosa.

A primeira sessão acabou ao fim de três quartos de hora. Era este todo o tratamento a que Arcier devia submeter-se duas vezes por dia.

Ele voltou, portanto, à tarde. Conduziram-no ainda à porta da câmara negra. Porém, uma irmã inteiramente vestida de branco disse-lhe com uma angélica doçura:

— Não pode entrar agora, meu senhor. O doutor Fagus está ocupado com um outro cliente. E preciso esperar. O senhor pode ficar aqui. Não tenha receio, os nossos doentes não são contagiosos. São crianças escrofulosas. Quer uma cadeira?

Fred Arcier era desses reis a quem se não faz esperar. Um pouco aborrecido, aceitou a cadeira; e a freira deixou-o, com uma graciosa cortesia.

O milionário seguiu-a com o olhar. Ela ia de um a outro leito. Esses leitos não se moviam, e a tranquilidade da sala tornava-se emocionante quando se pensava que havia ali vinte criancinhas. Arcier tivera sempre horror às crianças por causa da sua turbulência. Ele não compreendia essa tranquilidade. Dormiriam?

Mas alguém, justamente, perturbou a calma. Elevou-se um gemido. A irmã acorreu, rápida. Arcier aproximou-se curioso, e viu então o que ele jamais vira: sofrer uma criança.

O pobre pequeno tinha um rosto muito abatido, muito magro; abria uns olhos imensos, de uma profundidade imaginável, e o sofrimento dava-lhe um ar tão grave, tão desesperado que, pesando o seu crânio, parecia alojar a alma de um velho carregado de experiência e de tristeza.

— Mamãe! — gemia ele.

Oh, esses pequenos inteiramente sós! Doentes e longe de suas mamães! A irmã, na verdade, fazia-se maternal como podia; dizia-lhes bonitas coisas ternas; acariciava-os gentilmente; mas os seus carinhos não deixavam de ser autoritários e, afinal, não era "mamãe", não é mesmo?

Então — dizia ela —, é ainda essa feia perna? Isso vai passar, vamos!... Como você é choramingas, Virgem Maria!

Mas o pequeno, chorando grandes lágrimas, não ouvia mais. Seu mal torturava-o e dava-lhe tais contrações que comoveriam o coração mais duro.

Oh, minha irmã!

Arcier observava essa dor com estupefação, como um prodígio detestável. Ele ali estava, com as mãos juntas...

Não é este o mais digno de lástima? O meus doentinhos interessam-lhe, senhor?

A criança acalmara-se. Arcier seguiu a religiosa, que continuava a sua ronda. Ela apresentou-lhe uma a uma as suas crianças. Todos, sem nada fazer, sem nada dizer, abriam para um mesmo sonho os olhos muito longos e muito pensativos. Alguns estavam irremediavelmente enfermos. Outros morreriam em breve. Pareciam saber disto e sonhar com as venturas que não conheceriam.

Com o coração repleto de compaixão, Arcier não ousava falar. Havia neles algo de divino que o intimidava. Que dizer, a esses pequenos, que fosse bastante suave, bastante belo, bastante grande?... Ah, ser rei de França, ao invés de ser “rei do papel”! Passar, passar diante deles abençoando-os com o sinal da cruz! Dizer: “O rei te abençoa, Deus irá curá-lo” e curá-los um pouco efetivamente, com uma palavra e com um gesto...

Repercutiu um chamado:

— Senhor Arcier, estou às suas ordens!

Arcier reconheceu a voz de Fagus.

— Dê-me licença, minha irmã — disse ele. — Até logo.

O disco de luz surgiu no fundo do tubo negro como um astro de safira. Na sombra azulada, Fagus surpreendeu um brusco movimento.

— Que há? — interrogou o ocultista.

Arcier só pôde falar no fim de um instante. A imagem tinha empalidecido.

No dia seguinte, Arcier foi mais cedo.

Carregava um grande saco de viagem.

Chamando a irmã confidencialmente, ele abriu o saco e a fez ver o que continha. A boa criatura ficou maravilhada.

— É muito belo, senhor! Como eles vão ficar felizes!

Efetivamente, foram quase todos felizes. Quando o milionário fez a volta da sala, cada um tinha recebido o seu brinquedo: esta uma boneca falante, este um boneco de engonço, aquele um cavalo coberto de pelo verdadeiro, aqueloutro livro de gravuras inteiramente douradas. E Arcier não se cansava de contemplar a transfiguração que acabava de operar e ouvia com embevecimento risos que trinavam.



*

Entretanto, umas crianças permaneciam indiferentes. Algumas delas manejavam o seu lindo brinquedo como se não compreendessem que ele era divertido. Outros davam a impressão de ser demasiado velhos para brincar. Outros, enfim, pareciam já saídos deste mundo e apenas distinguiam formas confusas.

Arcier foi à cabeceira de um deles. A criança, severa, virava, revirava e apalpava entre os dedos frágeis uma miniatura de moinho de vento. O pobre homem não sabia o que fazer para distraí-lo. Estava abatido também por esse respeito que tanto sofrimento lhe impunha. Tinha medo de não saber falar a essa criancinha tão fraca e tão venerável, e temia magoá-la, por descaso...

Arcier fez um grande esforço de memória, cobrou ânimo e disse:

— Era uma vez um moleiro...

A criança se pôs a considerá-lo atentamente. O narrador prosseguiu:

— ...um moleiro que só tinha por fortuna...

— ... um moinho, um burro e um gato! — disse por traz dele uma voz suave.

Arcier voltou-se e viu Fagui, que sorria.

— Vamos, senhor — falou ele —, continue o "Gato de Botas”! Quando terminar, venha procurar-me. Tenho tempo esta manhã.

Nesse dia, a imagem empalideceu mais ainda.

Passaram-se, assim, as semanas que seguiram. Arcier dividia em duas partes a sua estada no hospital: uma consagrada aos meninos doentes, outra ao seu tratamento.

Mas, em breve, a sua piedade transformou-se em caridade, exercendo-se sobre um raio maior. Das crianças estendeu-se a outros doentes, que ele quis visitar. E este homem, a quem o abismo de suplícios acabava de revelar-se, empenhava-se de toda a sua alma em socorrer tantas misérias.

Em resumo, ele tinha necessidade manifestar por atos o reconhecimento de que transbordava. Porque, dia a dia, a imagem maldita ia-se apagando. A luz do disco maravilhoso parecia consumi-la pouco a pouco. Ela desmaiava e se ensombrava progressivamente.

Dentro em pouco, era apenas s uma silhueta cinzenta cada vez mais diáfana e continuamente mais confusa. A hora em que o último vestígio se apagaria, como vela, um resto de fotografia numa chapa exposta ao sol, soaria. Em dados momentos — por exemplo, na iluminação comedida da sala dos pequenos, quando Acier lhes contava "Pele de Burro" ou a “Gata Borralheira” —, a imagem não era mais visível, e para revê-la era preciso que o milionário pensasse nela.

Ah, esses contos maravilhosos eram por vezes impotentes contra o sofrimento e o destino. Havia principalmente um menino que desolava Arcier. A esse, ninguém podia tirar do seu mutismo pungente. Nada, nem mesmo o suplício do curativo que dos vizinhos arrancava horríveis gritos. E Arcier, que se teria deixado crucificar para salvá-lo, apenas sabia tomar-lhe a mão e olhá-lo longamente, para provar-lhe bem que não estava só, e que havia alguém ali para socorrê-lo, e que o amavam ternamente.

Ora, aconteceu que, uma tarde, quanto a irmã renovava-lhe as compressas, o rei do papel, que lhe mantinha a mãozinha, via aumentarem-se e turvarem-se ainda mais os olhos do inocente mártir. A irmã, prática das cousas da morte, afastou-se imediatamente e benzeu-se. O homem, sobressaltado, interrogava-a com o olhar. Ela rezava. Arcier, tendo compreendido, não se movia, perdido na contemplação dos olhos embaciados. Um pesar infinito comprimia-lhe a garganta. Sentiu uma espécie de dor nas têmporas. Seu queixo se pôs a tremer. Sem abandonar a mão morta, ele apoiou a fronte no leito. Mas, como no dia do "Gato de Botas”, ouviu-se uma voz. Pobre pequeno!

Fagus tocou-lhe no ombro.

Acier ergueu-se, com um dedo na boca, mostrando ao médico as outras crianças. Tinha lágrimas nos olhos.

— Vem? — disse Fagus, indicando a câmara negra.

Então — e quando Fagus conta a história, afirma que nunca esquecerá isto, viva cem anos ou mais —, então viu Acier, com os olhos ainda banhados em pranto, esforçar-se por olhar no vácuo, como para procurar ali alguém que houvesse desaparecido por encanto. Enxugava os olhos, esfregava-os, batia rapidamente as pálpebras para aclarar a vista. Depois, voltava à fantástica inspeção. Acabou por voltar-se para Fagus. Ele assemelhava-se, não se sabe como, a um personagem de vitrail, um radiante miraculado.

Fagus estendeu-lhe a mão, sabendo o que acabava de se produzir.

—Ai! — murmurou ele. — As lágrimas, choradas ou não, está aí tudo! As lágrimas — objetou o milionário. — As lágrimas e sua luz misteriosa!

A irmã puxava o lençol sobre o pequeno cadáver.

—“Minha” luz, “Minha” luz.. — disse Fagus. — É “A Luz”, simplesmente.

 

Tradução de autor desconhecido.

Fonte: “Leitura para Todos”, edição de novembro de 1922.

 


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