ENTRE ANTROPÓFAGOS - Conto Clássico de Horror - J.-H. Rosny aîné



ENTRE ANTROPÓFAGOS

J.-H. Rosny aîné

(1856 – 1940)

 

— É certo — perguntou Larival no banquete dos exploradores — que a carne humana se assemelha simultaneamente à de vaca e de porco?

Deauville encolheu os ombros, como querendo significar que o ignorava; mas um senhor, de pele cor de azeitona e olhos de leopardo, respondeu:

— É certo! Mas, no gosto, se assemelha mais à do porco.

— Já o imaginava — observou Galard. — Era até capaz de apostar. Um homem nu e obeso se parece extraordinariamente com um porco rubicundo.

— Então, já comeu alguma vez carne humana? — perguntou Larival ao homem da cor de azeitona.

— Ah! E até com abundância — respondeu este. —Durante três dias, não comi outra coisa.

— Que asco!

— Não!... Nada disso... Pareceu-me até excelente... embora, sem dúvida, devido às circunstâncias. Mas queriam ouvir como foi. Suponho que nenhum dos senhores terá chegado às profundezas da Selva Vermelha, onde a vida e a natureza continuam como nos tempos pré-históricos... Os homens dessa região lavram e talham prodigiosamente a pedra, o marfim e a madeira... Seus costumes devem ter variado muito pouco desde quarenta mil anos... No começo, constituíamos a expedição seis europeus e doze nativos. Regressamos apenas eu e um destes, que, aliás, sobreviveu muito pouco... As privações que tivemos que sofrer! Animais, insetos, febres, fome...

“Três meses depois da nossa partida, éramos apenas quatro... meu companheiro de infância Langlebert, dois aborígenes e eu. Fomos então aprisionados por uma horda de antropófagos, que nos atormentaram horrivelmente. Mas as coisas não ficaram nisso. Muito pouco depois da captura, mataram Langlebert e um dos aborígenes. Puseram-nos algum tempo de molho num charco e os assaram e comeram ao sair da lua, após umas cerimônias da praxe. No dia seguinte, tocava-me a vez, juntamente com o outro nativo... Mas ninguém morre sem que Deus o queira. Meti fogo na choça do chefe e o incêndio se propagou pelo acampamento... Conseguimos escapar; mas, doze dias mais tarde, caímos em poder de outra horda de um povo diferente, inimiga feroz dos primeiros. Trataram-nos muito menos mal do que aqueles, e o seu chefe até se mostrou amistoso conosco, desde que, por meio de sinais, lhe demos a conhecer a nossa aventura, e, sobretudo, quando lhe indicamos o lugar em que se achavam os inimigos.

Servimos de guias aos guerreiros dessa tribo, os quais caíram de surpresa sobre os inimigos, matando inúmeros deles e fazendo cerca de trinta prisioneiros, homens e mulheres, sem contar as crianças...

A noite do encontro foi uma noite de festa grossa. Acenderam grandes fogueiras e puseram-se a assar seis prisioneiros. Meu companheiro e eu estávamos mortos de fome, uma fome feroz feita de cem fomes anteriores e aguçada durante os quatro dias transcorridos à procura do inimigo... Quando nos apresentaram meia perna de homem, bem dourada e tostada, da qual — sinto vergonha em dizê-lo — emanava um belo cheiro de assado, hesitei alguns momentos antes de tocá-la. No entanto, meu companheiro já se tinha atirado ao manjar, devorando a sua parte com um ar feliz...

Pensem, meus senhores, na vida que tínhamos levado; pensem que era sumamente perigoso para mim mostrar-me desdenhoso diante de uns hóspedes, tão benévolos até então, mas cujos instintos eram ferozes... Pensem, também, que os homens, cujos despojos nos eram servidos, tinham torturado de um modo implacável os nossos companheiros mortos... Pensem em tudo isso... E na fome que me roía literalmente as entranhas... E não devo omitir também certa desordem cerebral produzida pelos prolongados sofrimentos.

Ah! Sucumbi... com a carne... e devo confessar que me pareceu muito boa. Excessivamente boa! O difícil é começar. Uma vez que pecara nessa noite, pequei nos dias seguintes, porque a minha máquina humana sentia uma necessidade aguda de reparo. Mas, à medida que eu recobrava as forças, que o meu cérebro voltava à normalidade e minhas ideias se aclaravam, ia sentindo horror pelo que fizera, e acabei por aproveitar uma ocasião, fugindo com o meu companheiro.

O regresso foi horrível. Tivemos que suportar grandes privações antes de nos encontrarmos de novo entre gente civilizada. Mas, graças a Deus, não tornamos a comer carne humana. Lamentarei toda a vida ter infringido uma lei sagrada de nossa civilização; mas, acreditem-me, senhores, juízes equitativos teriam que reconhecer circunstâncias atenuantes a meu favor.

— Circunstâncias dirimentes, sem dúvida nenhuma — afirmou Larival.

 

Tradução de autor desconhecido.

Fonte: “Leitura para Todos”, edição de fevereiro de 1926.


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