A MORTE DO VELHO MENDIGO - Conto Clássico Cruel - Autor Anônimo do século XIX



A MORTE DO VELHO MENDIGO

Autor anônimo do século XIX

 

À porta de uma das igrejas de Paris, um velho mendigo, conhecido pelo nome de Jacques, vinha todos os dias, há muitos anos, sentar-se em um dos degraus do templo e receber a esmola.

Era triste e sombrio, quase nunca falava, e apenas inclinava a cabeça quando lhe davam alguma coisa. Por entre os andrajos que o cobriam, via-se pendente, ao peito, uma cruz dourada.

 Celebrava habitualmente nesta igreja um jovem eclesiástico chamado Paulin de ****, que nunca deixava de dar esmola ao pobre Jacques. Pertencendo a uma rica e nobre família, Paulin consagrara-se a Deus no sacerdócio, e espalhara todos os seus haveres pela pobreza. O velho Jacques, embora não o conhecesse, gostava muito dele.

Um dia, porém, o padre Paulin não viu no local de costume o pobre mendigo e, como observou esta ausência se prolongava, começou a inquietar-se com o destino do seu velho protegido, e tratou de saber onde ele morava para visitá-lo.

Um dia, depois de haver celebrado a santa missa, dirigiu-se à morada de Jacques.

Subiu uns poucos de lanços de escada e bateu à porta de uma mansarda. Uma débil voz lhe respondeu que entrasse.

O padre deu logo com Jacques. O mendigo estava deitado num pobre colchão de palha, doente, pálido, e a vista quase apagada...

— Ah, é o senhor, padre? — disse ele ao bom sacerdote, quando o viu. — É muita bondade sua visitar um miserável como eu, que não sou digno da sua visita.

— O que está dizendo, meu bom Jacques? — respondeu o Padre. Não sabe que o padre é o amigo dos desamparados? E, além disto — acrescentou ele, sorrindo —, não nos conhecemos há tanto tempo?

— Oh, se o senhor soubesse, padre... Se me conhecesse verdadeiramente, certamente não me falava assim. Não me fale com bondade. Sou um miserável amaldiçoado de Deus.

— Amaldiçoado de Deus?! Está certo disso? Ah, meu pobre Jacques, não fale assim. Se você tem feito mal, arrependa-se. Confesse. Ao contrário desse pobre pároco, Deus é a suma bondade. Ele perdoa tudo àquele que se arrepende e lhe pede perdão.

 — Mas a mim, não há de perdoar".

— E por que não? Não se arrepende de seus pecados?

— Se me arrependo!... — exclamou Jacques, com os olhos esgazeados, fazendo esforço para se sentar. — Se me arrependo!... Oh, arrependido estou eu há trinta anos, mas, ainda assim, sou amaldiçoado por Deus.

O bom padre procurou consolá-lo e animá-lo, mas foi em vão. Um mistério terrível estava escondido no fundo daquele coração, e a desesperança obstava a que o criminoso revelasse o seu crime.

O desgraçado Jacques, vencido finalmente pela doença e pela bondade do padre Paulin, decidiu revelar-lhe o seu segredo e, meio sufocado, proferiu as seguintes palavras:

— Eu era o mordomo do palácio de uma família rica quando rebentou a sanguinolenta revolução de 1789. Os senhores, a quem eu servia, eram a bondade personificada. O senhor conde, a senhora condessa, suas duas filhas e seu filho... Devia-lhes tudo, a minha posição, a minha educação, as comodidades de que eu gozava. Quando veio essa espantosa revolução, atraiçoei-os a todos. Estavam escondidos, e eu sabia onde... Denunciei-os para ficar com os seus bens, que eram prometidos aos denunciantes... Todos foram condenados à morte, exceto Paulin, que era um dos filhos., ainda muito pequenino...

O padre soltou, involuntariamente, um grito, e um suor frio lhe cobriu todo o rosto.

— Meu padre — continuou o velho mendigo, que não tinha dado pela emoção do seu confidente —, meu padre, isto é horrível... Ouvi condená-los à morte... Vi cair-lhes as cabeças sob o cutelo do carrasco. Sou um monstro, meu padre... Desde então, não tive mais sossego. Tenho passado a vida a chorar e a pedir por eles... Estou sempre a vê-los ali, diante de mim. Olhe, eles já estão detrás daquela cortina...

E, dizendo estas palavras, Jacques apontava com a mão trêmula para a cortina que ocultava a parede.

— Esse crucifixo, que aqui vê à minha cabeceira, era o do senhor conde; esta pequena cruz de ouro, que trago ao peito, era a que a senhora trazia sempre consigo. Oh, meu Deus, que crime, que horror... que arrependimento! Senhor padre, tenha compaixão de mim! Não me despreze! Peça a Deus pelo mais criminoso e mais desgraçado dos homens...

O padre estava de joelhos, junto da cama, pálido como um morto. Conservou-se imóvel cerca de meia hora imóvel. Depois, erguendo-se tranquilamente, fez o sinal da cruz e, levantando a cortina da parede, deu com dois retratos.

Jacques deu um grito quando os viu, e caiu desfalecido sobre a cama.

O padre estava chorando e, com uma voz trêmula, disse para Jacques:

— Deus está comigo para perdoá-lo.

E, sentando-se ao pé da cama, confessou o velho Jacques.

Acabada a confissão, proferiu o sacerdote as seguintes palavras:

— Jacques, Deus acaba de perdoar-lhe os pecados... Mas... ainda não é tudo... Devo dizer-lhe que você matou o meu pai, minha mãe e minhas irmãs.

Impossível descrever a impressão produzida por estas palavras no espírito do velho mendigo. Devia perdão não apenas a Deus, mas também àquele bom padre. Tentou articular algumas palavras, mas não conseguiu. Com extremo esforço, implorou o seu perdão com um olhar ansioso, quase desesperado, e um leve aceno de cabeça.

— Deus lhe perdoou; mas eu, não — disse o padre, secamente.

Depois, puxou-lhe o travesseiro puído e, com ele, lentamente o asfixiou.

 

Texto adaptado de autor e tradutor desconhecidos. Fontes: “Nouvelles Étrernes Fribourgeoises”, Fribourg, Suíça, 1869 e “Excelsior”, São Paulo, edição de outubro de 1944. 


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