ARSÈNE LUPIN E O MISTÉRIO DA TAPEÇARIA FURTADA - Conto Clássico de Mistério - Maurice Leblanc

 


ARSÈNE LUPIN E O MISTÉRIO DA TAPEÇARIA FURTADA

Maurice Leblanc

(1864 – 1941)

 

Há três anos, à chegada do trem vindo de Brest à estação de Rennes, encontraram demolida a porta de um vagão de carga fretado por um rico argentino, o coronel Sparmiento, que viajava com sua esposa no mesmo trem. O vagão violado transportava um opulento lote de tapeçarias. A caixa, que continha a mais valiosa peça, fora aberta e a tapeçaria desaparecera.

 O coronel Sparmiento apresentou queixa contra a Companhia da Estrada de Ferro e reclamou indenização pelos prejuízos consideráveis que sofrera, pois a perda dessa peça diminuía em muito o valor da coleção. A polícia prometeu tomar providências. A companhia ofereceu um prêmio importante a quem descobrisse o objeto roubado. Duas semanas mais tarde, uma carta mal fechada, aberta “por acaso” na repartição dos Correios, revelou que o roubo fora efetuado sob a direção de Arsène Lupin e que um importante volume, muito suspeito, partiria na manhã seguinte com destino à América do Norte. Na mesma tarde, descobriam a tapeçaria numa mala deixada em consignação na estação de Saint-Lazare.

O golpe falhara. Lupin sofreu tal decepção que exalou seu mau humor em uma mensagem dirigida ao coronel Sparmiento, com essas palavras suficientemente claras:

 

“Tive a generosidade de só retirar uma pequena parte do lote. Na próxima vez, lançarei mão dos doze volumes. Saudações.

A. Lupin.”

 

O coronel Sparmiento residia, havia já alguns meses, em um prédio situado no fundo de um pequeno jardim, no ângulo da Rua de la Faisanderie com a Rua Dufresneoy. Era um homem forte, de ombros largos, cabelos negros, tez morena e que se vestia com sóbria elegância. Desposara uma jovem inglesa extremamente bela, mas de saúde precária e a quem a aventura das tapeçarias afetara profundamente. Desde o primeiro instante, rogara a seu marido que as vendesse por qualquer preço, mas o coronel era de uma natureza enérgica e muito obstinado para ceder ao que tinha o direito de chamar um ‘capricho de mulher’. Não vendeu. Porém, multiplicou as precauções, cercando-se de todos os meios próprios para evitar o mais ousado roubo.

Primeiramente, para ter, apenas, que vigiar a fachada — a face que dava para o jardim —, mandou murar todas as janelas do andar térreo, que abriam para a rua Dufresnoy. Em seguida, solicitou o concurso de uma empresa especializada em segurança patrimonial e colocou, em cada janela da galeria onde as tapeçarias foram penduradas, aparelhos de alarme, invisíveis, cujo segredo somente o coronel conhecia, e que, ao menor contato, acendiam todas as lâmpadas elétricas da casa e faziam funcionar todo um sistema de campainhas.

As empresas de seguros, às quais se dirigiu, não consentiram em assegurar todo o lote a não ser que ele instalasse, à noite, no andar térreo de sua residência, três homens fornecidos por elas e pagos pelo coronel. Para esse fim, escolheram três antigos inspetores de segurança, veteranos no ofício, e aos quais Lupin inspirava ódio profundo.

Quanto a seus criados, o coronel os conhecia de longa data. Respondia por eles. Tomadas todas essas precauções, o coronel deu uma grande festa de inauguração de sua casa, para a qual foram convidados os membros de dois clubes dos quais era sócio, assim como grande número de senhoras da alta sociedade, jornalistas, amadores e críticos de arte.

Franqueado o portão, tinha-se a impressão de penetrar em uma prisão. Os três inspetores, postados no rés da escada, reclamavam os convites e observavam os recém-chegados com olhar inquisidor. Só faltava passar os convidados em revista e tomar-lhes as impressões digitais. O coronel, que recebia no primeiro andar, desculpava-se, rindo, feliz em poder explicar a razão de tanta cautela, que imaginava tomadas em prol da segurança de suas tapeçarias.

Sua esposa mantinha-se a seu lado, encantadora de juventude e de graça, loura, pálida, flexível, com um ar melancólico e meigo, esse ar de resignação dos seres aos quais o Destino ameaça.

Tendo os convidados chegado, fecharam o portão do jardim e as portas do vestíbulo. Depois, passaram todos para a galeria central, à qual se acedia por duplas portas blindadas e cujas janelas, munidas com enormes fechos, eram protegidas, além disso, por grades de ferro internas. Aí se encontravam os doze lotes de tapetes. Eram obras de arte incomparáveis que, inspirando-se na famosa tapeçaria de Bayeux, atribuída à rainha Matilde, representavam a história da conquista da Inglaterra. Encomendadas no século XVI pelo descendente de um homem de armas, que fora ajudante de campo de Guilherme, o Conquistador, e executadas por um celebre tecelão de Arras, Jehan Gosset, as tapeçarias tinham sido descobertas, quinhentos anos depois, no fundo de uma velha mansão da Bretanha. Avisado, o coronel arrematara o lote por apenas cinquenta mil francos. Os tapetes valiam vinte vezes mais.

Porém, a mais bela das peças da série, a mais original, fora exatamente a que Arsène Lupin roubara e a polícia conseguira recuperar. Representava Edith Swanneck — Edith Pescoço de Cisne [1] — procurando, entre os mortos de Hastings, o cadáver de seu bem-amado, Haroldo, o último rei saxão. Diante desse tapete — ante a beleza ingênua do desenho, os coloridos apagados, o agrupamento animado dos personagens e a tristeza terrível da cena —, os convidados se entusiasmaram. Edite Swanneck, a rainha infortunada, vergava o busto grácil, como um lírio a suportar um grande peso. Seu vestuário, todo branco, revelava seu corpo emagrecido. Suas longas mãos, finas, estendiam-se em um gesto de horror e de súplica. E nada mais doloroso melancólico que o seu perfil, seu desesperado e melancólico sorriso.

 — Sorriso pungente — notou um dos críticos, a quem ouviam com deferência. — Um sorriso cheio de encanto e que me faz pensar, coronel, no sorriso de Madame Sparmiento.

E como isso parecia justo, insistiu:

 —Há outros pontos de semelhança, que me chocaram imediatamente, como a curva graciosa da nuca, a delicadeza das mãos; e, também, qualquer coisa na silhueta, na atitude habitual.

— É bem verdade! —confessou o coronel. — Foi justamente essa semelhança o que me levou a arrematar todo o lote. E havia, mesmo, outra razão. É que, por coincidência verdadeiramente curiosa, minha mulher se chama, exatamente, Edith... Edtih Pescoço de Cisne, é como eu a chamo, desde então!

E acrescentou, rindo:

— Desejo que as analogias se detenham por aqui e que a minha querida Edith não tenha, como a pobre apaixonada da história, de procurar o cadáver de seu bem-amado.

 


 

Sorriu ao pronunciar essas palavras, mas seu sorriso não obteve eco na ocasião nem nos dias que se seguiram. Em todas as descrições e narrativas a respeito dessa elegante festa noturna, reinou a mesma impressão de aborrecimento e de silencio. Os assistentes não sabiam o que dizer. Alguém quis gracejar:

— Você, ao menos, não se chama Haroldo, coronel?

— Ah, não! — declarou ele alegremente. — Nem mesmo me pareço com o rei saxão.

Todo o mundo, depois, foi de acordo em afirmar que, nesse momento, quando o coronel terminava sua frase do lado das janelas (se a da direita ou a do meio, as opiniões variavam sobre esse ponto), houve um primeiro toque de campainha, breve, agudo, sem modulações. Esse toque foi seguido de um grito de terror, saído da garganta de Madame Sparmiento, agarrando nervosamente o braço de seu marido. Este exclamou:

—Que foi? Que significa isso?

Imóveis, os convidados olhavam para as janelas. O coronel repetiu:

 — Que foi? Não compreendo... Somente eu conheço o local do quadro de campainhas...

E, no mesmo instante — também sobre esse ponto as testemunhas eram acordes —, a mais completa escuridão reinou na casa e, imediatamente, em toda a casa ecoou o barulho infernal produzido pelas sirenes.

Durante alguns segundos, foi uma desordem incontrolável, um terror louco. As mulheres vociferavam. Os homens esmurravam as portas fechadas. Houve empurrões violentos, lutas mesmo. Muitos caíram e foram pisados. Dir-se-ia uma multidão enlouquecida de terror ante a ameaça das chamas ou da detonação dos obuses. E, dominando o tumulto, ouvia-se a voz do coronel, que vociferava:

—Silêncio! Não se mexam! Respondo por tudo! O interruptor fica ali, naquele canto... Cá está!

De fato, tendo aberto caminho através dos convidados, chegou ao ângulo da galeria e, subitamente, a luz elétrica jorrou de novo, enquanto cessava o toque ensurdecedor das sirenes.

Então, na claridade brusca, um estranho espetáculo surgiu. Duas senhoras tinham perdido os sentidos. Sustentada pelo braço de seu marido, lívida, Madame Sparmiento parecia morta. Os homens, pálidos, com a gravata desfeita, pareciam combatentes.

—As tapeçarias estão intactas! — gritou alguém.

Alguns quadros, suspensos às paredes, também continuavam a ornamentar a sala e, embora o barulho infernal enchesse toda a casa, embora as trevas reinassem por toda parte, os inspetores não tinham visto ninguém entrar.

— De resto — disse o coronel —, somente as janelas da galeria são munidas de campainhas e esses aparelhos, cujo segredo só eu conheço, não estavam preparados para funcionar agora.

Riu-se muito do alarme e seus efeitos, porém ria-se sem convicção. E todos tiveram o mesmo pensamento: deixar aquela casa onde se respirava, apesar de tudo, uma atmosfera de inquietação e angústia.

Dois jornalistas, entretanto, permaneceram ainda algum tempo e o coronel juntou-se a eles, depois de ter tranquilizado Edith, que se recolheu a seu quarto, onde a deixou aos cuidados da criada. Juntos, os três, acompanhados pelos detetives, empreenderam uma investigação que não produziu a descoberta do mais insignificante detalhe. Depois — exatamente duas horas e quarenta e cinco minutos da madrugada —, os jornalistas se retiraram. O coronel voltou a seus aposentos e os detetives se retiraram para o quarto que lhes fora destinado no andar térreo. Cada um, por sua vez, montou guarda, fazendo de vez em quando uma ronda pelo jardim e subindo até a galeria.

Isso foi pontualmente executado, salvo de cinco horas às sete da manhã, quando o sono importuno acabrunhou o vigia de guarda. Porém, lá fora, o dia já era completo e, ao menor chamado das campainhas, todos seriam facilmente despertados.

 No entanto, às sete horas e vinte, quando um deles abriu a porta da galeria e afastou as cortinas, verificou que as doze tapeçarias tinham desaparecido.

Mais tarde, censuraram esses três homens por não haver dado o alarme imediatamente, iniciando, sozinho, investigações, antes de prevenir o coronel e de telefonar para a polícia.

Mas em que esse atraso entravou a ação da polícia?

Seja como for, somente às oito horas e meia o coronel foi avisado do furto. Já estava já vestido e se dispunha, pois, a sair. A notícia não pareceu emocioná-lo ou, pelo menos, ele soube conter suas manifestações. Porém, o esforço devia ter sido muito grande, porque, bruscamente, caiu sobre uma cadeira e abandonou-se, por alguns instantes, a um verdadeiro acesso de desespero, bastante penoso de ver em um homem de aparência tão enérgica. Acalmando-se, afinal dirigiu-se à galeria, olhou para as paredes nuas, depois sentou-se diante de uma mesa e rabiscou rapidamente uma carta, que meteu em um envelope e fechou cuidadosamente.

— Tomem isso — disse ele. —Tenho que ir a... um encontro urgente... aqui está essa carta para o comissário de polícia.

E porque os inspetores o observavam um pouco surpreendidos, ele acrescentou:

— É minha impressão sobre o roubo... Uma suspeita, que me veio... Ele saberá agir de acordo... Quanto a mim, não descansarei enquanto não desvendar tudo.

E partiu, quase correndo. Pouco depois, o comissário chegava. Entregaram-lhe a carta. Continha estas palavras:

 

“Estou sem recursos há mais de um ano. Eu comprei essas tapeçarias por especulação, esperando vendê-las por um milhão de francos, graças ao burburinho que era feito em torno delas. Já havia recebido, de um norte-americano, uma oferta de seiscentos mil francos. Seria a salvação. Agora, estou perdido...

Que minha adorada esposa perdoe o desgosto que lhe vou causar. Até o último instante, seu nome estará sobre meus lábios.”

Preveniram Madame Sparmiento.

Enquanto empreendiam buscas e tentavam descobrir o coronel, ela esperou, trêmula de horror. Cerca de quatro horas da tarde, receberam um telefonema de Ville-d'Avray. À subida de um túnel, após a passagem de um trem, havia sido encontrado, pelo sinaleiro da companhia férrea, o corpo de um homem horrivelmente mutilado, e cuja fisionomia nada mais tinha de humana. Os bolsos não continham documento algum. Porém, os poucos sinais correspondiam aos do coronel Sparmiento.

Às sete horas, Madame Sparmiento, levada à Ville-d'Avray, reconheceu seu marido.


 

 

Nessa circunstância, Lupin, segundo a expressão habitual, não teve a imprensa de seu lado:

 

“Que Lupin se precavenha! — escreveu um cronista irônico, que resumia bem a opinião geral. — Não serão necessárias muitas histórias iguais a essa para fazê-lo perder toda a simpatia, que não lhe regateamos até agora. Lupin só é aceitável se suas pilhérias são feitas em prejuízo de banqueiros suspeitos, barões ricos, sociedades financeiras e anônimas... E, principalmente, não deve matar! Mãos de ladrão, bem! Mãos de assassino, não! Ora, se não matou verdadeiramente, não deixa de ser o responsável por essa morte. Cobriu-se de sangue. As armas de seu brasão ficaram rubras.”

 

A cólera e a revolta pública aumentavam pela piedade que inspirava a pálida fisionomia de Edith. Os convidados da véspera falaram. Foram citados os detalhes impressionadores da festa e logo se formou uma lenda em torno da loura criatura, uma lenda à qual emprestavam o caráter verdadeiramente trágico e fatal da aventura popular da rainha do Pescoço de Cisne...

E, no entanto, não era possível deixar de admirar a extraordinária habilidade com que o roubo fora executado. A polícia tentou explica-lo do seguinte modo: "os detetives haviam verificado, desde logo — e firmado muito depois —, que uma das três janelas da galeria estava aberta de par em par; ora, nessas condições, era evidente que Lupin e seus cúmplices se tinham introduzido ali por essa janela."

Mas, como haviam podido: 1.°) - franquear a grade do jardim, ida e volta, sem serem vistos?; 2.º) - atravessar o jardim e encostar uma escada à platibanda, sem deixarem o menor vestígio?; 3.°) - abrir os fechos e a própria janela, sem fazerem funcionar as campainhas e as luzes?

O público, naturalmente, acusou os três detetives. O juiz de instrução interrogou-os longamente, fez uma investigação minuciosa sobre a vida privada de cada um deles e declarou que eles estavam acima de qualquer suspeita.

Quanto às tapeçarias, nada deixava esperar que fossem recuperadas.

Foi então que o inspetor principal Ganimard voltou das profundezas das Índias, onde, baseando-se em uma série de provas irrefutáveis, que lhe haviam sido fornecidas por antigos cúmplices de Lupin, seguira a pista do célebre ladrão. Enganado mais uma vez por seu eterno adversário e supondo que este o fizera ir ao Oriente afim de ficar livre em Paris e poder roubar as tapeçarias, pediu a seus chefes uma licença de quinze dias, apresentou-se na casa de Madame Sparmiento e prometeu-lhe vingar seu marido.

Edith estava nesse estado em que a ideia da vingança não aliviava a dor que nos tortura. Na mesma tarde do enterro, despedira os três criados — o luzido pessoal que lhe recordava cruelmente o passado — e substituíra.

Indiferente a tudo, fechada em seu quarto, deixava Ganimard livre para agir como bem entendesse.

Este, pois, instalou-se no andar térreo e entregou-se às investigações mais minuciosas. Ao fim de quinze dias, pediu prorrogação de sua licença. O chefe da Polícia de Segurança, que era então o Sr. Duduis, foi visitá-lo e surpreendeu-o no alto de uma escadinha de mão, na galeria vazia. O inspetor principal confessou a inutilidade de suas pesquisas. Porém, na manhã seguinte, o Sr. Duduis, passando novamente por lá, encontrou Ganimard pensativo, com um rolo de jornais sobre os joelhos...

 

 


Interrogado pelo chefe da Polícia de Segurança, murmurou:

—  Não sei, chefe... É uma ideia que me veio... Mas, é tão absurda! De resto, não explica tudo. Ao contrário, embaralha as coisas ainda mais!

—Então?

—Por favor, chefe, tenha um pouco de paciência... Deixe-me agir. Mas se, de repente, um dia desses, eu lhe telefonar, será preciso tomar um automóvel e não perder um minuto... Isso significará que o mistério foi desvendado.

Passaram-se ainda quarenta e oito horas. Uma manhã, o Sr. Duduis recebeu um telegrama:

 

“Vou a Lille. - Ganimard.”

 

— Que diabos irá ele fazer em Lille? — murmurou o chefe da Segurança.

O dia se passou sem notícias. E mais um outro.

Porém, o chefe tinha confiança. Conhecia Ganimard e não ignorava que o velho policial não era desses que se entusiasmam sem razão. Se Ganimard agia, era porque tinha motivos sérios para isso.

De fato, na noite desse segundo dia, o Sr. Dudouis foi chamado ao telefone.

— É o senhor, chefe?

— É você, Ganimard?

Homens cautelosos, ambos se asseguraram, primeiro, que não se enganavam sobre a identidade um do outro.

Ganimard continuou, agora apressado:

—Mande-me dez homens imediatamente. E venha o senhor também. Por favor!

— Onde está você?

—Ora... Na casa! No andar térreo. Mas eu o esperarei por trás do gradil do jardim.

—Estou indo...

—Sim... Mande o automóvel parar a cem passos. Uma ligeira buzina e eu abrirei...

As coisas foram feitas segundo as prescrições de Ganimard. Pouco depois de meia-noite, como todas as luzes estavam apagadas nos andares superiores, ele esgueirou-se para a rua e foi ao encontro do Sr. Duduis. Houve um rápido conciliábulo. Os agentes obedeceram às ordens de Ganimard. Depois, o chefe e o inspetor principal voltaram juntos, atravessaram sem ruído o jardim, fechando-se com grandes precauções.

 — Então? — disse o Sr. Duduis.

Ganimard sorria. Nunca seu chefe o vira em um tal estado de agitação e o ouvira falar com voz tão precipitada.

— Sim, chefe, desta vez... Custa-me acreditar! Palavra! Mas não estou enganado... Não pode ser...

Enxugou as gotas de suor que banhavam sua fronte e, como o Sr. Duduis o interrogava novamente, ele dominou-se e começou:

 —Lupin já me tem pregado umas boas...

 — Diga, Ganimard — interrompeu o Sr. Duduis —, não será melhor ir diretamente ao que nos interessa? Em duas palavras, que há?

— Não, chefe — objetou o inspetor principal. — É preciso que o senhor conheça as diferentes fases por onde passei. Desculpe-me, mas julgo tudo isso indispensável.

E repetiu:

— Como dizia, Lupin pregou-me umas boas... Mas, nesse duelo, em que sempre fui derrotado até hoje, ao menos ganhei experiência e fui conhecendo o homem e sua tática. Ora, no que diz respeito ao roubo das tapeçarias, fui logo levado a fazer a mim mesmo duas perguntas. A primeira é esta: Lupin, hábil como é, sabia que o Sr. Sparmiento estava arruinado e que o desaparecimento das tapeçarias iria levá-lo ao suicídio. Ora, Lupin tem horror a sangue. Como, pois, resolveu roubá-los?

— Ora, a tentação dos quinhentos ou seiscentos mil francos que elas valiam— observou o Sr.Duduis.

— Não, chefe, por nada neste mundo, mesmo por milhões. Lupin não mata. Nem mesmo deseja ser a causa de uma morte. Eis o primeiro ponto. E o segundo é este: por que esse barulho infernal, na véspera, à noite, durante a festa de inauguração da galeria? Evidentemente, não seria para atemorizar, para criar em torno do caso, e em poucos minutos, uma atmosfera de inquietação, de terror e, finalmente, para desviar as suspeitas de uma verdade que, talvez, fosse suspeitada sem isso? Não compreende, chefe?

— Não. Palavra que não!

— Sim... — concordou Ganimard. — Não está claro... Eu mesmo, ao formular essas perguntas, não compreendia bem. No entanto, tinha a impressão de estar seguindo uma boa pista. Sim, era fora de dúvida que Lupin queria desviar as suspeitas... desviá-las... sobre si mesmo! A fim de que a criatura que dirigia a operação permanecesse conhecida.

— Um cúmplice? — insistiu o Dr. Dudis. — Um cúmplice que, entre os convidados, fez funcionar as campainhas... e, à saída da festa, pôde dissimular-se em algum canto da casa.

—Isso... isso... Está esquentando, chefe! É bem verdade que, se as tapeçarias não poderiam ter sido furtadas por alguém que se introduziu sub-repticiamente na casa, o foram por alguém que permaneceu no interior da casa; e não menos certo que, examinando a lista de convidados e procedendo a um verdadeiro inquérito sobre cada um deles, seria possível!...

—Então?

— Infelizmente, há um “mas”, chefe. É que os treze detetives tinham a lista dos convidados e quando estes saíram conferiram essa lista. Ora, sessenta e três convidados tinham entrado e sessenta e três saíram. Portanto...

— Algum criado?

— Não.

 — Os próprios detetives?

— Também não.

— Mas... com mil raios! — exclamou o chefe com impaciência. — Se o roubo foi perpetrado no interior...

 — Isso é coisa fora de dúvida — afirmou o inspetor, cujo nervosismo parecia crescer. — Todas as minhas investigações chegaram a essa certeza. E minha convicção aumentava tanto que cheguei a formular esse axioma espantoso: “Em teoria e em fato, o roubo só pôde ter sido executado com o auxílio de um cúmplice, residente na casa”. Ora, não houve cúmplice.

 — Isso é absurdo! — disse o Sr. Duduis.

— De fato — concordou Ganimard. — Porém, no instante em que pronunciei essa frase absurda, a verdade surgiu inteira! Oh!... Uma verdade bem obscura, bem incompleta, mas suficiente! Com esse fio condutor, eu poderia ir longe.

O Sr. Duduis manteve um silencio prudente. O que acontecera com Ganimard ocorria com ele. Murmurou, finalmente:

 — Se não foi nenhum dos convidados, nem os criados, nem os detetives, não resta mais ninguém.

—Sim, chefe, ainda há uma pessoa.

O chefe estremeceu, como se recebesse um choque, e, com voz que traía toda sua emoção, murmurou:

Impossível! Oh! Será quê...? Não!

— Por quê?

— Impossível! O próprio Sparmiento cúmplice de Lupin?

— Perfeitamente. Cúmplice de Arsène Lupin. Assim tudo se explica! Durante a noite e enquanto quanto os três detetives vigiavam em baixo — e, depois, dormiam, porque o coronel os fizera beber champagne com muito narcótico —, o próprio Sparmiento roubava as tapeçarias e as fazia passar pela janela de seu quarto, no segundo andar, que dá frente para outra rua, e não era vigiada, posto que as janelas inferiores tinham sido muradas.

O Sr. Duduis refletiu um instante; depois, ergueu os ombros:

— Inverossímil! — exclamou ele.

— Por quê?

— Ora, que por quê! Se o coronel fosse cúmplice de Lupin, não se teria suicidado, depois de realizado o roubo.

E quem lhe diz que ele se matou?

— Oh! Encontraram seu cadáver!

Com Lupin, repito, nunca há morte!

Mas esta foi real. De resto, Madame Sparmiento reconheceu o cadáver.

Eu contava com essa sua resposta, chefe! Também esse argumento me desanimava. Repentinamente, em vez de um indivíduo, eu tinha três diante de mim: 1 °) - Arsène Lupin, ladrão; 2.°) - Seu cúmplice, o coronel Sparmiento; 3°) - Um morto! Era muita coisa! E, por isso mesmo, mais fácil para se estudar!

Ganimard apanhou o rolo de jornais, desatou o laço que os prendia e apresentou um deles ao Sr. Duduis, que leu, em voz alta:

 

“Um fato insólito é assinalado por nosso correspondente, em Lille. Do necrotério dessa cidade desapareceu o cadáver de um desconhecido, que se lançara, na véspera, de um viaduto, sob as rodas de um trem. Várias hipóteses foram formuladas sobre esse desaparecimento”.

 

O Sr. Duduis ficou pensativo; depois, perguntou:

Então... Você acredita?

—Cheguei hoje de Lille — respondeu Ganimard — e minhas investigações não deixam subsistir qualquer dúvida a esse propósito. O cadáver foi retirado na mesma noite em que o coronel dava sua festa de inauguração. Transportado em automóvel, foi conduzido diretamente a Ville-d'Avray, onde o automóvel se deteve, permanecendo até noite fechada junto do leito da estrada de ferro.

— Junto do túnel, portanto — concluiu o Sr. Duduis.

— Ao lado, chefe.

— De sorte que o cadáver encontrado, agora, é o do desconhecido de Lille, com as roupas do coronel Sparmiento?

— Exatamente, chefe!

— Então, o coronel está vivo?

— Como o senhor ou eu, chefe!

—Mas, então, por que todas essas aventuras? Por que esse roubo de uma só tapeçaria, sua restituição e, em seguida, o roubo das doze? Por que essa festa de inauguração e todo esse fragor infernal? Qual, Ganimard! Você ainda não acertou com a "coisa”!

— O senhor diz isso, porque, como eu, parou no meio do caminho, à vista da natureza bizarra de toda a trama. Vá mais longe! Lembre-se de que se trata de Lupin! Com ele, devemos esperar o inverosímil, o inacreditável! Devemos, sempre, seguir a hipótese mais bizarra, mais louca! Quando digo "louca”, a palavra não é justa. Tudo isso, ao contrário, é de uma lógica admirável, de uma simplicidade infantil. Cúmplices? Poderiam trair! Cúmplices? Para quê? É mais cômodo e natural agir em pessoa, com suas próprias mãos, com seus próprios recursos

— Que diz? Como diz? — exclamou o Sr. Duduis, com um espanto que crescia a cada nova exclamação.

Ganimard riu:

— Isso o assombra, hein, chefe? A mim também, desde o dia em que o senhor me encontrou sentado no alto da escada portátil. Estava embrutecido pela surpresa. E, no entanto, já conheço o homem e seus processos. Sei de que é capaz...

— Impossível! Impossível! — repetia o Sr. Duduis, em voz baixa.

— Muito possível, ao contrário, chefe! Muito lógico e normal. Trata-se da tríplice encarnação de um mesmo indivíduo! Uma criança resolveria o problema num minuto pelo processo de eliminação. Suprime-se o morto, ficam Sparmiento e Lupin. Suprime-se Sparmiento.

— Resta-nos Lupin — murmurou o chefe da Segurança.

— Sim, chefe. Lupin desembaraçado de seu aspecto de coronel argentino, ressuscitado dentre os mortos; Lupin viajando pela Bretanha e informado da descoberta das tapeçarias e comprando-as; depois, combinando o roubo da mais bela, para chamar a atenção sobre sua pessoa de estrangeiro rico. E cria, com escândalo, o duelo entre Lupin e Sparmiento; realiza a festa de inauguração, atemoriza seus convidados e, quando tudo fica pronto, rouba, como Lupin que é, as doze tapeçarias de Sparmiento e desaparece sob essa personalidade, chorado pelos amigos, e deixando atrás de si para receber o seguro das tapeçarias...

Ganimard deteve-se, fitou o chefe bem nos olhos e, num tom que sublinhava a importância de suas palavras, terminou:

—Deixando atrás de si uma viúva inconsolável!

— Madame Sparmeinto! Então, acredita que...

— Ora! — exclamou o inspetor principal. — Não se prepara toda uma trabalhosa comédia como essa sem ter algum objetivo: lucros sérios da venda das tapeçarias. Muito bem! Mas essa venda o próprio coronel Sparmiento poderia efetuá-la com maior vantagem... Há coisa melhor!

— O quê?

—Então, chefe, já esqueceu que Sparmiento foi vítima de um roubo importante? Sua viúva receberá a importância dos seguros.

O Sr. Duduis ficou de boca aberta. Toda a trama surgia diante de seus olhos, com seu verdadeiro significado. Ele murmurou:

— É verdade... Sim! De suas tapeçarias.

— E por bom dinheiro!

— Quanto?

—Oitocentos mil francos!

— Oito cen...?

— Perfeitamente! Em cinco companhias diferentes.

— E Madame Sparmiento recebeu a indenização?

—Recebeu, ontem, cento e cinquenta mil. E duzentos mil hoje. O resto será pago ao longo desta semana.

O chefe da Segurança curvou a cabeça e se manteve calado, por algum tempo. Depois, balbuciou:

—Que homem! Irra!

Ganimard concordou:

— Sim, chefe; um patife, mas prodigioso! Para que seu plano fosse coroado de êxito, era preciso agir de tal modo que, por quatro ou cinco semanas, ninguém pudesse conceber a menor dúvida sobre o papel do coronel Sparmiento. Era preciso que toda a cólera da polícia e a antipatia do público se concentrassem sobre Lupin. Era necessário que, de tudo isso, apenas restasse uma viúva dolorosa, arruinada, a pobre Edith Pescoço de Cisne... uma lendária e graciosa visão. Eis o que ele concebeu... e realizou!

O chefe perguntou:

—Quem é essa mulher?

—Sonia Krichnoff. Sim, a russa que eu prendi no ano passada, por ocasião do roubo do diadema, e a quem Lupin conseguiu dar fuga...

—Tem certeza?

—Toda certeza. Enganado, como todo mundo, pelas maquinações de Lupin, eu não lhe prestara atenção, até que desvendei o papel que agora estava representando. O resto foi fácil. Trata-se de Sonia, a mais perigosa e ingênua das atrizes, a serviço de Lupin. Sonia, que, por amor de Lupin, não hesitaria em se fazer matar.

— Boa presa, Ganimard.

— Tenho coisa melhor a lhe oferecer, chefe!

— O quê?

— A velha ama de Lupin.

— Victoria?

— Sim está aqui, desde que Madame Sparmiento "ficou viúva". É a cozinheira!

— Oh, oh! — exclamou o chefe. —Meus cumprimentos, Ganimard!

— E ainda tenho coisa melhor, chefe!

— Que quer dizer?

— Julga que eu o teria incomodado a tal hora da noite se apenas se tratasse dessas presas? Sonia e Victoria. Ora, esperaria, ao menos, que amanhecesse...

— Então? — murmurou o chefe da Polícia de Segurança, que começava a compreender toda a agitação do inspetor principal. — Ele está aqui?

— Sim...

— Escondido?

— Não, apenas dissimulado. É o criado.

Desta vez, o chefe não fez um gesto, não disse uma palavra. A audácia de Lupin o confundia.

— A presença do chefe era indispensável. E ele teve o topete de voltar. Há três semanas que assiste às minhas investigações e vigia, tranquilamente, os meus progressos.

—Você o reconheceu?

— Reconhecer Lupin? É impossível. É um verdadeiro mestre em caracterizações. De resto, eu estava longe de imaginar que ele... Hoje, à tarde, eu espreitava Sonia, protegido pela sombra do vão da escada, e ouvi Victoria falando com o criado e chamando-o “meu filho”. Ah, então compreendi tudo! “Meu filho”... É assim que Victoria chamava Lupin.

Por sua vez, o chefe sentia-se emocionado pela presença do inimigo tantas vezes perseguido e nunca dominado.

— Nós o apanhamos desta vez... — disse ele, surdamente. — Não poderá escapar.

— Não, chefe. Nem ele, nem as mulheres...

— Onde estão elas?

— Sonia e Victoria estão no segundo andar; Lupin, no terceiro.

— Mas — observou o chefe da Segurança, com uma inquietação repentina — não foi exatamente pelas janelas desses quartos que as tapeçarias... voaram?

— Sim.

— Neste caso, ele pode fugir também por ali. Essas janelas dão para a rua Dufresnoy?

—Sim, chefe. Mas tomei minhas precauções. Desde que o senhor chegou, mandei quatro homens para a rua Dufresnoy. A ordem é formal; se alguém aparecer e tentar descer, devem fazer fogo. O primeiro tiro para o ar... Os seguintes...

—Bravo, Ganimard. Você pensou em tudo. Vamos esperar amanhecer e....

— Esperar, chefe? Ah, não! Ele teria tempo para empregar uma de suas artimanhas. Não! Ele está aqui. Vamos agarrá-lo imediatamente.

Ganimard, trêmulo de impaciência, saiu, atravessou o jardim e fez entrar meia dúzia de policiais. A operação foi rápida. Armados com seus brownings, os oito homens subiram as escadas, sem grandes precauções, cheios de pressa por encontrar Lupin, antes que ele pudesse organizar a defesa.

— Abram! — gritou Ganimard, indicando a porta do quarto de Madame Sparmiento.

Com um embate de ombros, um agente derrubou essa porta. Nesse quarto, ninguém; no quarto de Victoria, ninguém, igualmente.

— Estão lá em cima! — gritou Ganimard. — Juntaram-se a Lupin, na mansarda. Atenção!

E, correndo, subiram ao terceiro andar. Com grande surpresa, Ganimard encontrou a porta aberta. A mansarda estava vazia!

— Demônios! — gritou ele — Que foi feito dele?

Porém, o chefe chamava-o. O Sr. Duduis descera ao segundo andar e verificara que uma das janelas estava apenas encostada.

— Veja! — disse ele a Ganimard — Aqui está por onde fugiram. O mesmo caminho das tapeçarias. Eu bem dizia...

— Mas — protestou Ganimard, que rilhava os dentes de furor — a rua estava e está vigiada!

— É que fugiram antes de minha chegada.

— Estavam todos três no quarto de Sonia quando lhe telefonei, chefe!

— Então, deram o fora quando você foi a meu encontro no jardim.

— Mas por quê? Por que haviam de fugir sem a menor razão? Por que hoje e não amanhã, na próxima semana, depois de receber o último pagamento do seguro?

*

 


 

Mas havia uma razão e Ganimard a conheceu quando viu, sobre a mesa, uma carta com seu nome. Abriu-a e leu o que nela se continha. Estava em forma de certificado que se dá aos criados que se despedem:

 

“Eu, abaixo assignado, Arsène Lupin, cavalheiro-ladrão, ex-coronel, ex-criado, ex-cadáver, certifico que o policial amador Ganimard deu provas, durante sua permanência em minha casa, de notáveis qualidades. De conduta exemplar, dedicado, atencioso, conseguiu, sem o auxílio de indício algum, desvendar parte de meus planos e salvar quatrocentos e cinquenta mil francos das várias companhias de seguros. Felicito-o e desculpo-o por não haver previsto que o telefone do andar térreo se comunica com outro, instalado no quarto de Sonia Krichnoff e que, telefonando ao digno chefe da Polícia de Segurança, telefonou ao mesmo tempo para mim. Erro importante, mas que não diminui seu mérito de detetive iluminado. Peço-lhe, portanto, que aceite a homenagem de minha admiração e de minha simpatia.

Arsène Lupin.”

 

 

Tradução de autor desconhecido.

Fonte: “Eu Sei Tudo”, edição de fevereiro de 1930.

  


[1] Edith Swannesha (c. 1825 – c. 1086) ou Edith Swanneck (que significa Pescoço de Cisne) foi a primeira esposa (ou amante) de Haroldo II da Inglaterra. Reza a lenda que foi Edith SwannecK quem identificou o corpo do rei, terrivelmente mutilado, após a batalha de Hastings, travada em 14 de outubro de 1066.

 


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