UM CORAÇÃO DE OURO - Conto de Terror - Ângelo Brea

 



UM CORAÇÃO DE OURO

Ângelo Brea

 

 

– Como te chamas? – perguntou-me com uma voz totalmente encantadora, quando estávamos aguardando a que nos trouxessem os livros que tínhamos pedido.

– Lilith – respondi.

   O rapaz olhou para mim e um leve rubor tingiu as suas bochechas. Ficara atrapalhado. Talvez nunca tivesse ouvido um nome como o meu ou talvez as mulheres o pusessem nervoso. Pareceu-me, no entanto, que se recuperava com rapidez. Olhou para mim e fez um gesto com a boca que simulou um sorriso.

– Que estudas? – insistiu. 

– Estou em primeiro curso. Estudo Filologia Inglesa – respondi.

– Ah. Eu estou também em primeiro. Estudo Filologia Hispânica.

   Olhei outra vez para ele. Era um rapaz encantador, mas deu-me a impressão que não tinha experiência com as mulheres. Parecia tímido. Mas bom, era unicamente a primeira impressão.

– E tu, como te chamas?

– Eu? Miguel Ângelo.

   Pareceu-me um bonito nome. Um nome de artista. Por um momento deixei de olhar para ele e percorri com a olhada a grande Sala de Leitura da Biblioteca. Havia livros nos estantes, cobrindo todas as paredes, mas era apenas uma ínfima quantidade dos milheiros e milheiros de livros que entesourava a Faculdade.

   Quase ao fundo da parede, onde se agrupavam os grandes volumes com os dicionários das diferentes línguas que se estudavam na Faculdade e todas as enciclopédias, estava a varanda onde dois solícitos bibliotecários entregavam com prontidão os livros que alunos como nós lhes solicitávamos continuamente.

   Na parede contígua àquela na que agora nos encontrávamos, havia uma seção que continha os livros de uso mais comum, que já nem se levavam ao depósito, para facilitar a sua consulta pelo alunado da Faculdade. Quando queríamos algum livro, naquela seção encontrávamos a maior parte, e o melhor era que podias procurar um, pegar nele e ir com o livro à varanda, para pedi-lo em empréstimo durante uma semana.

   Levávamos apenas três meses de curso. O mês de dezembro começara com o típico clima da cidade: céus cobertos, chuva contínua e ausência do sol.

   Era a minha primeira experiência na Universidade. Meu pai insistira em que estudasse Medicina, para ajudá-lo nas suas investigações, mas eu preferi a Filologia. No entanto, ajudo-o igualmente, mas à minha maneira...

   A esse rapaz, o tal Miguel Ângelo, já o encontrara ali em mais de uma ocasião. Fazia que estudava, mas quando erguia a vista ou mudava de cadeira, sempre o via olhando para mim. Se continuasse assim, ia gastar-me.

– De que gostas mais, das matérias de Língua ou das de Literatura? – perguntou.

– Gosto das duas.

   Queria razoar a minha resposta, mas ele rapidamente me interrompeu.

– Eu mais da Literatura – admitiu. – Tu escreves?

– Eu escrever? Não. Bom... Um bocadinho. Em realidade, gostaria..., mas sei que ainda tenho muito que ler e que aprender.

   Que pergunta mais estúpida. Talvez aquela fosse sua maneira de engatar. Ia explicar-me que ele, sim, escrevia, quando o bibliotecário chegou com os três livros que eu pedira. Era o máximo que podíamos solicitar os estudantes de primeiro ciclo, como nós.

   Melhor que o bibliotecário viesse interromper aquela conversa doida. Pediu-me o cartão da Universidade e leu o código no seu escâner, depois o passou a cada um dos três livros que pedira e depois entregou-me os volumes. Para lembrar-me quando devia devolvê-los, pôs a data com o carimbo na primeira página em branco.

   O rapaz não falou enquanto eu estava atenta ao que fazia o bibliotecário. Olhei para ele de esguelha e, sim, estava mais atento ao que eu fazia do que a qualquer outra coisa.

   Não gostava que os rapazes olhassem assim para mim. Era um bocadinho incómodo. O bom é que que aqui na Faculdade de Filologia as raparigas somos maioria. Não queria ser a única mulher numa turma toda de homens.

– Bom. Pois já falaremos – despedi-me, deixando-o com a palavra na boca.

   Regressei ao meu posto de leitura. Olhei para ele, pensando que o ia surpreender olhando para mim, mas esta vez não era assim. Estava a falar com o bibliotecário. Depois, levando o livro que pedira, dirigiu-se à saída, sem sentar-se aqui na sala com os demais. Ao passar ao meu lado, fez um gesto gracioso com a mão, a jeito de despedida. E foi-se embora.

   Que idiota! Agora que eu queria falar com ele, pega nas coisas e vai-se embora. Pensei que queria engatar. Ou é que apenas queria falar por falar? Que me tivesse ignorado assim encheu-me de uma estranha sensação de abandono. Amanhã farei por procurá-lo e esta vez serei eu a que tomará a iniciativa.

  

   Enquanto estava ali, Ana, uma companheira da minha turma, veio sentar-se de propósito ao meu lado. Embora não se possa falar aqui, na Sala de Leitura, disse em voz baixa:

– Lilith, tu vás ao ginásio, verdade?

– Sim, por quê?

– Soubeste do rapaz que desapareceu?

– Não. Que se passou? – perguntei.

– Um rapaz desapareceu na quinta-feira da semana passada. Os seus amigos não sabem onde está.

– Decerto que se emborrachou ou se passou de “marcha”... Andará por qualquer parte.  

   Ela não se deu de conta que fizera um jogo de palavras. Aqui se diz “ir de marcha” quando às quintas-feiras os universitários passam a noite celebrando festas ou bebendo na rua...

   No entanto, não era verdade que não soubesse nada sobre ele. Ao contrário, sabia perfeitamente onde estava, mas não podia dizê-lo. Seria cúmplice de assassinato. Sim. Cúmplice.

 

   Saí do velho edifício da Faculdade, na praça de Maçarelos ao rematar a última aula. Eram as oito da noite. Estava a chover com força. Começara a chover no sábado e já não parava.  Chovera sem parar o fim de semana e hoje tampouco deixara de chover durante todo o dia. Era o tempo típico da minha cidade durante boa parte do outono e quase todo o inverno... Às vezes, simplesmente orvalhava. Em ocasiões era uma chuva fina e constante, durante horas. Mas também chovia com força, com gotas enormes, que golpeavam com fúria as lajes de granito, como se fossem ondas num mar tormentoso...

   Dirigi-me à Praça da Quintana, para tomar algo antes de voltar a casa. Entrei no Café Literários e pedi um chá com leite. Sentei-me ao lado da janela que dá às escadas. Via a chuva cair, golpeando no granito com tanta força que as gotas rebotavam e volviam a ascender como se estivéssemos no mar.

   O ambiente que existia na praça a esta hora, sob a chuva constante e com a luz dourada das lâmpadas de rua feitas de ferro forjado que se estendiam a espaços regulares pela fachada do mosteiro de São Paio, dançando palidamente sobre as lajes molhadas, era autenticamente mágico. Poucos lugares do mundo me transmitiam mais paz do que aquele lugar...

   Quando cheguei ao meu lar, foi meu pai quem me abriu a porta. Levava, como todos os dias, uma bata branca de médico, como se ainda estivesse a trabalhar num hospital. Desde que tenho uso de razão, conheci-o assim.

– Lilith, como não vieste de autocarro, mulher? Ou como não me avisaste? Iria procurar-te com o carro.

– Não faz mal, pai – respondi. – Aliás, gosto muito de passear sob a chuva nestas noites tão formosas de dezembro. Inspira-me.

– Queres ver como vai a nossa obra? Conseguimos algo extraordinário! E não seria possível sem a tua ajuda.

– A sério? Gostaria imensamente de vê-lo...

– Pois vem. Vais vê-lo com os teus próprios olhos.

   Meu pai caminhou pelo longo corredor e abriu a porta que dava à cave.  Ali era onde realizava os seus experimentos. Desde que deixara de exercer a sua profissão (era médico de ossos e especialista em cirurgia vascular), refugiara-se no trabalho experimental.

   Meu pai não gostava do “sistema”, como ele o chamava. Por culpa de não sei quê, vira-se forçado a abandonar a docência na Universidade e a trasladar-se a esta casa situada às aforas da cidade. Desde que eu tinha memória, meu pai trabalhara nos seus experimentos. Teria conseguido o êxito, finalmente, como ele afirmava?

   Enquanto descia aquele lance de escadas, ia pensando naquele rapaz do ginásio que não deixava de molestar-me. Meu pai zangara-se com ele e dissera que solucionaria o problema. Mas nunca pensei que solucionar o problema fosse acabar com a sua vida.

   Um enorme recipiente de vidro transparente ocupava um lugar preeminente ao lado da maca que se encontrava quase no centro da estância. O corpo do jovem desaparecido, conservado em formol, encontrava-se ali dentro, erguido, quase de pé, mas com a cabeça ladeada. Vi que meu pai lhe abrira o peito. Uma enorme cicatriz, cosida depois com esse extremo cuidado que meu pai punha em tudo, ia do pescoço até ao umbigo.

 – Vem, filha.

   Aproximei-me ao lugar onde meu pai tinha as provetas e os seus aparelhos de médico. Vi que tinha um crisol ao lume. Um líquido de cor vermelho borbulhava no seu interior.

– Sabes? Consegui! Foi um triunfo.

– Sim? Alegro-me por ti, pai.

– Não, Lilith. Alegra-te pelos dois. Vamos ser ricos.

   Pegou nuns tenazes e procurou algo no interior do crisol.

   Meu pai encontrou finalmente o que procurava. Retirou-o daquele líquido vermelho. Era um coração humano. Enorme. Quase ainda palpitante. O coração daquele rapaz que se encontrava em formol.

– Vem – disse meu pai. Enquanto nos dirigimos à mesa onde estavam as provetas, acrescentou:

– Sabes que um coração humano pode pesar entre 200 e 425 gramas?

– Sim, pai. Já me disseste várias vezes.

   Meu pai colocou o coração do rapaz, tingido totalmente por aquele líquido vermelho escuro, numa báscula eletrónica.

– Olha, Lilith. Um quilo e oitocentas duas gramas! Consegui! Um triunfo.

   Meu pai pegou no coração e o colocou sob a água de uma bilha para eliminar o matiz vermelho que o cobria. O seu corpo, por um momento, impediu-me seguir os seus movimentos...

   Depois colocou o coração sobre um pano de cozinha, com o que o secou com extremo cuidado.

– Abre as mãos! – ordenou.

   Não tinha medo. Já fizera isto várias vezes desde que tinha seis anos. Mas nunca o vira tão emocionado. Seria verdade que esta vez tivera êxito?

   Pousou delicadamente o pano de cozinha na minha mão direita. Ufff! Como pesava!

   Logo desdobrei com cuidado cada ponta do pano. E ali, no centro da minha mão direita, observei deliciada, um coração totalmente de ouro. Como brilhava! Não era um coração apenas sobredourado. Não. Era um coração de ouro maciço. O músculo inteiro, as duas aurículas e os dois ventrículos, trocaram-se em brilhante metal. Por isso pesava tanto.

– Papá, que bom! Por fim o conseguiste! – exclamei.

– Sim, filha. Por fim. Mas a fórmula só funciona com um coração humano. Não valem nem vísceras, nem ossos, nem a medula, o cérebro ou os órgãos internos... Só funciona com o coração! E não vale com cadáveres nem com outros animais... Por isso sempre tive tantos fracassos... O coração deve ser colocado no crisol ainda palpitante...

 

 


 

 

– Sabes, papá? Hoje falei com um rapaz que quero apresentar-te...  Chama-se Miguel Ângelo. Este também tem um coração de ouro...

   O meu pai botou-se a rir. Um riso franco que se levou para sempre todas as frustrações de tantos e tantos anos... Nunca na vida o vira tão feliz.

 

 

Ângelo Brea, escritor galego nascido em Santiago de Compostela, é membro da Academia Galega da Língua Portuguesa e professor de Língua e Literatura Galegas.  Como se vê do conto acima publicado, Brea escreve em galego, codialeto do português, empregando as regras ortográfica do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. É autor, dentre outras obras, da coletânea Lembranças da Terra (Através, 2014), que reúne 16 narrativas de ficção científica, com apresentação de Paulo Soriano. O conto ora publicado integrará a sua nova coletânea, em fase final de preparação

 

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