A MULHER-SERPENTE - Conto Clássico de Terror - Flora Annie Steel


A MULHER-SERPENTE

(Lenda indiana)

Flora Annie Steel

(1847-1929)

Tradução de Paulo Soriano

 

 

Certa feita, tendo o rei Ali Mardan[1] saído para caçar na floresta, à margem do belo lago Dal, que se estende límpido e tranquilo entre as montanhas e a cidade real de Srinagar, de repente deparou-se com uma donzela, linda como uma flor, que, sentada sob uma árvore, chorava amargamente. Pedindo a seus acompanhantes que permanecessem à distância, aproximou-se da donzela e perguntou-lhe quem ela era e como ficou sozinha no bosque selvagem.

— Ó grande rei — ela respondeu, olhando-o no rosto —, sou a serva do imperador da China[2] e, enquanto vagava pelos jardins das delícias de seu palácio, eu me perdi. Não sei o quanto caminhei desde então, mas, agora, devo certamente morrer, pois estou cansada e faminta!

— Enquanto Ali Mardan puder salvá-la, uma tão bela uma donzela não morrerá — disse o monarca, lançando um ardente olhar à bela moça.

Ele, então, ordenou a seus servos que a levassem, com o maior cuidado, para o seu palácio de verão, nos Jardins de Shalimar[3], onde as fontes espargem gotas de orvalho sobre os canteiros de flores e as árvores, carregadas de frutos, se curvam sobre as colunatas de mármore.

 

 

Lá, em meio às flores e ao Sol, a jovem dama passou a viver com o rei, que, prontamente apaixonado por ela, se esqueceu de tudo o mais no mundo.

Assim os dias se passaram até que, por acaso, um servo de iogue, retornando do lago sagrado Gangabal[4], que fica no pico nevado de Haramukh, para onde ia todos os anos buscar água para seu mestre, passava pelos jardins. Olhando por sobre o muro alto do jardim, ele viu o cimo das fontes, cujas águas desciam e borrifavam como o Sol prateado. O servo ficou tão surpreso com aquela visão que colocou seu vaso d’água no chão e escalou o muro, determinado a ver as coisas maravilhosas haveria lá dentro.

Uma vez no jardim, em meio a fontes e flores, ele vagueou para cá e para lá, perplexo com toda aquela beleza, até que, consumido pela excitação, deitou-se sob uma árvore e adormeceu.

Ora, o rei, tendo saído para passear no jardim, encontrou o homem adormecido e notou que ele segurava, firmemente, algo em sua mão direita. Abaixando-se, Ali Mardan afrouxou-lhe suavemente os dedos, descobrindo uma caixinha contendo uma pomada de doce fragrância. Enquanto o rei examinava o objeto mais de perto, o dorminhoco acordou e, sentindo falta de sua caixa, começou a chorar e a lamentar-se. Então, o rei ordenou que se acalmasse e, mostrando-lhe a caixinha, prometeu devolvê-la, se ele lhe dissesse, fielmente, por que o objeto lhe era tão precioso.

— Ó grande rei — respondeu o servo do iogue —, a caixa pertence ao meu senhor e contém um unguento sagrado, que possui muitas virtudes. Por seu poder, sou preservado de todos os perigos e posso ir a Gangabal e retornar com o meu vaso cheio de água em tão pouco tempo que meu mestre nunca fica sem o sagrado elemento.

Aquilo surpreendeu o rei que, olhando fixamente para o homem, disse:

— Diga-me a verdade! O seu amo é mesmo um santo iogue? É realmente um homem extraordinário?

— Ó rei — respondeu o servo —, ele é, de fato, como o senhor diz. E nada há no mundo que ele não conheça!

Esta resposta despertou a curiosidade do rei que, colocando a caixinha no colete, disse ao servo:

—Vá para casa, para o seu amo, e diga-lhe que o rei Ali Mardan tem a sua caixa e pretende conservá-la consigo até que ele venha buscá-la sozinho.

O rei esperava, desta forma, atrair o santo iogue à sua presença.

Então o servo, vendo que nada mais havia a fazer, partiu para ao encontro de seu amo. Todavia, porque não tinha consigo a preciosa caixa com o mágico unguento, levou dois anos e meio para chegar em casa. Durante todo esse tempo, Ali Mardan viveu com a bela estrangeira no palácio de Shalimar e esqueceu-se de tudo no mundo, exceto da beleza da jovem mulher. No entanto, ele não estava feliz. Uma expressão estranha aflorava em seu rosto e, em seus olhos, assomava um pétreo olhar.

Entrementes, quando o servo finalmente chegou em casa e contou ao seu mestre o que lhe havia ocorrido, o iogue ficou deveras aborrecido. Mas, como não podia passar sem a caixa, que lhe permitia obter a água de Gangabal, partiu imediatamente para a corte do rei Ali Mardan. Ao chegar, o rei o tratou com a maior honra e cumpriu fielmente a promessa de devolver-lhe a caixa.

Ora, o iogue era de fato um homem erudito e, quando viu o rei, soube imediatamente que havia algo de errado com ele. Então disse:

— Ó rei, o senhor tem sido gentil comigo, e eu, por minha vez, desejo fazer-lhe uma gentileza. Fale-me, então, com franqueza: o senhor sempre teve o rosto lívido e assustado e esses olhos pétreos?

O rei baixou a cabeça.

— Diga-me a verdade — continuou o santo iogue. — O senhor tem alguma mulher estrangeira em seu palácio?

Então Ali Mardan, sentindo um estranho alívio ao falar, contou aos iogue sobre a descoberta da donzela, tão adorável e desesperada, na floresta.

— Ela não é serva do imperador da China. E não é uma mulher! — disse, destemido, o iogue. — Ela não é nada além que uma lâmia, a terrível serpente de duzentos anos que tem o poder de tomar a forma de uma mulher!

Ouvindo isto, o rei Ali Mardan ficou, a princípio, indignado, pois estava perdidamente apaixonado pela estrangeira. Mas, quando o iogue insistiu, o soberano ficou alarmado e, finalmente, prometeu obedecer às ordens do santo homem, e, assim, descobrir a verdade ou falsidade de suas palavras.

Por conseguinte, naquela mesma noite, ele pediu que preparassem khichrî[5] para a ceia, que seria servida num só prato, mas de molde que uma metade da iguaria seria doce e a outra salgada.

Quando, como de costume, o rei se sentou para comer do mesmo prato com a mulher, virou o lado salgado para ela, reservando a si a parte doce.

Ela achou sua porção muito salgada, mas, vendo o rei comer a dele com prazer e sem fazer comentários, terminou a sua porção em silêncio. Mas quando se retiraram para descansar, e o rei, obedecendo às ordens do iogue, fingiu que dormia, a mulher-serpente sentiu tanta sede, por causa de todo o sal que havia ingerido, que ansiava por um gole d’água. Mas, como não havia água no quarto, ela foi obrigada a sair para procurá-la.

Ora, se uma mulher-serpente sai à noite, tem que retomar a sua verdadeira forma repulsiva. Assim, enquanto o rei Ali Mardan fingia dormir, viu a bela forma, que tinha em seus braços, transmutar-se numa cobra mortal e viscosa, que deslizou da cama, transpôs os umbrais e rumou para o jardim. Ele a seguiu silenciosamente, observando-a beber de cada fonte do caminho, até chegar ao lago Dal, onde tornou a beber, e se banhou por várias horas.

 

 

Completamente satisfeito com a veracidade da história do iogue, o rei Ali Mardan implorou por sua ajuda para livrar-se daquele belo horror.  O iogue prometeu que o faria se o rei obedecesse fielmente às suas instruções.

Combinando cem diferentes espécies de metal, forjaram um forno, e o selaram com uma tampa resistente e um cadeado pesado. Então, colocaram o forno num canto sombreado do jardim, prendendo-o firmemente ao chão por meio de fortes correntes. Quando tudo estava pronto, o rei disse à mulher-serpente:

— Minha querida, hoje, vamos passear sozinhos pelos jardins e nos divertir cozinhando a nossa própria comida!

Ela, nada birrenta, consentiu. E, então, eles passaram a passear pelo jardim e, quando chegou a hora do jantar, puseram-se a trabalhar, com risos e alegria, para cozinhar sua própria comida.

O rei aqueceu bem o forno e amassou o pão, mas, não levando jeito para a tarefa, disse à mulher-serpente que o labor lhe bastava. Assim, pediu a ela que assasse o pão. A princípio, ela se recusou a colaborar, dizendo que não gostava de fornos, mas quando o rei fingiu estar aborrecido, afirmando que ela não o amava, já que se recusava a ajudá-lo, a mulher-serpente cedeu e começou a trabalhar, sem viço alguma, no cozimento.

Então, assim que ela se curvou sobre a boca do forno, para revirar os pães, o rei, aproveitando a oportunidade, empurrou-a para dentro e, fechando a tampa, travou-a firmemente.

Ora, quando a mulher-serpente se viu capturada no forno escaldante, agitou-se tanto que, se não fossem as fortes correntes, teria saltado para fora do jardim, com forno e tudo! Mas da maneira que se deram as coisas, tudo o que ela pôde fazer foi saltar para cima e para baixo, Entrementes, o rei e o iogue alimentavam o fogo com mais lenha, de maneira que o forno ficava cada vez mais quente. Assim, o fogo continuou a arder das quatro horas da tarde de um dia às quatro horas da tarde do outro. Finalmente, a mulher-serpente parou de sacudir-se e tudo ficou quieto.

Esperaram até que o forno esfriasse. Quando o abriram, não viram nenhum vestígio da mulher serpente. Havia apenas um minúsculo monte de cinzas, de onde o iogue tirou uma minúscula pedra redonda[6].

Dando-a ao rei, disse:

— Esta é a verdadeira essência da mulher-serpente, e o que quer que você toque com ela se transformará em ouro.

Mas o rei Ali Mardan disse que tal tesouro valia mais do que a vida de qualquer homem, porquanto deveria trazer inveja, disputa e morte a seu possuidor. Portanto, quando seguiu para Attock[7], jogou a pedra-serpente mágica no rio, para que não trouxesse conflito ao mundo.



[1] Ali Mardan Khan (séc. XVII), de origem curda, foi vice-rei de Punjab, que, na época, se estendia de Cabul a Delhi. (N. do T.)

[2] Uma maneira comum de explicar a origem de damas desconhecidas nos contos muçulmanos. A Cachemira é, essencialmente, um país muçulmano. (N. de Richard Carnac Temple [1850 – 1931].)

[3] Construído em Srinagar pelo imperador Jahângîr, que precedeu Ali Mardan Khân em uma geração, para Nûr Mahal. (N. de Richard Carnac Temple.)

[4]  Lago sagrado no topo do Monte Harâmukh, de 16.905 pés de altura, no norte da Cachemira. Constitui-se numa das nascentes do rio Jhelam e é palco de uma feira anual, que ocorre por volta do dia 20 de agosto.  (N. de Richard Carnac Temple.)

[5]O khichrî doce é feito de arroz, açúcar, cacau, passas, cardamomos e sementes de anis; o salgado, de legumes e arroz. (N. de Richard Carnac Temple.)

[6]  A pedra das cinzas (pâras, em sânscrito sparsamani) transforma aquilo que toca em ouro.  (N. de Richard Carnac Temple.)

[7] No original é o rio Atak (o Indo), próximo a Hoti Mardân, cujo lugar é próximo a Atak ou Attock. A semelhança nos nomes Ali Mardân e Hotî Mardân provavelmente deu origem a esta afirmação. Mas não há qualquer relação entre eles. (N. de Richard Carnac Temple.)

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