ALGUÉM NO MEU TELHADO - Conto de Terror - Cauê Costa

 


ALGUÉM NO MEU TELHADO

Cauê Costa

 

Encontrei uma caneta azul velha, sem tampa e provavelmente com a tinta acabando, jogada no chão, e estou escrevendo essa pequena manifestação do meu desespero em um caderninho usado que eu tinha no bolso. Confesso estar precisando escrever com letras minúsculas, mas acredito que caberá tudo o que tenho a dizer. Não sei quem está lendo isso, ou se algum dia alguém chegará a fazê-lo, mas eu preciso expor a maluquice que aconteceu comigo nesse último mês. Tamanha maluquice que, nem mesmo eu, consegui acreditar em meus próprios olhos.

Pelo que me lembro, tudo começou na primeira semana de julho. Se eu não me engano, estava tomando banho junto com minha esposa, pois íamos sair para um restaurante novo que ela ouvira falar.   Conversávamos e riamos, fazendo gracinhas como dois adolescentes. Ela saiu do box e eu a encarei, era apaixonado por aquela mulher! Digo, ainda sou. Enfim, ela se enxugou e seu lindo corpo atravessou a porta para ir ao quarto, enquanto eu terminava de lavar meu cabelo.

Foi então que, de repente, ouvi um som fortíssimo no telhado. Sozinho no banheiro, com o chuveiro ligado derramando sobre mim a água mais quente possível, os olhos fechados por conta do shampoo que estava espalhado, não só no cabelo, como em quase todo rosto, impedindo-me de dar sequer uma olhadela e me deixando preso na escuridão de minhas pálpebras; eu, como qualquer outra pessoa nessa situação, calei-me. Apenas escutei e deixei minha imaginação trabalhar. A cena que veio à minha mente enquanto estava praticamente imóvel e franzia a testa com aquele som bizarro, foi algo como: uma pessoa tropeçara e caíra, provavelmente, de lado, com o ombro. Então, rapidamente se levantou e tentou não fazer mais barulho. Porém, seus passos, mesmo que leves, ecoavam no teto acima de mim.

Após cinco minutos silenciosamente tensos, consegui ouvir que a pessoa lá em cima fora para minha esquerda, à frente do banheiro, onde ficava o quarto que minha esposa estava. Não perdi tempo e comecei a enxaguar rapidamente o cabelo, molhando o banheiro todo.  Contudo, percebi ter esquecido algo. A toalha. Esqueci a merda da toalha. Gritei para minha esposa umas vinte vezes e ela apareceu depois de alguns minutos, confusa.

A princípio, ficou assustada com o nosso possível hóspede indesejado. Inclusive, disse seriamente em ligar para a polícia, mas eu a convenci — tanto ela como a mim mesmo — que poderia ser apenas minha imaginação. De qualquer forma, ela nunca chegou a ouvir nada, mesmo depois de semanas. Neste dia, conseguimos ir ao restaurante e tudo ficou bem após chegarmos em casa. Para falar a verdade, a semana toda, após isso, eu também não ouvi nada.

Foi só no sábado seguinte, quando eu acordei por volta das 02:30h para ir ao banheiro, que ouvi algo ainda mais estranho que uma semana antes. Juro que não estou louco. Mas também juro que ouvi algo! Parecia ser um grito vindo do teto, exatamente em cima do meu quarto. Voltei correndo para averiguar, e tudo o que vi foi minha linda esposa desmaiada angelicalmente sob os lençóis quase transparentes. Nada de fantasmas! Em seguida, porém, um som aterrorizante, que fez todo meu corpo arrepiar e congelar por alguns segundos, ecoou no mesmo lugar. Alguém estava gritando, grunhindo e batendo violentamente contra as telhas. As palavras eram indecifráveis, mas os gritos de desespero sem dúvida não vinham da minha mente. Quase trinta minutos se passaram para que o visitante, aparentemente, se cansasse. Eu, mesmo assustado e com muito receio, aproveitei para tentar descansar. Enfim, deitei-me, ainda desconfiado, no recamier do quarto e apaguei completamente.

É óbvio que no dia seguinte, quando contei à minha esposa a história toda, ela ficou ainda mais assustada, decidindo então, ligar para meu cunhado, o qual fora nosso engenheiro. Foi ela quem falou com ele, então tudo o que sei a respeito saiu diretamente de sua boca, e não — sem querer ofendê-la — da boca do especialista. Ela apenas repassou a informação que entendera, e eu nem ao menos a questionei.

Sem entrar em muitos detalhes, já que esse não é meu objetivo aqui, mas basicamente, o meu telhado é consideravelmente novo. Existe um espaço de mais ou menos 90 centímetros entre o teto e a telha, e não há buracos, espaços e nem brechas em nenhum lugar, ou pelo menos, não que um ser humano coubesse. Ou seja, era impossível — palavras dela, ou melhor, do irmão dela — que qualquer pessoa, mesmo uma criança, pudesse entrar lá dentro.

Depois de toda essa explicação técnica e racional, sua insegurança simplesmente desapareceu. Porém, eu ainda ouvia barulhos pelo telhado, e não pensava de forma alguma que poderia estar ficando louco!

Correção, eu não pensava que poderia estar ficando louco até um dia em específico. Na terceira semana do mês, terça-feira, eu precisei sair para um compromisso do trabalho que ficava fora da cidade, deixando a casa toda para minha esposa, das 7:30h até por volta da meia-noite. E mesmo depois de chegar em casa, desmaiaria na cama. Dito e feito! A incrédula mulher ficou sozinha o dia todo, trabalhando em seu livro que precisava estar pronto até o mês seguinte. Quando voltei e despenquei sobre o colchão, que nunca fora tão macio quanto naquele momento, ela me disse que ainda precisava dar alguns ajustes na história, e que provavelmente iria dormir tarde. Segundo ela, ficou acordada até às 3h, até finalmente sentir sono e se juntar a mim. De manhã, indaguei sobre os sons no telhado. Antes de sair no dia anterior, eu havia pedido para tomar cuidado e que me ligasse caso qualquer coisa acontecesse, porém, segundo ela, não ouvira nada. Absolutamente nada. Fazia séculos que não apreciava um bom tempo sozinha, em silêncio, e o dia anterior fora mais que o ideal.

Ouvindo essas palavras, suspirei aliviado. Talvez realmente não tivesse nada, nem ninguém lá em cima. Talvez fosse meu estresse me enlouquecendo, ou poderiam ser aqueles estalos de dilatação, ou sei lá, pedaços velhos de madeira, de telha, talvez morcegos, ratos ou...

Quando me dei conta, estava sozinho. Minha mulher fora ao mercado, e eu estava sentado na sala, com um livro do Edgar Allan Poe em mãos. Se ela ficou dezoito horas sozinha aqui e não ouviu sequer um ruído, eu vou ficar bem por alguns minutos. Isso foi o que eu pensei, até que algo aconteceu. De repente, alguém martelava freneticamente o calcanhar no teto como se quisesse derrubá-lo, como se quisesse chamar minha atenção. Desta vez, não fizera barulho sem querer, para depois ficar em silêncio; desta vez, tinha vontade de me amedrontar. Pulei da poltrona e deixei o livro cair. Fiquei horrorizado com o que imaginei ser a pessoa engatinhando de um lado para o outro, pisando com toda força que tinha e chutando o que pareciam ser as telhas velhas que foram deixadas do lado de dentro. Aquilo tudo me provocou um medo que não consigo descrever. Fiquei paralisado, olhando para cima por vários minutos, encarando a superfície lisa e branca de gesso. Não piscava. Não falava. Minhas pernas tremiam e um suor frio escorria pela coluna. Contudo, o pavor real veio quando ouvi aquilo. Era um homem! Um homem de voz rouca no meu telhado, soube agora por que estava gritando. Não de dor, não de raiva, e não estava pedindo ajuda. Gritou: "ACHA QUE EU FUI EMBORA? ACHA QUE EU SOU DA SUA IMAGINAÇÃO? EU VOU COMER A SUA ESPOSA ENQUANTO VOCÊ ESTIVER NO TRABALHO! POR QUE ACHA QUE ELA 'NÃO ACREDITA' EM VOCÊ QUANDO FALA QUE TEM ALGUÉM NO TELHADO?"

Aquilo me enfureceu. Minha raiva se tornou maior do que meu medo, e então, confrontei-o. Berrei que se fosse homem o suficiente sairia do meu telhado para resolvermos isso cara a cara! E que caso não o fizesse, eu iria subir lá para acabar de vez com isso, mas essa segunda opção não seria muito boa para ele.

Se passaram alguns segundos para que me respondesse, até finalmente dizer: "DAQUI EU NÃO DESÇO! A NÃO SER QUE VOCÊ... SAIA DE NOVO".

Desde a adolescência, sou um homem calmo, antiviolência e me considero contra o armamento da população, mas neste momento... nossa, eu nunca quis tanto ter uma arma.

Cambaleei um pouco para o lado e mordi com força o maxilar, sentindo ódio. Parei um momento. Respirei fundo e decidi que não cairia no papinho daquele cara! Era óbvio o plano dele. Queria que eu fosse lá para cima, talvez onde escondesse armas, onde pudesse me machucar ou até mesmo me matar. Então resolvi agir friamente. Fiquei em silêncio e apenas me sentei novamente, para esperar minha esposa chegar, decidindo ignorá-lo de agora em diante.

Desde que começamos a namorar, nunca pensei que ela fosse capaz de me trair, e depois que nos casamos, as chances disso acontecer me pareciam ter caído ainda mais. Nunca desconfiei dela, e ela nunca me dera motivos para isso. Pelo contrário, sempre mostrava o quanto me amava e, mesmo depois de alguns anos — 11 anos e 8 meses para ser exato — era nítida sua paixão por mim. Sabendo de tudo isso, as provocações daquele sujeito não eram suficientes para me causar conjectura. Mas ainda assim, por que somente eu o ouvia?

Após outras tentativas de convencer minha esposa de que havia sim um homem no nosso telhado — todas elas sutis, como pedir algo para sua mãe quando criança —, obviamente a deixei estressada com a insistência. Me disse que eu era o único que ouvia qualquer tipo de barulho em casa, e que, como seu irmão disse, era IMPOSSÍVEL ter alguém lá dentro. Contei o que acontecera enquanto ela estava no mercado, para rebater seu argumento. Minha mulher apenas me encarou fixamente, sem reação, sem expressão. Parecia alguém que finalmente percebera ter se casado com um louco, mas não de modo pejorativo, e sim um louco de verdade. Entretanto, somente virou as costas e me mandou ir dormir, pois estava tarde e ela precisava terminar seu livro.

Após rolar de um lado para o outro na cama por quase uma hora, desisti de tentar, simplesmente não conseguia. Sempre que fechava os olhos, via aquele louco fazendo algo com a minha mulher. Ora sequestrava ela, ora espancava. E em outras vezes...

Afastei os pensamentos e me levantei. Fui até a porta e espreitei calmamente a sala de jantar. Lá estava ela, no completo escuro, linda sobre a luz da vela, a qual gostava de ficar para escrever suas histórias. Seus contos eram realmente bons, uma ótima escritora e eu tenho muito orgulho dela, muito mesmo. Mas de um segundo para o outro, algo estava errado, percebi que os móveis de madeira pareciam podres, o chão estava sujo e as paredes escorriam lama. Até que de repente, um homem alto, meio gordo, sem camisa e com pelos em todo corpo, barba grande e suja, dentes amarelos, sujeira e suor em toda pele, um homem que parecia estar... preso em cativeiro. Esse homem estava no meio da minha sala, chegando perto da minha mulher. A luz fraca revelava aos poucos sua aparência. Tentei sair do quarto, mas a porta se fechou sozinha. A última cena que vi foi aquele ogro sorridente colocando as mãos nos ombros da minha esposa, nos ombros da MINHA MULHER.

Quando acordei, finalmente percebi que estava ficando louco. Se aquele cara existia ou não, não importava, eu precisava subir lá e ver com meus próprios olhos. E caso ele fosse real... iria matá-lo!

Preciso admitir que essa ideia perdurou em minha mente por alguns dias. Os pesadelos ficaram comuns. Eu acordava no meio da madrugada e ia ao banheiro, escutava o filho da puta lá em cima, voltava a dormir pelas próximas duas horas restantes, até abrir os olhos novamente, e quando nos levantávamos de manhã, o silêncio era ensurdecedor. Ao que parecia, estava me provocando. Fazia os barulhos somente para eu escutar. Aparentemente, sabia quando minha esposa poderia ou não o ouvir.

O resto do dia era a mesma coisa. Eu saía para trabalhar, receoso de que ele pudesse descer para fazer algo contra aquela linda escritora que passava seus dias sentada na frente do computador. Mas felizmente, em nenhum momento isso aconteceu. E agora tenho certeza disso. Chegava do trabalho cansado e tentava dormir cedo, para ser poupado ao menos uma noite dessa perturbação. O que não funcionava! Novamente, lá estávamos nós; eu no banheiro lavando as mãos na pia, minha mulher dormindo tranquila e profundamente na cama, e ele lá em cima, se arrastando e batendo contra o teto do banheiro, ou do corredor, ou da cozinha, ou da sala, ou do quarto. Correndo e rolando, rindo e...

Depois de quase um mês, eu realmente não aguentava mais. Havia um louco morando — e de alguma forma sobrevivendo — no meu telhado. O mesmo telhado que era "impossível" de se entrar. E esse louco me atormentava propositalmente, fazendo barulho quando eu era o único acordado, ficando quieto quando minha mulher estava, e me ameaçando quando ela saía. Isso estava mexendo comigo! Preciso admitir que neste momento meu teto de gesso está todo marcado, pois eu adquiri o hábito de jogar coisas, objetos, para tentar domar aquele animal. O que nunca funcionou, mas eu fui persistente.

Até que, já no final do mês, em um sábado, houve um dia atípico. Consegui dormir tranquilamente bem, não tive nenhum pesadelo e não acordei de madrugada. Quando levantei às 9h do dia 23 de julho, minha esposa não estava em casa, e todo o ambiente estava em completo silêncio. A princípio pensei estar sonhando, mas logo me dei conta que não. "Será que finalmente minha perturbação acabou? Será que o homem no telhado me deixou de vez em paz? Foi embora? Por que foi embora? Cansou de me esperar subir lá em cima? Ou será que... será que nunca foi real?". Essas perguntas flutuavam em minha mente, me deixando tranquilo, alegre e um pouco confuso. Porém, e se ele estivesse apenas dormindo? E daqui a pouco, quando acordasse, voltaria a me atormentar, já que, pelo visto, sabe quando minha mulher está ou não em casa. Decidi tomar um bom café quente para relaxar um pouco, e aproveitar pelo menos a possibilidade de ele ter ido embora. Imaginei onde minha esposa poderia ter ido tão cedo, e porque não me avisara que iria sair. Geralmente, quando precisava fazer algo assim, deixava um bilhete na cabeceira da cama, um hábito que eu particularmente achava muito fofo. Contudo, não tinha nada lá, ela apenas saíra sem deixar rastros; o que obviamente não tinha problema algum, pois estaria de volta antes do almoço!

Se passavam das 14:30h quando eu novamente acordei, havia cochilado na poltrona enquanto lia "O Barril de Amontillado". Olhei em volta, ainda confuso. Espiei o relógio no meu pulso e me levantei. Fui ao banheiro lavar o rosto e tentar ficar mais lúcido. Depois, rodei a casa a procura dela, mas não a encontrei, não encontrei minha esposa. Aquela tarde quente, por algum motivo, me era estranha e passava a impressão de que algo estava para acontecer. Voltei para o quarto e, ao arreganhar as cortinas e abrir a janela, deixando a luz quente do sol penetrar todo o quarto, percebi um detalhe, apenas um detalhe, que me chamou muito a atenção. As portas do guarda-roupa estavam abertas e com algumas roupas faltando, algo que eu não tinha percebido por conta do escuro que havia lá até então. Corri para conferir e, quando me dei conta, meu coração doeu com o possível motivo. De fato, roupas estavam faltando lá dentro, as roupas dela. Fiquei confuso e com um aperto imenso no coração, principalmente quando vi que, sobre o raque do quarto, havia sim um bilhete, escrito em uma página de um caderninho.

"Meu amor", dizia, "sinto muito por isso, muito mesmo, mas você não está bem. Tenho medo de você estar ficando louco por conta desses barulhos imaginários no telhado. Barulhos esses que eu nunca cheguei a ouvir.

Juro que nunca duvidaria de você, mas depois de certos eventos, dos quais tentei me permitir continuar acreditando, cheguei à conclusão de que não consigo. Algumas noites, fiquei acordada de propósito, somente porque você dizia que o homem no telhado te perturbava de madrugada. Outras vezes, fingi estar dormindo; e em nenhuma delas, meu amor, em nenhuma, ouvi sequer um som. Para ser sincera, ouvia você ficar quieto repentinamente, congelado; ouvia você resmungando, dizendo: 'eu ainda vou subir aí e matar você, seu filho da puta'. Depois de vários dias, ouvia você jogando objetos metálicos

contra o teto e gritando: 'nos deixe em paz! Por que não nos deixa em paz?'. Eu sei, meu bem, que você nunca me machucaria, mas precisa de ajuda, precisa urgentemente! Por isso, vou sair de casa por alguns dias. Peguei minhas roupas e vim para minha mãe. Vou mandar um assistente social aí segunda-feira, e vou ligar para seu trabalho e explicar que você não está mentalmente bem para ir, por tempo indeterminado.

Me desculpe por agir dessa forma, mas foi a única que eu encontrei. Eu te amo!"

Aquilo me destruiu. "Ficava acordada de propósito? Me ouvia gritando, mas não ouvia ele? Não pode ser possível. Será que estou realmente louco?". Meus pensamentos estavam a mil. Meu corpo fervia, minhas pernas ficaram bambas. Tudo o que eu queria era ela de volta, com minha vida normal de volta. Fiquei desolado. Sentei-me na cama, de cabeça baixa, acariciando as folhas do caderno onde estavam as lindas e perfeitas letras dela.

Contudo, essas letras formavam palavras e frases que me doíam o coração. Guardei o caderno no bolso. "Será que vou conseguir ler seu livro?" Pensei. Ainda não estava pronto, e alguma coisa me dizia — eu conseguia sentir, quase aceitar — que eu não tinha tempo suficiente.

Aceitei a proposta. Iria esperar — sozinho — até segunda. O assistente social viria, e eu iria melhorar. Por ela!

Foi então que, repentina e surpreendentemente, ele voltou. As batidas fortes no teto vieram acompanhadas de socos desesperados nas telhas e, depois, um grito que com certeza usara todo o fôlego e garganta para proferir. "EU AINDA ESTOU AQUI SEU MERDA! SOBE AQUI PRA EU TE MOSTRAR UMA SURPRESINHA".

Eu simplesmente paralisei. E então: "Você ainda está aí?" Gritei, também usando minha garganta. "Tudo isso é culpa sua, seu merda! Me deixe em paz. Você não é real!" Em seguida, ele me respondeu, quase que apressadamente, de modo que me deixou pensativo com a possibilidade de provar — tanto para mim mesmo, como para minha esposa — que eu não estava ficando louco. Gritou: "QUER FICAR EM PAZ? ENTÃO SOBE AQUI E VAMOS VER QUAL DOS DOIS É MAIS REAL".

"Foda-se!" Eu disse em voz alta. Fui até a cozinha e peguei a maior faca que encontrei. Porém, rapidamente percebi que havia a possibilidade de eu ser preso por assassinato, pois não podia provar ser real tudo aquilo que acontecera comigo, levando em conta que nem a mulher que morava na mesma casa que eu, poderia confirmar meu álibi. "Foda-se!" Gritei, novamente, ainda mais alto. Corri para a dispensa e peguei um saco de pão e alguns salgadinhos. Além de matá-lo, iria incriminá-lo de roubo.

Enquanto procurava a escada, aquele desgraçado ainda fazia barulhos constantes lá em cima, o que me deixava cada vez mais irritado e com a necessidade de pressa.

O Sol ardia forte em um céu sem nuvens. Pássaros voavam em bando. O vento soprava forte o bastante para tremer a escada. Meu coração palpitava como um soco interno contra meu peito, que mesmo após chegar ao telhado, não parou. Em meu pulso esquerdo, o

relógio marcava 15:25h. Estava agora lá em cima, andando sobre as telhas. Eram duras, de boa qualidade. Procurei qualquer buraco ou forma de passagem para dentro, mas não encontrei. Ela estava certa...

Naquela altura, com uma vista linda, o vento indo constantemente de encontro com meu corpo, cogitei voltar para baixo e aceitar de vez que estava maluco. Entretanto, neste mesmo momento, como que adivinhando meus pensamentos, algo bateu do lado de dentro da telha, exatamente debaixo dos meus pés. O nervosismo voltou. Comecei a chutar com toda força que eu tinha. Segurando a faca em uma mão e uma sacola com comida em outra, depois de alguns minutos contínuos tentando quebrar aquela merda, finalmente consegui. Um buraco se abriu, revelando um escuro sem fim lá dentro. Meu sangue ainda fervia e o calor intensificava o ódio. Pulei no buraco sem pestanejar.

Sem dúvida, o que mais me chamou a atenção, foi a escuridão que se estendia por todo o lugar, juntamente com o silêncio e o frio de um local inabitável e inabitado. A única fonte de luz que existia ali, fora causada por mim. O buraco do qual quebrei e entrei, servia como iluminação direta no exato ponto onde eu estava. Porém, não clareava mais de trinta sentimentos ao meu redor, e todo o resto do lado de dentro do telhado, estava em completa treva.

Assim que meus pés tocaram no concreto, fiquei atento, como um cervo esperando a hora certa de driblar o leão. Mas esse cervo aqui tem galhadas grandes e resistentes!

Segurava com força a base da faca, vendo os fragmentos da luz sumindo no reflexo da lâmina. Andava pausadamente devagar, sentindo o cheiro estranho que infestava aquele ar. Me preparava física e psicologicamente para enfrentar o que quer que fosse aquele homem. Estava tenso, apreensivo. Poderia ser a qualquer momento...

Andava de um lado para o outro e nada, nenhum vestígio de que um ser vivo — humano ou não — poderia estar vivendo ali. Nenhum resquício de comida, ou água, ou sei lá... corpos.

Mas, depois de alguns minutos procurando aquele psicopata no completo escuro daqui de cima, percebi que minha única fonte de luz havia sumido. Simplesmente desaparecera. O que era IMPOSSÍVEL! Como um buraco tão grande, que fora despedaçado, tinha retornado ao seu lugar, pedacinho por pedacinho? Sem dúvida, algo ruim estava para acontecer.

Nem me preocupava mais em encontrar meu visitante, só queria sair dali. E enquanto me preparava para a dor que sentiria ao socar freneticamente as telhas duras até elas, de alguma forma, quebrarem... subitamente ouvi algo, ou alguém, embaixo do meu telhado, andando pela casa, abrindo as portas e falando em voz alta. Colei os ouvidos no concreto gelado e prestei atenção. Muita atenção. Não. Não pode ser. É ela. Minha esposa voltou!

Mas algo estava errado. Uma segunda voz... uma voz de... Não pode ser... Tem um homem lá embaixo. O chuveiro estava sendo ligado. Os dois entraram juntos e falavam sobre... sobre... Não! Ela não pode fazer isso comigo! Depois de todo esse tempo! Depois de tudo isso! Como ela...

Então, ouço um pedaço de uma frase estranhamente familiar: "... um restaurante que minha amiga me indicou. Ela disse que é ótimo e..."

Estava exatamente em cima do banheiro (DO MEU BANHEIRO, QUEM ESTÁ AÍ EMBAIXO?) e, ao ouvir aquilo, levantei-me rapidamente e recuei para trás, assustado. Tropecei em uma telha velha e caí de lado, com meu ombro amortecendo a queda. Ao fazer todo aquele barulho, levantei-me rapidamente e fiquei paralisado, tentando não me mover para ouvir melhor o que estava acontecendo lá embaixo.

Cinco minutos se passaram e eu decidi ir para um canto, à minha esquerda, que estava um pouco iluminado por conta de fios de luz que passavam através de minúsculos buracos.

Após alguns segundos, ouvi aquilo que julgo ter sido o som mais assustador de toda a minha vida! Mesmo depois de tudo o que tinha passado até então, nada se equiparava aquilo...

O homem no banheiro lá embaixo gritou. Gritou desesperadamente o nome da minha esposa várias vezes, e ela...

(apareceu depois de alguns minutos, confusa.)

Foi aí que eu percebi. Foi aí que eu entendi tudo. Era a minha vez. Desta vez, eu era o homem no telhado.

Após aquilo, fiquei por — o que julguei ter sido — uma semana em silêncio absoluto. Não foi nada fácil, mas sobrevivi. Minhas evidências falsas foram de muita utilidade para todo o meu tempo de hospedagem.

Porém, foi só então que eu percebi uma coisa. Percebi que, para poder sair deste lugar, aquele homem lá embaixo precisava ficar assustado e confuso suficientemente ao ponto de literalmente subir aqui, para ver quem estava fazendo todo esse barulho. Não poderia deixar (minha esposa) a mulher me ouvir. Ele precisava ser o único! E eu acho que me lembro muito bem dos momentos certos.

Hoje, meu querido eu, aguardo ansiosamente sua chegada!


Comentários

  1. Quando a história ficou interessante acabou

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  2. Boa noite amigo, eu tenho no youtube onde abordo esses temas de suspense e terror, mas também curiosidades e etc. Eu poderia usar essa sua história em um dos meus vídeos?

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