OFIDIOFAGIA - Narrativas Clássicas de Horror - Autores Anônimos do séc. XIX


 

OFIDIOFAGIA

Autores anônimos do séc. XIX

 

1

Um extraordinário acontecimento, a que poucas pessoas darão credito, teve lugar em Doudeauville.

Maria Hunnez, moça de 14 anos, sofria havia algum tempo frequentes e dolorosas picadas no estomago, e este incômodo, que lhe tinha produzido falta de apetite e de sono, muito inquietava sua família.

Uma manhã, sofrendo mais que de ordinário, a jovem Maria tomou por único alimento um copo de aguardente que lhe deu sua mãe, e partiu neste estado para ir colher um pouco de erva no campo vizinho; mas, apenas ela chegou ao campo, redobraram os sofrimentos e sufocações: viu-se obrigada a deitar-se por terra, onde ficou, até que algumas pessoas a viram e a carregaram para sua casa.

Aí, depois de violentos esforços, sentiu que lhe vinha alguma coisa à garganta, e aumentarem-se-lhe as sufocações: em breve esse objeto chegou à boca e ela conseguiu arrancá-lo com a mão.

Qual foi a surpresa e terror, que ela e os presentes tiveram, vendo que era uma cobra de 7 polegadas de comprido e 6 linhas de grossura!

O réptil, da cor dos de sua espécie, foi depositado em um vidro, onde viveu três horas, e foi levado por um habitante de Bolonha, que se achava no lugar, para depositá-lo no museu. A pobre Maria sofre ainda dores de estômago, e nada a tem tranquilizado, temendo ainda de semelhantes vômitos.

2

Um jornal americano refere que foi descoberta em Filadélfia uma cobra viva no estômago dum moço de 15 anos.

Um dia, em que ele bebia numa fonte, lhe pareceu sentir um corpo sólido que lhe escorregava pela goela, sem que experimentasse dor alguma.

Seis semanas depois, começou a sentir no estômago movimentos como que de animal vivo, acompanhados de uma irritação dolorosa, que tomava mais intensidade antes da hora de seu alimento ou quando queria retardá-la: era seu apetite muito irregular.

Algumas vezes, comia pouco; outras, porém, comia com excesso. Assim aconteceu-lhe que, durante um mês contínuo, comesse 5 libras de carne por dia.

Sofria dores agudas na região occipital, nas omoplatas, nas articulações da mão esquerda e do pé direito. Seu rosto estava descorado. Durante a noite, transpirava copiosamente, e caía repentinamente privado de sentidos e de movimentos, e não poucas vezes tornava a si imediatamente. Seguia-se, depois, uma prostração total de forças.

Recordando-se do incidente da fonte, e da sensação que tinha sentido nessa ocasião, sustentava que tinha em seu estômago um animal vivo. Cinco médicos foram consultados e, depois de maduro exame, a conjectura do doente lhes pareceu provável. Ordenaram-lhe, portanto, que se abstivesse de todo alimento por espaço de 5 dias.

Durante esse período, as dores de estômago tornaram-se insuportáveis. O doente teve delírios. Os médicos, nesta ocorrência, julgaram que o ópio poderia obrar sobre os nervos do estômago sem afetar o animal que porventura nele houvesse, o qual, procurando alimento, sairia pelo esôfago: assim realizou-se.

O moço caiu em um sono agitado e os movimentos do estômago se tornaram mais violentos. Puseram-no numa posição inclinada, correspondendo a um ângulo de 45 graus, a cabeça para baixo. No fim de 10 minutos, uma cobra saiu pela boca do enfermo. Seus olhos vivos e brilhantes resplandeciam de cólera. Alcançou-se, com efeito, extraí-la. Ela agitava-se violentamente e desenvolvia muita eletricidade. Tinha 4 pés de comprido e 3 polegadas de diâmetro.

Depois da extração, todos os sintomas dolorosos desapareceram, a chaga do estômago foi cicatrizado e o doente começa a tomar vigor.

 

Fonte: “Gabinete de Leitura”/RJ, edições de 1º de outubro de e 31 de dezembro de 1837.

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