FECHADO NA CATACUMBA - Conto Clássico de Terror - H. P. Lovecraft
FECHADO NA CATACUMBA
H. P. Lovecraft
(1890 – 1937)
Tradução de autor anônimo do séc. XX
Não sei de crença mais absurda do que essa associação convencional dos fatos simples às coisas serenas e banais de que parece imbuída a psicologia das multidões.
Em consequência de um bucólico lugarejo ianque, inepto e obtuso agente funerário de aldeia e um descuido desastroso no interior de um jazigo tumular, nenhum leitor de mediano entendimento podia esperar outro desfecho que não alegre, embora grotesco, ato de comédia.
Mas só Deus sabe como a tremenda história de George Birch, cuja morte agora me permite contá-la, apresenta aspectos frente aos quais as nossas mais sombrias tragédias são perfeitamente simples, leves, pueris.
Birch, que abandonou a profissão por outra em 1881, jamais tocava nesse assunto, fugindo do caso o mais que podia.
Também o velho médico, Dr. Davis, que morreu há alguns anos, evitava emitir a menor palavra a respeito.
Geralmente se atribuía tal atitude à aflição e ao abalo resultantes de um fatídico descuido pelo qual Birch se fechara, durante nove horas, na catacumba do cemitério de Peck Valley e de onde só conseguiu escapar empregando meios rudes e contundentes.
Embora tudo isso fosse incontestável, havia outras coisas mais negras que o pobre homem me confiou, sussurrando, no seu delírio de ébrio, já às portas da morte. Ele confiou em mim porque eu era o seu médico e, também, provavelmente, por sentir a necessidade de desabafar-se com alguém depois do falecimento do Dr Davis.
Birch jamais se casara, nem contava parente algum neste mundo. Até 1881, fora empreiteiro dos enterros em Peck Vailey e sempre se mostrara o tipo de indivíduo rude e primitivo de modos e ideias.
As práticas que ouvi se lhe atribuírem, hoje ninguém as acreditaria possíveis, pelo menos em uma cidade; e mesmo Peck Valley teria estremecido de espanto se soubesse ao certo dos inescrupulosos processos do seu coveiro exclusivo, tais como, por exemplo, a subtração dos custosos tecidos amortalhantes, favorecida pela tampa fechada do caixão, e a falta de respeito sacrílega na colocação e arranjo dos restos mortais nos ataúdes que fornecia, nem sempre fabricados do comprimento adequado.
Mas, acima de tudo, o coveiro era moroso, relaxado e mau profissional. Apesar disso, não penso que fosse, no fundo, mau sujeito.
Julgo-o simplesmente duro de inteligência e ação, bronco, desmazelado e beberrão, como a presente história o demonstrará à saciedade, e, além disso, sem o mínimo grau de imaginação comum à maioria dos seres humanos, dentro do limite fixado pelo bom senso.
Dificilmente sei por onde começar o caso de Birch, uma vez que não possuo prática qualquer de narrador. Mas, como tenho forçosamente de fazê-lo, principiarei por aquele frio dezembro de 1880, quando os campos gelaram de tal forma que impediam de cavar-se sepulturas até o advento da primavera e consequente amolecimento do solo.
Felizmente, a aldeia possuía pequenas proporções, o que tornava muito baixo o seu coeficiente de mortalidade. Assim, foi possível dar-se a todas as cargas fúnebres do enterrador local um abrigo provisório na única e antiquada catacumba do cemitério.
Com a inclemência do tempo, Birch ficou dobradamente lerdo e parecia superar-se, a si mesmo, de relaxamento nos diversos misteres da sua profissão. Jamais construíra ele ataúdes tão grosseiros e mal ajustados, nem mais flagrantemente descurara antes os cuidados indispensáveis com a enferrujada fechadura da cripta, cuja porta ele costumava abrir com um safanão e fechava com desleixados pontapés.
Afinal, veio o degelo e as sepulturas puderem ser cavadas laboriosamente para os silenciosos frutos humanos, safra da impiedosa segadora eterna, e que pacientemente esperavam o repouso final da última morada.
Birch, embora maldizendo o afã, começou a remoção dos cadáveres, numa desagradável manhã de abril, interrompendo-a, porém, antes do meio-dia, devido à pesada chuva que cegava o cavalo da carreta, e depois de só ter baixado um único defunto ao seio da terra. Este era Darius Peck, nonagenário, cuja cova ficava perto da catacumba. O coveiro resolveu começar, no dia seguinte, com Matthew Fenner, velhinho miúdo, que tinha o seu túmulo também não multo distante. Acabou, porém, adiando o serviço para três dias depois, só voltando a trabalhar na Sexta-Feira Santa, dia quinze.
Não sendo supersticioso, nenhuma importância deu à data, se bem que, depois da história, sempre se recusou a fazer qualquer serviço nesse fatídico dia da semana.
Certamente, os acontecimentos daquela noite mudaram, por completo, o feitio de George Birch.
Então, na tarde de Sexta-feira Santa, quinze de abril, o nosso homem se dirigiu à catacumba, com o cavalo a puxar a carroça, a fim de apanhar o caixão de Matthew Fenner.
A verdade é que Birch já gostava da bebida, conforme ele próprio o confessou mais tarde, embora, naquele tempo, ainda não contraíra o vicio desbragado pelo qual procurou esquecer, na embriaguez, certos fatos penosos.
O agente funerário sentia-se, então, bastante entontecido e abstrato que esquecia o necessário incitamento ao seu cavalo que, vendo-se assim diligentemente conduzido, relinchava, batia com as patas no solo e remetia continuamente a cabeça, molestado pela chuva.
Entretanto, o dia mostrava-se claro e a ventania soprava, o que pôs o coveiro contente com a ideia de abrigar-se ao abrir a porta de ferro e penetrar na cripta cavada no flanco da colina.
Um outro não teria gostado daquele recinto úmido e malcheiroso, com oito esquifes dispostos cuidadosamente ao centro, mas Birch tinha a alma já calejada pelo ofício e só se preocupava em não errar a sepultura de cada um. Jamais esquecera os protestos levantados quando os parentes de Hanna Bixby, desejando transportar-lhe os restos ao cemitério da cidade para onde se haviam mudado, encontraram, sob a lápide de Hanna, a urna do juiz Capwell.
O interior da catacumba mergulhava-se em densa penumbra. Bich, no entanto, possuía excelente vista e não confundiu o caixão de Fenner com o de Asaph Sawyer, embora fosse este multo semelhante àquele.
Com efeito, o ataude de Sawyer destinava-se primitivamente a Matthew Fenner, mas, à última hora, Birch pusera-o de lado, achando-o demasiado frágil e tosco, pois, num impulso de sentimentalismo agradecido, lembrou-se de quanto o velhinho Fenner o ajudara em uma falência, cinco anos antes. Assim, deu ao seu bom protetor tudo o que de melhor a sua arte podia produzir.
Mas, sendo demasiado sovina para desperdiçar o material defeituoso, aproveitou o refugo quando Asaph Sawyer morreu de febre maligna.
Este não gozava de bom conceito como cidadão e muitas histórias corriam da sua quase desumana série de vingança e da sua memória tenaz, que o impedia de esquecer ressentimentos reais ou imaginários contra os desafetos.
Assim, o empreiteiro fúnebre nenhum constrangimento sentiu em reservar-lhe o ataude malfeito que, naquele momento, afastara para o lado com um repelão, procurando o de Fenner.
Foi justamente então, enquanto punha as mãos no caixão do bom velhinho, que o vento bateu a porta, mergulhando tudo na escuridão.
O estreito postigo só deixava uma fraquíssima claridade e nenhuma virtualmente se coava pela chaminé de ventilação do teto.
O coveiro ficara, pois, reduzido a um tatear inconsciente, caminhando, hesitante, entre os esquifes, na direção da porta.
Nesse débil lusco-fusco, fez tanger a enferrujada aldraba, sacudiu inutilmente as almofadas de ferro, espantando-se com a súbita resistência da maciça porta.
Compreendeu logo a realidade da situação e pôs-se a gritar desesperadamente, como se o cavalo, lá fora, pudesse fazer mais do que responder-lhe com relinchos agudos e desolantes.
A lingueta da fechadura, longamente desleixada, quebrara-se finalmente, fechando a culpada vítima da própria negligência na escura catacumba como em uma ratoeira.
A coisa devia ter acontecido cerca das três e meia da tarde.
Birch, dotado de temperamento fleumático e prático, não gritou por muito tempo, pondo-se logo a procurar, às apalpadelas, algumas ferramentas que lembrava haver visto amontoadas em um canto.
Não há, contudo, certeza se ele avaliou de pronto todo o horror e a impressionante fatalidade da sua crítica situação, mas o simples fato de se ver encerrado em local fora do caminho de qualquer ser humano seria bastante para fazer perder a cabeça ao mais valente indivíduo. A tarefa do dia fora, assim, desgraçadamente interrompida e, a não ser que a sorte trouxesse até ali algum excursionista errante, Birch teria de ficar enclausurado durante toda a noite, e ninguém podia saber por quanto tempo mais.
Logo que encontrou o monte de ferramentas, o enterrador escolheu um martelo e um escopo e voltou à porta, passando por sobre os caixões. O ar começara a ficar excessivamente empestado, mas ele não atentou em semelhante detalhe, tão ocupado estava em atacar o pesado e corroído metal da fechadura. Teria certamente então dado tudo por uma lanterna acesa ou um simples toco de vela, mas, na falta de qualquer iluminação bastante, martelava, às cegas, da melhor maneira que podia.
Percebendo, porém, que o fecho resistiria inexoravelmente, pelo menos a tão frágeis instrumentos, naquelas tenebrosas condições, Birch olhou em torno, na esperança de achar outros possíveis meios de safamento. A catacumba se cavava na encosta de uma elevação, de modo que o ventilador atravessava vários pés de terra, eliminando, assim, qualquer visibilidade de evasão por aquele lado. A claraboia losangular, tendida bem alto, sobre a porta, na fachada de tijolos, parecia-lhe mais suscetível de ser alargada, embora à custa de rudes esforços. Os olhos do homem nela se fixaram longamente, enquanto espremia o cérebro, em busca do meio de subir e alcançá-la. Não havia ali espécie alguma de escada e os nichos destinados a receber as urnas, situados nas paredes laterais e do fundo, não lhe dariam acesso, muito distantes, à parte superior da porta. Só restava, portanto, o uso dos próprios esquifes, à guisa de degraus. Fixando o pensamento nesse sentido, estudou o melhor meio de colocá-los. Calculou que a altura de três caixões superpostos lhe seria bastante para chegar à claraboia, mas quatro lhe tornaria o trabalho ainda mais fácil. As urnas fúnebres eram bem niveladas e podiam ser empilhadas solidamente. Sem mais demora, pôs-se a imaginar como deveria dispor os oito féretros para construir uma plataforma escalável, cujo piso superior se constituísse de quatro deles. Enquanto pensava, só lamentava não ter feito as unidades de sua escadaria com absoluta solidez. Agora, se a sua imaginação chegou a desejar que os caixões estivessem vazios, é francamente duvidoso.
Finalmente, decidiu encostar uma base de três ataúdes à porta e colocar sobre esta duas camadas de dois féretros cada uma e, em cima de tudo, um único caixão servindo de estrado. Tal disposição podia ser erguida com o mínimo de tropeços e lhe forneceria a altura desejada. Ainda melhor, assim só se utilizaria de dois caixões, na base, para suportar a superestrutura, deixando o terceiro, como um degrau disponível, para o caso de ser-lhe necessário maior altura. E o prisioneiro labutou, na penumbra espessa, erguendo os defuntos, sem nenhuma cerimônia, naquela muda de torre de babel. Vários féretros começaram a estalar no decurso da operação e Birch resolveu reservar o de Matthew Fenner, pela sólida construção, para encimar a pilha, de modo que, ao trabalhar na claraboia, os seus pés encontrassem a superfície mais firme possível como apoio.
Por fim, a torre foi terminada e, com os braços doloridos, Birch fez uma pausa, durante a qual se sentou no primeiro degrau da estranha escada. A seguir, subiu cautelosamente, com as ferramentas, até a claraboia e ficou de pé ao lado da trave estreita, cujos bordos eram de tijolos, e que, lhe parecia, não lhe seria difícil cinzelar o suficiente para escapulir daquela fúnebre prisão. Ao ressoar das primeiras marteladas, o cavalo, lá fora, relinchou em tom que tanto podia ser de encorajamento como de mofa. Em ambas as hipóteses, a manifestação da alimária se tornava adequada, pois a imprevista tenacidade da camada de tijolos, de frágil aspecto à vista, simbolizava um verdadeiro comentário sardônico à falácia das esperanças terrenas e exigia um trabalho merecedor dos mais acalorados incitamentos.
Caiu a noite, que encontrou o coveiro ainda mourejando. Agora, trabalhava exclusivamente pelo tato, pois grandes nuvens repentinamente aglomeradas eclipsaram a Lua. Embora o progresso geral fosse medíocre, ele se sentia animado com a extensão das erosões produzidas no alto e no fundo da claraboia. Estava firmemente convicto, enfim, de que conseguiria libertar-se por volta da meia-noite. Abstraído de reflexões opressivas sobre o tempo, o lugar e a companhia empilhada sob os seus pés, Brich ia filosoficamente lascando os pétreos tijolos. Praguejava quando um estilhaço o atingia no rosto e ria-se quando outros se projetavam sobre o cada vez mais enlevado cavalo que pastejava, amarrado ao cipreste. De vez em quando, julgava a abertura tão adiantada que tentava por ela passar o corpo e, ao assim proceder, tanto se remexia que os esquifes, embaixo, dançavam e estalavam. Esperava, entretanto, não ter de elevar mais a plataforma por meio de um quinto ataúde, pois o buraco se encontrava no nível exato de ser transposto logo que as dimensões permitissem a passagem.
Devia ser, pelo menos, meia-noite, quando Birch decidiu empreender a travessia da claraboia.
Cansado e suarento, a despeito das inúmeras pausas, desceu ao chão e sentou-se um momento sobre o esquife inferior, a fim de reunir as forças para o esforço final e o salto para o exterior. O cavalo, faminto, relinchava repetida e fracamente, enquanto o seu dono fazia votos para que ele parasse com aqueles lúgubres apelos. Birch sentia-se paradoxalmente pouco entusiasmado. No momento de realizar a ambiciosa libertação, assaltou-o um como quase medo de iniciá-la, pois a coisa se revestia de intemerata rudeza dos heroicos tempos medievais. Ao galgar de novo os caixões, já rachados, ele percebeu, apreensivo, o próprio corpo mais pesado ainda, especialmente quando, depois de atingir a plataforma, ouviu um estalo forte de madeira que acabava de ceder. Fora-lhe inútil escolher o caixão mais sólido para encimar o macabro andaime. Tão pronto voltara a descansar sobre ele o peso do corpo, a tampa rompeu-se, fazendo-o baixar duas jardas sobre uma coisa mole, de que jamais imaginara, um dia, haver de sentir, sob os pés, a muralhante e gosmenta friagem. Estonteado pelo barulho ou pelo fétido que se desprendera, vigoroso, até o lado de fora, o cavalo emitiu um berro estridente, demasiado selvagem para chamar-se um relincho, e mergulhou na noite de piche, louco de pânico, seguido do estrépito infernal da carroça, arrastada aos trambolhões cegos.
Naquela angustiosa situação, Birch se encontrava agora impotente para atravessar a claraboia já alargada, mas resolveu reunir as energias para uma tentativa desesperada. Tendo conseguido agarrar-se à beira da abertura pela ponta dos dedos, dispunha-se a alçar-se, pela força dos braços, quando notou uma estranha pressão, como se alguém o puxasse para baixo pelos calcanhares. Então, pela primeira vez, naquela noite, ele sentiu medo. Sim. Porque, embora se debatesse, esperneando furiosamente o mais possível, não conseguiu sacudir fora a misteriosa garra que lhe prendia os pés em uma tração contínua. Dores horríveis, como de chagas cruéis, percorriam-lhe a barriga da perna e, em seus espírito, dançava, num vértice de horror supersticioso, a inequívoca realidade, a prova material: o lascar das tábuas, os pregos arrancados e todos os demais ruídos característicos da madeira que se parte. Não era, portanto, uma ilusão dos sentidos, um fenômeno alucinatório gerado pelas circunstâncias. Pôs-se a lutar, dando de pernas, em contorções ainda mais frenéticas, até passar a um estado de semidesmaio, em que os seus desvairados movimentos continuaram, ao acaso, automáticos. De repente, sem saber como, viu-se livre, já com o corpo metido na claraboia.
Somente o instinto o guiou no trágico caminho sinuoso através da abertura e ao rastejar que seguiu ao baque surdo da sua queda no exterior sobre o chão úmido. Birch não podia caminhar e a Lua nascente deve ter testemunhado a horrível cena daquele homem delirante, arrastando os tornozelos em sangue, na direção do pequeno pavilhão do cemitério, os dedos espasmódicos enterrando-se na relva enegrecida, em pressa febril, o corpo, porém, respondendo com a clássica lentidão desesperante de quem procura fugir dos fantasmas nos pesadelos. Evidentemente, ali não havia perseguidor algum, pois que Birch estava só e acordado quando Armington, o guarda da necrópole, atendeu a seu fraco batido à porta.
O guarda levou-o para uma cama de reserva e mandou o filho, Edwin, chamar o Dr. Davis. O pobre empreiteiro de enterros se achava em perfeito estado de conhecimento, mas nada dizia sobre o acontecimento, murmurando apenas raras palavras como: “Ai! Meus tornozelos! Largue-me!… Fechado na catacumba…”. Pouco depois, chegou o médico com a sua maleta de remédios, fez perguntas insistentes ao ferido e removeu-lhe as roupas de cima, os sapatos e as meias. As feridas (ambos os artelhos se apresentavam horrivelmente dilacerados sobre o tendão de Aquiles) intrigaram grandemente o velho doutor e, a seguir, quase o aterrorizaram. O interrogatório, com efeito, ultrapassou o terreno médico e as mãos do esculápio tremiam visivelmente ao cingirem os retalhados membros de espessas ataduras, como se ele quisesse, sobretudo, ocultar aquelas chagas o mais depressa possível.
Realmente, as perguntas angustiosas e solenes do Dr. Davis tornavam-se mais do que estranháveis, pois deixavam bem patente a intenção de arrancar do infeliz coveiro até o mais insignificante detalhe da sua pavorosa aventura, o que era inadmissível a um médico. Davis mostrava-se singularmente ansioso por saber se Birch tinha a certeza de quem era o caixão que servia de plataforma, de como ele o identificara em plena escuridão e, finalmente, por que maneira o distinguira da duplicata de qualidade inferior, mais tarde ocupada pelo corpo do mal-afamado Asaph Sawyer. Em suma, por que artes o sólido ataúde de Fenner cedera assim, tão facilmente? O profissional, antigo médico da aldeia, assistira, naturalmente, aos funerais de ambos, como também os havia atendido nas suas derradeiras enfermidades. Até mesmo no enterro de Sawyer, muito se admirara de como se arranjara o vingativo fazendeiro defunto para acomodar os longos ossos em tão diminuto caixão, feito sob as medidas do pequeno Fenner.
Após duas longas horas, o Dr. Davis partiu, insistindo com o paciente para convencer-se de que as suas feridas só poderiam ter sido causadas por pregos de pontas soltas estilhaços agudos de madeira. Nada mais explicaria o acontecido com lógica e verossimilhança, acrescentou.
Sobretudo, recomendou-lhe ainda falar o menos possível sobre o caso e, em nenhuma hipótese, permitisse que ouro médico lhe tratasse aqueles ferimentos. Birch seguiu esses conselhos o resto da sua vida, até que um dia me contou a sua história. Depois de examinar-lhe as cicatrizes, já velhas e esbranquiçadas, achei que ele fizera muito bem em manter-se discreto. Do acidente, o pobre homem saíra aleijado, pois fora cortado o tendão principal, mas, para mim, a sua maior invalidez operou-se- lhe na própria alma. De temperamento outrora tão fleumático, o seu raciocínio guardou, depois do fato, transtornos imperecíveis e comovia observar-se-lhe as reações e certas alusões causais, como “sexta-feira, catacumba, caixão” e outras palavras menos diretamente significativas. O seu cavalo, assustado, regressara a casa, mas a razão do pobre homem nunca mais retornou ao lugar devido. Ele trocou a profissão, mas, para sempre, algo lhe ficou, penando-o. Talvez fosse apenas o medo, ou o medo envolto em espécie estranha de implacável remorso pelas más ações do seu passado. Ademais, a bebida só veio agravar o que ele tencionava aliviar com a embriaguez.
O Dr. Davis, ao deixá-lo, naquela noite, pegara uma lanterna e se dirigira à catacumba.
A Lua iluminava vagamente os destroços dos tijolos espalhados, a fachada esburacada e o velho cipreste, de cujo tronco ainda pendia o segmento do cabresto arrebentado pelo equino em pânico.
O trinco da pesada porta de ferro abriu-se à primeira pressão da maçaneta exterior.
Endurecido pela antiga prática das autópsias, o médico entrou e correu o olhar em torno, contendo a náusea física e moral que o mau cheiro e tudo mais ali provocavam.
De repente, deixou escapar um grito e, logo depois, teve um estremeção que lhe pareceu mais terrível do que um berro de dor.
E correu desabaladamente para o pavilhão do cemitério, onde, contra todas as regras da compostura, agarrou o doente pelas roupas, levantando-o, com força, atirou-lhe uma série de cochichos frenéticos que entraram pelos ouvidos do ferido, fervilhantes como vitríolo.
— O caixão era de Asaph Birch — sibilou-lhe o doutor —, justamente como eu pensava. Reconheci-lhe o cadáver pela dentadura, a que faltavam incisivos superiores. Pelo amor de Deus, jamais mostre os seus ferimentos a quem for! O corpo estava completamente putrefeito, mas, ainda assim, nunca vi expressão tão nítida de vingança satisfeita como a das suas feições já enegrecidas. Nunca, juro-o, em toda a minha vida! Bem sabe o demônio tenaz que era ele para vingar-se. Ainda deve estar lembrado de como arruinou o velho Raymond, trinta anos depois da demanda de terras entre ambos, e como matou, a pisadas, o cãozinho inofensivo que o perseguira, latindo, fez um ano em agosto… Era o diabo em figura de gente e penso que a sua teoria de olho por olho e dente por dente tinha tanta ferocidade que resistiu à própria morte. O seu ódio… meu Deus!… eu não o quisera, jamais, sobre mim! Então, por que você o foi provocar, Birch? Por ter sido um sujeito miserável, não te censuro ter-lhe dado um caixão refugado. Mas sempre exageras as coisas! Há limites que se devem respeitar, a todo preço, e conhecias muito bem o tamanho do velhinho Fenner!
“Nunca mais se me apagará da memória, enquanto vivo for, o quadro que então presenciei. Deves ter esperneado com o mais furioso vigor, pois o caixão de Asaph estava por terra, atirado longe. A sua cabeça esfacelada e tudo mais, dentro, revolvido. Já muita coisa neste mundo, mas uma, doravante, ficará insuperável! Olho por olho!
“Francamente, Birch, tiveste o que merecias. O crânio esmigalhado de Asaph embrulhou-me o estômago, mas a outra extremidade do corpo fez-me pior — aqueles tornozelos cortados rentes para que o defunto coubesse no caixão feito para Matt Fenner!”
Fonte: “Policial em Revista”/RJ, nº 205, junho de 1951 et alli.
Fizeram-se adaptações textuais.
Lembro-me de ter lido este conto pela primeira vez na antiga revista esotérica Planeta. A Planeta publicava artigos esotéricos mas às vezes e raramente publicava contos.
ResponderExcluirSim, é verdade! O primeiro conto que li de Bierce foi numa antiga — muito antiga — revista Planeta, que era de minha tia.
ExcluirEssa revista me lembro que eu não tinha dinheiro pra comprar e ficava nas bancas me lambendo pra comprar, mas sempre caía um exemplar grátis nas minhas mãos e eu vibrava com isso. Os dentistas e barbeiros naquela época, na sala de espera, tinha muitas revistas, incluindo essa Planeta que hoje existe mas com temática mais suave e ecológica por causa do discurso do politicamente correto que proíbe tudo. Os contistas de terror e os esotéricos ou ocultistas, sempre andaram de mãos dadas. Hoje na sala de espera desses profissionais, todo mundo com celular na mão. Sinto nostalgia daquela época, onde tudo era difícil de conseguir mas era divertido. Nós não estamos velhos, apenas nos tornamos os "Grandes Antigos", rss rss O Poe por exemplo, provavelmente estudava temas esotéricos, vemos uma pista disso no poema O Corvo, onde ele diz mais ou menos assim,"Ah, como eu queria a madrugada, toda noite aos livros dada, pra esquecer a amada, hoje entre as hostes celestiais", ou no verso "Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais..."
ExcluirEssa revista Planeta era magnífica. Hoje ela ainda existe, mas voltada pra o lado ecológico, parece. A Spektro também publicou esse conto. Nessa época o Lovecraft e o Bierce, não eram tão populares no Brasil como hoje. Me lembro que com o advento da internet, o Lovecraft e o Bierce se popularizaram por aqui. Aliás, o Site Lovecraft, do Denilson, foi o precursor e o pioneiro pra fazer o Lovecraft ter milhares de leitores hoje aqui no Brasil.
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