NO HOSPITAL - Conto Clássico Cruel - Olavo Bilac
NO HOSPITAL
Olavo Bilac
(1865 – 1918)
— A que propósito me vem agora esta recordação?—disse Jacques.
Estávamos sós no gabinete de trabalho. Chovia lá fora. Chuva miúda e triste. Ele, do fundo da sua poltrona, cofiava a barba, com a mão branca e fina, de tísico.
Uma vaga melancolia pesava no gabinete, entre as estantes altas, de jacarandá, e os reposteiros de seda escura.
— É curioso! Começa a gente a pensar numa coisa, e daí a pouco é outra, inteiramente outra, a que se impõe à meditação…
E contou isto, com a sua doce e quebrada voz de doente:
“Foi, creio, em 1883. Estudava eu medicina, praticando, como interno supranumerário, nas enfermarias da Misericórdia. Faltou um dia ao serviço o interno efetivo de uma das enfermarias de cirurgia. Fui designado para substituí-lo. E justamente o professor que dirigia a clínica nessa enfermaria teve de praticar em um enfermo uma operação de certa gravidade. Tratava-se, bem me recordo, da ablação de um largo trecho do maxilar inferior, roído pela cárie. O doente era um caboclo reforçado, um belo exemplar de homem, face bronzeada, cabelos corridos e negros, olhos pequenos, cujo brilho singular e fixo perturbava. Tinha uma lesão cardíaca. Essa lesão, e mais o fato de carecer a operação de ser feita em uma posição incômoda, devendo o sangue encher a boca do paciente, tapando-lhe a garganta, impediam que se procedesse à cloroformização prévia.
De modo que a horrível coisa, cujos pormenores e incidentes me estão ainda hoje dolorosamente gravados na memória, teve de ser suportada pelo desgraçado em perfeita e consciente vigília, com todos os nervos em sensibilidade completa... Foi medonho! Durante hora e meia, assisti ao espetáculo da mais bela, da mais admirável, da mais incrível coragem que um homem pode mostrar! Estendido a fio comprido sobre uma mesa, com as pernas e os braços contidos pelos ajudantes, o doente tinha apenas, por todo o corpo, um tremor continuo,ininterrompido, uma agitação de toda a pele. Os seus olhos, pequenos e faiscantes como dois carbúnculos, não se fecharam nunca: durante hora e meia, fixos, terrivelmente fixos, brilharam secos, sem uma lágrima.
Primeiro, foi o bisturi que rasgou a pele, os músculos, pondo a descoberto o osso que a cárie comia. Depois, as pinças hemostáticas que apertaram as extremidades toradas de artérias. Depois,o serrote que começou a ranger no osso, com um barulho que nos dava a todos arrepios de terror. Depois, o curativo. E, do começo ao fim, os olhos do caboclo rutilavam, sinistramente abertos, e todo o seu corpo tremia de leve sob as nossas mãos, sacudido pela dor que aquela carne padecia e pelo esforço sobre-humano que continha aquele espirito...
Quando transportado para o leito, na enfermaria, fecharam-se-lhe os olhos. Adormeceu. Passava de meio-dia. Só tornei a vê-lo, à meia noite, quando, chegada a hora do meu quarto, me vieram acordar para que eu fosse substituir o primeiro interno.
Oh! A sinistra, a indescritível viagem, à meia-noite, por vinte corredores sem fim, de chão lustroso e escorregadio, só, estremunhado ainda de sono, passando por portas negras de enfermarias, frouxamente alumiadas por lâmpadas oscilantes, só, dentro daquela imensidade escura, como dentro de um túnel de sonho, povoado de gemidos, de soluços, de estertores de febre, de sons incoerentes e vagos, de barulhos de tosse, e cheio de um cheiro indefinível, misto, de ácido fênico, de podridão, de suor de agonia!…
Depois, a vigília. Na enfermaria quase sem luz, numa penumbra em que os vultos das camas regularmente alinhadas mal se distinguiam, uma mesa pequena, posta junto da cama do operado. Sobre a mesa, fios, pinças, pulverizadores de Lister, frascos pequenos com ácido fênico e perclorureto de ferro. Uma vela, uma garrafa de vinho do Porto, botijas de remédios, poções calmantes; e, à mão, entre todos esses petrechos, o termômetro.
Aproximei-me da cama; inclinei-me para o doente. Dormia. Uma respiração irregular, entrecortada, lhe levantava e abaixava intermitentemente o peito. Ardia-lhe a pele, queimada de febre. Tomei-lhe a temperatura, registrei-a na papeleta, e acendendo a vela, sentei-me em frente à mesa e tentei ler um livro que levara comigo.
Começou então a escoar-se o tempo mais longo por que tenho passado na minha vida. A chama da vela, agitava-se levemente, abria em torno da mesa um círculo de claridade: fora dele, a escuridão da enfermaria aumentava pelo contraste. Naquela enorme sala, altíssima, comunicando, adiante e atrás de mim, com outras salas, o menor barulho tomava proporções estranhas, exagerando-se, alucinando-me. E os meus olhos, afundando-se na extensão das salas que se sucediam, avistavam um sem-número de lâmpadas mortiças tremendo, tremendo numa longa fila, que a vista perdia por fim. Daí a pouco, aquele meio apavorante me havia dominado. Passavam pela escuridão relâmpagos vagos, como de sudários brancos voando. Os rumores confusos de tosse, de gemidos, de respirações agonizadas, tomavam corpo, avultavam, entravam-me pelo ouvido, martelando-me o cérebro.
A morte estava ali perto de mim. E eu sentia o seu hálito gelado bafejar-me a nuca e tinha a certeza absoluta, precisa, iniludível, de que me bastaria voltar a cabeça para vê-la
Nesse momento, senti que o operado se agitava no leito. Tive um suspiro de alívio, abençoando aquele movimento, que me arrancava das mãos do terror. Levantei-me e encostei-me à cama, com a vela acesa em punho. O desgraçado acordara. E a primeira coisa que vi foram os seus olhos, os seus mesmos olhos de durante a operação, abertos, horrivelmente abertos, fixos em mim.
Só então, compreendi o que eles queriam dizer de manhã, quando os bisturis rangiam sobre a carne ensanguentada, e o que me estavam dizendo naquele instante.
Havia nesses olhos, cheios de um clarão sinistro, um tal desprezo pela dor, um tal nojo da vida, uma tão absoluta serenidade diante da morte, que admirei esse homem extraordinário, como nunca mais hei de admirar ninguém…
Tomei-lhe a temperatura. A febre baixara. Mas a respiração era difícil. E alguma coisa, não sei o quê, me incutiu no espirito a convicção de que ele ia morrer. E os seus olhos me fitavam sempre... Dei-lhe uma colher da poção, cheguei a minha face até perto da sua, falei-lhe carinhosamente, com a voz quase soluçando, como se falia a um irmão que vai morrer... Ele olhava-me sempre, como quem quer falhar e não pode, como quem precisa dizer uma coisa que está enchendo a alma e não pôde passar da garganta. Ao cabo de algum tempo, cerrou as pálpebras... Adormeceu ou pareceu adormecer de novo.
Voltei para a minha mesa. Então, mais calmo, fortificado pelo nobre espetáculo daquela nobre coragem, começava eu a ler, quando um rumor, diferente dos outros que haviam até então povoado a enfermaria, me chamou a atenção. Era um como arrastar de sandálias, acompanhado de um cicio brando… E, olhando para a frente, vi que longe, muito longe, na escuridão da última sala, balançava-se uma luz, quase ao nível do chão. De quando em quando, sumia-se a luz e cessava o rumor. Depois, aparecia ela mais próxima, e ouvia-se mais distintamente o arrastar de sandálias e o cicio de prece. Era uma irmã de caridade que, com a sua lanterna, fazia a ronda noturna.
Quando entrou na minha enfermaria, parou junto de mim, informou-se do operado. Chegamo-nos a ele. Acordara outra vez. Agora a respiração era angustiada, estertorosa. E os seus olhos abertos, terrivelmente abertos, iam da minha face á face da irmã...
Boa irmã! Sem dizer uma palavra, tinha compreendido como eu. Olhou-me, sorriu tristemente, e, tirando do pescoço o seu pequeno crucifixo de ébano, meteu-o nas mãos do moribundo. Ele abriu ainda mais os olhos, teve um arranco supremo de todo o corpo na cama e ficou imóvel.
Estava morto.
De joelhos, a irmã rezava. E, antes que, terminada a prece, ela se levantasse para lhe cerrar as pálpebras, eu encostei os meus olhos aos olhos do morto, para neles de perto ler a sublime e inolvidável lição que me davam, o segredo do ânimo inalterável, da coragem soberana e terrível, com que esse homem sereno, durante a operação, sofrendo dores inconcebíveis, e durante a agonia, sentindo dentro de si o despedaçamento de toda a alma, olhava impassivelmente para a morte, desprezando as misérias e as torturas da vida…”
Fonte: “Almanak Litterario e Estatistico do Rio Grande do Sul para 1896”/RS, Carlos Pinto & Comp., 1895.

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