NA CASA DE SUDDHOO - Conto Clássico Pseudo-sobrenatural - Rudyard Kipling
NA CASA DE SUDDHOO
Rudyard Kipling
(1865 – 1936)
Tradução de W. E.
(Séc. XX)
A casa de Suddhoo, bem perto da porta de Taysali, tem um andar com quatro janelas de velha madeira escura esculpida e um teto chato. Podeis reconhecê-la por cinco cartazes vermelhos, impressos a mão, e dispostos como o cinco de ouros sobre a caiadura, entre as janelas do alto. Bhagwan-Dass, o bunnia1, e um homem que, diz ele, ganha a vida gravando sinetes, moram no rés do chão, com seu bando de mulheres, criados, amigos e familiares. Os dois quartos do alto eram habitualmente ocupados por Janoo e Azizun, assim como por um pequeno terrier preto e castanho, que fora roubado a um inglês, e oferecido a Janoo por um soldado. Hoje, só Janoo mora nos quartos de cima. Suddhoo dorme geralmente no telhado, a menos que durma na rua, mas, na estação fria, vai habitualmente a Peshawar visitar o filho, que vende curiosidades perto da porta de Edwards, e então dorme sob um verdadeiro teto de terra. Suddhoo é meu grande amigo, porque seu primo tem um filho que, graças à minha recomendação, obteve um emprego de mensageiro-chefe numa importante casa da localidade. Suddhoo afirma que Deus fará de mim, algum dia, governador militar, e ouso acreditar na realização de sua profecia. Ele é velho, bem velho; tem os cabelos brancos; tão poucos dentes que nem vale a pena falar de tal coisa. Sobreviveu à sua inteligência; sobreviveu, em suma, a todas as coisas, exceto à afeição pelo filho de Peshawar.
Janoo e Azizun são caxemirianas, honestas prostitutas da cidade. Sua profissão era muito antiga, e mais ou menos honrosa; mas Azizun casou-se depois com um estudante de medicina do Noroeste. Regenerou-se e leva hoje em dia uma vida das mais decentes em alguma parte dos arredores de Bareilly. Bhagwan-Dass é um usuário e um falsário. Quanto ao homem que pretende ganhar a vida gravando sinetes, dá-se por muito pobre. Agora sabeis tanto quanto é necessário a respeito dos quatro principais moradores da casa de Suddhoo. Naturalmente, ainda há eu mesmo, mas só represento o papel do coro que, no último momento, vem dar a explicação dos acontecimentos. De maneira que não conto! Suddhoo não era astucioso. O homem que se fazia passar por gravador de sinetes era o mais astucioso de todos, exceto Janoo. Quanto a Bhagwan-Dass, só sabia mentir. Janoo tinha, além de tudo, a beleza, mas isto só a ela dizia respeito. O filho que Suddhoo tinha em Peshawar adoeceu de pleurisia, e o velho Suddhoo sentiu-se inquieto. O gravador soube da ansiedade de Suddhoo e resolveu transformá-la em fonte de renda. Para o tempo, o gravador estava adiantado. Arranjou, com um cúmplice de Peshawar, para informá-lo pelo telégrafo, dia a dia, a respeito do estado de saúde do rapaz doente. E é aqui que a história começa. Uma noite, o primo de Suddhoo informou-me que Suddhoo queria ver-me, que estava multo velho o muito fraco para procurar-me pessoalmente, e que, se eu o visitasse, concederia, à sua casa, honra eterna. Fui, mas penso que, levando-se em consideração a grande distância em que então se encontrava Suddhoo, bem poderia ele ter-me mandado outro veículo que não fosse um hekka2, que sacolejava terrivelmente, tratando-se de conduzir um futuro governador por uma noite de nevoeiro em abril.
O hekka não corria muito depressa. Era noite fechada quando nos encontramos diante da entrada do túmulo de Rungel Singh, perto da porta principal do forte. Lá se encontrava Suddhoo. Disse ele que, a julgar pela minha condescendência, era absolutamente certo que eu me tornaria governador antes que meus cabelos tivessem deixado de ser negros. Depois conversamos, durante um quarto de hora, no Hazurt Bagh, à luz das estrelas, a respeito do tempo que fazia, da minha saúde, das colheitas do trigo. Por fim, Suddhoo decidiu-se a tratar do assunto principal. Disse que Janoo o informara que o Sirkar3 baixara uma ordem proibindo a magia, porque se temia que tal coisa chegasse, mais cedo ou mais tarde, a causar a morte da imperatriz das Índias. Eu não estava ao corrente da legislação a respeito do assunto, mas imaginava que ia acontecer alguma coisa interessante. Aventurei, pois, que a magia, longe de ser censurada pelo governo, era altamente recomendada pelo mesmo. Praticavam-na os funcionários mais graduados do Estado. Se a exposição financeira não é magia, então não sei o que é magia. Por isso, para encorajá-lo em suas confidências, eu lhe disse que, se tramasse algum jadoo4, não hesitaria, de maneira alguma, a lhe conceder meu apoio e minha sanção, desde que fosse jadoo puro, magia branca, e não jadoo impuro, que ocasiona mortes. Foi preciso muito tempo para fazer confessar a Suddhoo que era esse precisamente o motivo pelo qual me chamara. Disse-me então, aos arrancos, e em voz trêmula, que o pretenso gravador era um feiticeiro da espécie mais pura; que todos os dias lhe dava notícias do filho enfermo em Peshawar mais depressa que o relâmpago, e que essas noticias eram sempre confirmadas pelas cartas. Disse-me mais que o feiticeiro fizera-lhe saber que um grande perigo ameaçava seu filho, perigo esse que podia ser afastado pelo jadoo puro e, naturalmente, por uma grande soma em dinheiro. Eu começava a entrever exatamente o que se passava, e disse a Suddhoo que também conhecia um pouco do jadoo à maneira ocidental, e que iria à sua casa providenciar para que tudo se passasse decentemente e em ordem. Partimos juntos. Em caminho, Suddhoo me disse que já pagara ao governador de cento e cinquenta a duzentas rúpias, e que o jadoo daquela noite lhe custaria mais duzentas. Era barato, dizia ele, considerando-se o perigo que corria seu filho, mas não creio que fosse essa sua verdadeira opinião. Todas as luzes estavam veladas na fachada da casa quando chegamos. Eu ouvia muito bem terríveis ruídos que partiam de trás da loja que o gravador ocupava. Dir-se-ia um homem atarefado em entregar a alma a força de gemer. Suddhoo estremecia dos pés a cabeça e, enquanto subíamos a escada às apalpadelas, ele me disse que o jadoo já começara. Janoo e Azizun receberam-nos do alto dos degraus e nos disseram que as operações do jadoo se realizavam em seu quarto, porque era mais espaçoso. Disse a meia voz que o jadoo era uma invenção para explorar Suddhoo e que o gravador de sinetes seria alojado, depois de morto, num lugar bem quente. Suddhoo estava a ponto de chorar de medo e senilidade. Não cessava de ir e vir no quarto em penumbra, de repetir a todo o momento o nome do filho e de perguntar a Azizun se o gravador de sinetes não poderia fazer um abatimento, porquanto tratava com o próprio senhorio. Janoo chamou-me para um recanto escuro onde estavam as janelas esculpidas da torrezinha do ângulo. As venezianas estavam erguidas, o quarto estava iluminado apenas por uma pequena lâmpada a óleo e, mantendo-me imóvel, eu não corria o risco de ser visto. Em breve, cessaram os gemidos no rés do chão e ouvimos passos que subiam os degraus. Era o gravador de sinetes. Parou na soleira, enquanto o terrier uivava e Azizun desatava a corrente, e disse a Suddhoo que apagasse a lâmpada. Resultou que o quarto mergulhou em trevas, negras como azeviche, onde apenas se distinguia a brasa vermelha dos dois hukas5 de Janoo e Azizun. O gravador entrou e ouvi Suddhoo atirar-se ao chão gemendo. Azizun prendia a respiração, e Janoo apoiava-se a um dos leitos, estremecendo. Ouviu-se um tinido de metal e do chão levantou-se uma pálida chama de um azul esverdeado. No aposento enxergava-se o suficiente para perceber Azizun aninhada a um canto da peça com o terrier entre os joelhos; Janoo, de mãos juntas, inclinando-se para a frente, sentada na cama; Suddhoo, o rosto voltado para o chão, todo trêmulo, e o gravador de sinetes. Espero nunca mais tornar a ver um homem igual a esse gravador. Estava nu até a cintura e trazia sobre a cabeça uma coroa de jasmim branco, tão espessa quanto meu punho, uma tanga de cor salmão em torno dos rins, e anéis de aço em cada tornozelo. Isto nada tinha de aterrorizador. Mas era o rosto daquele homem que me fazia correr um frio pela espinha. Em primeiro lugar, era de um azul puxando para o cinza. Em segundo, os olhos estavam revirados de tal maneira que deles só se via o branco. Por fim, seus traços eram o de um demônio, de um vampiro, de tudo o que quiserdes, exceto os do velho patife cheio de saúde, de pele oleosa, que se via durante o dia manobrando seu torno do rés do chão. Deitado de barriga para baixo, os braços levantados e cruzados sobre o dorso, como se o houvessem jogado por terra todo amarrado. A cabeça e o pescoço eram as únicas partes do corpo que não tocavam o chão. Quase faziam um ângulo reto com o corpo, como a cabeça de uma víbora que vai saltar. Era de um fantástico aterrorizante. No meio da peça, sobre o chão de terra nua, estava colocada uma grande e funda bacia de cobre, no centro da qual flutuava uma luz de um azul verde pálido, como a de um fogo fátuo. O homem deu três voltas em torno dessa bacia por meio de contorces do corpo. Como conseguiu semelhante coisa, não sei. Eu via perfeitamente os músculos ondular ao longo da espinha dorsal, e em seguida relaxar-se, mas não percebia nenhum outro movimento. Dir-se-ia que naquele corpo só a cabeça estava viva, com as lentas fases de distensão e relaxamento dos músculos do dorso, que trabalhavam penosamente. Janoo, sentada na cama, respirava sozinha. O velho Suddhoo, procurando com os dedos a lama que se entranhara em sua barba branca, chorava sozinho. O que havia de horrível, em tudo aquilo, era aquela coisa que coleava, coleava, sem ruído, e que coleava sempre. Além disso, recordai-vos que isso durou bem uns dez minutos, durante os quais o terrier gania, Azizun estremecia, Janoo olhava de boca aberta e Suddhoo chorava. Eu sentia os cabelos eriçar-se sobre a cabeça e meu coração bater como a palheta de um aparelho de ventilação.
Felizmente, o gravador de sinetes traiu-se pelo seu tour de force6 mais próprio a impressionar, e assim restituiu-me a calma. Depois de ter terminado essa tríplice viagem circular de nova espécie, ele ergueu a cabeça, afastando-a do solo tanto quanto pôde, lançando pelas narinas um jato de chama. Ora, eu sei como se executa esse jato de chama, sou até capaz de fazê-lo; senti-me, pois, tranquilizado. Tudo não passava de uma trapaça. Se ele se tivesse limitado aquele arrastamento, sem experimentar aumentar-lhe o efeito, não teria eu acreditado? Só Deus o sabe. As duas moças soltaram ao mesmo tempo um grito estridente, vendo aquele jato de chama, e a cabeça tornou a cair, batendo com o queixo no chão, e todo o corpo estendeu-se como um cadáver cujos braços teriam sido puxados para trás. Houve, em seguida, uma pausa de cinco bons minutos, e a chama azul esverdeada extinguiu-se. Janoo abaixou-se para colocar no lugar um dos anéis do tornozelo, enquanto Azizun voltava o rosto para a parede, apertando o terrier entre os braços. Suddhoo estendeu maquinalmente um braço para a huka de Janoo, que a fez deslizar pelo chão com o pé. Justamente acima do corpo, sobre a parede, havia dois retratos de cores berrantes, em molduras de cartão em relevo, representando a rainha e o príncipe de Gales. Ambos contemplavam a operação e me parecia que isso concorria para tornar a cerimônia mais grotesca. Exatamente no instante em que o silêncio começava a tornar-se insuportável, o corpo voltou-se e afastou-se da bacia, rolando sobre si mesmo até um dos lados do aposento, onde se deteve esticado de costas. Houve um ligeiro ruído — plop — na bacia, idêntico ao que produz um peixe quando apanha a mosca, e a luz verde, que havia aparecido no meio do quarto, novamente surgiu. Voltando os olhos para a bacia, enxerguei uma cabeça de criança indígena, com os grandes olhos salientes, a pele do crânio seca, enrugada, escurecida, de olhos abertos, boca aberta, o crânio raspado. E como a coisa acontecera bruscamente, fazia um efeito mais terrível que a viagem sobre o ventre. Mal tivemos tempo de refletir quando a cabeça se pôs a falar. Relembre a história em que Poe vos faz ouvir a voz do homem que morre magnetizado, e não tereis mais que a metade da sensação do horror que causava a voz partindo daquela cabeça. Havia um intervalo de um ou dois segundos entre cada palavra, e uma espécie de vibração, prolongada como o som de um sino, no timbre da voz. Tinia lentamente, como se falasse a si mesma, e precisei de vários minutos para libertar-me do suor frio que me causava. Então, a solução que me trazia a libertação apareceu-me. Olhava o corpo estendido perto da porta, e vi mover-se aos arrancos, justamente no lugar onde a depressão clavicular se confunde com a espádua, um músculo que jamais intervém na respiração regular do homem. Tudo aquilo era uma reprodução cuidadosa desses téraphins7 egípcios, que se encontram mencionados aqui e ali. A voz era o resultado de um ventriloquismo tão perfeito, tão terrivelmente hábil quanto se podia desejar. Durante todo esse tempo, a cabeça continuava a ressoar, fazendo vibrar os flancos da bacia, e a falar. Dirigia- se a Suddhoo, sempre gemendo com o rosto voltado para o chão, falando da enfermidade de seu filho, dizendo-lhe em que estado ele estaria naquela noite mesmo. Conservarei sempre alguma estima pelo gravador de sinetes, por motivo do cuidado que ele tinha em ficar de acordo com os telegramas de Peshawar. A voz se pôs novamente a dizer que experimentados médicos velavam dia e noite pela vida do rapaz, e que ele ficaria bom depressa, sob a condição de que fosse dobrada a soma ajustada com o feiticeiro todo poderoso que tinha a seu serviço a cabeça colocada na bacia. Foi então que se produziu o erro que prejudicou o efeito artístico. Pedir que fosse dobrada a quantia ajustada, e tomar de empréstimo para isso a voz de Lázaro que sai do túmulo, é absurdo. Janoo, mulher, que realmente possui uma inteligência masculina, percebeu isto tão rapidamente quanto eu. Ouvia-a dizer em tom desdenhoso, ainda que a meia voz: “Asli nahin! Fareib”8 e no mesmo instante em que pronunciava tais palavras, a luz da bacia extinguiu-se, a cabeça calou-se, e ouvimos a porta do quarto gemer nos gonzos. Imediatamente, Janoo riscou um fósforo, reacendeu a lâmpada, e vimos que tudo desaparecera, a cabeça, a bacia e o gravador. Suddhoo torcia as mãos e explicava a quem quisesse ouvi-lo que, ainda mesmo em se tratando de sua salvação eterna, ser-lhe-ia impossível encontrar duzentos rupias a mais. Azizun, a um canto, estava a ponto de ter uma crise de nervos, enquanto que Janoo, tranquilamente sentada no leito, preparava-se para discutir a probabilidade de se poder reduzir todo o negócio a um bunco, isto é, a uma velhacaria.
Expliquei, na medida dos meus conhecimentos, os processos empregados pelo gravador de sinetes, mas o argumento de Janoo era mais simples:
— A magia que persiste em pedir presentes não é a verdadeira magia — dizia ela. — Minha mãe ensinou-me que os únicos encantamentos amorosos que têm poder são aqueles que se fazem conhecer por simples afeição. Esse gravador de sinetes é um impostor, um diabo. Não ouso falar, nem agir, nem fazer outra pessoa agir, porque devo a Bhagwan-Dass por dois anéis de ouro e um pesado bracelete de tornozelos. Não posso deixar de fazer vir da loja a minha alimentação. O gravador é amigo de Bhagwan-Dass e envenenaria minha comida. Há dez dias que puseram em ação um jadoo de patifaria, e toda noite isto custa a Suddhoo muitas rúpias. Até agora, o gravador de sinetes empregava galinhas pretas, limões e fórmulas mágicas rituais. Nunca nos fez ver coisa alguma parecida com o que realizou esta noite. Azizun é uma tola e em breve estará boa para fazer a purdah nashin9. Suddhoo não tem mais força nem inteligência. Vede, confiei em que poderia tirar de Suddhoo muitas rupias enquanto fosse vivo, e muito mais ainda depois de morto, e, no entanto, vê-lo gastar tudo em proveito desse filho mestiço de um diabo e de uma jumenta, desse gravador de sinetes…
Nessa altura, interrompi-a:
— Mas o que foi que decidiu Suddhoo a me meter no negócio? Bastaria que eu dissesse uma palavra ao gravador, e o obrigaria a confessar. Tudo isto é criancices. É vergonhoso. Isto não tem senso comum.
— Suddhoo é uma criança velha — disse Janoo. — Dormiu pelos telhados durante setenta anos e não tem mais juízo que uma cabra leiteira. Se ele vos trouxe aqui, foi para ficar certo de não estar incorrendo em contravenção com algum regulamento do Sirkar, com quem conviveu há muitos anos. Ele se prosterna na poeira sobre as pisadas do gravador de sinetes, e esse comedor de vaca proibiu-lhe que fosse ver o próprio filho. Será que Suddhoo conhece alguma coisa de vossas leis, pouco mais que um para-raios? Será preciso que eu veja seu dinheiro desaparecer, moeda a moeda, pela influência da besta mentirosa que vive lá em baixo?
Janoo bateu violentamente com o pé no chão, de tal modo se encolerizara, enquanto Suddhoo gemia sob uma coberta, a um canto, e Azlzun experimentava enfiar na boca do velho imbecilizado a boquilha do cachimbo.
*
Eis, pois, o caso no seu instante critico. Sem dúvida, eu estaria exposto à acusação de acumpliciado com o gravador de sinetes, ter tentado obter dinheiro por motivos quiméricos, o que é proibido pelo artigo 420 do Código do Inder. Nada podia fazer por diversas razões. Não podia informar a polícia. Que testemunhas teria eu para confirmar minhas palavras? Janoo recusou-se peremptoriamente. Azizun é uma mulher casada em alguma parte nos arredores de Bareilly, perdida nesta Índia imensa que é nosso domínio. Não ouso fazer de mim mesmo o executor da lei e falar do gravador, pois — estou absolutamente certo — não só Suddhoo recusaria acreditar-me, mas ainda essa providência acabaria por fazer envenenar Janoo, que, de algum modo, está de pés e mãos ligadas à discrição do bunnia. Suddhoo é um velho caduco, cada vez que nos encontramos ele resmunga minha brincadeira idiota que o Sirkar antes protege que desfavorece a magia. Seu filho agora está curado, mas Suddhoo está inteiramente sob a influência do gravador, de quem ele recebe orientação para regular todos os atos de sua vida. Janoo vê deslizar entre as mãos do gravador todo o dinheiro que ela esperava subtrair a Suddhoo, cada dia que passa ela se torna mais colérica, mais aborrecida.
Nunca dirá coisa alguma porque não tem coragem para tanto. Mas, se alguma coisa não contrariar seus desejos, receio muito que o gravador venha a morrer do cólera — sob a forma de arsênico branco — pelos meados de maio. E é assim que eu me tornarei cúmplice de um assassinato na casa de Suddhoo.
Fonte: “Correio da Manhã/RJ”, edição de 2 de setembro de 1945.
Fizeram-se breves adaptações textuais.
Ilustração: Nigth Cafe.
Notas:
1Negociante.
2Charrete ou carruagem leve de duas rodas.
3Governador.
4Magia, feitiçaria.
5Narguilés.
6Extraordinária “perfomance” que exige grande esforço, habilidade ou destreza.
7Em francês, no original. Terafins são ídolos domésticos de origem semita.
8Em hindi, no original. Significado: “Não é real! É uma farsa”.
9Em urdo, no original. Literalmente, “Purdah nashin” significa “aquela que está atrás do véu”. A expressão faz referência a uma mulher que se recolhe à reclusão. A prática do “purdah” constitui símbolo de honra, respeito e dignidade, e destina-se a proteger a mulher das impuras influências do mundo exterior.

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