A NOIVA DE CORINTO - Conto Clássico de Terror - Amado Nervo

A NOIVA DE CORINTO

Amado Nervo

(1870 – 1919)

Tradução de Paulo Soriano



Havia na Grécia, em Corinto, uma família composta pelo pai, pela mãe e por uma filha de dezoito anos.

A filha morreu. Passaram-se os meses e seis já se tinham transcorrido quando um jovem, amigo dos pais, foi passar alguns dias na casa deles.

Deram-lhe um quarto relativamente separado dos demais e, certa noite, uma jovem de rara beleza bateu discretamente à sua porta.

O jovem não a conhecia; mas, seduzido pela beleza da donzela, teve a cautela de não lhe fazer impertinentes indagações.

Um amor delicioso nasceu daquele primeiro encontro, um amor em que o jovem saboreava uma estranha sensação de profundidade, de mistério, mesclada a um pouco de angústia…

A jovem ofereceu-lhe o anel que usava num dos seus longos dedos de marfim.

Ele retribuiu com outro…

Muitas coisas ingênuas e suaves brotaram dos lábios dos dois.

Na Amada havia um tênue resplendor e melancolia e uma espécie de seriedade prematura.

Nas suas ternuras havia algo de definitivo.

Às vezes, ela parecia distraída, absorta e de uma repentina frialdade.

Em suas feições, mesmo com o amor, alternavam-se serenidades marmóreas.

Passaram bastante tempo juntos.

Ela consentiu em partilhar algumas iguarias de que ele gostava.

Por fim, despediu-se, prometendo voltar na noite seguinte, e se foi com um certo ritmo lento e augusto no andar…





*


Mas alguém havia percebido, com infinito assombro, a sua presença no quarto de hóspedes: essa pessoa era a aia da jovem; uma aia que, seis meses antes, fora enterrá-la no cemitério próximo.

Extremamente comovida, correu aos pais da donzela e revelou-lhes que a filha havia voltado à vida.

Eu a vi! — exclamou.

Os pais da morta recusaram-se a dar crédito à aia; mas, para tranquilizar aquela pobre velha, a mãe prometeu acompanhá-la para ver a aparição.

Só que ainda não havia amanhecido. O jovem, em cuja porta eles transpuseram na ponta dos pés, parecia dormir.

No dia seguinte, indagado quanto ao sucedido, confessou que, de fato, havia recebido a visita de uma jovem e mostrou o anel que ela lhe dera em troca do seu.

Os pais reconheceram o anel. Era o mesmo que a falecida usara em seu dedo glacial. Com ele a haviam enterrado seis meses antes.

Com certeza — disseram eles, o cadáver de nossa filha foi despojado por ladrões.

Mas como ela havia prometido voltar na noite seguinte, resolveram aguardá-la e presenciar a cena.

A jovem voltou, de fato… Voltou com seu estranho ar de enigma…

O pai e a mãe foram secretamente avisados e, ao chegarem, reconheceram a filha falecida.

Ela, no entanto, permaneceu fria ante as suas carícias.

Mais ainda, repreendeu-os por perturbar o seu idílio.

Foi-me concedido—disse-lhes — apenas três dias para passar com o jovem estrangeiro nesta casa onde nasci… Agora, devo dirigir-me ao lugar que me está designado.

Dito isso, caiu rígida e seu corpo permaneceu ali, visível a todos.

A tumba da jovem foi aberta e, em meio à maior perplexidade dos espíritos, foi encontrada vazia, sem cadáver algum; apenas o anel oferecido ao jovem repousava sobre o ataúde.

O corpo — conta a história — foi trasladado como o de um vampiro e enterrado fora dos muros da cidade, com toda espécie de cerimônias e sacrifícios.


*


Esta narrativa é muito antiga e foi transmitida de boca em boca entre pessoas das quais sequer a poeira restou.

A Sra. Crowe a colheu, como uma florzinha misteriosa, em seu livro “The Night Side of Nature”1.

Confesso que me deixa um perfume de penetrante poesia na alma.

Vampirismo… Não! Suprimamos essa palavra fúnebre e agressiva, e curvemo-nos ante o arcano, ante o incompreensível de uma vida de uma donzela que não se sentia completa além do sepulcro.

Pensemos com certa ternura íntima naquela virgem que veio das margens astrais para encontrar um homem escolhido e trocar com ele a aliança de casamento…


Ilustração da portada: Gabriel Max (1840 – 1915).

Ilustração do miolo: Henry Justice Ford (1860 – 1941).


Nota:

1Livro da escritora inglesa Catherine Crowe (1790 – 1872), capítulo XIV.

 

Comentários

  1. e bom o conto porem ,nao deu medo , eu leio terror por que gosto que de bastante medo mas esse nao deu. nota 7,5\10

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  2. Um conto muito antigo e que serviu para vários moldes nos dias de hoje, muito obrigado por trazerem, fico feliz dms por ainda ter um site assim para leitura. Muito grato

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