A DECAPITAÇÃO SECRETA - Narrativa Clássica Verídica de Horror - Johan Peter Hebel
A DECAPITAÇÃO SECRETA
Johan Peter Hebel
(1760 – 1826)
Não sei se o carrasco de Landau rezou, com devoção, a sexta súplica do Pai Nosso na manhã de 17 de junho daquele ano. Se não o fez, certo é que um bilhete chegou de Nanzig no dia mais oportuno.
No bilhete estava escrito:
“Carrasco de Landau!
Venha imediatamente a Nanzig e traga a sua grande espada de verdugo. Lá, dir-lhe-ão o que deve fazer e pagar-lhe-ão bem.”
Uma carruagem já o aguardava em frente à sua casa. O carrasco pensou: “Este é o meu dever” e entrou na carruagem.
Já era noite e o sol se punha em meio a nuvens vermelho-sangue, quando, faltante ainda uma hora para chegarem em Nanzig, o cocheiro, frenando a carruagem, disse-lhe:
— Amanhã, fará um bom tempo novamente.
De súbito, três homens fortes e armados surgiram à beira da estrada.
Subiram à carruagem, sentaram-se ao lado do carrasco e prometeram-lhe que nenhum mal lhe aconteceria. Todavia, disseram que imperioso seria vendar-lhe os olhos.
Feito isto, exclamaram:
— Cunhado, siga em frente!
O cunhado (ou seja, o cocheiro) continuou a viagem, que pareceu ao verdugo durar mais de doze horas. Sem saber onde estaria, ele ouviu o chirriar das corujas da meia-noite; depois, escutou os galos cantando e o clangor dos sinos da igreja.
De repente, a carruagem estacou. Levaram-no para o interior de uma casa, deram-lhe algo para beber e um bom pastel de salsicha.
Alentado com comida e bebida, conduziram-no casa adentro, galgando portas, subindo e descendo escadas. Quando lhe tiraram a venda, ele se viu num grande salão.
O salão estava revestido de panos pretos. Velas de cera ardiam sobre as mesas. Contudo, dizia o artista, autor da ilustração, que, para que o carrasco pudesse melhor enxergar o que haveria de fazer, conveniente seria se deixassem entrar a luz do dia naquele ambiente. Com efeito, no meio do salão estava sentada uma pessoa numa cadeira com o pescoço exposto e uma máscara a cobrir-lhe a face. Devia ter algo a cingir-lhe a boca, pois não conseguia falar: apenas soluçava.
Próximos às paredes estavam diversos cavalheiros vestidos de preto, com véus negros a cobrir-lhe as faces, de modo a impedir que o carrasco os reconhecesse, acaso viesse a vê-los novamente.
Um deles lhe entregou a espada, ordenando-lhe que cortasse a cabeça do infeliz sentado na cadeira.
Então, o pobre carrasco sentiu gelar-lhe o coração. Disse que não poderia executar aquela tarefa ilegal; que não poderia profanar sua espada, dedicada ao serviço da justiça; que não poderia incorrer em assassínio.
À distância, um dos cavalheiros apontou-lhe uma pistola, dizendo-lhe:
— Ou uma coisa ou outra! Se não fizer o que lhe mandam, nunca mais verá a torre da igreja de Landau.
Então o carrasco pensou na esposa e filhos em casa.
— Se não puder ser de outra forma — disse ele —, se eu tiver de derramar sangue inocente, a culpa recairá exclusivamente sobre as suas cabeças.
Com um só golpe, decepou a cabeça do pobre homem.
Feito isto, um dos cavalheiros lhe entregou uma bolsa contendo duzentos dobrões. Depois, vendaram-lhe novamente os olhos e o conduziram de volta à carruagem. As mesmas pessoas que o haviam trazido acompanharam-no no retorno. E quando a carruagem finalmente parou, o carrasco recebeu permissão para descer e remover a venda. De pé, encontrava-se novamente onde os três homens o abordaram, a uma hora de carruagem de Nanzig, na estrada para Landau. Já era noite. A carruagem, no entanto, retornou rapidamente.
Foi isso que aconteceu com o carrasco de Landau, e alguém lamentaria saber quem fora a pobre alma que teve de trilhar tão sangrento caminho para a eternidade. Não, ninguém jamais soube quem ele era e que falta havia cometido. E ninguém jamais soube onde está o seu túmulo.
Versão em português de Paulo Soriano.

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