A FILHA DESOBEDIENTE - Conto Clássico Cruel - Gonçalo Fernandes Trancoso
A FILHA DESOBEDIENTE
Gonçalo Fernandes Trancoso
(c. 1520 — 1596)
De um dos pioneiros do conto em Portugal, Gonçalo Fernandes Trancoso (c. 1520 — 1596), autor dos “Contos de Proveito e Exemplo”, sabe-se muito pouco: nascido em Trancoso, viveu em Lisboa, onde perdeu a família — mulher, dois filhos e um neto — na peste de 1569. É em razão dele que vem a expressão “histórias de Trancoso”, e esta passou a designar o conjunto de narrativas populares de tradição oral. Em “A Filha Desobediente”, pretendendo haver escrito o conto “para exemplo das filhas, [para] que sejam obedientes à mãe e virtuosas”, Trancoso, aos olhos modernos, em verdade encetou um desfecho deveras cruel, desproporcional à leviandade da jovem filha.
Uma virtuosa dona de boa vida tinha uma filha de tão má inclinação que não queria tomar os nobres conselhos da mãe, nem a aprender seus louvados costumes; mas em tudo seguia seu próprio parecer, sem obediência de pessoa alguma, nem correição de vizinha, nem parenta, porque era preguiçosa, gulosa, andeja1, muito faladeira e de outras feias manhas.
A mãe, como mãe desejosa de seu bem, e de lhe dar marido antes que aqueles vícios a levassem a torpe pecado, determinou dar a um mancebo tudo o que a pobre velha tinha porque2 casasse com a filha, tendo para si que o marido lhe faria fazer, com castigo, o que ela não podia com ensino, repreensões e exemplos. E, concertada com ele no dote, quis o mancebo que não dessem conta3 à moça até que ele a fosse ver, o dia seguinte, seguindo o conselho do rifão que diz: “primeiro cases olha o que fazes”.
Foi4 a velha contente e disse que assim faria. Porém, porque5 a filha estivesse sobre aviso e não caísse em alguma fraqueza a tal tempo, crendo que, para casar, tomaria seu conselho, lhe descobriu6 aquela noite tudo o que passava, dizendo-lhe:
— Filha, toda tua vida seguiste tua opinião, sem querer entender meus conselhos. Agora te rogo que, este dia, me oiças e aceites o que te disser.
E, com discretas palavras, lhe admoestou que o dia seguinte não se erguesse dum lugar, que sempre estivesse calada, fiando, ou, ao menos, com a roca na cinta, para que, pois o futuro marido a queria ver, a achasse quieta e ocupada em virtuoso exercício, cousa que as moças sempre deviam de fazer, porque a inquietação, e a ociosidade nelas, comumente as leva a mui perigosos pensamentos, contrários da virtude, boa fama e honesta vida.
E, para mais ajuda, a velha, aquele serão, quase até meia-noite e, pela manhã, pôs-lhe à filha uma grande rocada na cinta e deixou-lhe as maçarocas que fiara no regaço. Fê-la assentar, tal que, à vista dos olhos a quem a não conhecera, parecia uma diligente fiandeira, quase uma das Parcas que fiam as vidas.
Porém, como aquele não era seu costume, tanto que a mãe desceu à porta (porque havia de esperar ali o mancebo), a moça deixou a roca e, com diligência, fez lume e nele uma honesta7 tigela de papas. E porque8 se esfriassem, prestes as lançou em cinco ou seis escudelas que logo chegou derredor de si e, soprando e fervendo, estava a pobre moça mui apressada por acabar sua obra, antes de ser sentida.
A este tempo chegou o mancebo à porta e, ainda que o viu a velha, pelo que tinham concertado, não se falaram, mas ele subiu manso, por ver em que se ocupava a que ele queria receber por mulher. E a velha o deixou ir, tendo para si, acharia a filha, ao menos com a roca na cinta, como a deixara. Mas, ainda que ele subiu dez ou doze degraus da escada, ela, de ocupada, não no sentiu, nem posto que meteu a cabeça em casa o não viu. Mas ela foi dele muito bem vista e, notando o ofício em que estava, disse entre si:
— Nunca nos faremos boa matalotagem9 porque, quem tanto e com tal pressa madruga a comer, pouco prol pode fazer. Não é esta a que me arma10.
E, sem falar, se desceu. E a velha, vendo-o vir prestes, lhe perguntou:
— Que vos parece, filho, que cuidado de moça!…
E, querendo-lha gabar, porque imaginava que estaria fiando, e demais, com a roca cheia, lhe disse:
— Viste a pressa que tinha e a habilidade de suas mãos e o que já tinha despachado? Pois eu vos prometo que daquelas enche e vaza sete no dia…
Querendo a velha dizer as rocadas da roca, mas o mancebo, sem descobrir o que lhe vira fazer, respondeu:
— Senhora, não me arma11; que, se ela é tal, não a posso sustentar. E assim esteja em vossa casa e, se as vazar e encher tantas vezes, seja embora de vossa farinha e não já da minha.
E foi-se. A mãe, ouvindo isto, foi ver o por que o dissera e achou a filha como contamos, e disse-lhe:
— Sem açúcar, filha, espera! Dar-te-ei um pequeno12.
Com grande fúria, sem atentar o que fazia, que era grande pecado, tentada do demônio, tirou de uma boceta13 uma pouca de peçonha14 e pulverizou-lha por cima, o que a moça comeu, crendo que era açúcar, tão cega estava. Mas, antes de muito tempo, com o ardor e angústias mortais, deu o espírito15 antes de dar fim à sua obra.
Este conto se escreveu para exemplo das filhas que sejam obedientes a suas mães e virtuosas.
Ilustração: PS/Perchance.
Notas:
1Irrequieta.
2Para que.
3Nada contassem.
4Ficou.
5Para que.
6Revelou.
7Razoável.
8Para que.
9União, companhia.
10A que me convém.
11Não me aproveita.
12Bocado, pouquinho.
13Bocinha.
14Veneno.
15Morreu.

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