O FANTASMA DO PORÃO - Narrativa Clássica Verídica Sobrenatrual - Arthur Conan Doyle
O FANTASMA DO PORÃO
Arthur Conan Doyle
(1859 – 1930)
Tradução de Paulo Soriano
Uma senhora, que vivia com dois filhos numa casa isolada na costa da Cornualha, era perturbada pela presença de um visitante fantasmagórico, que, em determinado momento da noite, subia, com passos pesados, as escadas, e desaparecia no painel do patamar.
Tomada de coragem, a senhora o esperou. Viu que a aparição era um homem baixo e idoso, que vestia um terno de tweed surrado e levava as botas na mão. Ele emitia “uma espécie de luz amarela e luminosa”.
Aquela criatura surgia a uma hora e reaparecia às quatro e trinta da manhã, sempre descendo as escadas com passos audíveis.
Embora a senhora guardasse consigo aquele incidente, uma cuidadora, que passara a tratar de uma das crianças, apareceu gritando no meio da noite, dizendo que havia “um velho terrível” na casa.
Ela, que havia descido à sala de jantar para buscar água para o seu pupilo, o viu sentado em uma cadeira, tirando as botas. Iluminava-o uma luz própria, pois a cuidadora não tivera tempo de acender um fósforo.
O marido e o irmão da senhora corroboraram o ocorrido, e o seu cônjuge investigou o assunto minuciosamente.
Ele descobriu que, sob a casa, havia um porão, e este dava para uma caverna, por onde a água subia na maré alta. Era um local ideal para um contrabandista.
Naquela noite, o marido e a esposa ficaram de vigia no porão, e lá presenciaram um espetáculo terrível. Sob uma luminosidade semelhante ao luar, viram dois homens idosos travando uma terrível luta. Um deles, que lograra derrubar o oponente, matou-o. Depois, arrastou-lhe o corpo para o interior da caverna. Em seguida, enterrou a faca com a qual o crime fora cometido. Tal curioso detalhe, contudo, só havia sido notado pelo marido, que, posteriormente, desenterrou uma faca naquele mesmo lugar.
Ambas as testemunhas viram o assassino passar por elas. Seguiram-no até a sala de jantar, onde o espectro bebeu um pouco de conhaque. Contudo, tal conduta foi presenciada apenas pela mulher.
Então, a aparição tirou as botas, exatamente como a cuidadora havia descrito. Com as botas na mão, subiu as escadas e passou pelo painel, como já o fizera tantas vezes, o que sugere que, em todas as ocasiões anteriores, a cena no porão precedia a sua chegada.
A investigação revelou que, há muitos anos, a casa havia sido habitada por dois irmãos que acumularam uma fortuna considerável com o contrabando. Mas um deles anunciou a intenção de casar, de molde que o nubente tomaria a posse exclusiva de sua parte no tesouro conjuntamente obtido.
Pouco tempo depois, tal irmão desapareceu. Logo, correu o boato de que ele havia embarcado numa longa viagem marítima. Pelo que me recordo — pois escrevo apenas com base nas notas que tenho sobre o episódio —, o irmão remanescente enlouqueceu, e o caso jamais foi esclarecido durante a sua vida.
Deve-se acrescentar que o painel, no qual a aparição desaparecia, escondia um grande armário, que poderia muito bem ser o cofre do tesouro da casa. O detalhe gráfico das botas carregadas na mão sugere que, na época, haveria alguma governanta — ou outro residente — que poderia subitamente despertar com o ruído dos passos do assassino.
Fonte: “The Shadows on the Scren”, publicado originalmente em “The Strand Magazine”, edição de 1920.

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