A CASA ENFEITIÇADA - Narrativa Clássica Verídica Sobrenatural - Joseph Glanvil


A CASA ENFEITIÇADA

Joseph Glanvil

(1636 – 1680)

Tradução de Paulo Soriano



Há uns trinta anos ou mais, um certo cavalheiro viajava de Londres para Essex. Ao passar por Bow, a pedido de um amigo, visitou uma casa, naquela localidade, que começou a ficar um tanto inquieta. Mas nada ainda de muito notável, salvo por uma jovem que foi agarrada pela coxa por uma mão fria em sua cama e morreu poucos dias depois.

Algumas semanas depois, trazido de volta por outros compromissos, ele passou novamente pela mesma casa. Desta feita, não tinha a intenção de visitá-la, eis que já o fizera algum tempo atrás. Todavia, ao encontrar a dona da casa à porta, resolveu aproximar-se e perguntar como ela estava. Com um triste semblante, a mulher respondeu que, embora estivesse com saúde razoável, as coisas iam muito mal para todos, pois a casa era extremamente assombrada, principalmente no andar de cima, de modo que eram todos obrigados a buscar refúgio nos cômodos de baixo, devido ao constante arremesso de objetos para cima e para baixo, e o lançamento de pedras e tijolos pelas janelas, causando uma grande desordem. Ele, todavia, mal conseguiu conter o riso, pois não dava muito crédito a essas histórias, e achava que eram apenas as artimanhas de alguns peraltas, que queriam se divertir perturbando os vizinhos.

Bem — disse ela —, caso fique um pouco mais, poderá ver algo com seus próprios olhos.

Ora, fazia pouco tempo que ele estava com a senhora na rua, quando a janela de um quarto no andar de cima se abriu sozinha (pois a família presumia que ninguém estivesse no andar de cima) e dela saiu um pedaço de uma roda velha. Logo em seguida, a janela se fechou novamente. Pouco depois, de súbito, abriu-se novamente e dela saiu um pedaço de tijolo. Este fato mais ainda lhe aguçou o intento de inteirar-se do que estava acontecendo e de descobrir a fonte da trapaça. Portanto, o cavalheiro corajosamente declarou que, se alguém o acompanhasse, subiria ao quarto. Todavia, nenhum dos presentes ousou acompanhá-lo. Contudo, o desejo ardente de descobrir o trapaceiro o fez aventurar-se sozinho naquele quarto. Ao entrar, viu a roupa de cama, cadeiras, bancos, castiçais, cabeceiras e todos os móveis rudemente espalhados pelo chão; todavia, ao investigar o interior, não encontrou ninguém no quarto.

Bem, ele permaneceu ali por um tempo, tentando tirar conclusões, quando, de repente, um bastão de cama1 começou mover-se, girando um bom tempo sobre a extremidade de sua base, até, finalmente, aquietar-se novamente. O curioso espectador, vendo que o objeto imobilizara-se por um tempo, aproximou-se, e o examinou para constatar se algum fio amarrara-se a ele, se havia algum buraco ou botão para prender tal fio, ou, ainda, se havia algum buraco ou fio no teto acima; todavia, após esta busca, não encontrou a menor suspeita de nada disso.

Então, aproximou-se da janela e observou por mais um tempo o que poderia acontecer. Logo em seguida, outro bastão de cama se elevou, por conta própria, bem alto no ar, e pareceu inclinar-se em sua direção.

O cavalheiro, desconfiando de que havia algo de anormal em tudo aquilo, correu velozmente à porta e, por precaução, fechou-a atrás de si. Mas a porta foi imediatamente reaberta e um montão de cadeiras, bancos, castiçais e mesas de cama foi lançado ruidosamente escada abaixo, atrás dele, como se algo pretendesse aleijá-lo, mas o movimento não foi de intensidade tal a causar-lhe dano. Todavia, a essa altura, ele já estava plenamente convencido de que não era mero medo ou superstição feminina o que tanto assustava a dona da casa.

Depois, enquanto conversava com a família, num cômodo do fundo, sobre aqueles fenômenos, viu um cachimbo se erguer de uma mesa lateral — onde não havia ninguém —, voar para o outro lado do cômodo e se quebrar contra a parede, confirmando definitivamente que nada daquilo se tratava de truques de zombeteiros, ou da imaginação da mulher, mas de travessuras insanas de bruxas e demônios.

Convencidos da veracidade da teoria, os moradores da casa queimaram um bastão de cama. Uma velha, suspeita de ser bruxa, ali apareceu e foi presa, mas escapou da lei. A casa, porém, ficou tão assombrada em todos os cômodos — tanto no andar de cima quanto no de baixo —, que permaneceu vazia por muito tempo.



Fonte: "Saducismus Triumphatus", Londres, 1700.

Ilustração de autor desconhecido do séc. século XVII.


Nota:

1No original, “bedstaff”, bastão de madeira inserido nas laterais da cama nos séculos XVI e XVII, para segurar as roupas de cama e pôr o colchão em seu lugar. 

 

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