A ESTÁTUA DE BUDA - Conto Clássico de Terror - Fernando Zanon

A ESTÁTUA DE BUDA

Fernando Zanon

(Séc. XX)


Conhecera-o vinte anos atrás, na Universidade de Leipzig, quando eu estudava Direito e, ele, Filosofia e Letras.

Era um bom rapaz, mas muito sentimental e pessimista. Não via senão o lado mau da vida, as perfídias humanas. Quando, nas longas e frias noites de inverno, eu ia passar algumas horas a seu lado, ele me lia versos que só refletiam dor, desesperação e morte.

Terminados os estudos universitários, eu quis passar alguns meses em férias e resolvi — já que minha fortuna mo permitia — resolvi ir à Índia, a terra do sonho e do mistério, o país encantado que desde minha infância sempre me havia atraído.

Oscar resolveu acompanhar-me, e alugamos dois bangalôs quase vizinhos, nos arredores de Rangapur.

Aqui — disse meu companheiro, entusiasmado — poderei estudar a meu gosto as relíquias hindus e estou certo de achar alguma coisa nova nestas ruínas e inscrições.

Atirou-se com entusiasmo à procura de antigos livros manuscritos. Traduzia-os, comentava-os e passava noites inteiras decifrando-os.

Seu aspecto, em pouco tempo, havia mudado. As longas vigílias, o estudo constante e talvez o clima insalubre — tudo contribuíra para dar-lhe um aspecto de enfermo. Observei-lhe que podia fazer-lhe mal aquele trabalho intenso, sobretudo naquele clima tão enervante. Mas Oscar continuou em suas afanosas investigações, como que empolgado por uma sede ardente que em vão procura saciar.

Vinha raras vezes visitar-me, embora morasse perto de mim. Um dia, preocupado por sua longa ausência, fui visitá-lo, e ele me recebeu friamente.

Escuta — disse-me —, estou decifrando um extenso manuscrito sânscrito, que fala especialmente da vida e doutrinas de Buda. Só pude ler algumas páginas; de maneira que te peço que me deixes tranquilo, pelo menos, durante uma semana.

Procurei insistir, mas não pude convencê-lo, e retirei-me para meu bangalô um pouco magoado.

Dias depois, ele me apareceu cheio de entusiasmo.

Encontrei tudo! — gritou-me.

Tudo quê?

Passou o mão pela fronte e depois me disse:

Comprei em casa de um antiquário um livro escrito em um dialeto que se assemelha ao sânscrito e ao páli; e que pude decifrar inteiramente. É uma biografia completa do grande filósofo chamado “Buda”, isto é, o iluminado, mas cujo verdadeiro nome era Sidarta.

E pudeste tirar alguma coisa boa para os estudos que estás realizando? — perguntei.

Certamente… Além dos dados sobre sua vida, convenci-me da bondade de suas doutrinas, e da máxima fundamental em que baseou sua sabedoria: “o mal é a existência”.

Oh! — protestei. — Pois eu acho que a vida é bela, cheia de encantos e atrativos.

Tu, meu amigo, não sabes nada, não podes chegar a compreender certas sentenças. Mas não foi para falar-te destas coisas que vim ver-te, e sim para pedir tua opinião sobre um grande descobrimento que acabo de realizar.

Tirou do bolso um grande caderno e leu:

—“Sabhindha-Nar foi sempre o amigo mais sincero, o mais devoto discípulo de Buda. Morreu dez anos antes do grande mestre, e sua morte foi bastante estranha. Estava Buda pregando a seus discípulos, nos subterrâneos de Gondha, quando um dos répteis venenosos, que por ali pululam, se aproximou do filósofo como que para atacá-lo. Sabhindha-Nar, que estava ao lado do mestre, agarrou a víbora e esta o mordeu na mão. Em poucos minutos, morria o discípulo fiel, em meio dos mais atrozes sofrimentos.

Buda ordenou que o sepultassem em uma tumba especial, no centro do templo subterrâneo, e com o corpo sepultaram, também, o volume de máximas, escritas pelo mestre, a fim de que na nova vida de eternidade pudesse comprovar a veracidade das aludidas máximas. Ordenou que nunca se abandonasse o templo, e que este fosse sempre guardado por fiéis adeptos. Quem quer que profanasse o templo seria castigado pelos deuses. A partir daquele dia, o mestre não voltou ao subterrâneo e empreendeu uma longa peregrinação por diversas regiões”.

Sabes onde ficam os subterrâneos de Gondha? — perguntou-me Oscar.

Nunca ouvi tal nome — respondi.

Pois bem: esses subterrâneos ficam sob nossos pés, e têm uma entrada secreta, que só eu conheço… Mas não digas nada a ninguém. Estás disposto a acompanhar-me?

Ora! — objetei. — Esses lugares devem estar cheios de animais de toda classe, e, além do mais, poderíamos perder-nos.

Se tens medo, adeus. Vou sozinho.

Não, não: espera… Não é por medo, mas espera ao menos até amanhã. Já está anoitecendo.

Bem; espero-te sem falta.

O horizonte começava a tingir-se de rosa quado cheguei com Oscar junto de uma grande estátua de Buda.

É aqui — disse meu amigo.

Mexeu em qualquer coisa que se ocultava entre as altas ervas que cercavam a base, e, de repente, como por encanto, a estátua se afastou meio metro, deixando a descoberto uma cavidade na qual Oscar se meteu sem vacilar.

Vem! — disse-me. — Vem depressa!

Segui-o, e, quando ambos estávamos dentro, a estátua retomou a sua posição normal e ficamos completamente às escuras.

Não te assustes — disse meu amigo. — Repus o Buda em seu lugar, para que ninguém suspeite que estamos aqui.

E que fazemos nesta escuridão?

Pensando nisso, aqui trago uma lanterna elétrica.

À débil claridade desta, avançamos por uma galeria baixa e úmida, até que desembocamos em um amplo recinto de abóbodas altíssimas. No centro, havia uma coluna de mármore branco, e, ao pé desta, uma lamparina acesa.

Não tinha eu razão? — disse Oscar, aproximando-se. — Lê aqui.

Inclinei-me e vi algumas linhas em caracteres hindus.

Não sei o que está escrito aí — exclamei.

Ignorante! Apenas isto: “Sabhindha-Nar, morto para salvar o grande mestre Siddac, o Buda. Eterna glória para ele”. A data está quase apagada, mas vejo alguma coisa semelhante a 300…

O rosto de meu amigo resplandecia de satisfação. Inclinou-se e procurou levantar uma pedra retangular, evidentemente a tampa da famosa tumba.

Vendo que seus esforços eram inúteis, ajudei-o. Nós dois conseguimos levantar a lousa.

Oscar deu um grito, e eu retrocedi, espantado. No sepulcro jazia o corpo mumificado de um hindu, tão admiravelmente conservado que parecia adormecido. Os olhos estavam abertos e nos olhavam fixamente. Sobre o peito, do lado do coração, tinha um livro.

Olhei meu amigo. Estava tremendo e não afastava sua vista do cadáver.

Depois de alguns instantes, Oscar ajoelhou-se e apanhou o livro sagrado… Mas um grito de terror ressoou no subterrâneo: os olhos do discípulo de Buda se haviam movido e os dentes trincaram.

Meu Deus!— exclamou Oscar, deixando cair o livro sagrado.

Naquele momento, vi que algumas sombras se moviam, e uma coisa gelada nos açoitou o rosto.

Fujamos! — disse eu a meu amigo.

Sim, sim — respondeu Oscar, olhando o livro.

Inclinou-se para apanhá-lo, mas o cadáver moveu o braço direito e voltou-se.

Estamos perdidos! — gritou Oscar. — Mas, não!… Não quero afastar-me daqui… Não quero deixar este precioso livro…

Vi-o agarrar o precioso manuscrito, e depois cair, exânime, junto ao discípulo de Buda.

Em seguida, ouvi um estrondo formidável, e vi ruírem as paredes, que levantaram, na queda, intensa nuvem de pó.

Corri com a rapidez que dá o desespero, ansiando chegar aonde pudesse ver luz… Súbito, me deslumbrou intensa claridade… Fechei os olhos e, ao abri-los, me encontrei em plena selva. A estátua de Buda jazia no chão, quebrada em mil pedaços, e, a curta distância, um profundo buraco se abria no lugar onde estava o templo.

Vingança dos deuses? Algum terremoto? Não o sei. Cheguei só ao bangalô, sabendo que não mais veria meu infeliz amigo, sepultado para sempre nos subterrâneos de Gondha.


Fonte: “Fon Fon”/RJ, edição de 27 de setembro de 1941.

Ilustração: Jhollu7.

 

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