ORELHA - Conto de Terror - Lewis Medeiros Custódio
ORELHA
Lewis Medeiros Custódio
Confesso que, após o segundo ou terceiro milénio, torturar pessoas começa a perder a graça. Deixa de ser excitante. Sinceramente, passa até a ser enfadonho. E por fim piora. Começa-se a sentir empatia com as almas que Deus condenou e que o Diabo, meu superior e supremo líder de todos os demónios como eu, ordena castigar. Afinal, não é o Homem tão vítima dos desígnios divinos como nós? Se o divino manda em tudo, seguramente já tinha destinado que eu fosse um demónio antes da primeira faísca da existência. Como posso, então, ter eu culpa? Do mesmo modo pergunto como poderiam os humanos fugir do destino divino — e muitos colegas meus indagam o mesmo na hora da pausa, enquanto bebem sangue na taberna. A típica conversa de café sobre política. Claro que há uma excepção aqui e ali que nos faz o sangue ferver — Calígula, Vlad, Hitler, Bathori… até fazemos fila! Mas são excepções. Parcas excepções em milénios.
Hoje, porém, senti as minhas energias redobrarem-se. Voltei a sentir orgulho no meu ofício. Quando recebi o envelope com as instruções do dia, estava longe de adivinhar quem teria como clientes hoje. Fazem-se muitas coisas aqui no Inferno, mas o que eu li naquelas satânicas linhas lembrou-me o porquê de nós — demónios punidores da sexta legião — existirmos. Li a folha até ao fim e salivei. Não de alegria, isso seria humano; salivei de raiva. E a raiva fez-me soltar um brado gutural que ecoou e amedrontou todas as almas no Inferno. Olhei para a porta e vi o meu patrão esboçar um leve sorriso. Ele aprovava. Nem me recordo da última vez que o vira sorrir. Peguei na minha mala de tortura e abri as minhas asas demoníacas. Voei até onde os anjos e demónios se cruzam antes de entrarem na terra dos mortais. Lá encontrei Mikha El. Há milhões de milénios tínhamos estado no mesmo exército celestial. Ele trazia um cão ao colo. Aproximei-me e fiz-lhe uma festa. Apesar do meu aspecto nefasto, o cão sabia que não tinha nada a temer de mim. Pelo contrário.
— Então este é que é o Orelha?
— Sim — respondeu Mikha El, olhando para o cachorro como um pai olha para um bebé.
— Eu gostava de ter um — confessei — são… como tudo era no princípio.
— O vosso reino não é sítio para eles.
— Pois não. Eu sei.
— E os teus «clientes»?
Passei uma mão pela testa do cachorro enquanto repousei a outra no ombro do meu velho amigo.
— Vou tratar muito bem deles, acredita.
— É nestas alturas que quase desejo ser como tu — confessou Mikha El, encostando a cara no focinho do seu novo amigo.
— Vê lá se o velho te ouve! — adverti eu.
— Foi Ele quem me enviou pessoalmente. Ele é da mesma opinião. Não te inibas hoje.
Mikha El abriu as asas e ascendeu com o Orelha ao colo. Eu limitei-me a olhar até que o clarão dos Portões Celestiais me obrigou a desviar a cara. Não, meu caro; não me tenciono inibir.
Peguei na lista. Li o que tinham feito ao cachorro. O meu sangue tornou a ferver. Literalmente.
Olhei para o mundo dos mortais. Contemplei as pessoas que a minha lista indicava. E chamam-me a mim demónio. Senti um fervor nas asas. Não o sentia desde que Nero queimou Roma.
Os mortais têm as suas leis, mas são brandas. Mesmo que arranquem a carne dos ossos uns dos outros, nunca conseguem tocar na alma de alguém e apertar até ao mais puro desespero humano. É por isso que eu existo. Equilíbrio. E vou começar por aí. Pela alma. Vão-me ver amiúde em todo o meu horror. E vão pensar estar a alucinar. Ao princípio, estarei em cada canto. Sentir-se-ão sem ar, perseguidos pelas sombras. Vão duvidar da sua sanidade. Depois sigo para a carne. Vão implorar a morte — e ela irá negá-los até que eu permita. Quando eu permitir e eles pensarem estar livres, verão o meu reino e haverá churrasco todos os dias.
Não, meu caro Mikha El.
Não haverá paz.1
Nota:
1 Conto redigido conforme o Acordo Ortográfico de 1945.


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