UM NU DE RUBENS - Conto Clássico de Loucura - Miguel Sawa
UM NU DE RUBENS
Miguel Sawa
(1866 – 1910)
Tradução de Paulo Soriano
O louco enfiara a cabeça por entre as grades da janela — uma cabeça assustadora, de cabelos eriçados, que se movia incessantemente, em gestos nervosos — e chamava-me com gritos de desespero:
— Senhor! Se tiver a gentileza de ouvir-me uns instantes… Tenho que lhe revelar um segredo importantíssimo. Pelo que lhe é mais precioso no mundo, escute-me. Apenas por alguns instantes. Aproxime-se sem medo. Eu não faço mal a ninguém. Sou um pobre louco inofensivo.
E, interrompendo-se, fixando em mim os seus olhos febris, disse:
—Veja, senhor, não quero enganá-lo. Não sei dizer se estou louco ou são. Não seria a razão o dom do pensamento que Deus conferiu aos homens para distingui-los dos animais? Pois, então, apesar do que dizem os médicos, eu posso assegurar-lhe de que estou em pleno domínio das minhas faculdades mentais. Como gostaria que o meu cérebro tivesse deixado de funcionar regularmente! Como eu gostaria de ver-me livre do tormento de pensar!
E, após uma pausa, prosseguiu:
— Creio que estamos equivocados. Por que considerar a inteligência — oh, vaidade humana! — um privilégio, uma graça suprema? Quão mais felizes são os animais do que nós, livres da dor do pensamento! Todos os males do homem têm a sua origem no cérebro. Pedi ao médico que amputasse o meu, como se fosse um tumor, mas ele não me deu ouvidos. Médicos são tão idiotas! Acredite-me: eu seria feliz se não pensasse, se não me lembrasse de que...
E, virando cada vez mais descoordenada e freneticamente a cabeça, ele prosseguiu:
— Que ninguém saiba, que ninguém ouça o que eu vou lhe dizer!… A minha vida está em jogo! Senhor, sou um miserável: matei a minha mulher!
E, cobrindo o rosto com as mãos, como se estivesse horrorizado consigo mesmo, prosseguiu:
—Sim, eu sou um miserável! Não mereço o perdão de Deus nem dos homens! Mas não vá embora… Preciso contar-lhe a história… Toda a história… Não pense que sou um assassino vulgar… Quando você souber…
Seus olhos se encheram de lágrimas:
—Posso dizer como Otelo: “Minha ira é como a de Deus, que destrói aquilo que mais ama.”
Fez uma pausa e, depois, um pouco mais sereno, conquanto movesse vertiginosamente a cabeça, continuou:
—Pois veja você: eu era profundamente apaixonado pela minha mulher. Como não sentir amor perante aquele prodígio da Natureza? Deus, ao lhe dar a vida, disse: “Eis aqui a minha obra-prima”. Não consigo descrever com palavras a sua beleza, porque não há palavras que possam expressar a ideia do que era aquele prodígio de encanto e graça. Como já lhe disse: era a obra-prima do Grande Artífice.
A voz do louco tornou-se musical; ao falar, parecia que cantava.
—Posso assegurar-lhe — prosseguiu — que a felicidade não é uma mentira. Fui feliz como mais ninguém no mundo. O homem que conquistou a mulher amada não tem o direito de negar a felicidade.
Fez outra pausa. Sua voz estava rouca agora e, ao falar, parecia que chorava:
— Você verá como se deu a minha desgraça. Passeávamos o nosso idílio pela bela Itália. Já tínhamos visitado Roma, Nápoles, Veneza, Milão… e chegamos a Florença. Pois bem: uma tarde, fomos ao Museo dei Office e, ao entrarmos na sala dedicada a Rubens… Oh, naquele momento posso garantir-lhe que enlouqueci! Porquê… Imagine a minha surpresa, o meu horror e minha indignação quando vi que uma daquelas telas representava uma mulher nua, e que aquela mulher era uma cópia exata de minha esposa, no rigoroso sentido da palavra exata.
“Sim, aquela era a sua face, a sua própria face! E aquele era o seu corpo, o seu próprio corpo! Era ela, toda ela! Os olhos, o nariz, a boca, o pescoço, os seios, as pernas... era ela, inteiramente ela!
“Rubens vira a minha mulher nua! Outros olhos, antes dos meus, haviam-se deleitado com a contemplação daquele corpo que eu reputava sagrado. Mas seria aquilo possível?
“Eu já lhe disse que estava completamente louco naquele instante. Saquei o meu revólver e disparei primeiro na minha esposa e, depois, na tela reveladora de minha desonra. Alguns homens me detiveram e me levaram não sei para onde; depois, trouxeram-me para cá.”
Sufocado pelos soluços, deixou de falar; depois, já sem se preocupar comigo, disse a si mesmo:
— Mas Rubens nasceu há muito tempo e não poderia ter conhecido minha esposa! Há quantos anos Rubens nasceu? Duzentos, trezentos anos! Não! Ele não poderia tê-la conhecido! Mas ele a adivinhou, e eu fiz bem em matá-la. Ele a adivinhou!"
E, chorando e rindo ao mesmo tempo, disse:
—Sim, eu fiz o certo ao matá-la!
Ilustração: Peter Paul Rubens (1577 – 1640).

O maior louco é aquele que se convence que a loucura que fez foi certo. Triste.
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