A MORTA-VIVA DA ALDEIA - Conto Tradicional Chinês de Terror

 

A MORTA-VIVA DA ALDEIA

Conto tradicional chinês


O contador Lì-niensien de Chêumenn-hien (Tchée-kiang), encarregado da cobrança de impostos, tinha ido ao campo. Ao cair da noite, estando perto de uma aldeia, procurou uma hospedaria para passar a noite. Não havia nenhuma. Vendo uma luz numa cabana, aproximou-se.

Na cabana, um homem acamado gemia.

Posso passar a noite aqui? — perguntou Lì-niensien.

A minha família inteira acabou de morrer de tifo — ​​disse o homem. — Eu mesmo estou doente. Se quiseres, podes ficar.

Exausto, Lì-niensien aceitou a oferta.

Poderias me trazer um pouco de vinho? — Lì-niensien perguntou ao homem. — Aqui estão duzentas moedas. O troco é teu.

O homem fez um esforço, levantou-se e saiu.

Enquanto esperava o seu retorno, Lì-niensien deitou-se sobre um dos feixes de arroz cortado espalhados no pátio. Um sopro frio e um leve ruído chamaram-lhe a atenção. Tangendo o isqueiro, um brilho fugaz permitiu-lhe o vislumbre de uma mulher desgrenhada, de rosto cadavérico, ereta e rígida, a pairar sobre os feixes de palha. Assustado, esforçou-se no isqueiro. A cada faísca, a aparição se tornava mais nítida.

É um vampiro! — pensou.

Cheio de terror, recuou em direção à porta. O vampiro deu tantos passos para frente quanto ele deu para trás. O homem correu, perseguido pelo vampiro. Lì-niensien entrou, às pressas, numa vinícola da aldeia e, soltando um grito, desabou. O vampiro também foi ao chão. O comerciante de vinhos, tendo reanimado Lì-niensien, instou-o a contar o que se passara.

Recolheram o vampiro. Era a esposa do homem a quem Lì-niensien havia pedido hospedagem. Morta recentemente de tifo, a mulher ainda não havia sido enterrada. Depois, procuraram o marido. Este foi encontrado morto à beira da estrada, a cinquenta passos da vinícola, à qual não havia conseguido chegar. Ainda segurava as duzentas moedas na mão.


Versão em português de Paulo Soriano a partir da tradução ao francês de Léon Wieger (1858 – 1922).


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