ESCUTANDO NAS TREVAS - Conto Clássico Sobrenatural - Maurice Renard
ESCUTANDO NAS TREVAS
Maurice Renard
(1875 – 1939)
Tradução de autor anônimo do séc. XX
Na outra noite, estávamos sós, eu e Chamarais, na sala pequena do clube. Eu repousava simplesmente, sem preocupações. Chamarais desaparecera por trás de um jornal, que só lhe deixava as pernas a descoberto.
De súbito, deixou cair o jornal e voltou para mim o rosto, com uma expressão insólita, no qual o espanto e perplexidade se estampavam fortemente.
Nicolau de Clamarais é um homem de trinta e cinco anos, finamente educado e que revela em tudo uma extrema sensibilidade. Nenhuma massa adiposa se interpõe entre o mundo e ele. Conhecia-o havia apenas alguns meses, mas já uma intensa simpatia nos ligara. Por vezes, seu olhar, vibrante de inteligência, porém vagamente inquieto, intrigava-me, mas eu atribuía essa singularidade ao que ele havia sofrido durante a guerra.
Sendo sua família residente em Reims, e tendo sido, ele próprio, gravemente ferido em combate para voltar e encontrar sua casa reduzida a escombros, era um homem cruelmente tocado em sua carne, em sua família e em seus bens. Era natural que seus nervos ficassem um pouco abalados.
Nessa noite, tendo se voltado para mim, Chamarais parecia mais do que inquieto, ansioso diante de um problema espantoso. E ele me disse:
— Escute. Você sabe que eu servi durante a guerra como tenente de cavalaria. Curado de meus ferimentos, quis voltar para meu regimento. Os médicos se opuseram a isso, alegando que eu ficara sem um pedacinho do crânio. Tive que aceitar um posto em um depósito de cavalos feridos ou doentes num lugarejo chamado Crecy.
“Ali encontrei um serviço penoso e sem glória, mas, em compensação, excelentes companheiros, entre os quais Sevret, um rapaz que também estava ali convalescente. Porém, ele não era incurável e, em 1915, tendo pedido para volta ao front, foi atendido. Invejei-o e senti muita falta de sua presença, porque me afeiçoei a ele. Por mais que me esforçasse, não podia esquecê-lo. Você também sabe o que foi a guerra, lembra-se da facilidade com que qualquer incidente abalava nosso espírito naquela época de vibração profunda e contínua…
Para ver se me libertava daquela impressão, pedi uma licença para ir a Reims ver em que estado estava a minha casa, após tantos bombardeios da infelicidade. Foi pior: antes não tivesse ido. Reims não estava então sob o fogo dos canhões alemães. Nossos soldados tinham conseguido afastar um pouco as linhas do inimigo e eles estavam demasiadamente ocupados para pensar na capital do champanhe. Mas ver minha cidade natal — a cidade em que eu vivera minha infância coberta de ruínas — causou-me uma emoção indizível.
Dirigi-me sozinho à rua em que morara: avistei, afinal, minha casa com a fachada ferida, despedaçada por duas granadas. Era noite. O luar tornava ainda mais tétrico o aspecto de um lar abandonado e rasgado de cima a baixo. Mas, ainda assim, fiz questão de visitar os aposentos cujas paredes ainda estavam de pé. Empurrei a porta deslocada, dançando nas dobradiças, atravessei o vestíbulo, o salão, a sala de bilhar, a sala de jantar, detendo-me um pouco, com os olhos cheios de lágrimas, em cada uma delas. Não havia ali coisa alguma que não me fosse familiar, emocionante. Atravesso um corredor e do súbito sou detido por um som quase imperceptível.
A princípio, não consegui distinguir, compreender… Depois, reconheci que era a campainha do telefone vibrando levemente, muito de manso… Lembrei-me imediatamente. Estava em completa escuridão, mas sabia que o aparelho estava ali, junto a uma porta….
Mas… Eu sabia que os telefones não funcionavam mais em Reims. Todas as linhas tinham sido despedaçadas e a própria estação central destruída havia muitos meses.
Mas, como o ruído, muito baixo e sutil, continuasse, levei o receptor ao ouvido… E ouvi… Oh, sim! Naquele aparelho com os fios cortados, não ligados a estação alguma, uma voz que dizia em tom muito abafado, como se viesse de longe:
“Chamarais, meu caro Chamarais”.
Reconheci imediatamente a voz.
— É você, Sevret? De onde está falando? Ah!… É verdade… provavelmente não me pode revelar o local de sua guarnição. Mas como está? Bem?
— Muito feliz — disse a voz, com uma expressão de êxtase.
Esperei que ele continuasse. Silêncio. Chamei-o, bati no gancho do receptor. Nada. Evidentemente, não estava mais no aparelho.
Só então, olhando para a parede, vi que os fios estavam rebentados ali mesmo, a menos de um metro de distância.
Mas então!… Olhei para meu relogio-pulseira. Eram 9 horas da noite. Que significaria aquilo?
Voltei a Crecy absorto por aquele mistério e, uma semana depois, recebi a notícia, que já temia: Sevret morrera instantaneamente, durante um assalto, às oito horas da noite…. Na noite em que eu o ouvira num telefone isolado e também morto.
Fonte: “Almanach Eu Sei Tudo”/RJ, edição de 1934.

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