O CEMITÉRIO DE AHRENSBURG - Narrativa Verídica Fúnebre Sobrenatural - Robert Owen
O CEMITÉRIO DE AHRENSBURG
Perturbações numa capela mortuária na ilha de Ösel em 1844
Robert Owen
(1771 – 1858)
Tradução de Paulo Soriano
Nas imediações de Ahrensburg — que é a única cidade da ilha de Ösel — encontra-se um cemitério público.
De bom gosto e cuidadosamente conservado, com árvores plantadas e parcialmente cercado por um bosque de coníferas, é um local de passeio predileto dos habitantes.
Além dos túmulos — de todos os tipos, dos mais humildes aos mais elaborados —, o cemitério abriga diversas capelas particulares, locais de sepultamento de famílias ilustres.
Sob cada uma das capelas há um jazigo, pavimentado com madeira, ao qual se desce por uma escada interna, fechada por uma porta.
Os caixões dos membros da família recentemente falecidos permanecem, como de costume, algum tempo na capela. Posteriormente, são transferidos para os jazigos, onde são dispostos lado a lado, elevados sobre barras de ferro.
Os caixões são de carvalho maciço, muito pesados e robustos, como de costume. A estrada pública passa em frente ao cemitério e a uma curta distância dele. Três capelas, de frente para a estrada, são bem visíveis para quem passa a cavalo. Destas, a mais espaçosa, adornada com colunas na fachada, pertence à família Buxhoeveden, de linhagem patrícia e originária da cidade de Bremen. Ali foi o local de sepultamento da família por várias gerações.
Era costume dos camponeses, que chegavam a cavalo ou de carroça para visitar o cemitério, amarrar seus cavalos, geralmente com fortes cabrestos, bem em frente à capela, perto das colunas que a adornavam. Essa prática persistiu por uns oito ou dez anos antes dos incidentes que serão narrados, malgrado tenham circulado, de tempos em tempos, rumores vagos e misteriosos relacionados à citada capela, supostamente assombrada – rumores que, porém, por não terem origem em nenhuma fonte confiável, despertavam pouca crença e eram tratados com desdém pelos moradores.
A época primordial de visitas ao cemitério, por pessoas de todas as partes da ilha cujos parentes lá estavam sepultados, era no Domingo de Pentecostes e nos dias seguintes – sendo estes observados de maneira muito semelhante à do Dia de Finados na maioria dos países católicos.
No segundo dia de Pentecostes, segunda-feira, 22 de junho, conforme o calendário juliano, do ano de 1844, a mulher de um alfaiate chamado Dalmann, residente em Ahrensburg, fora com um cavalo e uma pequena carroça visitar, com seus filhos, o túmulo de sua mãe, situado atrás da capela da família Buxhoeveden. Lá, atrelara o cavalo, como de costume, em frente ao túmulo, pretendendo, tão logo terminasse visitar uma amiga no campo.
Enquanto ajoelhava-se em silenciosa oração junto ao túmulo, teve uma vaga percepção, como mais tarde se lembrou, de escutar alguns ruídos vindos da capela. Absorta, porém, noutros pensamentos, não lhes deu atenção naquele momento.
Terminadas as orações, e retornando para prosseguir a jornada, encontrou o seu cavalo — geralmente um animal tranquilo — em um inexplicável estado de agitação. Coberto de suor e espuma, com os membros tremendo, parecia estar em mortal estado de terror. Quando ela o levou para passear, ele mal conseguia andar; e, em vez de prosseguir com o passeio planejado, ela se viu obrigada a voltar à cidade e chamar um veterinário. Este declarou que o cavalo devia ter ficado extremamente assustado por algum motivo; depois, fez uma sangria, administrou um remédio e o animal se recuperou.
Um ou dois dias depois, a mesma mulher, indo ao castelo de uma das famílias nobres mais antigas da Livônia — a do barão de Güldenstubbe1 —, perto de Ahrensburg, como era seu costume, para fazer bordados para a família, relatou ao barão o estranho incidente que lhe ocorrera. Ele não deu muita importância àquilo, imaginando que a mulher estivesse exagerando e que o seu cavalo pudesse ter-se assustado acidentalmente.
O incidente teria sido logo esquecido se não se lhe seguissem outros fatos semelhantes. No domingo seguinte, várias pessoas, que haviam deixado seus cavalos em frente à mesma capela, relataram tê-los encontrado cobertos de suor, tremendo e apavorados. Alguns acrescentaram que eles próprios ouviram, aparentemente vindos das criptas da capela, sons estrondosos que, ocasionalmente — conquanto isso pudesse ser efeito da imaginação —, assumiam as modulações de gemidos. E isso foi apenas o prelúdio para outros distúrbios, que foram aumentando gradualmente a frequência.
Certo dia, durante o mês seguinte — julho —, onze cavalos foram amarrados perto das colunas da capela. Algumas pessoas, passando por perto e ouvindo, segundo alegaram, altos ruídos, como se viessem de baixo do edifício, deram o alarme. Quando os donos chegaram ao local, encontraram os pobres animais em condições deploráveis. Vários deles, em seus esforços frenéticos para escapar, haviam se jogado no chão e ali jaziam, debatendo-se; outros mal conseguiam andar ou ficar em pé; e todos estavam brutalmente afetados, de forma que se tornou necessário recorrer imediatamente à sangria e a outros meios de socorro. No caso de três ou quatro deles, esses meios se mostraram ineficazes. Morreram em um ou dois dias.
Isto era grave. E foi a causa de uma queixa formal apresentada por alguns dos afetados ao Consistório – um tribunal que se reunia em Ahrensburg e era responsável pelos assuntos eclesiásticos.
Por volta da mesma época, um membro da família Buxhoeveden faleceu. No seu funeral, durante a leitura do serviço fúnebre na capela, ouviram-se gemidos e outros ruídos estranhos vindos de baixo, para grande terror de alguns dos assistentes, especialmente os criados.
Os cavalos atrelados ao carro funerário e às carruagens fúnebres foram sensivelmente afetados, mas não tão violentamente quanto alguns outros. Após o sepultamento, três ou quatro dos presentes, mais ousados que os demais, desceram ao túmulo. Enquanto lá estiveram, não ouviram nada; mas descobriram, para sua infinita surpresa, que dos numerosos caixões que ali haviam sido ordenadamente depositados, lado a lado, quase todos haviam sido deslocados e jaziam numa pilha desordenada. Procuraram em vão qualquer causa que pudesse explicar aquilo. As portas eram sempre mantidas cuidadosamente trancadas e as fechaduras não apresentavam sinais de violação. Os caixões foram recolocados na devida ordem.
Este incidente causou muito burburinho e, naturalmente, atraiu ainda mais atenção para a capela e os alegados distúrbios.
Quando algum cavalo era amarrado na proximidade da capela, crianças eram deixadas a vigiar os cavalos; mas geralmente ficavam com tanto medo que não conseguiam permanecer ali; e algumas delas até alegavam ter visto alguns espectros de sombria aparência pairando nas proximidades. As histórias, no entanto, relatadas por elas sobre este último ponto, foram deixadas de lado — o que era razoável, talvez, por conta de temores exacerbados. Mas os pais começaram a hesitar em levar seus filhos ao cemitério.
Com o aumento da comoção, novas queixas sobre o assunto chegaram ao Consistório, e uma investigação sobre o caso foi proposta. A princípio, os proprietários da capela a princípio se opuseram a isso, tratando o assunto como uma artimanha ou um escândalo arquitetado por seus inimigos. Mas, conquanto tenham examinado cuidadosamente o solo da cripta, para garantir que ninguém tivesse entrado por baixo dela, nada encontraram que confirmasse as suas suspeitas.
E o barão de Güldenstubbe, que era presidente do Consistório, tendo visitado, particularmente, os jazigos, acompanhado de dois membros da família, e tendo encontrado os caixões novamente na mesma desordem, após recolocá-los em seus lugares, finalmente, concordaram com uma investigação oficial do caso.
As pessoas encarregadas desta investigação foram o barão de Güldenstubbe, como presidente, e o bispo da província, como vice-presidente, do Consistório; dois outros membros do mesmo órgão; um médico, chamado Luce; e, por parte da magistratura da cidade, o burgomestre, chamado Schmidt, um dos síndicos e um secretário.
Procederam, em conjunto, a instituir um exame minucioso da cripta. Todos os caixões ali depositados, com exceção de três, desta vez foram encontrados deslocados, como antes.
Dos três caixões que constituíam a exceção, um continha os restos mortais de uma avó do então representante da família, que havia falecido há cerca de cinco; e os outros dois eram de crianças pequenas. A avó fora, em vida, venerada quase como uma santa, por sua grande piedade e constantes atos de caridade e benevolência.
A primeira sugestão que surgiu, quando se verificou tal situação, foi a de que ladrões poderiam ter invadido o local para saquear. O túmulo de uma capela adjacente havia sido arrombado algum tempo antes, e a rica franja de veludo e ouro que adornava os caixões havia sido cortada e furtada. Mas, no caso, o exame mais minucioso não forneceu nenhum fundamento para tal suposição, já que os ornamentos dos caixões foram encontrados intactos.
A comissão determinou que vários féretros fossem abertos, a fim de verificar se os anéis ou outras joias costumeiramente sepultados com os cadáveres, e alguns das quais eram de considerável valor, haviam sido levados. No entanto, nenhum indício de tal natureza apareceu. Um ou dois dos corpos haviam se decomposto quase completamente, mas as joias que com as quais haviam sido sepultados em seus trajes funerários ainda estavam lá, no fundo dos ataúdes.
Em seguida, ocorreu à comissão a possibilidade de que alguns inimigos da família Buxhoeveden, talvez ricos, e determinados a causar-lhes aborrecimentos e reprovação, pudessem ter mandado escavar uma passagem subterrânea, com a entrada distante e oculta para evitar que fossem vistos, construindo-a por sob as fundações do edifício e com abertura para a cripta. Isso poderia fornecer explicação suficiente à desordem dos caixões e para os ruídos ouvidos do lado de fora.
Para determinar o ponto, contrataram operários, que removeram o pavimento da cripta e examinaram cuidadosamente as fundações da capela; mas sem qualquer resultado.
Todavia a análise mais cuidadosa não detectou nenhuma entrada secreta. Restava apenas recolocar tudo em devida ordem, tomando-se nota exata da posição dos caixões e adotando precauções especiais para a detecção de qualquer futura intrusão.
Assim foi feito. Ambas as portas — a interna e a externa —, depois de serem cuidadosamente trancadas, foram seladas duplamente: primeiro com o selo oficial do Consistório e depois com o selo com o brasão da cidade. Delicadas cinzas de madeira foram espalhadas por todo o pavimento de madeira da cripta, nas escadas e no piso da capela. Finalmente, guardas, selecionados da guarnição da cidade, e substituídos em curtos intervalos, foram designados por três dias e três noites para vigiar o edifício e impedir que alguém se aproximasse.
Ao final desse período, a comissão de inquérito retornou para apurar o resultado. Ambas as portas foram encontradas trancadas com segurança e os selos invioláveis. Eles entraram. A camada de cinzas ainda apresentava uma superfície lisa e intacta. Nem na capela nem na escadaria que levava à cripta havia rastro de pegadas, de homem ou animal. A cripta estava suficientemente iluminada pela capela para tornar cada objeto nitidamente visível. Eles desceram. Com o coração palpitando, contemplaram o espetáculo diante deles. Não apenas todos os caixões, com as mesmas três exceções de antes, estavam deslocados, e todos confusamente espalhados pelo local, como muitos esquifes, por mais pesados que fossem, haviam sido postos de pé, mas com as cabeças dos cadáveres voltadas para baixo.
Mas não era somente isto. A tampa de um ataúde havia sido parcialmente aberta à força, e ali se projetava o braço direito atrofiado do cadáver que continha, exibindo-o acima do cotovelo; o antebraço estava voltado para o teto da cripta.
Superado o choque inicial causado por tal estarrecedora visão, a comissão procedeu cuidadosamente à anotação detalhada do estado das coisas, conforme como as encontraram.
Nenhum vestígio de pegada humana foi descoberto na cripta, assim como não havia nas escadas ou na capela. Tampouco foi detectado o menor indício de qualquer violação criminosa.
Uma segunda busca confirmou que nem os ornamentos externos dos caixões nem as joias com que alguns dos cadáveres haviam sido adornados haviam sido retirados.
Tudo estava desarrumado; nada havia sido levado.
Aproximaram-se, com certa apreensão, do caixão do qual um braço se projetava lateralmente; e, com um arrepio, reconheceram-no como aquele em que haviam sido colocados os restos mortais de um membro da família Buxhoeveden que havia cometido suicídio. O assunto fora abafado na época, por influência da família, e o suicida fora sepultado com as cerimônias usuais. Mas um fato, conhecido por toda ilha, se confirmou: o membro da família fora encontrado com a garganta cortada e com a navalha ensanguentada ainda em sua mão direita — a mesma mão que agora estava exposta à vista humana sob a tampa do caixão. Eis um memorial horripilante, ao que parecia, do ato impensado que havia levado o infeliz homem, sem ser chamado, para outro mundo!
Um relatório oficial — no qual era descrito o estado do túmulo e da capela no momento em que a comissão lacrou as portas, verificando o fato de que os lacres foram encontrados intactos posteriormente e a também intacta a camada de cinzas, e, finalmente, detalhando-se a condição das coisas como se apresentavam quando a comissão revisitou a capela cumpridos os três dias — foi elaborado pelo barão de Güldenstubbe, como presidente, e assinado por ele próprio, pelo bispo, pelo burgomestre, pelo médico e pelos demais membros da comissão, como testemunhas.
Tal documento, arquivado juntamente com os demais trabalhos do Consistório, encontra-se em seus arquivos e pode ser examinado por qualquer viajante, devidamente recomendado, mediante solicitação ao secretário.
Nunca tendo visitado a ilha de Ösel, não tive a oportunidade de examinar pessoalmente este documento. Mas os fatos acima narrados me foram detalhados pela senhorita de Güldenstubbe, filha do barão, que residia na casa de seu pai na época dos acontecimentos e estava ciente de cada detalhe. Os fatos também me foram confirmados, na mesma ocasião, por seu irmão, o atual barão.
Esta senhora me informou que as circunstâncias produziram tamanha comoção em toda a ilha, que não se poderia encontrar, entre seus cinquenta mil habitantes, um morador de casa de campo que não os conhecesse. Ela acrescentou que o efeito sobre o médico, Dr. Luce, testemunha desses prodígios, foi tal que produziu uma mudança radical em sua crença. Homem capaz, distinto em sua profissão, familiarizado também com as ciências da botânica, mineralogia e geologia, e autor de diversas obras de renome sobre esses assuntos, absorvera ele as doutrinas materialistas que prevaleciam, especialmente entre os homens da ciência, em toda a Europa continental, durante seus tempos de faculdade; e as manteve até o momento em que, no mausoléu de Buxhoeveden, convenceu-se de que existem poderes ultramundanos, bem como terrenos, e que o que vivemos não é o nosso estado final de existência.
Resta mencionar que, como os distúrbios continuaram por vários meses após a investigação, a família, para se livrar do incômodo, resolveu enterrar os caixões. E assim fizeram, cobrindo-os com uma camada considerável de terra. Tal expediente funcionou.
A partir de então, nenhum ruído proveniente da capela foi ouvido; os cavalos podiam ser amarrados tranquilamente em frente a ela; e os habitantes, recuperando-se daquele susto, voltara a frequentar, como de costume, com seus filhos, o seu local favorito. Nada restou além da memória dos acontecimentos passados, que se desvanecerá com a morte da geração atual, e talvez seja considerada pela próxima como uma lenda vã e inacreditável.
Fonte: “Footfalls on the Boundary of Another World”, J.B. Lippincott & Co., Philadelphia, 1860.
Nota:
1Alexander Georg von Güldenstubbe (1786–1848). É provável que, em razão do episódio, o seu filho Johann Ludwig (1817 – 1873), dedicando-se ao espiritualismo, tenha-se tornado importante médium, especializado na pneumatografia (escrita espiritual direta).

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