O EMPAREDADO - Conto Clássico de Horror - Maurice Renard

O EMPAREDADO

Maurice Renard

(1875 – 1939)

Tradução de autor anônimo do séc. XX


Passando pela Saboia de volta duma viagem à Itália, Louis Leblois adquiriu o castelo de Abricicux.

Eu o acompanhava nessa viagem. Leblois mandara parar o automóvel para admirar um momento o espetáculo das torres quadrangulares e dos vastos telhados ao alto duma terra entremeada de vinhedos, árvores, penedias, num contraforte da Montanha do Gato. Dava meio dia. Almoçamos numa hospedaria à beira da estrada. Ali nos disseram que o castelo estava à venda. E, imediatamente, Leblois o quis visitar.

Encontramos uma edificação de espessas muralhas, cuja solidez resistira aos séculos. De fora, pareceu-nos ter poucas acomodações. Com efeito, os aposentos não eram vastos nem numerosos. Estavam inteiramente vazios, porque os móveis, conforme nos contaram depois, tinham sido vendidos após o falecimento duma solteirona idosa e pobre, que não deixara herdeiros. Alguns dos soalhos eram rústicos, mas havia outros preciosamente trabalhados. Os tetos em apainelado ostentavam rara elegância. Pelas janelas, de larga moldura de pedra, dominavam-se as magnificências do vale e da encosta. E o jardim, em volta do solar, desdobrava-se em terraplenos floridos por entre soberbas árvores seculares. Tudo isso, na verdade, seduzia, conquistava o visitante. Louis Leblois efetuou a compra em excelentes condições.

O meu amigo não é desses que acham indispensável transformar uma casa, a pretexto de se terem tornado seus proprietários. O encanto de Abricieux consistia principalmente nisto: dir-se-ia que, da edificação primitiva, nada fora modificado. Leblois compreendeu bem isso e decidiu simplesmente guarnecer o castelo de antigos móveis e acessórios regionais que restituíram àquele interior o aspecto integral do século XVII.

Abricieux pertencera muito tempo à família, agora extinta, dos condes de Chantaz. Poucos documentos relativos ao seu passado tinham chegado até nós. Leblois pediu-me que procedesse a pesquisas sobre aquela família, buscando quaisquer dados ou referências que pudessem dizer respeito ao seu novo domínio. Familiar dos arquivos e bibliotecas de que o meu destino me traz cativo, não me furtei à missão amistosa de que era encarregado. Durante, porém, bastante tempo, não descobri coisa alguma. Um dia, finalmente, almoçando com Louis Leblois no seu palacete de Auteuil, comuniquei-lhe ter encontrado uma indicação deveras curiosa:

Lembras-te — disse-lhe eu — se há uma parede de tijolo num quarto do castelo, justamente um dos melhores?

O meu amigo refletiu um momento, revelando na fisionomia o grande interesse que o caso lhe merecia.

Tenho acompanhado, assiduamente — respondeu ele —, as obras de reparação. Posso te afirmar que há, com efeito, uma parede de tijolo; não, porém, num quarto, e sim, ao fundo do gabinete contíguo ao quarto da torre de sudeste — isto é: o melhor, o mais agradável, aquele que, provavelmente, foi sempre o quarto dos donos da casa.

Exatamente. Pois bem, meu caro: por trás dessa parede, está um cadáver.

Que me dizes! — exclamou Leblois, sem aliás mostrar grande espanto. — Conta depressa.

Trata-se do cadáver ou, mais propriamente, do esqueleto dum galanteador famoso, o marquês de Ambléon, que foi, uma noite, surpreendido por um conde de Chantaz em colóquio íntimo com a condessa.

E foi o conde que o emparedou, com as próprias mãos?

Depois de o haver convenientemente amarrado, não nos resta a menor dúvida.

E como vieste a saber disso?

Por acaso, está claro. Nos manuscritos da Biblioteca Nacional, encontrei um caderno em que certo colecionador de historietas reuniu algumas, mais ou menos, curiosas. Copiei fielmente a que te interessava. É a seguinte:

Minha avó, lembro-me perfeitamente, contava a historia duma dama da Saboia, a senhora Condessa de Chantaz, que morrera louca no seu castelo montanhês, porque o conde não só encerrara o apaixonado da esposa atrás duma parede de tijolo, mas ainda a obrigava a continuar ocupando o mesmo quarto onde a havia surpreendido. A pobre senhora veio a sucumbir de medo. Suportou, todavia, o suplício durante alguns meses, sem maior perturbação do juízo. Uma noite, porém, perdeu a razão ouvindo ruído por trás dos tijolos e julgando que o morto começara a mexer— o que talvez fosse verdade, porque, na passagem do cadáver para o esqueleto, nada mais natural do que caírem os ossos e fazerem assim algum ruido.

O Sr. conde de Chantaz confessou, mais tarde, in extremis, como fizera desaparecer o ladrão da sua honra. Toda a gente de então sabia tratar-se do marquês de Ambléon, belo cavaleiro acerca do qual a família pretendia fazer acreditar que viajava nas Américas e por lá se não dava mal, uma vez que não queria voltar… Quem, porém, em tal acreditaria?

Foi uma viagem assim que o sr. de Chantaz simulou para voltar inesperadamente e surpreender os culpados alta noite. Tudo se soube na ocasião; como, porém, o conde estava no seu direito de marido, e como, sobretudo, se receava a sua força e a sua violência, o caso não teve seguimento.

Disse-se também que o Sr. de Ambléon e a senhora de Chantaz tinham como cúmplice um criado ladino, corcunda e todo torto, que estava a serviço do conde; e que, na noite do emparedamento, esse criado, tendo desconfiado de qualquer coisa, escapara antes do amanhecer e sem pedir as contas — no que andara com juízo.

O que mais me impressionava, em criança, quando a minha boa avozinha me contava aquele horror, não era tanto o emparedamento, mas a imagem da pobre condessa soerguida no leito e apurando, aterrada, o ouvido para o que se estaria passando por trás da parede de tijolo. Pela forte emoção que eu experimentava se explica, talvez, o fato de me lembrar ainda dessa história com tanta exatidão.”

Bom… — disse Luiz Leblois, quando terminei a leitura. — Só temos uma coisa a fazer: partir para Abricieux, que é provavelmente o castelo em questão. Mandaremos derrubar a parede de tijolo e daremos aos despojos do marquês de Ambléon a sepultura cristã a que eles têm direito.

Partimos sem demora, curiosos de saber se o homem das historietas tinha contado a verdade.

Outros haviam falado mais verdade do que ele: os parentes do Sr. d'Ambléon, afirmando que este continuava a viver nas Américas.

Realmente, por trás da parede de tijolo estava uma ossada humana; não precisávamos, porém, de grandes conhecimentos de osteologia para verificar que tal esqueleto não era do galante e aventuroso marquês, e sim do pobre servo “ladino, corcunda e todo torto…”


Fonte: “Revista da Semana”, edição de 18 de julho de 1936.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE - Conto de Terror - Edgar Allan Poe

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

A MÃO DO MACACO - Conto Clássico de Terror - W. W. Jacobs

O BARBA AZUL - Conto Clássico de Terror - Charles Perrault