O SEPULCRO VAMPÍRICO - Conto Tradicional Chinês de Terror

 

O SEPULCRO VAMPÍRICO

Conto tradicional chinês


Um certo Tchōu, de Hâng-tcheou (Tchée-kang), vivia da pilhagem de sepulturas. Com seis ou sete companheiros, aventurava-se pelos cemitérios nas noites mais escuras. Os túmulos eram abertos com picaretas. Contudo, como eram achados mais ossos do que ouro e prata, o bando recorreu à evocações de espíritos para que lhe fossem indicados os melhores sepulcros a pilhar.

Certa feita, o espírito Yáowang desceu sobre o altar dos ladrões e escreveu:

Se continuarem com este ofício, que é pior do que o de meros salteadores, irão todos acabar decapitados.

Bastante aterrorizados, os saqueadores permaneceram em inatividade por mais de um ano. Finalmente, sem nada mais ter para viver, voltaram a consultar os espíritos. Um deles, descendo a eles, se identificou como a entidade do lago Sī-hou.

Perto da estupa1 Pào-chou-t’a — escreveu o espírito —, vocês encontrarão um poço de pedras talhadas. Este leva ao túmulo de uma personalidade importante. O túmulo contém um grande tesouro.

Na noite seguinte, Tchōu e seus companheiros retomaram as picaretas. A princípio, não lograram encontrar o poço.

Então, uma voz falou com eles, dizendo:

Procurem sob os salgueiros, a oeste do pagode2.

No local indicado, eles encontraram efetivamente a entrada de um poço aterrado, que começaram a desobstruir. A cerca de um metro e meio de profundidade, descobriram uma laje enorme.

Conseguiram retirar a terra que a cobria, mas, mesmo unindo as suas forças, não puderam levantá-la. Lembraram-se, então, de que um monge do mosteiro de Tsingseu possuía uma fórmula com a qual conseguia erguer os mais pesados objetos. Imploraram-lhe que fosse ajudá-los, prometendo-lhe a sua parte no saque. O monge, que era desonesto, concordou.

O monge, cem vezes seguidas, recitou a sua fórmula diante da lápide. De repente, o túmulo entreabriu-se ligeiramente. Dele saiu um braço negro, com uma braça de comprimento, que agarrou o monge e o arrastou para dentro do sepulcro. Lá, o vampiro reduziu-o a pedaços — que devorou — e descartou apenas os ossos roídos. Tchōu e os seus companheiros não esperaram pela sua vez. Fugiram em todas as direções.

No dia seguinte, o túmulo foi fechado novamente. A seu turno, faltava um monge do pagode Tsíng-seu. Como ele não regressou, o mandarim foi informado de seu desaparecimento. Descobriu-se que Tchōu o houvera convocado como comparsa. Tchōu foi preso. Sua casa foi saqueada pelos guardas. Ele se enforcou na prisão para escapar à morte pela espada.


Versão em português de Paulo Soriano a partir da tradução ao francês de Léon Wieger (1858 – 1922).


Notas:

1Monumento budista usado geralmente como mausoléu ou local de devoção.

2Pavilhão de adoração aos deuses.


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