O VAMPIRO DE CÁRPOLES - Conto de Terror - Danilo Seraphim

 

O VAMPIRO DE CÁRPOLES

Danilo Seraphim



Quando eu morrer minhas músicas continuarão tocando por aí e fazendo sucesso, bradou com empolgação Reinaldo Bole, e ainda soltou uma da Cassia Eller dizendo que era poeta e não sabia amar.

Ele morreu e suas músicas não tocaram em porra de lugar nenhum.

Mas Juliete tinha um segredo sobre Reinaldo Bole que ela guardava escondido no coração, depois que ele se atirou na lagoa de Cárpoles, ao norte do Estado do Paraná, e morreu afogado.

Reinaldo Bole partiu desta vida como nela vivera: em silêncio, sem aplausos, sem um único violão a chorar sua despedida. A água escura da lagoa de Cárpoles engoliu seu corpo magro numa noite sem testemunhas — ou assim todos pensavam.

Juliete soube antes de qualquer um.

Sentiu arfar no peito um aperto frio na madrugada em que ele se afogou, como se um fio invisível que a ligava ao rapaz tivesse sido cortado a tesoura. Chorou em segredo, trancada no quarto dos fundos da pensão onde trabalhava. Não foi ao enterro — nem houve enterro, pois o corpo nunca apareceu. A lagoa guardava seus segredos com ciúme.

Os dias passaram. As semanas viraram meses. Cárpoles voltou à sua rotina sonolenta de província esquecida por Deus e pelos cartazes de turnês.

As músicas de Reinaldo, que ele tanto acreditava que ecoariam pelo país, não tocaram em lugar nenhum. Nenhuma rádio. Nenhuma fita K-7. Nenhum amigo para assoviar um refrão. O mundo seguiu girando como se ele nunca tivesse existido.

Até que, um ano depois, as coisas começaram a mudar.

Foi Dona Quitéria, a velha que vendia ervas na feira, a primeira a vê-lo. Caminhava para casa ao cair da tarde, quando avistou uma figura alta e magra encostada no poste da Rua Oxford. O mesmo sobretudo escuro. O mesmo cabelo caído sobre os olhos. “Reinaldo?” — chamou, com a voz trêmula. A figura virou-se lentamente, sorriu com uma boca que parecia ter dentes longos demais, e sumiu na neblina.

Depois foi o pequeno Dimas, de oito anos, que o viu sentado no banco da praça à meia-noite, dedilhando um violão que não fazia barulho nenhum. O menino contou à mãe que o moço tinha olhos que brilhavam como vaga-lumes no escuro. A mãe deu-lhe uma palmada e mandou parar de inventar mentira.

Mas os relatos não cessaram. Operários, voltando do turno da madrugada na fábrica de tecidos, juravam ter ouvido um violão estridente vindo do matagal que margeava a estrada de terra.

Um motorista de caminhão quase perdeu o controle do veículo ao ver, no acostamento, um rapaz de camiseta encharcada, cantando com a voz que parecia vir de dentro de um poço.

E então as pessoas começaram a morrer.

O primeiro foi Seu Geraldo, o dono da loja de discos que se recusara a vender as composições de Reinaldo na vitrine. Encontrado no balcão da própria loja, com dois furos redondos no pescoço e uma expressão de horror congelada. Ao lado do corpo, um bilhete escrito com letra trêmula: “E AGORA TOCA, SEU GERALDO?”

A polícia arquivou como “morte súbita por causas naturais”, após o atestado do Dr. David Neto.

Cárpoles tinha meios para investigação, mas ninguém queria se envolver.

Mas Juliete sabia. Desde o primeiro olhar que trocou com Reinaldo Bole, ainda vivos, ainda sonhando, ela sabia que aquele rapaz guardava dentro de si uma tempestade. E agora a tempestade havia voltado.

O segundo foi Ademir, o amigo que o abandonara na noite mais escura, quando Reinaldo pediu abrigo e ouviu um “sai pra lá, compositor de merda” como resposta.

Ademir foi encontrado na sarjeta, pálido como cera de vela, as marcas no pescoço já brancas de tanto sangue que parecia ter sido sugado.

A terceira vítima foi a própria mãe de Juliete — que nunca aprovara o namoro com “aquele fracassado”. Juliete achou o corpo na cozinha, ainda quente, e caiu de joelhos. Só então percebeu, no canto da janela, uma sombra que a observava. A sombra tinha o perfil de Reinaldo Bole. E tinha lágrimas vermelhas escorrendo pelo rosto.

Por que fez isso? — sussurrou Juliete, sem forças para gritar.

A sombra não respondeu. Desfez-se como fumaça.

A noite decisiva chegou sem aviso. Juliete estava na casa de sua amiga Margarida, consolando-a por um desgosto amoroso, quando a porta dos fundos rangeu. Margarida foi ver o que era.

Juliete ouviu um gemido baixo, um som úmido e suave — o mesmo som que uma boca faz ao sugar uma fruta madura.

Entrou na cozinha e viu.

Reinaldo Bole estava ali, mais real do que nunca, seus lábios colados ao pescoço de Margarida. Ele ergueu os olhos para Juliete. Os olhos não eram mais os do rapaz triste que compunha canções de amor no banco da praça. Eram olhos de âmbar incandescente, pupilas verticais como as de um lobo faminto. A pele era azulada à luz do lampião. E quando ele sorriu, dois caninos longos e afiados brilharam como punhais.

Juliete — ele disse, e a voz era a mesma, mas carregada de um eco gutural, como se duas pessoas falassem ao mesmo tempo. — Você nunca me abandonou. Você ficou. Por isso, você viverá.

Ela recuou até a parede, o coração martelando as costelas. Quis gritar, mas nenhum som saiu.

Foi então que aconteceu. A primeira luz da manhã começou a filtrar pela cortina de renda — um raio débil, quase tímido, mas suficiente, penetrante nas frestas. Reinaldo ergueu a mão para proteger o rosto e soltou um grito tão agudo que os vidros das janelas vibraram e se estilhaçaram. A pele de seu rosto começou a fumegar, a enrugar como papel queimado.

A luz! — ele rugiu, recuando para as sombras do corredor. — Maldita luz!

Juliete viu, naquele instante, o que ninguém mais vira. Sob a queimadura superficial, sob a máscara de monstro que ele havia se tornado, havia algo frágil. Algo que ainda amava. Algo que ainda doía.

Ela jamais contou a ninguém o que viu. Mas guardou no coração, como guardava as fitas cassetes que ele havia gravado para ela, anos atrás, com músicas que nunca ninguém ouviu.

O professor Marcos Dori chegou a Cárpoles três semanas depois. Vinha de uma universidade distante, atraído pelos relatos estranhos que chegavam aos jornais da capital e pelas cartas que trocava com Danton, o menino de doze anos, morador de Cárpoles, órfão de pai e mãe, criado com sua avó, mas dono de uma biblioteca ambulante na cabeça — sabia de cor nomes de grimórios, encantamentos eslavos, rituais de crepúsculo e todos os contos de vampiros que a Transilvânia e as províncias esquecidas já produziram.

É um caso clássico, Danton — disse o professor Dori, examinando a marca no pescoço do terceiro corpo, já exumado às pressas. — Retorno por ressentimento. Humilhação em vida gera sede de vingança após a morte. O lago onde ele se afogou… Cárpoles… Não é coincidência. Águas estagnadas são portais.

Portais para onde, professor? — perguntou Dantos, os olhos brilhando.

Para o lugar onde os esquecidos vão, quando ninguém chora por eles.

Levaram semanas para entender o padrão. Reinaldo Bole não atacava ao acaso. Ele seguia uma ordem. Cada vítima havia, de alguma forma, negado sua arte, ridicularizado seu sonho, fechado uma porta. O dono da loja de discos. O amigo traidor. A sogra cruel. O produtor musical que rasgou sua fita na frente dele. A moça da gravadora que riu do seu rosto. Um a um, numa coreografia implacável de justiça sangrenta.

A última vítima seria Juliete? Ou ele a pouparia como prometera?

Marcos e Danton não podiam correr o risco.

Escolheram a encruzilhada do Monge para a armadilha. Era um lugar antigo, onde três estradas se encontravam diante de uma cruz de pedra coberta de musgo.

Os camponeses contavam que um monge havia sido executado ali no século passado por praticar magias proibidas. Seu sangue encharcou o chão e, diziam, tornou aquele ponto vulnerável — um lugar onde o véu entre vivos e mortos era fino como papel de seda.

Na noite de lua cheia, prepararam o ritual.

Danton desenhou os círculos de proteção com giz e sal grosso. O professor acendeu velas negras antigas que trouxera de uma abadia abandonada. No centro da encruzilhada, colocaram um violão — o mesmo modelo barato que Reinaldo Bole tocava em vida. Sobre as cordas, borrifaram água benta misturada ao pó de uma lápide.

Ele virá — disse Danton, seguro. — Não resistirá ao chamado de um instrumento. É o que ele mais amava.

E vieram.

Não Reinaldo, mas primeiro um vento frio que apagou duas velas. Depois um farfalhar de passos na terra seca. Depois um cheiro — cravo, canela e água podre de lagoa. E então ele estava ali, emergindo da neblina que não existia momentos antes.

O Vampiro de Cárpoles!

Não era mais o rapaz franzino que se atirara na lagoa. Reinaldo Bole agora vestia uma casaca negra como breu, e sua altura parecia ter crescido meio palmo. Os cabelos, antes castanhos e sem graça, eram agora prateados como a lua. Sua face era bela e terrível, e de seus olhos escorriam lágrimas que brilhavam como mercúrio.

Professor Marcos — disse o vampiro, com a voz dupla e cavernosa. — O senhor deveria ter ficado na cidade grande. E o menino… — inclinou a cabeça, farejando o ar — …cheira a medo e a coragem. Que combinação rara.

Reinaldo Bole — respondeu o professor Marcos, firme, embora o bastão em cruz tremesse em sua mão. — Em nome dos que morreram, em nome dos que ainda podem viver, eu te conjuro a partir.

O vampiro riu. Foi um som molhado, como garrafas se quebrando no fundo da lagoa.

Partir? Eu acabei de chegar, professor. Ninguém me ouviu em vida. Agora todos me ouvirão. Minhas músicas… — ele ergueu as mãos, e unhas negras brilharam — …serão escritas com sangue.

Danton agiu rápido. Enquanto o vampiro declamava, o menino se abaixou e cortou a palma da própria mão com uma lasca da cruz do monge. O sangue pingou no chão, e o círculo de proteção brilhou em azul.

Reinaldo Bole estremeceu. Seu corpo vacilou.

Agora, professor! — gritou Danton.

Marcos avançou. Na mão direita, segurava não uma estaca qualquer, mas um pedaço afiado da madeira original da cruz do monge — talhada pelo próprio menino Danton, benzida em sete fontes diferentes, guardada num estojo de veludo vermelho.

O vampiro tentou recuar, mas os círculos o prenderam. Tentou voar, mas o sangue de Danton o ancorou na terra. Tentou chamar as sombras, mas a lua cheia estava alta demais.

Perdoe-me — disse o professor Marcos Dori e cravou a estaca.

Não houve sangue. Não houve grito. Houve apenas um suspiro longo, como o ar que escapa de um fole rasgado, e o corpo de Reinaldo Bole caiu de joelhos na encruzilhada. A pele azulada começou a descamar, os dentes afiados a recuar, os olhos âmbar a se apagar como brasas sob cinzas.

Quando o semblante voltou ao que fora em vida, o professor Marcos e Danton, então, recuaram. Diante deles, no chão de terra batida, estava apenas um rapaz magro, de cabelo castanho e rosto cansado. Trazia nos lábios um resto de sorriso. No peito, o buraco da estaca parecia uma flor escura.

Realmente era Reinaldo Bole — murmurou Danton, enxugando as lágrimas com a manga da camisa. — O tempo todo.

Enterraram-no ali mesmo, na encruzilhada do Monge. Cavaram a cova com as próprias mãos, enquanto a lua começava a descer no horizonte. O professor Marcos Dori rezou uma prece em latim que Danton não reconheceu. Depois, fincaram a cruz de pedra sobre a sepultura e gravaram uma única palavra:

BOLE”

Mas Cárpoles nunca mais foi a mesma.

Porque, nas noites de lua cheia, quando a neblina desce dos morros e os cachorros se recusam a latir, como que em uma nota paralisante, os viajantes que cruzam a estrada que passa pela encruzilhada juram ouvir um violão. Não um violão comum — estridente, desafinado, tocado com dedos que já não têm carne. A melodia é triste, mas bonita. É uma canção que ninguém conhece, mas que todos reconhecem como se já a tivessem ouvido em sonho.

Os mais velhos dizem que é o vento. Os mais sábios sabem que não.

Algumas crianças acordam com o nome “Reinaldo” na ponta da língua, sem saber de onde veio. Operários, voltando do turno da madrugada, desviam o olhar quando uma sombra magra aparece no acostamento, dedilhando um instrumento invisível. E idosos, sentados nas varandas, as mãos trêmulas sobre o café que esfria, cochicham entre si:

Ele ainda anda por aí. O Vampiro de Cárpoles. Mas não ataca mais. Apenas toca”.

Juliete nunca mais amou ninguém. Nas tardes de domingo, caminha até a encruzilhada, senta-se na grama ao lado da cruz, e conversa com a terra. Conta as novidades da Província, as fofocas da feira, os casamentos e os enterros. Às vezes, tira do bolso uma fita cassete desbotada e a coloca contra o peito.

Ela jamais revelou o segredo que viu naquela manhã na casa de Margarida. Mas, quando a lua está cheia e o violão começa a tocar sozinho, Juliete sorri — porque, entre os acordes desafinados e a melancolia estridente, ela ouve o que ninguém mais ouve.

Ouve Reinaldo Bole finalmente cantar suas músicas.

E, de certa forma, ele está fazendo sucesso.






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