UMA ESTRANHA EXPERIÊNCIA ONÍRICA - Narrativa Clássica de Horror - Ambrose Bierce

UMA ESTRANHA EXPERIÊNCIA ONÍRICA

Ambrose Bierce

Tradução de Paulo Soriano

(1842 – 1914?)


Eu caminhava ao entardecer por uma vasta floresta de árvores desconhecidas. Ignorava de onde vinha e para onde ia. Sentia a imensidão da mata e tinha consciência de que eu era, ali, o único ser vivente. Enquanto caminhava contra o sol nascente, eu tinha a vaga sensação de que estava preso a algum feitiço, em expiação por um crime já esquecido, há muito tempo cometido. Mecanicamente e sem esperança, eu me movia sob os galhos das árvores gigantescas por uma estreita trilha que penetrava a solidão assombrada da floresta. Cheguei, enfim, a um riacho, que sombria e lentamente corria à minha frente, e vi que o caudal era um fluxo de sangue. Virando à direita, segui o seu curso por uma distância considerável, e logo cheguei a uma pequena clareira circular na floresta, esfumada por uma luz tênue e irreal, que me permitiu o vislumbre de um tanque profundo, de mármore branco, no centro dela. O tanque estava cheio de sangue, e o riacho, que eu havia seguido, dali fluía. Em torno do tanque, entre ele e a floresta que o cercava — um espaço de talvez três metros de largura, pavimentado com imensas lajes de mármore — , jaziam corpos de homens mortos — uma dezena. Embora eu não os tivesse contado, sabia que o número tinha alguma significativa e agourenta relação com o meu crime. Possivelmente, os cadáveres marcavam o tempo, em séculos, desde que eu o cometera. Apenas reconheci a adequação do número e o soube sem precisar contar. Os corpos estavam nus e dispostos simetricamente ao redor do tanque central, e dele irradiavam como raios de uma roda. Os pés estavam para fora e as cabeças dependuradas sobre a borda do tanque. Cada cadáver jazia de costas, com a garganta cortada e o sangue escorrendo lentamente da ferida. Impassível, observei tudo isso. Porque decorrência natural e necessária do meu crime, aquilo não me afetava; mas havia algo que me enchia de apreensão e terror — uma pulsação monstruosa, um latejar de recorrência lenta e inevitável. Não sei a qual dos sentidos a pulsação se dirigia, ou se me chegava à consciência por algum caminho desconhecido pela ciência e pelo senso comum. A regularidade impiedosa desse vasto ritmo era enlouquecedora. Eu tinha consciência de que permeava toda a floresta e era a manifestação de alguma malevolência gigantesca e implacável.

Isto é tudo o que eu me lembro desse sonho. Provavelmente, dominado por um terror que, sem dúvida, tinha origem no desconforto causado por uma circulação dificultosa, eu gritei e fui acordado pelo som da minha própria voz.

 

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