A ÚLTIMA NOITE DA CIGARRA - Conto de Horror - Marcelo Reis
A ÚLTIMA NOITE
DA CIGARRA
Marcelo Reis
Num
quarto qualquer, Rogério, que é um exímio vendedor de armários planejados,
acorda e examina aquelas paredes não tão familiares. É sabido de muitos
leitores que algumas casas são asilos invioláveis a ruídos de socorro.
Uma
cigarra na janela parece confrontar-lhe. O silêncio é destruído pelas suas
asas, as luzes são acesas nos quartos alheios. Um coração acelera e consegue
perceber o lençol ritmar ao escutar tamanha sonoridade. O vento parece
responder ao clamor advindo daquela pequena força e intercala com assobios que
ecoam até o submundo. Ouve passos pesados sobre um piso velho e escandaloso. E
com uma rápida intuição, esconde-se no guarda-roupa que pertenceu a uma linda
garota chamada Cecília que morreu há muito tempo. O seu nariz começa a coçar em
um espaço que não caberia um cão de médio porte, no entanto, espreme-se em uma
luta enfadonha com uma imensidão de roupas. Conjura neste espaço as mais
horríveis maldições. A sua cabeça está ressoando como se tivesse recebido uma
paulada. O Sr. Jorge despertou do seu sono e dirige-se ao banheiro... a noite
está emergindo e a casa está sob o olhar da lua, a penumbra assola aquelas
janelas e estremece ao ser atingidas com tamanha energia. Os pequenos animais
aproveitam o dispersar de sapatos e se esgueiram pelos quintais e Jorge sente a
contradição de ter aquela região novamente ruidosa. Ao entrar no banheiro o Sr.
aguarda pacientemente o seu expurgo e olha diretamente para o cobogó. Vivencia
então o fascínio da vermelhidão daquele satélite que raramente transforma
fleumáticos em coléricos. A radiação ilumina-o.
—
Como alguém pode ser tão displicente? Uma pessoa pode morrer ao respirar essas
partículas. Quando sair deixarei um bilhete com recomendações de limpeza.
Agora,
preso naquele velho cacifo, Rogério sente que não conseguirá mais prender o
espirro.
Vendo
aquele homem passar, a memória começa a surgir com facilidade.
—
Acho que o conheço. É o homem que apresentei o portfólio. O Sr. Jorge! Acho que
ele bateu em minha cabeça quando abaixei para pegar o papel que voou da minha
mão. Este canalha é bastante inconveniente para acordar logo agora? Estou
passando mal. O que é isto roçando em minha perna?
O
inseto está no armário juntamente com o alérgico a mofo.
—Não
é possível! Você está aqui agora.
No
banheiro o Sr. Jorge ouve um som alto ressoar como uma ópera.
—
Uma cigarra. Quanto tempo não ouvia este som, pensei que haviam desaparecido.
Ela vai acordar a Marta. Preciso espantá-la para longe daqui. Caso ela perceba
que estou no banheiro por conta dos bolinhos que recomendara com tanto pavor
que não comesse — será o meu fim.
Depois
de treze minutos ele sai ao atentar este poderoso ruído.
Rogério
abre a porta do cômodo para que a cigarra, vendo um pouco de claridade, consiga
sair, mas a luz sucumbe novamente por uma sombra que surge de repente.
—
O que é isso, meu? — Bastante assustado Rogério interroga com as sobrancelhas
arqueadas.
Um
machado rompe o silêncio que acomodava aquele instante, a sua descida parecia
tão lenta. O peito de Rogério é atingido e aquela pressão esmagadora que sente
parece aplainar o surgir de uma lágrima. O coitado estremece naquele cubículo.
Não teve nenhuma chance, e uma tentativa de escape ficara distante. Olhos
amarelos salpicados com gotas de um vermelho sangue estavam sobre o seu corpo.
—
O que este homem está fazendo aqui dentro? Mas quanto sangue... Marta não pode
ver isso, com certeza terá um choque. Como explicarei às autoridades o
aparecimento de um homem neste estado no meu armário. Vou sumir com este corpo.
Marta não vai acordar, pois o remédio que ela toma para a endometriose a faz
dormir por horas. Como pesa! Com a quantidade de sangue que perdeu deveria
estar como uma pena. Já sei! Vou enterrá-lo no quintal. Não tenho mais idade
para isso. Os meus dias de coveiro ficaram para trás, espero que nenhum vizinho
invente de despertar, senão estarei perdido.
O
artrópode começa a declamar outra vez em plena madrugada.
–
O que é isto? Para com este maldito barulho. Deveriam ser extintas há séculos.
Onde você está? Minha nossa! Parece que o som está saindo do cadáver. Tenho que
encontrá-la rapidamente antes que os vizinhos levantem. Eu nunca ouvi uma
cigarra cantar tão alto assim. Parece querer denunciar-me com seu tom
sepulcral.
Depois
de algumas horas de alternância com sua nova pá naquele barro, o Sr. Jorge
termina e coloca algumas flores no lugar.
—
Agora posso descansar. Preciso tomar um banho antes de deitar.
—
Onde estava, Jorge? Aposto que estava remexendo a geladeira.
—
Perdoe-me querida, mas estava sem sono e acabei caindo em tentação.
—
Você tinha jurado para mim que nunca mais traria outra cigarra. Espero que a
tenha enterrado direito desta vez.
— Claro que sim, querida. Sempre tomo muito
cuidado com as cigarras que estacionam na frente do nosso jardim.
—
Não vamos fazer barulho para que a nossa amada Cecília desperte, pois amanhã
será um dia lindo para ela brincar com os insetos que ressuscitam no nosso
lindo gramado. — Diz Marta ao seu esposo.

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