O ESPÍRITO MAU - Conto Clássico de Mistério - Edward Kennedy

O ESPÍRITO MAU

Edward Kennedy

(Sec. XX)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

Antes de começar a minha narrativa, recordemos as célebres palavras de Pasteur: “Nós outros, pacientes perscrutadores da natureza, enriquecidos pelas descobertas dos nossos predecessores, munidos dos instrumentos mais delicados, armados dos severos métodos experimentais, tropeçamos a cada passo nas investigações à procura da verdade e percebemos que o mundo material, nas suas mínimas manifestações, é quase sempre outro e não esse que percebemos.”

Incumbam-se outros de discutir, comentar contraditar ou repelir as ideias do grande homem. Eu prefiro narrar um fato.

Convém advertir, desde já, que estou longe de ser o que abi chamam de “carola”. Antes, pelo contrário, sou o mais cético e irônico entre os “São-Tomés” que abundam atualmente nesse nosso mundozinho cada vez menos crendeiro.

A explicação disso é, aliás, facílima: sou descendente de uma família de mágicos e prestigiadores célebres que, durante sucessivas décadas, se celebrizou nos grandes palcos europeus e, apesar da ideia de maravilhoso a que costumam subordinar a palavra magia branca, negra, amarela, ou cor de burro quando foge, nós nunca acreditamos nessa coisa de “sobrenatural”, seja qual for o nome ou teoria com que se disfarce.

O meu pai, por exemplo, implicava solenemente com o baixo espiritismo e uma das tarefas a que se entregava com maior entusiasmo era a de desmascarar impostores, descobrir fraudes, desencantar assombrações. Nessas lutas em que se empenhava constantemente, levava sempre a vantagem proporcionada pelas suas habilidades e argúcia de mágico dos palcos londrinos.

Essas qualidades e disposições espirituais de meu pai eu não só as herdei como desenvolvi e cultivei com orgulho. Entretanto...

Um dos fatos mais extraordinários da minha vida ocorreu em 1924 no interior da Inglaterra. Andava eu naquela ocasião em Norfolk em visita a velhos conhecidos e em descanso. Uma tarde, estava eu na hospedaria, conversando com um dos habitantes do lugar.

Era um velho supersticioso e, como seria lógico, poucos momentos depois de iniciarmos a palestra, o homem orientou-se para os assuntos que mais o apaixonavam.

E disse-me que havia um espírito mau numa cabana a pouca distância da aldeia.

— Espirito mau?

— Sim, senhor. Existe na cabana um menino muito doente — explicou o homem com a sua voz cansada. — Não melhora... Não melhora porque há em casa uma alma penada que o persegue. Talvez algum “mandado”. O pobre menino morrerá. De nada valem os remédios que o doutor lhe manda dar. O espirito mau...

Essa explicação ingênua fez-me sorrir.

— Senhor... Com coisas do outro inundo não se brinca! — falou o homem com veemência. — Se o senhor tivesse visto...

— Pode-se ver?

— Pode-se, sim, senhor. Eu o levarei lá.

A humilde cabana pertencia a um pastor. Informaram-me lá que o pobre menino estava num quarto acima com uma rebelde pneumonia e que o médico havia sido chamado em tempo, mas o doentinho cada vez mais piorava. O pai estava abatido em desespero e eu procurei falar-lhe acerca do espirito mau.

— Sim, meu senhor! Há uma alma penada nesta casa. O senhor poderá ouvi-la, às vezes, durante cerca de meia hora, outras vezes apenas durante uns cinco minutos.

— Que espécie de som? Gritos? Cantos? Gemidos?

—Nada disso, meu senhor. A alma penada bate com um martelo. É como se estivesse pregando tábuas de um caixão: pã, pã, pã!... Isso enlouquece a gente. Parece estar preparando o caixão do meu filho. É horrível!

— Já o ouviu no própria quarto onde está o menino doente?

O homem tornou-se lívido, como se eu falasse de uma catástrofe.

—Não fale isso, senhor. Se isso acontecer, o meu pobre filhinho nunca mais verá a luz do sol.

 Senti verdadeira piedade pelo pobre pai e por toda aquela gente simples do campo. A que estado de angústia e terrores podem conduzir as suas crendices, as suas superstições! Procurei consolá-lo, diminuir-lhe o pavor. Se me fosse possível desvendar o mistério do fantasma batedor de pregos, talvez com isso lhe proporcionasse um grande alívio e mais confiança. Manifestei o meu desejo de ouvir o tal espirito mau e o homem concordou prontamente.  À noite, a mulher exausta e acabrunhada foi-se deitar. Eu e o camponês ficamos perto da cozinha, num quarto, à esquerda, fumando os nossos cachimbos e de raro em raro trocando algumas palavras, à luz tênue e vasquejante de uma lamparina de querosene.

Subitamente...

Era meia hora depois da meia noite. O rosto do camponês transfigurou-se numa expressão de terror. O seu olhar dirigiu-se, através a cozinha, para a porta da sala fronteira à sala de visitas... Camarinhas de suor desciam-lhe pela testa enrugada. Então, eu comecei a ouvir o som inconfundível: pã... pã... pã!... Era um martelo, pausadamente, metodicamente, regularmente, batendo um prego.

Pus de lado o meu cachimbo, atravessei a cozinha, empurrei a porta da sala de visitas e entrei corajosamente.

A sala estava erma.

Piquei estupefato. Não sou supersticioso nem sofro de alucinações, mas não tinha a menor dúvida de haver ouvido distintamente as pancadas de um martelo metendo um prego em madeira.

 Está claro que, no dia seguinte, eu já não encontrava razões para rir do terror supersticioso dos pobres camponeses e, após algumas garrafas de cerveja, me animei a discutir o mistério.

— Escuta, meu velho — falei ao pastor —, se há um espirito mau, provavelmente existirá outra espécie de espírito que possa combate-lo e até expulsá-lo de sua casa. Ainda não pensou nisso?

Isso era evidentemente transigir e aceitar a ideia da existência do espirito mau, pois a realidade é que com os meus recursos pessoais me sentia inteiramente desarmado para combater o carpinteiro invisível.

O homem ficou silencioso, baforando fumaçadas do seu cachimbo; depois falou, balançando tristemente a cabeça:

—Isso há, senhor! Mas eu não sei lidar com espíritos... Gente que já não é deste mundo... Ah, mas o senhor teve uma boa ideia... A cigana...

—Cigana?

—Sim, eu conheço uma cigana que é feiticeira e deve andar agora com a caravana a quatro léguas daqui. Oh!... Ela seria capaz de dar um jeito nisso!... Se eu pudesse ir buscá-la a tempo...

O remanescente de superstição infantil, que dormitava no fundo da minh'alma de cidadão consciente, despertou em mim. Deixei o meu companheiro e, arranjando um cavalo, parti apressado em busca do acampamento de ciganos. Não me custou muito descobrir o paradeiro da tribo errante. Havia três ou quatro carroças um pouco afastadas do acampamento e uma delas era a morada da velha bruxa.

Após as informações necessárias, bati à porta. Esperei cerca de um minuto até que a porta de madeira se abriu e uma mulher feia, rosto rugoso, surgiu envolta nos trajos característicos, chale de cores berrantes, saia de veludo, um espartilho, onde se viam remanescentes de contas e ouropéis pendentes. A sua cabeça estava envolvida numa espécie de lenço grande listrado de vermelho e azul. Cerca de noventa anos de idade.

—Que deseja, meu senhor? — inquiriu ela com voz tremula. — O senhor quer tirar a sorte?

Balancei a cabeça e meti-lhe entre os dedos alguns xelins.

—Escuta uma coisa, mãezinha — falei num tom humilde e carinhoso. — Já ouviu falar em um espírito mau?

—Já ouvi falar em muitos espíritos maus —disse ela. — Sim, mas que quer dizer com essa pergunta?

Contei o fato que havia presenciado, na casa do velho camponês de Norfolk, a respeito do carpinteiro invisível. Quando terminei, ela soltou uma risadinha velha de gente cansada.

—Ah... que dúvida, moço! É um espirito mau. Almas penadas! Quer levar o menino para o outro mundo. Eu sei como é que a gente luta com elas, mas essas coisas não se podem andar fazendo a torto e a direito, não, senhor...

Procurei convencê-la da melhor fôrma possível, mas a mulher relutava. Depois de muitos argumentos inúteis, meti-lhe na mão uma nota de libra, com promessa de dar mais depois.  Já era um argumento mais forte.

—Vai, minha velha, fazer bem! Salvar um pobre menino, coitadinho!...

Na manhã seguinte, o menino estava ainda mais fraquinho, mas, ao pôr do Sol, a velha cigana chegou, acompanhada por um homem, também cigano, velho e, tal qual ela, boca desdentada e trôpego. Trazia na mão uma caixinha de papelão como essas em que guardam envelopes — eu não pude ver-lhe o conteúdo —, mas pareceu-me ter-lhe distinguido algo semelhante a dentes de alho.

Foi aí que eu tive ocasião de presenciar um dos fatos mais impressionantes da minha vida.

Antes de mais nada, deram uma volta em torno da casa: fecharam todas as janelas a seguir. Depois desarrolharam uma garrafa em que havia um liquido avermelhado e saíram com ela borrifando as janelas, as paredes e as roupas deixadas ao acaso. Taparam com trapos todas as fendas e buracos de determinado tamanho. Depois de tudo isso feito, a velha cigana tirou vários dentes de alho e esfregou-os contra as portas e janelas. Sentaram-se ambos num banco, apagaram as luzes. Ficamos esperando na escuridão.

À uma hora da madrugada, mais ou menos, o espírito do carpinteiro chegou... ou pelo menos foi essa a minha conclusão...

“Pã... pã... pã...”, as pancadas persistentes do martelo começaram a fazer-se ouvir na cozinha com uma bulha infernal. A alma do velho camponês devia estar-lhe toda nos olhos. Como estávamos todos junto ao leito do doentinho, podíamos perceber-lhe a respiração augusta intercalada de gemidos flébeis... Ao som das marteladas agitava-se, gemia aflito.

Apesar de estar toda fechada a casa e todas as luzes permanecerem apagadas, pudemos distinguir na penumbra a velha cigana dar um salto e correr em direção à caixinha que havia trazido. O seu vulto, naquelas circunstâncias, tinha algo de fantástico e metia medo. Tirou de dentro da caixinha um frasco, desarrolhou-o. Riscou um fósforo e, à luz de uma tênue chama, rolos de fumo começaram a espreguiçar-se e a expandir-se no ar com um cheiro acre. O espírito carpinteiro continuava na sua faina diabólica e ininterrupta na cozinha. Então o odor começou a intensificar-se cada vez mais e a tornar-se cada vez mais forte.

 Na cozinha, dava-se o inverso: as pancadas do martelo tornavam-se cada vez mais fracas. A cigana tinha uma atitude de êxtase que infundia medo. Era a feiticeira combatendo poderes estranhos. Dos seus lábios saiam sons guturais, palavras ciciadas. Subitamente, mudou de atitude, segurou o companheiro pelo ombro.

— Vai prendê-lo, Todan! Agora já não poderá escapar.

O homem nada disse. Apanhou um dos frascos, agora vazio, e encaminhou-se para a cozinha. Demorou-se lá uns quinze minutos, depois voltou. Abriram todas as janelas e o ar se renovou naquele ambiente lôbrego.  O homem então informou a todos de que o espirito mau estava preso no frasco.

Arranjou uma picareta com o camponês, fez um buraco no chão a pouca distância da casa, atirou nele o frasco, enterrando-o.  Tirei do bolso outra libra e entreguei-a à cigana.

É verdade que tudo aquilo podia ser considerado uma grande farsa. A fumaça, o perfume, os dentes de alho, as portas e janelas fechadas, os sortilégios da bruxa, tudo, enfim, poderia ter como fito exclusivo sugestionar os assistentes, mas o inexplicável, o inegável é a cessação das pancadas do martelo do carpinteiro fantasma. O enterro da assombração também foi um fato que noutras circunstâncias me teria provocado estrondosas gargalhadas... Depois que os ciganos partiram, investiguei toda a casa à procura de uma explicação racional para o fato. Não foi possível. Pela primeira vez na vida estava eu diante de um acontecimento inexplicável. A ideia de um espirito mau enterrado numa garrafa por um lado me repugnava e parecia ridícula, por isso evitei o mais possível fazer referências ao fato. Apenas me limitava a confirmar com a cabeça a narrativa do camponês entusiasmado e me resignei ante a realidade insofismável do desaparecimento das pancadas e melhoras do menino.

Passei uma semana impressionado em Norfolk e, à medida que o tempo corria, mais forte se me tornava a impressão. Sentia necessidade de melhores explicações. A velha bruxa talvez se conformasse em falar a respeito desse outro mundo do qual parecia entender tanto. Sim, senhor! Há realmente almas penadas e espíritos maus, indivíduos que, depois de mortos, se deixam dominar por uma ideia má, uma paixão perversa e estúpida, e se põem a perseguir os vivos, a assustá-los, a fazer-lhes mal. E há também os bons. E dizer-se que eu passei metade da existência combatendo teimosamente a verdade. Que me valera afinal aquele discernimento de que tanto me orgulhava? Oh... inferno!  A ideia se impunha.

Eu necessitava de luzes.

Precisava renegar-me.

Mandar ao diabo toda a inteligência e argúcia.

Só a velha cigana me poderia pôr em contado com a verdade.

Tomei um automóvel e fui encontrar o acampamento de ciganos muitas léguas à frente. Depois de três dias de insistência e de gratifica-lo com cem libras, o casal fez-me jurar, sob palavra de honra, em nome de Deus, etc., e mandou-me, finalmente, entrar na carroça.

—Fala você, Todan! — disse a velha, acocorando-se a um canto. — Dê as explicações.

O velho Todan acendeu o cachimbo e encarou-me com os olhos fundos.

—Senhor, não julgue que, para compreender o mistério do espírito mau, seja necessário mais de uma explicação.

—Sim... sim... — respondi eu, curioso.

—Em primeiro lugar, tenha em mente que o fantasma carpinteiro só apareceu na casa do camponês de Norfolk depois que nós passamos naquele lugar há uma semana.

—E que tem isso?

—Quer dizer que foi um dos membros da nossa tribo quem lá pôs tal assombração, na esperança de que, mais tarde, o camponês viesse procurar a nossa bruxa. Não repare, senhor. Nós agora temos a sua palavra de honra e eu confio...

—Mas botou assombração na casa! Como?

 O homem abriu uma bolsinha de couro. Tirou de dentro dois pequenos pedaços de chumbo. Mostrou-mos.

—Não é em toda casa que podemos fazer isso. É preciso, antes de tudo, que a casa esteja situada em lugar onde faça muito vento, na beira da praia ou no alto de um morro como aquela. Outra circunstância favorável é a credulidade da família.

—Sim...

— Enquanto toda a família do camponês de Norfolk se reunia na sala para tirar a sorte com uma cigana, um dos nossos companheiros pendurou esses dois pedaços de chumbo junto à janela do oitão. Preso à linha finíssima, ao sopro do vento, à noite, isso toma impulso e fica ao vaivém como o pêndulo de um relógio. Encontrando como obstáculo as tábuas finíssimas da janela, os pedacinhos de chumbo ficam geralmente dando pancadas regulares. Quando o vento para, está claro que as pancadas cessam. Durante o dia, as pancadas tornam-se imperceptíveis no meio de mil outros ruídos. Mas nas horas caladas da noite...

Deu uma risadinha canalha.

— No fundo, as pancadas não se parecem muito com marteladas, mas... o senhor sabe... a imaginação da gente mal-assombrada se incumbe de aumentar e exagerar as coisas...

—Ah... isso ê verdade. Mas o menino...

—O menino já estava doente de pneumonia. A cigana que tirou a sorte aproveitou a oportunidade para lançar a ideia da existência do espirito mau, batedor de martelo. O senhor compreende: um menino de dez anos já possui todas as superstições dos pais. Primeiro, ao ouvir as marteladas, sugestionou-se para piorar; depois, com o exorcismo, sugestionou-se para melhorar. Além disso, a pessoa que pendurou os pedacinhos de chumbo no oitão é hábil no desempenho da tarefa.

Eu estava maravilhado com a simplicidade das coisas. Não censurei os ciganos. Num mundo imperfeito como o nosso, onde a virtude está longe de imperar e os homens de serem santos, aquele ardil dos ciganos pareceu-me justo, razoável e honestíssimo. Por que não? Na luta pela existência há de haver sempre vítimas e cada um peleja com as armas que possui.

 

Fonte: “A Noite Illustrada”/RJ, edição de 3 de janeiro de 1934.

Ilustração: Seth (1891 – 1949).

 

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