UM CONTO AMERICANO - Conto Clássico de Horror - Arthur Conan Doyle
UM
CONTO AMERICANO
Arthur
Conan Doyle
Tradução
de autor anônimo do séc. XX
—
Sim... sim, evidentemente, concordo que é muito estranho — declarava ele no
momento em que penetrou no compartimento reservado às reuniões da nossa
saciedadezinha semiliterária. — Mas eu, saibam os senhores, fui testemunha de
coisas ainda mais extraordinárias... Nem sempre se aprende tudo nos livros. E
podem crer-me que, nem sempre, as pessoas que melhor se exprimem, e que
receberam melhor educação, são as mais experientes e podem gabar-se de terem
visto o que eu vi.
Ele
se chamava, creio eu, Adams. Em todo o caso, o certo é que as suas iniciais
eram J. A., e que são visíveis ainda hoje, profundamente gravadas à faca, na
porta da nossa sala de fumar.
Foi
tudo o que ele nos legou conjuntamente com alguns desenhos artísticos feitos
com as sobras do seu tabaco sobre o nosso tapete persa; à parte essas poucas
lembranças, o nosso narrador americano desapareceu completamente da nossa
memória. Por algum tempo, ele resplendeu como um meteoro na nossa tranquila
assembleia um tanto monótona; depois, caiu bruscamente nas trevas do
esquecimento.
Naquela
noite, o nosso amigo da Sierra Nevada estava disposto a falar. Assim, não
desejando privá-lo de contar a sua história, deslisei sem rumor até a poltrona
mais próxima, acendi um cachimbo e esperei:
—Se,
na verdade, os senhores desejam ser postos ao corrente de fatos verídicos e
interessantes, conhecer detalhes saborosos e típicos... Pois bem, dirijam-se
aos baleeiros, aos homens das fronteiras, aos exploradores e aos laçadores da
baía de Hudson, enfim, a essa gente que mal sabe assinar o nome.
M.
Jefferson Adams fez uma longa pausa, durante a qual tirou um longo cigarro do
bolso e acendeu-o.
— Digam-me, agora, qual dos senhores já esteve
em Arizona? Nenhum, estou certo. E entre os ingleses e os americanos capazes de
manejar a pena, quantos há que estiveram no Arizona? Pois bem, senhores, eu
estive lá e ali vivi durante muitos anos.
“E,
quando me recordo do que vi por lá, custo a crê-lo. Que terra aquela!
Eu
era um desses flibusteiros de Walker, conforme nos chamavam; no dia em que nos
indispusemos e em que mataram o chefe, muitos dentre nós deram o fora e vieram
estabelecer-se aqui. Pode-se dizer que formaram aqui uma verdadeira colônia
anglo-americana; tínhamos as nossas mulheres, as nossas crianças, a família
toda.
Mas
era do país que eu lhes falava, eu creio. Imaginem: ervas mais altas do que as
nossas cabeças, quando passávamos a cavalo! Florestas tão espessas que nelas
poderíamos andar, léguas e léguas, sem mesmo vermos uma nesga do céu! Orquídeas
do tamanho de um guarda-chuva! Haverá, entre os senhores, alguém que tenha
visto a minha planta chamada “apanha-moscas” e que cresce em certas regiões dos
Estados Unidos.
—
A Dionaea muscipula — disse Damson, o nosso erudito.
—
Ah! Sim, é isso mesmo: a “Diana municipal”. Basta que uma pequena mosca pouse
nessa planta para que, imediatamente, os dois bordos da pétala, sobre a qual
ela pousou, se fechem sobre ela e a apertem mais e mais até esmigalhá-la; e se,
muitas horas após, os senhores reabrirem a pétala, encontrarão ali a mosca
morta, completamente dilacerada e já semidigerida.
Pois
bem, eu vi no Arizona emboscadas feitas com essas flores, cujas pétalas
atingiam oito ou dez pés de comprimento[1],
com espinhos que mais pareciam dentes e medindo um pé de comprimento; olhem, a
maior prova é que... Mas esperem um pouco, procedamos por ordem.
É
da morte de Joe Hawkins que eu lhes quero falar, pois foi a coisa mais
extraordinária, mais espantosa de que já ouvi falar!
Joe
Hawkins (Alabama Joe, como era conhecido) era chamado, em Montana, o lobo
branco.
Era
um tipo de vagabundo e o mais sujo que encontrei na vida. A dizer a verdade,
quando se sabia levá-lo, ele não era um mau rapaz; mas (Santa Maria!), era
preciso não se ter o ar de pretender dominá-lo, porque senão ele ficava pior
que um gato bravo. Eu me lembro de um dia em que ele descarregou o seu revólver
sobre uma multidão porque alguém o empurrara no seu caminho para o bar de
Simpson.
Não,
por certo que Joe não era homem a recuar ante a perspectiva de um assassinato;
era preciso ter-se cuidado junto dele. Ora, na época em que Joe Hawkins aterrorizava
a cidade inteira, havia naquela região um certo inglês chamado Scott... Tom Scott,
se bem me lembro. Esse tal Scott tinha um caráter perfeitamente britânico e, apesar
disso, ele não simpatizava nada com os ingleses daquela zona ou não era por
eles simpatizado. Era um homem muito calmo e muito simples, esse Scott. Talvez
mesmo demasiadamente calmo para viver naquele lugar. Acusavam-no de ser um
homem sonso, mas isto não era justo.
Ele
tinha o hábito de viver sempre afastado e, desde que o deixassem tranquilo, ele
não se metia com a vida dos outros. Diziam que fora cartista[2]
ou qualquer coisa parecida, na Inglaterra, e tendo sido lá maltratado por isto,
fora obrigado a deixar o país. Mas ele nunca falava sobre isso e nunca se
queixava de coisa alguma. Scott era demasiado simples e demasiado calmo para
viver entre aqueles brutos, por tal forma que em Montana ele acabara por ser ridicularizado
por todo mundo.
E
ninguém tomava a sua defesa, visto que os ingleses se recusavam a considerá-lo
como um patrício. Apesar disso, ele não se encolerizava e era polido para com
todos. Assim, acabaram por toma-lo por um poltrão, até que, um belo dia, ele
provou que se enganavam.
Foi
no bar de Simpson que a disputa teve lugar e dela resultou a estranha narrativa
que lhes vou fazer.
Alabama
Joe e um ou dois outros vagabundos estavam, naquela hora, com muita raiva dos ingleses
e, embora eu os houvesse prevenido de que isso acabaria mal um dia, eles não
guardavam conveniências e diziam o que lhes vinha à cabeça.
Naquela
tarde, Joe estava meio bêbado, e, com o revólver na mão, percorria a cidade,
procurando briga.
Afinal,
ele entrou no bar, onde tinha a certeza de encontrar um grupo de ingleses
dispostos, como ele, a se inflamarem. De fato, havia ali uma meia dúzia deles a
mentirem descaradamente e Tom Scott, sozinho, junto da lareira. Joe sentou-se à
mesa e pôs diante de si o revólver e a faca.
—
Eis os meus argumentos — disse-me ele. —
E desgraçado de qualquer desses poltrões ingleses que tentar desmentir-me.
Fiz
tudo o que pude para acalmá-lo, mas me foi impossível.
Logo depois, houve um barulho no bar e cada
qual saltou sobre as suas armas. Mas, antes que tivessem tempo de entrar em
luta corporal, ouviu-se uma voz calma:
—
Faz as tuas orações, Joe Hawkins, porque és um homem morto!
Joe
voltou-se de um salto e estendeu a mão para o revólver; mas já era tarde,
porque Tom Scott, de pé diante dele, com os olhos fixos nos seus olhos,
alvejava-o com seu derringer[3].
Sorria,
mas a sua fisionomia tinha qualquer coisa de diabólica.
—
A minha pátria não foi muito clemente para mim, mas eu quero que a respeitem na
minha presença e quem se recusar a isto receberá, por certo, uma bala!
Durante
um ou dois segundos, eu o vi mover o dedo no gatilho como se fosse atirar, mas
depois começou a rir-se e atirou ao chão a arma.
—
Não — disse —, não se pode tomar satisfações de um bêbado. Conserva a tua depravada
existência, Joe; e, para o futuro, tenta aproveitar melhor do que até agora o
fizeste. Podes dizer que nunca estiveste, como hoje, tão perto da morte. Agora,
apanha as tuas coisas e vai-te. Oh! Não vale a pena me olhares de soslaio, porque
não me fazes medo com o teu revólver. É muito que um bruto da tua espécie não
seja ao mesmo tempo covarde como uma galinha molhada!
Voltou-lhe,
então, as costas com desprezo e acendeu na lareira o seu cachimbo, enquanto
Alabama saía, de orelhas murchas, saudado por estrondosas e sarcásticas
gargalhadas dos ingleses.
Após
a disputa, fiquei ainda um momento, no bar, a observar Tom Scott, que apertava
as mãos dos seus patrícios antes de sair. Senti uma impressão estranha ao vê-lo
sorrir, porque eu estava certo de que Joe não ruminava nada de bom e de que os ingleses
eram capazes de amanhecer mortos.
Ele
morava num recanto muito afastado, situado fora do caminho, e para ali chegar
era-lhe necessário passar pela garganta sinuosa e profunda, cavada por um curso
d’água, onde cresciam as apanha-moscas, as “Dianas municipais”. Aquele lugar
era pantanoso e sinistro, quase sempre deserto, mesmo durante o dia; porque
eram impressionantes aquelas enormes folhas de oito a dez pés, que se fechavam
ao mínimo contato.
Mas,
de noite, era ainda muito pior: não se encontrava ali alma viva.
Demais,
em certos lugares, o pântano era muito profundo e, se alguém fosse atirado ali,
podia-se ficar certo de não ver nem mesmo um sinal na manhã seguinte.
E
eu imaginava Alabama Joe, com a sua fisionomia perversa e o revolver na mão,
oculto no cantinho mais escuro, sob as enormes folhas das apanha-moscas.
Simpson
tem o costume de fechar o bar por volta de meia-noite, de modo que fomos
obrigados a sair.
Tom
Scott partiu depressa para vencer as três milhas que o separavam de casa. Como
eu sentia uma certa simpatia por ele, fiz-lhe algumas recomendações:
—
Tenha sempre o revolver preparado, meu
velho, porque talvez precise dele no caminho.
Ele
voltou-se com aquele mesmo sorriso tranquilo de sempre e desapareceu na
escuridão.
Eu
tinha o pressentimento de que não o veria mais.
Apenas
ele se afastou, Simpson, aproximando-se de mim, disse-me:
—
Acontecerá qualquer coisa no sítio dos apanha-moscas esta noite; creio que
Hawkins foi para lá, há meia hora, para esperar Scott na passagem.
Que
aconteceu ali, naquela noite?
Foi
o que toda a gente perguntou a si mesma, no dia seguinte. De madrugada,
apareceu um homem no negócio de Fergusson e contou-nos que, ao passar, pouco
antes, perto do pântano, tivera um medo horrível. Com efeito, ele estava tão emocionado
que mal podia falar. Mas, afinal, conseguiu contar-nos que ouvira, de noite,
uns gritos medonhos. Não ouvira nem um estampido de arma de fogo, mas apenas
gemidos reiterados; e como que abafados como os de um homem que tivesse a
cabeça toda envolta por um pano e que sofresse cruelmente. Abner Brandon, eu e
alguns outros que nos achávamos ali então, montamos a cavalo e partimos para a residência
de Scott, passando pelo tal recinto deserto. Nada vimos ali de anormal: nem
sangue, nem sinais de luta, nada. E quando chegámos à residência de Scott, vimo-lo
sair e receber-nos alegremente.
Ali
bebemos, palestramos e Tom Scott saiu conosco. Voltando, encontramos a rua toda em sobressalto.
Os americanos estavam enfurecidos. Alabama Joe desaparecera e ninguém sabia
como.
Quando
descemos dos animais, havia uma multidão defronte do bar de Simpson e, assim
que viram Tom Scott, não lhe fizeram boa cara. Ouvimos diversos revólveres se
armarem e vi Tom Scott procurar o seu para defender-se.
Não
havia um único inglês à vista.
—
Então, camaradas! — gritou Zebb Humphry, o maior canalha que já conheci. — O
que pensam vocês? Devemos nós, livres cidadãos americanos, deixar-nos matar
como carneiros por um crápula inglês?
A
resposta não se fez esperar. Um instante após, Zebb estava no chão com uma bala
na perna que Scott lhe atirara. Mas, bem depressa, Scott foi também lançado por
terra e fortemente seguro por uma dúzia de homens. Compreendendo que lhe era
impossível a luta, ele não tentou mais resistir. A princípio, eles pareciam não
saber o que fazer dele, mas o vagabundo predileto de Alabama explicou-lhe logo:
—
Joe desapareceu — disse ele. — Não há dúvida sobre isto e vocês têm aqui o
homem que o matou. Vocês sabem que ontem, à noite, Joe foi àquele tal sítio
perigoso. Pois bem; ele não voltou de lá. Este inglês, que discutira com ele
aqui, passou por lá depois dele e ouviram-se gritos no meio das grandes
apanha-moscas. Pois bem! É seguro, é
certo, que ele lhe fez qualquer coisa e atirou-o depois ao pântano. Não é de se
admirar, portanto, que o seu corpo não tenha aparecido! Mas, ficaremos nós,
assim, inertes, enquanto os ingleses assassinam os nossos companheiros? Oh!
Isto é que não. Só há um meio de terminar isto e é aplicar-lhe a lei de Lynch![4]
—Sim!
Sim! Linchemo-lo! — gritaram cem vozes exasperadas, porque todos os valentões
da colônia estavam agrupados em torno de nós.
—
Vão depressa buscar uma corda para enforcá-lo e deixemo-lo pendurado na porta
de Simpson!
—Não!
Não! — protestou alguém, avançando uns passos. — Vamos enforcá-lo no sitio dos
apanha-moscas, bem perto delas. Assim, se realmente Joe estiver no pântano, ele
terá, ao menos, a satisfação de se saber vingado!
Esta
proposta foi acolhida por unanimidade, e puseram-se a caminho, levando Scott
bem amarrado e sob uma grande escolta armada até os dentes. Segui-os desolado
pela sorte de Scott; mas ele, ao contrário, parecia calmo. Que sangue frio!
Aos
senhores poderá parecer estranha a ideia de enforcar um homem numa
apanha-moscas; mas lá, essas árvores não são como as que se veem de ordinário:
as suas folhas são grandes como duas canoas juntas, que se tivesse ligado e
guarnecido de espinhos no fundo. Fomos até o lugar, onde vimos a maior
apanha-moscas; tinha umas folhas abertas e outras fechadas.
E
vimos uma coisa pavorosa! Em volta da árvore se achavam uns trinta ingleses,
armados, que pareciam esperar por qualquer coisa; tinham um ar decidido.
Ao ver-nos chegar, um escocês alto, de barba
ruiva, destacou-se do grupo e veio a nós de revolver em punho.
—
Escutem bem. Vocês têm razão de odiar esse homem. Até agora, nada prova que Joe
tenha morrido; em todo o caso, ainda que isto seja verdade, ninguém poderá afirmar
que foi Scott quem o matou. E, admitindo-se que ele o tenha matado, ainda teria
sido num caso de legítima defesa, visto que todos sabem, como eu, que Joe se
escondera para empurrá-lo quando ele passasse. Assim, vocês não têm razão de
ter raiva deste homem, mas, se querem insistir, eu tenho ainda trinta
argumentos de seis balas para convencê-los.
—
Muito interessante, meu amigo — respondeu o companheiro predileto de Alabama
Joe. — Vale a pena começarmos a discussão.
Armaram-se
os revólveres, saíram os punhais das suas bainhas e os dois grupos marcharam um
contra o outro.
Naquele
ano, seria muito maior o número de mortos em Montana.
Scott,
atrás, estava vigiado por um homem que lhe apontava um revólver ao ouvido, pronto
a matá-lo ao menor movimento.
Mas, de súbito, Scott saltou e gritou,
aterrado:
—
Joe! Joe!... Ei-lo ali! Olhem-no!... No apanha-moscas!
Todos
se voltaram como um só homem e olharam para o lugar para onde ele apontava.
Deus do céu! Que quadro!... Oh! Nunca mais o esqueceremos!
Uma
das grandes folhas da apanha-moscas que, até então, estava fechada e tocava o
chão, começava a se abrir lentamente; e ali, estendido no vão dessa folha, como
uma criança no berço, se achava Alabama Joe. Fechando-se sobre ele, a
gigantesca folha lhe havia, pouco a pouco, enterrado os terríveis espinhos no
coração. Via-se que ele tentara fugir, porque ainda conservava a sua faca na
mão e havia um longo golpe na folha carnuda; mas ele morrera antes de vencer.
Sem
dúvida, enquanto ele esperava Scott, deitara-se sobre a folha, para
preservar-se da umidade do solo, e ela, então, decerto se fechara sobre ele do
mesmo modo por que vemos as miniaturas dessas folhas, que cultivamos nas
estufas, fazerem com os insetos. São sempre encontrados esmagados, dilacerados,
reduzidos à polpa pelos acerados dentes desse monstro vegetal!
*
Eis
aí, senhores, como terminou a minha história. Não é nada banal, hein?”
—E
que aconteceu a Scott?
—Scott?...
Senhor! Nós o levamos em triunfo até o bar de Simpson e ele nos pagou, a todos,
uma pinga. Depois, subiu na escrivaninha e fez-nos um discurso.
Não
me lembro mais do que ele disse; sei, apenas, que se tratava do leão britânico
e da águia ianque ainda de braços dados através dos séculos. E agora, senhores,
vejo que me demorei muito a lhes contar esta história e que o meu cigarro se
apagou.
E
ele saiu, dando-nos as boas-noites.
Fonte: “Excelsior”/RJ, edição de fevereiro
de 1930.
[1]
Cerca de
2,44 e 3,05 metros, respectivamente.
[2] Integrante grupo de reformadores
políticos ingleses (séc. XIX) que preconizavam melhores condições de trabalho
para os operários.
[3] Arma de fogo, de cano curto, semelhante a uma pistola.
[4] Ou seja, o
linchamento.


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