O QUARTO QUE NÃO SE ESQUECE - Conto de Terror - Danilo Seraphim

O QUARTO QUE NÃO SE ESQUECE

Danilo Seraphim

 

A estrada para Petrópolis já havia engolido o entardecer quando o Fiat vermelho estacionou em frente ao Hotel Imperial. A fachada de estilo vitoriano, com suas torres irregulares e janelas de vidro chumbo, parecia ter emergido de um sonho antigo — ou de um pesadelo bem guardado.

— Parece cenário de filme — disse Helena, desligando o motor.

— Ou de livro — completou Jade, sorrindo.

Eram amigas há quinze anos. Nunca haviam brigado. Não de verdade. Essa harmonia quase irreal era motivo de piada entre seus familiares. “Vocês duas são alma gêmeas”, dizia a mãe de Helena. “Até demais”, respondia Jade, rindo.

No balcão da recepção do Hotel Imperial, uma mulher com óculos de leitura pendurados no pescoço lixava as unhas sem pressa. O crachá dizia: Maria Angélica – Gerência.

— Boa noite, reserva para duas — anunciou Helena.

Maria Angélica ergueu os olhos sem interromper o movimento da lixa.

— Nomes?

— Helena e Jade.

A gerente consultou um livro de registros encadernado em couro, passou o dedo por páginas amareladas e franziu os lábios.

— Vocês estão juntas, né? Só temos o quarto 217 vago.

Um vento frio silvou pela janela.

Fez-se uma pausa. Voltou a lixar a unha indicadora e disparou.

— Não sei por que ninguém quer se hospedar nesse quarto.

Jade e Helena trocaram olhares e não detectaram nada naquela fala.

— Bem, vocês não são daqui, né? — completou Maria Angélica, com um tom que tentava ser despreocupado, mas soava ensaiado.

— Não, viemos do Paraná — disse Jade.

A gerente deu de ombros, pegou uma chave de latão com uma etiqueta gasta e empurrou-a sobre o balcão.

— Tenham uma ótima hospedagem.

O 217 ficava no final de um corredor acarpetado do Hotel Imperial, onde o ar cheirava a cera velha e sigilo. Ao abrirem a porta, depararam-se com um quarto amplo, de pé-direito alto, papel de parede com damasco desbotado e uma cama de casal no centro. Havia um armário de mogno encostado na parede oposta, com espelho embaçado.

— É aconchegante — disse Jade, jogando a mochila na cama.

— É... estranho — respondeu Helena, hesitando na soleira.

Na primeira noite, nada de interessante aconteceu. Dormiram tranquilas, após um tour pela cidade, ou assim pensavam.

Na segunda noite, após ler por algumas horas, Helena acordou com a sensação de que alguém a observava. O quarto estava escuro, mas o espelho do armário refletia um leve clarão vindo da janela. Sentou-se na cama. Jade dormia ao seu lado, imóvel demais.

Foi então que ouviu: passos. Vindos de dentro do armário.

Não eram passos apressados. Lentos, arrastados, como alguém que dobra roupas em silêncio.

— Jade — sussurrou, tocando no ombro da amiga.

Nada.

— Jade!

Jade abriu os olhos de súbito, como se tivesse sido puxada de um sonho profundo.

— O quê?

— Você não ouviu?

O barulho havia parado.

— Não ouvi nada. Você está cansada. Vai dormir, Helena.

Pela manhã, encontraram as roupas de Jade — que estavam guardadas na mala — perfeitamente dobradas dentro do armário. Penduradas em cabides de madeira. Até as roupas íntimas.

— Eu não fiz isso — disse Jade, pálida.

— Nem eu.

Foi a primeira fagulha de estranhamento.

Naquela noite, decidiram investigar. O 217 ficava no segundo andar, elas desceram então as escadas.

O saguão vazio do Hotel Imperial. O salão de música ficava à esquerda da recepção, um salão escuro onde um piano de cauda negro reluzia sob o luar que entrava pelos vitrais.

Começou sozinho. Um acorde menor, grave e arrastado. Depois outro. E outro. Uma melancolia de notas soltas, como dedos invisíveis percorrendo as teclas sem pressa, ensaiando uma canção que ninguém mais queria ouvir.

Elas já tinham ouvido o mesmo som dentro do quarto, que agora ressoava lá fora.

— Estamos ouvindo a mesma coisa? — perguntou Helena.

Jade assentiu, mas seus olhos estavam vidrados em algo atrás do piano. Uma sombra. Pequena. Infantil.

— Tem uma criança ali — sussurrou.

— Não tem ninguém — respondeu Helena, embora seu coração também estivesse acelerado.

Voltaram ao quarto em silêncio. E essa foi a noite em que discutiram pela primeira vez.

— Você está imaginando coisas! — disparou Helena, já dentro do 217.

— Eu vi, Helena! Você não viu porque não quer ver!

— E você acha que eu não ouvi os passos ontem? É claro que ouvi! Mas não vou ficar alimentando loucura!

— Loucura? A empregada fantasma que arruma minhas calcinhas é loucura?

A palavra fantasma ecoou no quarto. As duas se calaram.

Algo mudou.

A energia do quarto 217 pareceu engrossar, tornar-se densa como água parada. Jade sentou-se na cama, derrotada. Helena foi até o banheiro e fechou a porta.

Foi a primeira vez que dormiram de costas uma para a outra.

Na manhã seguinte, Helena acordou sozinha. O relógio marcava 9h47. Jade não estava no quarto. Nem no banheiro. Helena desceu para o café da manhã.

O balcão da recepção estava vazio.

— Maria Angélica? — chamou.

Ninguém respondeu.

Helena rodeou o balcão. A cadeira onde a gerente sentava na noite anterior ainda estava levemente aquecida, como se alguém tivesse se levantado há poucos instantes. Sobre o balcão, o livro de registros estava aberto. E o crachá de Maria Angélica repousava sobre ele. Ao lado, uma lixa de unha.

Mas não havia sinal da gerente.

Helena pegou o telefone fixo do balcão e discou para o número de emergência interno. Ninguém atendeu. Caminhou pelos corredores do térreo. A cozinha estava vazia, com uma panela de café ainda quente sobre o fogão. A lavanderia, deserta. O salão de música, silencioso demais.

O Hotel Imperial estava vazio.

Subiu as escadas aos poucos, o coração pulsando na garganta. Bateu em outras portas do segundo andar. Nenhuma resposta. Tentou girar as maçanetas. Todas estavam trancadas.

Voltou ao 217. Jade não havia voltado.

Sentou-se na cama e esperou. O relógio marcou meio-dia. Depois, quinze horas. Nada.

Ao entardecer, ouviu passos no corredor. Correu para abrir a porta.

Era Jade. Pálida, com olheiras fundas, as roupas amassadas e sujas de terra.

— Jade! Onde você estava? A gerente desapareceu! O hotel está vazio!

Jade entrou no quarto em silêncio. Sentou-se na cama. Demorou um longo minuto para responder.

— Eu a avistei, Helena — disse, a voz rouca. — A arrumadeira.

— O quê?

— Ela me levou para o sótão. Ficou me mostrando roupas antigas. Dizia que eu precisava provar todas. Que eu ficaria bonita. Que nunca mais precisaria fazer o checkout e que nós somos mais duas hóspedes “eternas” do 217.

Helena sentiu o sangue gelar.

— Como você escapou?

Jade levantou a manga da blusa. No braço, havia marcas de dedos roxos. Cinco dedos. De uma mão pequena. Infantil.

— Ela me soltou quando o sol se pôs — disse Jade. — Não sei por quê.

Helena não perguntou mais nada. Decidiu que iriam embora naquele instante.

Desceram as escadas apressadas. O balcão continuava vazio. O crachá de Maria Angélica ainda estava lá. Helena pegou a chave do carro no bolso e correram para o estacionamento.

O Fiat vermelho estava exatamente onde deixaram. Entraram, trancaram as portas e Helena ligou o motor sem pestanejar.

— Esquecemos as malas — disse Jade.

— Fodam-se as malas.

O carro desceu a serra sob uma névoa espessa que parecia sair das próprias montanhas. Nenhuma das duas falou, até avistarem as primeiras luzes do centro de Petrópolis.

Foi então que Jade soltou um riso nervoso.

— Hotel Imperial, nunca mais.

Helena riu também. Um riso tremido, de alívio e desespero misturados.

— Ninguém vai acreditar na gente.

— Pois é — disse Jade, ainda rindo. — Quem acreditaria?

O carro entrou na avenida principal. Placas de pousadas e restaurantes ladeavam a pista. Vida normal. Pessoas caminhando. Uma senhora comprando flores. Um casal rindo em uma mesa de calçada.

Helena olhou pelo retrovisor. Ela avistou uma placa com numeração ‘217”, ela piscou e a placa então sumiu.

O banco de trás não estava vazio.

Maria Angélica estava lá. Perfeitamente sentada, as pernas cruzadas, lixando calmamente as unhas. Seus olhos encontraram os de Helena no espelho.

— É verdade — disse a gerente do imperial, com um sorriso calmo. — Ninguém vai acreditar.

Jade parou de rir.

Helena pisou fundo no acelerador.

O Fiat vermelho sumiu na curva. Mas, dentro do carro, o som da lixa arranhando a unha continuou.

Até a estrada acabar. Até a imagem dissipar-se no retrovisor.

 

Ilustração: PS/ChatGPT.

 

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