OS CÃES DO DESTINO - Conto Clássico de Mistério - Saki
OS CÃES
DO DESTINO
Saki
(H. H. Munro)
Tradução
de Demian Gonçalves Silva
À luz esmaecida de uma tarde outonal, abafada e
nublada, Martin Stoner arrastava-se por veredas lamacentas e trilhos de carroça
sulcados que o levavam não sabia bem aonde. Imaginava que, em algum ponto
adiante, se estendia o mar, e para o mar pareciam voltar-se teimosamente os
seus passos; a razão por que se esforçava exaustivamente em direção a essa
meta, ele mal saberia explicar, salvo se estivesse possuído do mesmo instinto
que impele o cervo acossado, no seu aperto derradeiro, a avançar em direção ao
penhasco. No seu caso, os cães do Destino decerto o acossavam com insistência
implacável; a fome, a fadiga e uma desesperada desesperança lhe haviam
entorpecido o cérebro, e ele mal lograva reunir energia suficiente para se
indagar do impulso subjacente que o impelia para diante. Stoner era um daqueles
infelizes que parecem ter tentado de tudo; uma natural preguiça e imprevidência
sempre se havia interposto para arruinar qualquer possibilidade de êxito, ainda
que modesto, e agora ele chegara ao fim da linha e não havia mais nada a
tentar. O desespero não lhe despertara nenhuma reserva latente de energia; pelo
contrário, em torno da crise da sua sorte erguera-se uma nuvem de torpor
mental. Com a roupa que trazia no corpo e meio tostão no bolso, sem um único
amigo ou conhecido a quem recorrer e sem perspectiva de cama para essa noite ou
de refeição para o dia seguinte, Martin Stoner marchava obstinadamente, entre
sebes úmidas e sob árvores gotejantes, a mente quase em branco, salvo por uma
consciência subterrânea de que em algum ponto adiante se estendia o mar. Outra consciência
se intrometia de quando em quando — a constatação de que estava miseravelmente
faminto. Deteve-se, por fim, junto a um portão aberto que dava para um jardim
de fazenda amplo e um tanto negligenciado; pouco sinal de vida havia por ali, e
a casa, ao fundo do jardim, parecia fria e inóspita. Começava a cair, porém,
uma chuva miúda, e Stoner pensou que ali talvez pudesse obter alguns minutos de
abrigo e comprar um copo de leite com a sua última moeda. Voltou-se lenta e
fatigadamente para o jardim e seguiu um caminho estreito e lajeado até uma
porta lateral. Antes que tivesse tempo de bater, a porta abriu-se e um velho
curvado e ressequido pôs-se de lado na entrada, como se lhe desse passagem.
— Posso proteger-me da chuva? — começou Stoner, mas o
velho o interrompeu.
— Entre, Patrão Tom. Eu bem sabia que um dia destes o
senhor voltaria.
Stoner cambaleou para lá do limiar e ficou olhando
para o outro, sem compreender.
— Sente-se, que eu já lhe ponho um pouco de ceia —
disse o velho, numa pressa trêmula. As pernas de Stoner cederam de puro
cansaço, e ele afundou-se inerte na poltrona que lhe haviam arrastado. Um
minuto depois, devorava a carne fria, o queijo e o pão que tinham posto na mesa
ao seu lado.
— Quase não mudou nestes quatro anos — prosseguiu o
velho, com uma voz que a Stoner soou como coisa de sonho, longínqua e sem nexo
—, mas vai achar que mudamos um bocado. Aqui já ninguém é do tempo em que o
senhor foi embora; ninguém senão eu e a sua velha tia. Vou dizer-lhe que
chegou; ela não vai querer vê-lo, mas deixará que fique, isso sem dúvida.
Sempre disse que, se o senhor voltasse, poderia ficar, mas que ela nunca mais
lhe poria os olhos nem lhe falaria.
O velho colocou uma caneca de cerveja diante de Stoner
e foi coxeando por um corredor comprido. O chuvisco convertera-se numa bátega
furiosa, que investia com violência contra portas e janelas. O viandante
pensou, com um arrepio, em como estaria a praia sob aquela chuva torrencial,
com a noite a cerrar-se de todos os lados. Terminou a comida e a cerveja e
ficou sentado, entorpecido, à espera do regresso do seu estranho anfitrião. À
medida que os minutos eram marcados pelo relógio de coluna no canto, uma nova
esperança começou a tremular e a crescer no espírito do jovem; era apenas o
anterior desejo de alimento e uns minutos de descanso que agora se alargava
numa ânsia de encontrar uma noite de abrigo sob aquele teto aparentemente
hospitaleiro. Um tropel de passos pelo corredor anunciou o regresso do velho
criado da fazenda.
— A senhora não vai vê-lo, Patrão Tom, mas disse para
ficar. Está certa, já que a fazenda há de ser sua quando ela for metida na
terra. Mandei acender fogo no seu quarto, Patrão Tom, e as criadas puseram
lençóis limpos na cama. Não vai achar nada mudado lá em cima. O senhor talvez
esteja cansado e já queira ir para lá.
Sem dizer palavra, Martin Stoner ergueu-se pesadamente
e seguiu o seu anjo ministrante por um corredor, subiu uma escada curta e
rangente e atravessou outro corredor até um quarto amplo, iluminado por um
alegre lume flamejante. Havia poucos móveis, singelos, antiquados e de boa
qualidade; um esquilo embalsamado numa redoma e um calendário de parede de
quatro anos atrás eram praticamente os únicos sinais de decoração. Mas Stoner
pouco via além da cama, e mal pôde esperar para se despir e, num requinte de
cansaço, atirar-se nas suas dobras confortáveis. Por um breve instante, os cães
do Destino pareciam ter detido a sua marcha.
À luz fria da manhã, Stoner riu melancolicamente,
enquanto aos poucos se dava conta da posição em que se encontrava. Talvez
pudesse apanhar um naco de café da manhã à custa da sua semelhança com aquele
outro malandro desaparecido, e escapar em segurança antes que alguém descobrisse
a fraude que lhe fora impingida. Na sala de baixo, encontrou o velho curvado já
com um prato de toucinho e ovos fritos para o desjejum do “Patrão Tom”,
enquanto uma criada idosa, de rosto duro, trazia um bule e lhe servia uma
xícara de chá. Mal se sentou à mesa, um pequeno spaniel aproximou-se e
fez-lhe avanços amistosos.
— É filhote da velha Bowker — explicou o velho, a quem
a criada de rosto duro chamara George. — Ela gostava muito do senhor; nunca
mais foi a mesma depois da sua ida para a Austrália. Morreu há coisa de um ano.
É filhote dela.
Stoner achou difícil lastimar o falecimento da cadela;
como testemunha de identificação, ela deixaria a desejar.
— Vai dar uma volta a cavalo, Patrão Tom? — foi a
desconcertante proposta que em seguida saiu da boca do velho. — Temos um
pequeno cob ruão que é bom de sela. A velha Biddy já está um pouco
acabada, embora ainda se aguente, mas vou mandar selar o ruão e trazê-lo à
porta.
— Não tenho traje de montar — balbuciou o náufrago,
quase rindo ao olhar para o seu único terno, já bastante gasto.
— Patrão Tom — disse o velho com um ar sério e quase
ofendido —, as suas coisas estão como as deixou. Um pouco de ar junto ao fogo e
ficam prontas. Vai distraí-lo um bocado cavalgar e caçar umas aves aquáticas,
de vez em quando. Vai perceber que as pessoas aqui das redondezas têm o coração
duro e amargo contra o senhor. Não esqueceram nem perdoaram. Ninguém lhe
chegará perto, por isso mais vale entreter-se como puder com o cavalo e o cão.
Também são boa companhia.
O velho George afastou-se, coxeando, para dar as
ordens, e Stoner, sentindo-se mais do que nunca como num sonho, subiu para
inspecionar o guarda-roupa do “Patrão Tom”. Montar era um dos prazeres que lhe
eram mais caros, e sentia-se protegido contra a descoberta imediata do seu
embuste pelo pensamento de que nenhum dos antigos companheiros de Tom estaria
provavelmente disposto a examiná-lo de perto. Enquanto o intruso se enfiava
nuns calções de montar que lhe assentavam mais ou menos bem, interrogou-se, vagamente,
sobre a natureza da falta que o verdadeiro Tom teria cometido para voltar
contra si toda a gente do campo. O baque de cascos vivos e ansiosos em terra
úmida interrompeu as suas especulações. O ruão fora trazido à porta lateral.
“Falem de mendigos a cavalo”[1], pensou Stoner, enquanto trotava depressa pelas
mesmas veredas lamacentas onde, na véspera, caminhara como um pária
esfarrapado; e, indolente, deixou de lado a reflexão e entregou-se ao prazer de
um vivo galope pela faixa de relva ao longo de um trecho plano da estrada.
Junto a um portão aberto, refreou o trote para deixar que duas carroças
entrassem num campo. Os rapazes que as conduziam arranjaram tempo para um olhar
demorado, e, ao prosseguir, Stoner ouviu uma voz exaltada gritar: — É o Tom
Prike! Logo o reconheci; outra vez aparecendo por aqui, é?
Pelos vistos, a semelhança que de perto ludibriara um
velho trêmulo bastava para iludir olhos mais jovens a uma pequena distância.
No decorrer do passeio pôde confirmar, com ampla
evidência, que os habitantes locais não haviam esquecido nem perdoado o antigo
crime que lhe fora legado pelo ausente Tom. Olhares desconfiados, resmungos e
cotoveladas saudavam-no sempre que topava com seres humanos; “o filhote da
Bowker”, trotando placidamente ao seu lado, parecia o único elemento de amizade
num mundo hostil.
Ao desmontar junto da porta lateral, captou, de
relance, a visão de uma mulher descarnada e idosa que o espreitava por trás das
cortinas de uma janela superior. Era, pelos vistos, a sua tia adotiva.
Durante a farta ceia de meio-dia que o aguardava,
Stoner pôde examinar as possibilidades da sua situação extraordinária. O
verdadeiro Tom, depois de quatro anos de ausência, podia aparecer subitamente
na fazenda, ou podia, a qualquer momento, chegar uma carta dele. Ou, na
qualidade de herdeiro da fazenda, o falso Tom podia ser chamado para assinar
documentos, o que resultaria numa situação embaraçosa. Ou podia chegar um
parente que não imitasse a atitude indiferente da tia. Tudo isso significaria
uma exposição ignominiosa. Por outro lado, a alternativa eram o céu a
descoberto e os caminhos lamacentos que desciam para o mar. A fazenda
oferecia-lhe, pelo menos, um refúgio temporário contra a indigência; a lavoura
era uma das muitas coisas que ele “tentara”, e seria capaz de executar algum
trabalho em troca da hospitalidade a que tão pouco direito tinha.
— Quer lombo de porco frio para a ceia — perguntou a
criada de rosto duro, ao retirar a mesa — ou quer que o aqueça?
— Quente, com cebolas — disse Stoner. Foi a única vez
na vida em que tomou uma decisão rápida. E, ao dar a ordem, soube que
tencionava ficar.
Stoner manteve-se rigorosamente nas partes da casa
que, por tácito acordo de delimitação, pareciam ter-lhe sido destinadas. Quando
tomava parte no trabalho da fazenda, labutava sob ordens, sem jamais tomar a
iniciativa. O velho George, o ruão e o filhote da Bowker eram os seus únicos
companheiros num mundo gelidamente silencioso e hostil. Da dona da casa, nada
via. Certa vez, sabendo que ela saíra para a igreja, fez uma visita furtiva à
sala de estar, na tentativa de colher alguma migalha de informação acerca do
jovem cujo lugar usurpara e cuja má fama atraíra sobre si. Havia muitas
fotografias penduradas nas paredes ou enfiadas em molduras empertigadas, mas a
semelhança que procurava não estava entre elas. Por fim, num álbum posto fora
de vista, deu com o que desejava. Era toda uma série, com a legenda “Tom”: um
garoto rechonchudo de três anos, num traje fantasioso; um rapaz desajeitado, de
cerca de doze, segurando um taco de críquete como se o abominasse; um jovem de
dezoito, bastante bem-apessoado, com o cabelo muito liso e repartido ao meio;
e, por fim, um moço com expressão algo carrancuda e desafiadora. Foi este
último retrato que Stoner encarou com particular interesse; a semelhança
consigo mesmo era inconfundível.
Pela boca do velho George, loquaz em quase tudo,
tentou, repetidas vezes, saber algo da natureza da ofensa que o marcava, aos
olhos dos seus semelhantes, como criatura a ser evitada e odiada.
— Que é que as pessoas por aqui dizem de mim? —
perguntou certo dia, enquanto regressavam de um campo afastado.
O velho abanou a cabeça.
— Estão amargos contra o senhor, mortalmente amargos.
Sim, é coisa triste, muito triste.
E nunca se lhe conseguiu arrancar nada de mais
esclarecedor.
Num fim de tarde límpido e gelado, poucos dias antes
da festa de Natal, Stoner estava num canto do pomar que oferecia uma ampla
vista da região. Aqui e ali podia ver os pontos luzentes de lamparinas ou
velas, sinais de lares humanos onde reinavam a boa vontade e a jovialidade da
estação. Atrás de si jazia a casa da fazenda, sombria e silente, onde ninguém
jamais ria, onde até uma desavença teria parecido animada. Ao voltar-se para o
longo frontispício cinzento do edifício lugubremente sombreado, abriu-se uma
porta e o velho George saiu apressado. Stoner ouviu o seu nome de empréstimo
ser chamado num tom de tensa ansiedade. Soube imediatamente que algo de
desagradável se tinha passado, e, num súbito revés de perspectiva, o seu
refúgio tornou-se, aos seus olhos, num lugar de paz e contentamento, de onde
temia ver-se afastado.
— Patrão Tom — disse o velho, num sussurro rouco —,
tem de se escapulir daqui, na calada, por alguns dias. O Michael Ley voltou à
aldeia e jura que o abate se topar com o senhor. E há de fazê-lo, pois tem o
assassínio nos olhos. Fuja de noite, às escondidas; é só por uma semana ou
pouco mais, ele não fica aqui por mais tempo.
— Mas para onde vou? — gaguejou Stoner, já contagiado
pelo terror evidente do velho.
— Vá ao longo da costa até Punchford e fique lá
escondido. Quando o Michael já estiver longe, levo o ruão até o Dragão Verde,
em Punchford; quando o senhor vir o cavalo na estrebaria do Dragão Verde, é
sinal de que pode voltar.
— Mas… — começou Stoner, hesitante.
— O dinheiro está arranjado — atalhou o outro —; a
velha senhora concorda que o senhor faça o que eu digo, e deu-me isto.
O velho apresentou três soberanos e umas pratas.
Stoner sentiu-se mais embusteiro do que nunca quando,
nessa noite, saiu às furtadelas pelo portão dos fundos da fazenda, com o
dinheiro da velha no bolso. O velho George e o filhote da Bowker ficaram no
pátio, vendo-o partir, num adeus silencioso. Stoner dificilmente podia imaginar
que algum dia voltaria, e sentiu uma pontada de remorso por aqueles dois
humildes amigos que haviam de aguardar saudosamente o seu retorno. Um dia o
verdadeiro Tom talvez regressasse, e haveria um assombro desvairado entre aquela
boa gente da lavoura quanto à identidade do hóspede obscuro que haviam
albergado sob o seu teto. Quanto ao seu próprio destino, não sentia uma
ansiedade premente; três libras não vão longe no mundo quando nada as lastreia,
mas, para quem tem contado os haveres em pennies, parecem um bom ponto
de partida. A Fortuna fizera-lhe uma graça caprichosa da última vez em que ele
trilhara estas veredas, como aventureiro sem esperança, e talvez houvesse ainda
chance de arranjar algum trabalho e um novo começo; à medida que se afastava da
fazenda, o seu ânimo erguia-se mais e mais. Havia alívio em retomar a sua
identidade perdida e deixar de ser o incômodo fantasma de um outro. Quase não
se deu ao trabalho de especular sobre o inimigo implacável que do nada lhe
surgira na vida; pois, estando essa vida agora para trás, uma irrealidade a
mais pouca diferença fazia. Pela primeira vez em muitos meses, começou a
cantarolar uma cantiga alegre e displicente. Então, da sombra de um carvalho
inclinado, saiu um homem com uma espingarda. Não era necessário perguntar quem
fosse; a luz do luar, caindo-lhe no rosto lívido e retesado, revelou um clarão
de ódio humano que Stoner, nos altos e baixos das suas andanças, nunca antes
contemplara. Saltou de lado, num esforço louco para transpor a sebe que
margeava o caminho, mas os ramos duros o detiveram. Os cães do Destino
tinham-no esperado naquelas veredas estreitas e, desta feita, não se deixariam
contrariar.
Nota:
[1] “Talk of beggars on horseback”: alusão ao
provérbio inglês “set a beggar on horseback and he’ll ride to the devil”
(“ponha um mendigo a cavalo e ele vai galopar até o diabo”). Exprime
a ideia de que quem é elevado de súbito tende a abusar da nova condição. Aqui,
Stoner ironiza a própria situação: ontem andava a pé, arruinado; hoje, monta um
bom cavalo. (N. do T.)

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