DO ALÉM-TÚMULO - Conto Clássico de Terror - José Juan Tablada


DO ALÉM-TÚMULO
José Juan Tablada
(1871 – 1945)
Tradução de Paulo Soriano

Ao longo das ruas, úmido e frio, arrastava-se um vento de inverno que açoitava o vidro dos lampiões e fazia ondular as chama nos bicos de gás.

O movimento havia cessado nas ruas, apenas cruzadas por escassos transeuntes ou por coches tardios, cujo rolar intermitente e fragoroso surgia, desvanecendo, depois, em silêncio.

Naquela hora, à meia-noite, o sol do vício se levanta. É a hora febril da taverna, onde a vida do ébrio se arrasta com o pulsar precipitado de um coração de alcoólatra, e as visões se levantam de um cérebro nublado pelo vinho.

O relógio daquela taverna marcava as doze, hora que acabava de soar com os suspiros das doze badaladas e o seco e preguiçoso estertor da corda que se estira.

Uma dúzia de indivíduos repousava no interior: dois alemães, com o rubro bock de cerveja à frente, jogavam dados, recortando na escuridão os seus rostos vermelhos e congestionados de teutões. Mais adiante, um indivíduo roncava, segurando um charuto entre os dentes, arrojando em silêncio a nota de um ronco comatoso. Alguns clubmen, de pé, junto ao balcão da taverna, aproveitavam um entreato do vizinho teatro e, entre goles de conhaque e baforadas, analisavam a vulgar estética de uma corista. Um maître cruzava o salão a cada instante e a nota de seu avental branco se recortava na penumbra e brilhava, depois, junto ao balcão, sob a luz radiosa das lâmpadas Edson.

Mas o indivíduo pálido, de lividez cinzenta, de olhar turvo, de olhos úmidos nas órbitas, de lábios entreabertos e atitude cansada, tinha forçosamente que chamar a atenção, mais que os rubicundos teutões, mais que o indivíduo que roncava entre os estertores do coma, mais que o grupo de elegantes que continuavam a analisar, entre goles de conhaque e baforadas de fumo, a anatomia da vulgar corista.

Tinham os teutões a embriaguez da cerveja, que derrama nas veias dos bebedores a euforia mais burguesa, o bem-estar mais animal. Sua conversa gutural se exalava em roucas vocalizações, em rudes palavras, em selvagens monossílabos. Os brancos dados no fritilo de couro dançavam agitados pelas mãos inábeis e caíam, depois, sobre o mármore da mesa, com o ruído seco e macabro com que golpeariam o torso de um esqueleto sobre uma lápide mortuária.

O indivíduo que roncava era um organismo hipotecado pelo sono. De quando em quando, alguma mosca pousava em seu rosto suarento e, então, seu dedo indicador espantava o inseto, e seguia diante do suarento rosto, sério e grave como o dos faquires que se hipnotizam.

Os clubmen eram grisalhos, suas individualidades se concentravam nas gravatas e gravitavam em torno dos impecáveis casacos.

Mas o sujeito pálido, de lividez cinzenta, tinha uma embriaguez trágica que se difundia em seu rosto e imprimia em seu corpo trejeitos estranhos e nervosos; tinha a embriaguez lívida do absinto, que inspirou os cantos de Musset, e enche de alienados os hospitais de Paris. Em sua embriaguez, era quase um esboço do delirium tremens.

Com um trejeito exaltado, chamou o garçom, que pouco depois voltou trazendo uma garrafa na mão, a garrafa adornada com flor-de-lis e cruz vermelha que, ao verter seu conteúdo na taça cheia de água, fingiu os tons e os orientes de uma opala em fusão.

Depois, com a mão vacilante, tirou um papel do bolso, um papel cinza com larga moldura negra, como de uma nota de falecimento, e, à luz de uma lâmpada próxima, leu algumas linhas de diziam com uma letra feminina:

“Sei que chegaste. Te amo como sempre. — Tua ELENA”.

E ao dobrar o papel e devolvê-lo ao bolso, o tremor de sua mão insegura se acentuou.

Aquela mulher era a “Safo” de sua história, vulgar como aquela e descendendo de uma genealogia semelhante.

Seu passado havia sido sacrificado a ela, que sempre, levada pela lembrança, aparecia diante de seus olhos com a vaga aparência de uma esfinge apaixonada, doce e trágica, voluptuosa e cruel.

Fazia mais de um ano que, ausente da cidade, não a via; e, agora, mal regressara, recebia aquele papel que havia lido, traçado, talvez, em um momento de ânsia e arrebatamento.

Iria vê-la, apesar de tudo, apesar dos enganos, sobre as falsidades e traições, ansioso por escutar aquela voz que em sua vida havia ressoado, modulando o agrado, exalando a carícia e pronunciando maldição.

Iria vê-la, apesar das infidelidades e das crueldades, ansioso por arrancar, daqueles lábios que agora o chamavam, o beijo de outros dias, o beijo de paixão e deleite.

*

Com inseguro passo atravessou as ruas, flagelado por aquele vento de inverno que se arrastava úmido e frio, açoitando o vidro dos lampiões e ondulando as chamas nos bicos de gás. Após uma hora de caminhada, chegou a uma ruela que atravessava duas avenidas de um bairro. Chegou ao número da casa indicada e entrou.

Em meio à turbação que o possuía, sentiu um ligeiro cheiro de ácido fênico derramado no recinto, e notou que, apressadamente, uma mão apagava um círio que ardia no cômodo contíguo. Naquela noite reiniciara com Elena a sua antiga paixão, e um broto de amores de outros dias floresceu na penumbra daquela triste noite e voltou a encontrar a doce voz de outrora e o ansiado beijo.

No dia seguinte, no quarto de seu hotel, ainda comovido pelas emoções da véspera, recebeu aquela nota de falecimento, que anunciava a morte de Elena, ocorrida um mês antes. Como um louco, saiu à rua e vários amigos confirmaram aquela notícia, e um deles chegou a assegurar que ele, em pessoa, havia assistido ao enterro.

*

Desde então, uma imaginação de louco se agita em um frenesi estranho, e a embriaguez de todos os dias ilumina, sem poder dissipar-se, um quarto saturado do cheiro de ácido fênico, um beijo ansiado ao fim volto a encontrar, e o triste crepitar de um círio que uma mão apressada apaga.


Fonte: “Cuentos Mexicanos”, “El Nacional”, Cidade do México, 1898.




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O MELHOR PRESENTE - Conto Clássico de Terror - Clemente Palma


O MELHOR PRESENTE
Clemente Palma 
(1872 - 1946)

No fundo da choça humilde estava a cama tosca da camponesa enferma... Sua pálida cabeça se perdia entre os travesseiros e, amorosa, com a santa ternura de todas as fêmeas por seus filhotes, amamentava o recém-nascido, belo e robusto como um São João.

O pai se vestia com as roupas domingueiras. Sua mulher o fitava, fixando nele seus olhos de lassa expressão, e depois beijava, sorrindo, o pequerrucho. Nevava. A noite era escura, apesar da fosforescência cinzenta da geada. Todavia, o bom lavrador se aprontava cuidadosamente, como um jovem pretendente que se prepara para o encontro com uma amada aristocrática. E ajeitava-se, porque ia procurar a Rainha das Fadas, que se oferecera para ser a madrinha de seu filho.

****

Cinco meses antes, numa tarde em que foi, como de costume, ao bosque cortar azinheiras, salvou uma cerva perseguida de perto por um lobo: com destreza, lançou o seu machado à cabeça da fera e a matou. Grande foi o seu assombro ao ver que a cerva se converteu em uma belíssima dama, ricamente vestida, que aproximou e lhe disse:

— Eu te agradeço, lenhador, pelo serviço que me prestaste. Sou a Rainha das Fadas. Quando nascer o teu filho, dele eu serei a madrinha. E eu e as minhas companheiras lhe daremos dons. Toma este galhinho de sabugueiro e, quando nascer o menino, vem à noite, neste mesmo bosque, e bate com o galho em cada árvore. De cada uma sairá uma Fada. A árvore mais antiga e robusta tocarás para chamar-me. Adeus.

O lenhador contou à sua mulher o que havia acontecido. Passaram-se os cinco meses e, numa manhã, nasceu-lhe o filho.


****

Regressou do bosque contentíssimo: havia tocado uma multidão de azinheiras e delas haviam saído inúmeras fadas.  Só que tocou, equivocadamente, um pinheiro. Dele saiu uma Fada de negro, mas muito bela e ricamente vestida.

Mal cabiam na cabana. Prestaram obsequiosa atenção à enferma e se agruparam em torno de seu leito. A Fada de negro permaneceu imóvel num canto.

— Eu te farei amado pelas mulheres! — disse a Rainha das Fadas e deu um beijo na fronte do menino.

— Eu te darei Riquezas.

— Farei de ti Rei.

— Eu te darei a Força.

— Eu, a Coragem.

Todas presenteavam o menino com um dom e o beijavam. Só a Fada de Negro se manteve imóvel em seu canto.

— Senhora — disse-lhe o lenhador, suplicante —, não quereis favorecer o meu filho?

— Veja bem, bom homem — respondeu com voz lúgubre; seus olhos brilhavam estranhamente —, eu posso dar a teu filho a Sorte, a Felicidade, dons com os quais as minhas colegas não o presentearam. Posso impedir que ele sofra as mordeduras da Dor. Mas posso fazer-lhe o obséquio mais valioso para um homem. Queres que eu o faça? Tu o exiges?

— Oh, senhora, eu vos peço de joelhos!

— Bem, eu vou satisfazer ao teu pedido — disse, sorrindo, a Fada de Negro, acercando-se do menino.

As demais fadas abriram-lhe passo. Então ela tomou para si o infante que, ao sentir o frio de suas mãos, chorou. Beijou-o na fronte e depois... depois o estrangulou.

Havia dado ao menino o melhor presente: a morte.

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UM CERTO PAPAI NOEL (ou O INVERSO DO NATAL) - Conto de Terror - Luiz Poleto



UM CERTO PAPAI NOEL
(ou O INVERSO DO NATAL)
 Luiz Poleto

O gosto na boca tornou-se amargo quando o cigarro começou a queimar no filtro. Eu mal percebi, pois ainda estava hipnotizado pela parede vermelha à minha frente. Vermelho: a cor que algumas pessoas associam com paixão; não vejo como essa cor pode ser paixão, sinceramente. Vermelho lembra Papai Noel e aquela sua roupa ridícula. Vermelho lembra as bolas da minha velha árvore de natal. O rótulo da Coca-Cola sobre a mesa. Sangue, vermelho lembra sangue. Muito sangue.

Havia uma lenda na minha cidade natal que dizia que Papai Noel era uma figura inventada para substituir a figura do famoso bicho-papão. Pelo menos na minha cidade, a lenda dizia que o bicho-papão não saia de dentro do armário; ao invés disso, aparecia na noite de natal para levar as crianças em seu imenso saco vermelho. Depois da criação do mito do Papai Noel, a lenda sofreu algumas variações através do tempo, e a mais recente dizia que Papai Noel levava as crianças para servirem de alimento às renas – e era daí que elas tiravam a sua capacidade de voar: alimentando-se das almas puras e inocentes.

Eu nunca acreditei em lendas e fiz questão de que meus dois filhos – Ariel e Samuel – nunca tomassem conhecimento da história, mas era óbvio que eles tomaram conhecimento da lenda, afinal, todos na cidade a conheciam. Quando me perguntavam, eu desconversava. E ponto final. Hoje, entretanto, me pergunto se eu deveria ter dado mais atenção à esta famigerada lenda. Hoje, após todos os acontecimentos que tornaram minha vida insuportável, eu tenho certeza de que deveria ter acreditado em lendas.

Era uma noite de véspera de natal e o calor chegava aos 32 graus. Havíamos feito a ceia e nos divertido um bocado. Depois que minha esposa Anne colocou as crianças para dormir, seguimos a tradição de colocar os presentes ao pé da árvore de natal para que as crianças os encontrassem no dia seguinte. Era o décimo natal de Ariel e o oitavo de Samuel, e todos os natais anteriores seguiram rigorosamente esta tradição. Pudera eu voltar no tempo e fazer diferente daquela vez. Sem presentes, sem árvore, sem Papai Noel.

Anne sempre insistia para que dormíssemos perto das crianças, com medo de que elas levantassem de madrugada e fossem pegas pelo bom velhinho. Eu, é claro, repudiava a ideia e sempre impus a minha vontade de não deixá-la fazer isso. Era por volta de meia noite e trinta quando Ariel se levantou da cama (até hoje não sabemos se para pegar os presentes ou para ir ao banheiro) e passou pela sala; eu e Anne dormíamos um sono pesado e delicioso nesta hora e não ouvimos quando ela se levantou. Não sabemos o que houve. Só me lembro de acordar com o grito desesperado de minha filha e o barulho da porta da rua sendo aberta à força. Acordei assustado e corri para a sala para encontrar a porta da rua destruída e minha filha desaparecida. Não sei se foi raiva ou desespero que tomou conta de mim naquele momento, mas sei que corri mais ou menos doze quilômetros em busca de Ariel. Mesmo a polícia, durante seis meses, não a encontrou. Anne atribuiu seu sumiço ao Papai Noel; eu acredito (acreditava, é melhor frisar isso agora) que ela tenha tido uma crise de sonambulismo e desapareceu noite afora.

Os meses após o sumiço de Ariel foram de tristeza. Mesmo aceitando que ela já estivesse morta, era difícil não ter o seu corpo para enterrar. Ainda assim, tentamos levar a vida da forma que nos era possível. Passamos a dedicar total atenção a Samuel, que foi o único filho que nos restou e tornou-se mais especial e amado do que já era antes. Anne passou por um momento bem difícil e quase precisou ser internada, mas felizmente, superamos tudo juntos (embora discordássemos quanto à razão do sumiço de nossa filha).

Dois anos se passaram até que conseguimos superar de vez o trauma ocorrido, com isso voltamos a comemorar o natal (coisa que não fizemos no ano anterior – a dor era muita naquele momento). Tudo preparado como de costume: ceia, presentes, árvore de natal e até uma foto do Papai Noel ajudou a decorar a sala. Eu e Anne quase chegamos ao divórcio quando eu quis seguir a tradição de deixar os presentes embaixo da árvore de natal para que Samuel os encontrasse no dia seguinte. Após muita discussão, consegui convencê-la a aceitar, propondo que eu dormisse um pouco mais tarde e ficasse atento para o caso de Samuel acordar e ir para a sala.

A vida é cruel algumas vezes, e algumas pessoas parecem escolhidas a dedo por Deus ou quem quer que governe o Universo. Samuel levantou-se no mesmo horário em que Ariel havia levantado dois anos antes, mas desta vez eu estava um pouco mais atento, e ouvi quando ele abriu a porta do quarto e dirigiu-se à sala. Levantei da cama sem acordar Anne, e bem devagar, segui Samuel. Eu estava sonolento, mas creio que as palavras que cuspo agora neste papel estão bem fiéis ao que vi – ou penso ter visto. Ao chegar na sala, Samuel estava mexendo nos presentes. Doce, inocente, ingênuo. Creio que era exatamente o que Papai Noel procura, porque em um piscar de olhos, uma leve fumaça espalhou-se ao redor da árvore de natal e vi – juro que vi – Papai Noel com sua ridícula roupa vermelha e um imenso saco da mesma cor, bastante cheio (de crianças, penso agora). Ele parou na frente de Samuel, que parecia tão incrédulo quanto eu, fez-lhe um carinho nos cabelos e abruptamente agarrou sua cabeça e o sacudiu como se fosse um bicho de pelúcia. Naquele momento eu me desesperei e tentei correr em direção àquela cena grotesca e salvar Samuel, mas minhas pernas pareciam pesar como chumbo.

Apesar do esforço tremendo que eu fazia, elas pareciam coladas ao chão, e tudo o que eu podia fazer era ver a criatura jogando Samuel de um lado para o outro, fazendo o sangue sujar o chão, as paredes, o sofá e até o teto. Eu chorava compulsivamente ao mesmo tempo em que tentava sair do lugar. Quando pensei que a cena de horror tivesse terminado, o dito cujo abriu uma boca que mais parecia um jacaré – mas com dentes de tubarão – e sem remorso, sem piedade, sem qualquer escrúpulo, engoliu a cabeça de Samuel. Engoliu-a inteira, da mesma forma que engolimos uma azeitona ou um ovo de codorna. Nesse momento, eu acho que desmaiei, pois só me recordo de acordar quando o dia amanhecia e Anne gritava desesperada por Samuel. Mais uma vez, um filho nosso era levado pela lenda que teimei em não acreditar a minha vida toda.

Desnecessário dizer que meu casamento com Anne não resistiu à perda de mais um filho. Tentamos terapia, assistência religiosa e qualquer coisa que prometesse ajudar a superar os problemas, mas alguma coisa dentro de nós havia mudado. Eu passei a beber compulsivamente; primeiro, durante as noites, mas quando vi, eu passava o dia inteiro com uma garrafa de pinga barata cambaleando pelos cantos. A cidade, que apesar de acreditar na lenda e passá-la adiante de geração em geração, tentava me culpar pela morte de meus filhos, entretanto, a polícia nunca encontrou provas que pudessem me incriminar. Pensando agora, a cadeira elétrica seria uma ótima opção para dar desfecho a esta vida vazia. Mas isso não vai acontecer.

Não tenho certeza se dez ou vinte anos se passaram desde os ocorridos, a bebida provavelmente me impede de lembrar até o meu próprio nome. Hoje, véspera de natal, voltei à minha velha casa para uma última ceia. Anne não está mais aqui – aliás, ela já não está mais entre nós. Enquanto eu me afundei na bebida, ouvi que Anne pegou uma arma e estourou os miolos no mesmo local em que Samuel fora levado. Eu não tenho uma arma em minhas mãos. Tenho apenas uma garrafa de pinga vagabunda, um galão cheio de gasolina e fósforo, muitos fósforos. Sei que ele só aparece para pegar crianças, mas por algum motivo, a data de hoje me parece especial e tenho a impressão de que ele vai aparecer (esqueci de mencionar apesar de encontrarem uma arma junto ao corpo de Anne, ela nunca foi usada).

Hoje é véspera de natal, e aguardo ansiosamente a chegada do bom velhinho.


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ELA - Conto de Terror - Rodrigo Cesar Picon de Carvalho



ELA
Rodrigo Cesar Picon de Carvalho

Jamais me olvidarei das lembranças daqueles momentos tortuosos. Sempre que fecho o olho, vem à minha memória flasbacks lembrando o que passei. Posso estar louco – possivelmente estou; mas não há como negar que qualquer ser, que tivesse o mínimo de lucidez em suas mentes, não ficaria. Caro leitor, não me julgue antes de entender a minha história e os motivos pela qual estou aqui, preso neste local escuro e sombrio, tachado por todos como louco. Passo agora a escrever os fatos que me levaram a ser encarcerado neste hospital psiquiátrico e, certamente, você entenderá o que aconteceu comigo.

         Era maio de 2005. Na época, eu tinha acabado de me mudar para Lavras, uma cidade no interior de Minas Gerais. Eu tinha 19 anos na época e meu irmão tinha 21. Mudamos para aquela cidade por causa de meu pai, que havia sido mandado para lá por causa de seu emprego. Talvez não fosse tão ruim, eu pensava na época. Lavras era uma cidade maior que a minha, com maiores opções para curso na faculdade. Fora que lá poderia começar uma nova vida, do zero, longe de todo o passado.

         Estávamos felizes. Queria logo explorar a cidade, conhecendo-a, mas meus pais me proibiram, por ser sábado e não demoraria a escurecer. Fiquei parcialmente desapontado, mas não me incomodei muito.

         Mudamos para uma casa de esquina na rua de entrada da cidade, no segundo cruzamento à direita, logo acima da rodoviária. Era uma casa parcialmente velha, com o teto de forro carunchado. Possuía um jardim frontal, uma garagem, a sala introdutória, um pequeno corredor com o banheiro, uma sala central, com dois quartos à esquerda e o quarto maior, à direita, com uma suíte e, ao fundo, copa e cozinha. Havia uma pequena área de lavandeira à direita e outra maior à esquerda. Ao fundo, um grande terreno irregular, com árvores e mais alguns cômodos e outro banheiro.

         Chegamos a Lavras após uma viagem de uma hora e meia pela BR-265, por volta de 1 hora da tarde. O Sol estava fraco e o ar ameno da cidade nessa época do ano já dava os sinais do frio que faria naquela noite. Começamos a esvaziar o caminhão de mudança. Adentrei no local e logo já escolhi o meu quarto — o primeiro. Já passei a colocar as minhas coisas no meu novo quarto.

         Por volta das 4 horas da tarde, o caminhão da mudança já estava completamente vazio. Aproveitamos o momento para tirarmos diversas fotos em frente à nossa nova casa, para fazermos o nosso “primeiro, de muitos álbuns, na nossa nova vida”, como disse minha mãe – tiramos foto minha com meus pais; depois, estes com meu irmão; meus pais sozinhos; eu com o meu irmão, e por aí em diante. Só paramos de tirar fotos quando o filme da máquina acabou.

         Após, entramos novamente na residência para começarmos a abrir a caixa.


         Vivemos uma bela primeira semana em Lavras. Eu arrumei um emprego em uma das lojas do comércio central, enquanto já estava de olho no próximo vestibular da UFLA, a universidade federal da cidade. No fim de semana seguinte, minha namorada, Ana Laura, veio me visitar e conhecer minha nova residência. Achou a cidade maravilhosa. Aproveitou o comércio local para comprar o máximo que pôde. À noite, fomos a um restaurante local e desfrutamos de uma deliciosa pizza servida em um estranho barquinho de papel.

          Chegamos à minha casa por volta da 1 hora da manhã. Adentramos em total silêncio na residência. Abri a porta da sala e caminhamos pelo interior da residência, totalmente escura. Laura ficou na sala, à procura de suas roupas de dormir para se trocar – era lá que ela iria dormir, por causa do conservadorismo de meus pais. Enquanto isso, caminhei em direção ao meu quarto, a fim de igualmente trocar de roupa.

         Repentinamente, eis que escuto um barulho de panelas caindo no interior da cozinha. O silêncio total do ambiente fez com que eu me assustasse.

         — Amor? — perguntei, em voz alta. Não obtive respostas. Caminhei em direção à porta do quarto. – Amor?
        
         — Oi? — respondeu Ana Laura. Para minha surpresa, na sala.

         — Foi você que derrubou as panelas? — perguntei, mesmo já sabendo da resposta.

         — Não. Achei que fosse você quem derrubou – respondeu Laura. Senti, em sua voz, um leve sentimento de medo.

         Mesmo com o receio, caminhei em direção ao interruptor da sala principal. A luz desta iluminaria a cozinha, pois a divisória entre ambas é um balcão de pouco mais de um metro e meio de altura. E assim ocorreu. Liguei a luz e esta iluminou a cozinha. Todavia, naquele instante, visualizei momentaneamente aquilo que seria o meu maior pesadelo e o motivo pelo qual estou aqui neste exato momento... “ela”. Vou chamá-la de “ela” por não ter outra definição melhor para chamá-la... poderia ser fantasma, monstro, capeta, qualquer coisa, mas acho que “ela” “a” define.

         A verdade é que, assim que liguei a luz, momentaneamente eu “a” vi, antes de dissipar. Ao visualizá-la, soltei um grito abafado, tamanho o susto. Fiquei ali paralisado, tamanho o susto. Ana Laura veio ao meu encontro.

         — Descobriu o que era?

         — Um bicho, eu acho. Não deu para ver direito — respondi. Não quis contar a Laura a respeito “dela”. Mas era certeza que aquele acontecimento mudaria por completo minha vida.

         Naquela noite, eu não consegui dormir. Apenas fiquei com o rosto “dela” em minha mente. Aquele rosto humano. Aquele olhar demoníaco. Qualquer barulho na casa me acordava. Um móvel estralando. Meu irmão acordando para ir ao banheiro. Qualquer barulho. Mesmo.

         Os dias se passaram desde a aparição “dela” naquela noite de sábado. A priori, foi a “sua” primeira e única aparição em minha residência. Ana Laura foi embora para sua residência no domingo, dia 22, e continuei a viver minha vida naturalmente.

          Duas semanas se passaram como um raio. “Ela” não apareceu novamente para mim desde então e eu comecei a esquecê-“la” com o dia a dia na nova cidade.

         Entretanto, na quarta-feira 8 de junho, eu estava descansando em casa. Meus irmãos haviam saído de casa cedo e meu irmão estava na universidade – ele transferiu de nossa cidade. Estava deitado no sofá assistindo TV quando, repentinamente, eis que eu escuto um barulho oriundo do interior do meu quarto. Levantei em um só pulo. Meu coração começou a pulsar violento no peito. Caminhei vagarosamente em direção ao meu quarto, pé a frente de pé. O barulho aumentava à medida que eu chegava perto. Com o coração quase pulando do peito, virei em direção à porta do meu quarto. Sobressaltei-me. Era “ela”!

         “Ela” se encontrava dentro do meu quarto, à frente do meu guardarroupa, que se encontrava aberto, lançando minhas roupas ao chão. Olhou para mim com aqueles olhos demoníacos, enquanto eu me encontrava completamente paralisado, tomado pelo terror.

         “Oláááá”, ela disse, com uma voz arrastada e sombria. Os pelos do meu pescoço eriçaram instantaneamente; senti um terror que nunca senti antes. “Ela” estava conversando comigo!

         Andei para trás, lentamente, sem deixar de fixar o olhar “nela”, só parando quando esbarrei minhas costas na parede logo atrás de mim.

         “O que quer comigo?”, perguntei. Não queria ouvir “sua” voz novamente. Sentir o terror da sua voz foi a pior sensação já vivida por mim até hoje.

         “Voooooocê”, ela respondeu. Congelei-me momentaneamente. Meus braços tremiam involuntariamente. “Como assim, eu?”, essa pergunta começou a martelar continuadamente no interior da minha mente. “Meu Deus. Como assim? Como assim?”

         Repentinamente, eis que escuto a porta da sala abrir. Senti o coração apertar no peito, mas aliviei quando escutei meus pais conversando animadamente. Disfarcei o que estava acontecendo e saí da frente do meu quarto. Percebi-o vazio. Meus pais encontraram comigo e postaram a conversar. Fingi interesse. Fingi estar rindo. Dentro de mim, entretanto, uma dúvida martelava continuadamente no meu âmago: “O que está acontecendo?”


         Aquele oito de junho mudou minha vida. Desde então, as aparições “dela” passaram a ser frequentes. Passei a vê-“la” diariamente, praticamente; de dia, de noite, sozinho, principalmente. “Ela” sempre se encontrava no meu quarto, ou nos seus arredores. Eu passei a evitar ficar dentro de casa o máximo de tempo possível, queria ficar o tempo todo na rua, ou do lado de fora da residência. Apenas adentrava em casa ao escurecer – caso não estivesse na rua – ou para comer. Queria trocar de quarto e passei a ficar agressivo. Meus pais estranharam o meu comportamento. Acreditaram que foi por causa da mudança, da nova cidade e da nova vida e me deixavam quieto, na esperança de que, com o passar do tempo, tudo voltaria ao normal. Mas eu queria apenas que “ela” fosse embora! Somente isso, e minha paz voltaria.

         Os dias foram passados, como as águas passam sob a ponte. Ana Laura voltou a me visitar no meio do mês de junho, após os meus pais telefonaram para ela avisando da minha mudança de comportamento. Esta veio na tentativa de me acalmar e me fazer mudar o comportamento. Porém, o que ocorreu não me fez acalmar... pelo contrário, só piorou minha angústia.

         Era sábado. Meus pais e meu irmão haviam saído, deixando-me sozinho novamente. Ana Laura estava comigo. Assistíamos deitados no sofá a um engraçado filme de comédia. Em um dado momento, começamos a nos beijar ardentemente, após trocas de olhares românticos. E ficamos ali, sobre o sofá, beijando-nos. Repentinamente, após desvencilhar-me momentaneamente dos lábios de Laura, fitei-me o seu rosto, apaixonadamente. Todavia, assustei-me. Meu coração foi à boca. Dei um grito abafado e afastei-me tão atrapalhadamente que caí no chão. Eu “a” vi! Por um momento. Eu tenho certeza. No rosto dela eu “a” vi!

         Desesperada, Ana Laura perguntou o que aconteceu. E com razão! Ela percebeu a minha cara de assustado. E o que eu deveria responder a ela? Que “ela” existe? Eu seria tachado como louco. Não posso.

         Tentei bolar alguma resposta convincente, mas não consegui. Nem bolar, nem falar, de tão paralisado eu estava. Laura percebeu que eu estava tremendo e com rosto de amedrontado e desceu do sofá, abraçando-me e me consolando.


         Após a aparição “dela”, saímos. Não disse nada a Ana Laura sobre o que aconteceu e quase não trocamos palavras. Provavelmente Laura acreditava que fez algo de muito ruim para me assustar daquele jeito. Coitada! Mas não poderia contar a ela a verdade.

         Caminhamos pela cidade até a Praça Dr. Augusto de Lima, uma das, ou talvez a principal, praças de Lavras. A praça se encontra no centro da rua, cercada de asfalto pelos lados. É bastante arborizada e sua entrada estava cercada pelos dois lados por palmeiras imperiais. Na Augusto de Lima se encontrava um grande número de bancos, além de bares e restaurantes. Fomos a um deles. Ficamos lá até por volta de onze horas da noite, quando subimos – era longe de casa, não arriscaria atravessar uma boa parcela da cidade de madrugada. Chegamos a minha casa, assistimos um pouco de TV junto de meus pais e fomos dormir.

         Em um determinado momento, acordei. Acreditei que já era dia, mas tudo ainda estava escuro. Acendi a luz do meu quarto e fui ao banheiro. Quando saí do recinto, escutei um barulho oriundo do interior da sala. Parecia um objeto batendo, de um lado para o outro, em locais duros.

         “Laura?”, perguntei, em um tom de voz mínimo. Não obtive resposta. Com passos vacilantes e lentos, caminhei até o local. Ao visualizar toda a cena, sobressaltei-me.

         “Ela” empurrava Laura de um lado ao outro, batendo sua cabeça nos sofás laterais.

         “O que está fazendo?”, perguntei. Fiquei com receio da resposta, mas não poderia deixá-la matar minha namorada na minha frente.

         “Ela” virou para mim novamente, mostrando-me o seu olhar demoníaco. Seu semblante estava furioso – o que a deixou mais demoníaco.

         “Vocêêêê é meeeeeu!”, ela me respondeu, gelando minha espinha. Não apenas pela voz demoníaca, mas pelas palavras proferidas por ela. Estagnei no local. Como assim, “você é meu?”. “Eu pertenço a ‘ela’?”. “‘Ela’ me quer?”

         Novamente não consegui dormir. Aquelas palavras “dela” ecoaram em minha mente por toda a noite. Deitado sobre a cama estremecia involuntariamente. Rezei apenas que a luz do dia seguinte logo chegasse.

         Tão logo a luz adentrou no interior do quarto, despertei. Aliás, despertar não. Apenas abri os olhos apenas; desperto eu estava, pois jamais adormecera. Levantei da minha cama e postei a caminhar em direção à saída do meu quarto, cambaleante, sonolento.

         Ouvi a voz de Ana Laura. Conversava com alguém, que se encontrava no interior da cozinha. Percebi-a narrando uma forte dor de cabeça, além de um grande galo que apareceu na região de sua têmpora esquerda. Logo acreditei se tratar dos fatos ocorridos na noite anterior. Mas não quis contar a ela o que, de fato, aconteceu. Queria apenas verificar se ela estava bem.

         Já me encontrava ao lado da porta do meu quarto quando, repentinamente, percebi algo na minha cômoda. Algo estava diferente nos meus portarretratos. Mais precisamente, em quatro deles. Os rostos de Ana Laura nas fotos contidas nos portarretratos sobre a minha cômoda estavam rasgados. No mesmo instante, chamei a todos os presentes para verificarem o que havia acontecido. Vieram minha mãe e Laura, que ficaram estupefatas com o ocorrido. Por mais que eu imaginasse que aquilo era obra “dela”, fingi desconhecer quem foi o causador daquele incidente.

         Todos ficaram preocupados. Principalmente Ana Laura. Principalmente por estar com um galo gigantesco na cabeça que adquiriu enquanto dormia. No mesmo instante em que minhas fotos com ela foram rasgadas.

         Naquele dia, não saímos. Ficamos em casa o dia inteiro, amedrontados com a situação. Só saímos quando precisamos deixar Laura na rodoviária. E, naquele instante, eu percebi, com o canto do olho, “ela” na janela do meu quarto, fitando-me incessantemente.


         Eu estava sentado na varanda de minha residência, em um clássico dia de começo de inverno. Lá fora ventava uma fria brisa. Lia os classificados de um jornal local, à procura de um novo emprego – já que eu perdera o anterior, devido à confusão mental que me encontrava. Pessoas passavam continuadamente pela frente da residência, até que uma delas, ao me fitar no interior da residência, perguntou, dirigindo-se a mim, em voz alta:

         “Olá. Você é o novo morador dessa casa?”

         No instante em que escutei as perguntas da mulher, fechei o jornal e a fitei. Era uma mulher de certa idade, de pele negra e cabelos baixos.

         “Oi, tudo bem?”, eu respondi, tentando ser amigável. Não queria conversar. “Sim, sou sim.”

         “Que legal. E estão gostando da casa?”

         Veio, instantaneamente, um flashback em minha mente “dela”. Senti um calafrio no corpo e deixei transparecer em meu semblante.

         “Sim, estamos sim”, respondi, forçando um falso sorriso.

         “Hum...”, disse a mulher, pensativa. “Eu trabalhei nesta casa, anos atrás.”

         “Ah... legal”.

         “Moravam um casal de senhores e eu era a empregada doméstica de ambos. Cuidava da casa e dos senhores. Então eu conheço bem a residência”. Eu fazia força para escutar o que a mulher dizia. Não estava nem um pouco interessado em saber a história dela para com esta casa, entretanto, não pude deixar de demonstrar interesse quando a mulher disse que conhecia bem a residência.

         “E o que aconteceu com os senhores?”

         “Estes senhores tinham uma neta, que vieram a morar com eles anos atrás. 15 ou 20 anos atrás. Ela morava em Ribeirão Vermelho, uma pequena cidade próxima a Lavras, e veio para cá para estudar na Universidade Federal da cidade. Porém, em um dia qualquer, enquanto voltava a pé da UFLA, ela foi atacada por dois homens na parte deserta da Perimetral, onde foi estuprada. O Inferno foi estabelecido dentro desta residência. Os senhores, sabendo do que aconteceu, trancaram-na no interior do seu quarto, não a deixando sair dia algum. Nem eu pude adentrar no quarto, para auxiliá-la. Ela ficou o tempo todo no interior do quarto, fitando pela janela a rua. Enquanto isso, marido e mulher começaram a brigar continuadamente, a ponto de determinada vez o homem esfaqueou sua esposa após um acesso de raiva e, em seguida, acabou por falecer, vítima de ataque cardíaco. Neste instante, pensei que a neta deles estaria livre do cárcere maldito. Abri a porta. Entretanto, ela já não estava mais viva. Após dias sem comer ou dormir, ela sucumbiu parada em frente à janela do quarto.”

         Eu fiquei estarrecido. A história dos antigos moradores desta residência era demoníaca. A neta foi estuprada covardemente por dois homens e foi trancafiada dentro do quarto, sem comer nem beber. O avô foi um covarde, igual aos estupradores. Coitada dela...

         “Essa história realmente é terrível.”, continuou a mulher. “Desculpe-me se lhe deixei assustado.”

         Mas não prestei atenção a nenhuma palavra proferida pela mulher. Estava absorto em meus devaneios. Com toda a certeza do mundo, a neta destes senhores é “ela”. O quarto “dela” provavelmente é o meu, já que é o único que dá para ver a rua. Isso explica o porquê de eu sempre vê-“la”... mas, por que os dizeres “você é meu?”

         “Bom, estou indo”, disse a mulher. “Se cuida, e prazer em conhecê-lo”.

         “Igualmente”, eu respondi, apenas.


         Saber da história “dela” me fez enxergá-“la” com outros olhos. Talvez “ela” não fosse tão demoníaca e assustadora como imaginei. Talvez... “ela” fosse apenas uma pessoa que sofreu nas mãos de tantos demônios, que se tornou um... Comecei a ter pena e compaixão “dela”. Mesmo que “ela” continuasse a me aterrorizar com suas aparições repentinas, cada vez mais frequentes.

         Certa vez, eu dormia tranquilamente em meu leito quando senti um agradável afago em minha cabeça. Uma macia mão acariciava o meu couro cabeludo gentilmente e mexia docemente em seus cabelos, acalmando-me. Senti-me mais relaxado, com o corpo tomado pela endorfina e quase voltando ao sono profundo. Eu estava extasiado, de tão boa as carícias. Todavia, dei-me conta, lentamente, de que era uma mão feminina que me acariciava. Ana Laura, pensei primeiramente. Porém, lembrei-me que Laura se encontrava em minha cidade natal, a 100 Km de Lavras. Não era Ana Laura com toda certeza. Abri os olhos, para identificar quem estava a me acariciar. Sobressaltei-me, quase me jogando na parede do lado oposto. Era “ela”! Estava ajoelhada na cabeceira da cama, apoiando a cabeça sobre o colchão.

         Junto ao sobressalto, veio um grito, que ecoou pelos quatro cantos da residência. Era sete horas da manhã e todos se encontravam ainda repousando. Com o meu grito, não estavam mais. Estavam todos de pé, assustados, correndo em minha direção. Fitaram-me encolhido e encostado na parede. Na minha frente, nada havia...

         Todos me julgaram, de uma forma ou de outra. Meu irmão me achou louco. Minha mãe achou que tive um pesadelo vívido. Meu pai achou que eu estava confundindo sonho com realidade. Não contei a eles “dela” ou certamente me julgariam como loucos.

         “Ela” começou a aparecer com cada vez mais frequência para mim. Nem mesmo dormindo “ela” me deixava em paz. A minha compaixão por “ela” logo se dissipou, sendo substituída por um ódio e um medo vorazes. Quando eu estava sozinho, a situação era pior. Quase sempre “ela” tentava se comunicar comigo, falando que queria me ter eternamente. Certa vez, enquanto eu estava tomando banho, a porta do banheiro foi violentamente esmurrada pelo lado de fora e alguém gritava continuadamente para eu sair. Não seria problema algum, se não fosse o detalhe de que eu me encontrava sozinho dentro de casa. Outra vez, estando novamente sozinho, encontrei escrito no espelho do banheiro, a tinta vermelha, os seguintes dizeres:



        
        
Passei a ver coisas voando e meus pertences começaram a desaparecer. Continuadamente, eu enxergava os escritos supramencionados em diferentes pontos da casa, como sobre o retrato meu e de Laura – foto que fora trocada, depois de a anterior ter sido rasgada -, ou no meu guardarroupa. Barulhos de gemidos e sussurros se tornaram audíveis na madrugada. Eu não dormia, não comia, não descansava. A exaustão rapidamente apareceu em meu corpo, deixando-me completamente esgotado. Com toda essa situação, comecei a ficar louco. Em qualquer lugar da casa eu passei a vê-“la”, o tempo todo. Não queria mais ficar em casa, passando a ficar até altas horas da madrugada na rua, vagando como um sem teto. Comecei a citá-“la” continuadamente e de forma desconexa. Meus pais ficaram sabendo da existência “dela”, mas acreditaram se tratar de um delírio meu. Chamaram novamente Ana Laura para me ajudar – e para tentarem identificar se “ela” era uma segunda mulher que eu conhecera. E foi nesta estada de Laura que tudo aconteceu e eu vim parar aqui, neste manicômio.

         Não me lembro mais em que dia da semana tudo ocorreu. Minha mente se encontrava nebulosa e muitos detalhes de minha vida simplesmente apagaram dela – mesmo da grande importância deste dia para minha vida. Ana Laura se encontrava em minha residência, onde passaria dez dias, na tentativa de me acalmar. Entretanto, tão logo chegou ao meu encontro, já percebeu a situação em que me encontrava. Sentia-me acuado, triste e amedrontado. Não queria ficar dentro de casa, sempre me assustava – com coisas invisíveis aos olhos dos outros – e comecei a contar para Laura sobre “ela”. Minha namorada se encontrava deveras preocupada – sabia da minha condição, contada por telefone por minha mãe, mas ela era incrivelmente pior do que imaginara. Chegara a conversar com meus pais da possibilidade de me levar a um psiquiatra e os mesmos já cogitaram tal ideia. O pior, entretanto, ainda estava por vir.

         Era noite. Lembro-me bem dessa situação. Todos já se encontravam dormindo, incluindo a mim. Em dado momento, acordei, pois “ela” já se encontrava dentro de meus sonhos, transformando-os nos mais nefastos pesadelos. Levantei da cama, acendi a luz do quarto e caminhei em direção à saída do quarto, onde adentrei na sala principal, virando-me em direção à cozinha, a fim de beber um copo de água. Repentinamente, eis que escuto um barulho às minhas costas. Meu coração saltitou feroz no peito. Virei de inopino para trás, onde sobressaltei. Era “ela”, novamente! E estava carregando Ana Laura pelos braços.

         “O que está fazendo?”, perguntei, assustado. Mas “ela” emudeceu. Nada disse a mim. Passou por mim carregando Ana Laura. Segurei-a, pelas pernas, impedindo que “ela” continuasse o seu intuito. “Ela” olhou furiosa para mim – onde me fez bambear pelas pernas.

         “Soooooolte!”, disse “ela”, com a sua característica voz demoníaca.

          “Não”, respondi, firme. Aquilo soou para “ela” como um desafio. “O que quer com ela?

         “Voooocê é meeeeu!”, “ela” disse. Em seguida, segurou o meu braço esquerdo com considerável força. Sua mão era gelada – parecia estar encostado em um pedaço de gelo – e apertava meu braço com tamanha força que eu sentia os nervos e os músculos romperem. “Ela” me soltou. Fui ao chão, com a mão direita sobre o local. A dor era pungente; não conseguiria ficar em pé. Aproveitando a ocasião, “ela” voltou a carregar Ana Laura.

         Tentei levantar o quanto antes, conseguindo-me ficar de pé apenas longos segundos depois. Fitei o meu braço, onde vi com clareza a marca roxa dos dedos demoníacos “dela”. Mas não poderia ficar ali parado. Precisava auxiliar Ana Laura, que certamente corria perigo. Corri a toda velocidade em direção à saída da casa, passando pela lavanderia e adentrando na parte externa de minha residência. O local estava incrivelmente escuro, possuindo como uma única fonte de luz a iluminação artificial oriunda da lavanderia. Estava nublado e era possivelmente dia de lua nova, pois nenhuma luz oriunda dos céus existia.

         Entretanto, enxerguei-“a” com clareza, ao lado do pé de carambolas, ao fundo no terreno. Acelerei os passos, atravessando todo o local e sujando o meu pijama de terra. Aos poucos, fui visualizando o que “ela” estava fazendo: abaixando-se para pegar algo no chão; uma faca, suja de terra; levantava-a no ar.

         “Pare!”, eu gritei. Estava próximo o suficiente “dela”. Segurei-“a” pelo pulso, impedindo o seu intento. Entretanto, foi apenas por alguns segundos. “Ela” desferiu um violento soco em meu rosto, na altura do supercílio direito. Cambaleei. O meu cérebro começou a rodopiar. Senti um líquido escorrendo pelo meu rosto, quase adentrando no meu olho. Após, senti um gosto amargo na minha boca.

         Quando voltei a mim, “a” percebi cravando a faca ferozmente no peito de Laura, continuadamente. Esta soltava um tímido gemido de dor, enquanto grandes quantidades de sangue esvaíam de seu corpo. Entrei em choque. “Ela” estava matando Ana Laura na minha frente! E o que eu poderia fazer? Meu cérebro estagnou, não conseguia reagir. Apenas gritar para que ela parasse. E gritar. E gritar. Até o dado momento em que as luzes de minha casa acenderam e todos os que lá residam saíram às pressas.

         “O que está fazendo?”, perguntou a minha mãe, sobressaltada. Meu pai e meu irmão vieram em nossa direção, desesperados. Postei a abrir a boca para responder, quando ouvi novamente minha mãe dizer, aos prantos. “Seu maníaco!”. Sobressaltei-me. “Como assim, SEU MANÍACO?”. Olhei ao redor, no instante em que, verdadeiramente, sobressaltei-me; meus pulsos tremeram e meu coração gelou dentro do peito. Era EU quem portava a faca! Era EU quem estava ceifando a vida de Ana Laura! Era EU o maníaco!

         E cá estou atualmente, neste manicômio judiciário. Fui processado, julgado e condenado pela morte de Ana Laura. Pelo relato dos meus pais, livraram-me da cadeia e enviaram-me a este hospital para tratamento de minha mente. Até hoje aquele dia nebuloso ecoa constantemente em minha mente, batendo e rebatendo, tentando entender o que aconteceu. Por que fui eu quem ceifou a vida de Laura? E onde “ela” estava? Aliás, quem, afinal de costas, era “ela”?

         Dez anos se passaram. Aos poucos fui convencido de que “ela” jamais existiu e que tudo foi obra da minha mente. E de fato foi. Analisando os detalhes, “ela” somente apareceu para mim. Laura e eu brigamos, por ela jamais aceitar eu mudar de cidade e seguir os meus pais, mesmo tendo emprego fixo em minha terra. Minha mente provavelmente utilizou destes acontecimentos para criar a figura “dela” para atacar Ana Laura, quando, na realidade, era eu quem queria fazer. Quando fui encontrado por meus pais matando Laura, não possuía nenhum sinal de dedos ou de soco em meu corpo. Se, de fato, “ela” existisse, não teria condições de encostar-se a um ser vivo, pois seria um fantasma. “Ela” não existiu, pois seria ilógico e impossível acreditar no contrário.

          Escrevo este relato hoje para que fiquem guardados os registros de minhas mais vis loucuras, com o intuito de mudar-me daqui para frente. Escolhi a data de 14 de maio, pois, dez anos antes, eu colocava os meus pés em Lavras para aqui residir; e daqui jamais saí. Até hoje. Recebi alta hospitalar e extinção do cumprimento de minha pena. Estou sendo levado neste exato momento à rodoviária da cidade, para embarcar no ônibus que me levará à minha terra, onde meus pais me aguardam. Meu irmão não mais lá se encontrava. Fiquei sabendo que o mesmo se casara seis anos antes e que a cerimônia foi linda. Que pena que não pude acompanhar. Mas, finalmente, após longos dez anos, recebi a minha liberdade de volta.

         Estou feliz por ter minha vida de volta. Será difícil eu acostumar no começo com uma nova rotina, após longínquos dez anos aprisionados. Uma estranha nostalgia bateu no meu peito quando visualizei a cor azul-claro do muro externo da minha antiga moradia. Ali, no começo, era o símbolo de uma nova vida, em uma nova cidade. Mesmo após os fatos, ainda enxergo como ali o símbolo da minha nova vida nesta cidade. Dez anos se passaram e o local estava parcialmente modificado. Fiquei a fitar, nostalgicamente, a minha antiga morada, lembrando-me dos bons momentos em que eu passei ali. Repentinamente, arregalei os olhos. Meus músculos travaram e meu coração congelou. “Ela” estava na janela do meu antigo quarto, visualizando o exterior. Ao me fitar, sorriu. Meu Deus! “Ela” existe!  


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