O ESTRANHO CASO DE EMILIE SAGÉE - Narrativa Clássica Sobrenatural - Narrativa Verídica - Alexandre Aksakof



O ESTRANHO CASO DE EMILIE SAGÉE
Alexandre Aksakof
(1832 -1903)

Em 1845, existia na Livônia (e ainda existe), a trinta milhas de Riga e a uma légua e meia da pequena cidade de Wolmar, um instituto para moças nobres, o " Pensionato de Neuwelcke". Nessa época, o diretor era um certo M. Buch. O número de pensionistas, quase todas de famílias nobres livonianas, era de quarenta e dois. Entre elas achava-se a segunda filha do Barão Güldenstubbe, de 13 anos.

Entre as professoras, existia uma francesa, de nome Emilie Sagée, nascida em Dijon. Tinha o tipo do Norte: era loura, forte, de olhos muito claros e cabelos castanhos. Era fina e um pouco mais alta que o tipo médio, amável, doce e alegre, mas um pouco tímida e de temperamento nervoso e um tanto excitável. Sua saúde era ordinariamente boa e, durante o tempo (um ano e meio) que passou em Neuwelcke, não teve senão uma ou duas indisposições ligeiras. Era inteligente e de perfeita educação, tendo os diretores se mostrado completamente satisfeitos com suas aptidões e sua maneira de educar durante todo o tempo de sua permanência no colégio. Tinha trinta e dois anos.

Poucas semanas depois de sua chegada, singulares preocupações começaram a ter lugar entre as alunas. Quando uma dizia ter visto Mme. Sagée em tal parte do estabelecimento, outra garantia tê-la encontrado na mesma ocasião em outro lugar, dizendo: "Não, não pode ser; acabo de cruzar com ela na escada". No princípio, acreditou-se em enganos, mas como o fato não deixava de se reproduzir, as moças começaram a achar o caso muito esquisito, e por fim o relataram às demais professoras. Estas, por ignorância ou preconceito, diziam que não havia nada de mais, que não podia ser como as moças diziam, e que não davam importância às versões correntes.

As coisas, porém, não tardaram a se complicar, apresentando um caráter que excluía toda possibilidade de fantasia ou de erro. Um dia, quando Emilie Sagée dava aula a treze meninas, entre as quais se encontrava a Sta. Güldenstubbe, para tornar mais clara sua explicação, ia escrevendo no quadro negro as passagens que deveria explicar. Neste vai-e-vem da cátedra para o quadro negro, de repente suas alunas passaram a ver duas Mme. Sagée, uma ao lado da outra. Eram absolutamente iguais e executavam os mesmos gestos. A única diferença é que a verdadeira pessoa tinha na mão um pedaço de giz, e efetivamente escrevia, enquanto o seu "duplo" apenas a imitava. Resultou uma grande sensação no estabelecimento, pois todas as moças, sem exceção, tinham visto a segunda forma, e estavam unanimemente de acordo na descrição do fenômeno.

Pouco depois, uma das alunas, a Srta. Antonieta de Wrangel, obteve permissão para ir com algumas colegas a uma festa local da vizinhança. Estava ocupada em completar sua toilette, quando Mme. Sagée, com sua habitual bonomia e sensibilidade, veio auxiliá-la a abotoar os colchetes das costas do vestido. A moça, voltando-se casualmente, viu no espelho duas Emilie Sagées. Assustou-se de tal modo com a brusca aparição que desmaiou.

Passaram-se meses, e os fenômenos continuaram a se repetir. O "duplo" da educadora era visto de quando em quando durante o jantar, de pé por trás de sua cadeira, imitando seus movimentos, enquanto ela comia, mas sem faca ou garfo, ou alimentos nas mãos. Tanto as alunas, como as criadas que serviam à mesa, eram igualmente testemunhas. Entretanto, acontecia que nem sempre o "duplo" imitava os movimentos da pessoa verdadeira. Muitas vezes, quando esta se levantava da cadeira, via-se o "duplo" continuar sentado. Certa vez, deitando-se por causa de um resfriado, a Srta. Wrangel, que lia, a fim de distrair Mme. Sagée, viu-a repentinamente empalidecer e ficar dura como se estivesse a pique de um estado muito grave. Amedrontada, perguntou-lhe se estava se sentindo mal, ao que ela respondeu dizendo que não, fazendo-o, porém, com uma voz muito fraca. Voltando-se por acaso, a Srta. Wrangel, percebeu, logo alguns instantes depois, e muito distintamente, o "duplo” da doente passeando ao longo do quarto. Desta vez, ela teve bastante controle sobre si mesma para manter a calma, e não fazer a menor pergunta à professora, mas pouco depois, muito pálida, desceu a escada, e contou às colegas o que havia visto.

Os fenômenos continuaram a se repetir, tendo as versões chegado ao conhecimento dos pais das alunas, e muitos, apavorados com o caso, passadas as férias, não mais enviavam as filhas para o colégio. E assim é que, ao cabo de 18 meses, de 42 meninas, só restavam 13. O diretor, então, muito a contragosto, pois Mme. Sagée era de fina educação, e preenchia absolutamente bem suas funções, viu-se obrigado a despedi-la. Ao receber a notícia de que deveria se retirar, Mme. Sagée, desesperada, exclamou na presença da Srta. Güldenstubbe: "É a décima nona vez; é duro de suportar". Foi descansar em uma habitação não muito distante, e mais tarde retirou-se para a Rússia, não dando mais notícias. Todos esses fatos e muitos outros foram relatados pela Srta. Guldenstubbe, íntima de Mme. Sagée, e são autênticos. Mme. Sagée não percebia nada; era a única que não via seu próprio "duplo”. Sabia do fenômeno, porque lhe cortavam.

Fonte: “A Cigarra”, edição de julho de 1948.
Tradução de autor desconhecido do séc. XX.



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