O ELIXIR DA BELEZA - Conto Clássico Fantástico - Evangelista Rocaz


O ELIXIR DA BELEZA
Evangelista Rocaz (séc. XIX)

O conde D. Roberto era o leão dos leões do seu tempo. Mas, como a elegância e a beleza não dão dinheiro nem pagam dívidas, o conde, depois ter sido alguns anos o terror das famílias, achou-se com os calções no fio e sem ter quem lhe emprestasse para outras compras.

Era, na verdade, uma situação horrível! 

A condessa, sua tia, sem elegância e sem beleza, tinha justamente o que ele não tinha: dinheiro. Era o único porto de salvação do conde. Mas que porto! Pergunte ao marujo, cansado do mar, se lhe agradam muito uns rochedos aos quais que nem um pinheiro — nem uma urze, sequer — dá um pouco de frescor.

No entanto, começara a faltar ao conde paciência para com os seus credores. Um dia, crescendo as dívidas, o conde sentiu-se obrigado a pedir a tia em casamento, no que ela anuiu, felizmente para ele.

A condessa, que tinha aquela experiencia dos 40 anos, fez testamento em favor do sobrinho, mas não lhe deu, enquanto noiva, um vintém com que comprasse uns calções novos.

Chegara, por esse tempo, ao teatro, a mais bela das cantoras. Possuía uma voz harmoniosa e vibrante. E tinha uns olhos de um azul puríssimo, que levavam a paixão nos raios que lançavam até o peito mais endurecido. O pobre conde foi vítima.

Mas os calções... Aqueles calções no fio... A única infidelidade que lhe permitiam era o admirar — do camarote, onde a noiva sorria ao lado dele —, na artista insigne, a formosura da mulher com todo o ardor da sua pouca idade. O tempo, porém, passava rapidamente e o dia fatal estava próximo.
*
Era uma noite tempestuosa. O fogo na lareira quase a expirar. O conde, em uma cadeira, estava pensativo, chegando de vez em quando as mãos perto do fogo para as aquecer.

—Está frio — disse ele.

 Olhou para o cesto de carvão, que estava vazio.

 —Façamos uma fogueira com as cartas das amantes.

Abriu sete gavetas, onde, atrapalhadamente, tinha retratos, cartas, flores, laços... que sei eu?

— Vejamos esta — disse ele e leu:

“Ontem, no baile...”

—É da marquesa...

E lançou-a ao fogo.

Um retrato seguiu o caminho da carta, depois uma segunda carta e um segundo retrato. Passado um instante, só restavam uma miniatura linda e uma carta.

 —Esta letra eu conheço— disse o conde, pegando a carta um pouco mais religiosamente do que as outras.

Leu-a.

 —Pobre Maria!  — disse ele, acabando de ler. — Depois desta, mais nenhuma me escreveste. Matei-te amando uma outra mulher. Pobre Maria! Tu, sim, me amavas.

E lançou a carta ao fogo.

A carta iluminou-lhe o quarto com um clarão sinistro.

Depois de ter fitado o papel que se carbonizava e a cinza que se estorcia, pegou o retrato.

—Eras linda, tu!

E ia para lançar o retrato no fogo.

 —Para quê? — disse ele, sorrindo. — O fogo nada pode contra o marfim.

E pôs-se a pensar na bela cantora.

—O ouro!... O ouro, como é belo! Como é belo poder dizer a uma mulher: “sê minha amante, que sou riquíssimo”. Minha tia fez testamento em meu favor... Se minha tia morresse...

Franziu as sobrancelhas, os olhos brilharam-lhe e pôs-se a meditar.

Depois, levantou-se, embrulhou-se no capote e saiu.

 O relógio da catedral dava meia-noite.

A tempestade continuava cada vez mais rija. O conde apressou o passo. Caminhou por entre as travessas mais escuras, e, por fim, encharcado até a medula dos ossos, tiritando de frio, parou à esquina de um beco.

Na trapeira de uma casa meio arruinada, e que o tempo cobria com seu lúgubre manto, ainda havia luz aquelas horas.

O conde empurrou aporta e subiu aos apalpões uma escada cuja madeira se lhe desfazia sob os pés.

 Chegado ao cimo parou, e bateu à porta.

Viu-se a luz do interior pelas fendas enormes.

A porta abriu-se e o conde achou-se em um recinto horrível.

Os frascos, as retortas, as caveiras e o forno aceso indicaram-lhe que se não tinha enganado. O famoso alquimista daquela época estava trabalhando.

 — Eu te incomodo? — disse o conde.

 —Não — respondeu o velho. — Senta-te. Que queres de mim?

—Preciso de ti.

—Para quê? Sobretudo não mintas para mim.

 —Amo uma mulher e não posso comprar o seu amor. Vou-me casar. Minha noiva é rica e eu serei o seu herdeiro, caso ela morra já sendo a minha mulher. Dá-me um veneno, que não deixe vestígio, e metade da fortuna dela será tua.

— Tu és cruel.

— Eu te darei muito dinheiro. Ficarás riquíssimo. Juro-te segredo.

 —Não quero riquezas. Sabes o que eu estava fazendo?

— Não.

—Roubaram-me a filha. Sei que morreu, porque devia morrer; mas devotei um ódio eterno ao seu matador. Para saber quem foi, trabalho dia e noite. Tu podes me servir.

—Como?

— Se por ti alguma mulher já morreu, entrega-me, se o tens, o retrato dela. Não quero riquezas.

 —Pareces adivinhar. Tenho justamente um retrato. Toma.

—Vou, enfim, sabê-lo!... — disse o alquimista, com um sorriso feroz, tomando o retrato de Maria, que o conde lhe oferecera.

 —Espera, que já te vou dar o veneno.

O conde observava um sapo que se estorcia em um liquido asqueroso. Não pôde ver a cara de dor, de raiva, de aflição do alquimista ao reparar na miniatura. As mãos tremeram-lhe e deixou cair o retrato.

—Pronto? —disso o conde, voltando-se.

—Já te dou o veneno que me pedes — disse o alquimista, em cujo rosto não transparecia o mais leve sinal do que há pouco lhe ia n'alma. Abriu uma gaveta e dela tirou um frasco pequeno.

 —Toma, disse ele ao conde. Quando casas?

 —Depois de amanhã.

—À noite, dá-lhe o veneno num copo de água. Conduz tua mulher ao quarto e chama-a. Eu estarei num quarto contíguo. Vai.

 O conde saiu da casa do alquimista assoviando, e nunca em sua vida passou noite tão descansada como aquela, em que meditava uma morte.

*
O casamento, o jantar e o baile foram como todos os bailes, jantares e casamentos de um homem que se uniu a unia tia velha e rica. Quase já ao romper do dia, a noiva entrou com o conde no seu toucador.

— Como estavam quentes aquelas salas! Dá-me um copo d'agua, Roberto — disse a condessa entrando.

O veneno foi-lhe oferecido pelo marido com um cinismo espantoso.

A condessa bebeu.

O conde ofereceu-lhe o braço e conduziu-a ao quarto.

—Deste-lhe o veneno? — disse o alquimista, que entrara no toucador, mal saíra a condessa.

— Dei. Ela está morta?

— Dentro em pouco.

— E dentro em pouco vou ser rico, riquíssimo!  Isabel é morta!

—Não, assassino! Ainda não! — disse, saindo o do quarto, para onde havia pouco entrara a condessa, a mulher mais formosa que se pode imaginar.

—Quem és?  — disse o conde, recuando aterrorizado.

—Tua mulher! —  disse o alquimista. — Dei-lhe o elixir da beleza para te castigar.

—Isabel! — disse o conde, ajoelhando-se aos pés da condessa, louco de amor. —Isabel!  Oh! como és bela, como és bela! Amo-te, amo-te muito... Perdão!

—Tarde me pedes para que eu te possa perdoar.

O sino de um convento próximo tocava a matinas.

—Ali... — disse Isabel —, vou morrer.

O conde já morrera de amor

*

Do famoso alquimista não se sabe mais nada.

Um dia, abateu a casa em que habitava, e ninguém ousou tocar nas ruínas.

Mais tarde, acharam-se ali várias caveiras e um só esqueleto inteiro.

Deu isso que fazer a muita gente, e só tempos depois, por umas letras, já quase sumidas, numa chapa de ferro, se soube quem era o dono daqueles ossos.

Foram queimados e as cinzas e lançadas ao vento.


Fonte: “O Espírito Santense”/ES, edição de 16 de abril de 1874.
Fizeram-se breves adaptações textuais.

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