UMA NOITE TERRÍVEL - Conto Humorístico de Terror - Anton Tchekhov



UMA NOITE TERRÍVEL

Anton Tchekhov

(1860 - 1904)

 

Empalidecendo, Iván Ivanovitch Panihidin começou a história com emoção:

 — Uma densa névoa cobria a cidade quando, na noite de Ano Novo de 1883, eu regressava a casa. Passando a noite com um amigo, entretivemo-nos em uma sessão espírita. As ruelas que eu tinha que atravessar estavam escuras e eu tinha que andar quase às apalpadelas. À época, eu vivia em Moscou, em um bairro distante. O caminho era longo; os pensamentos, confusos; tinha o coração oprimido...

“Declina tua existência!... Arrepende-te”, dissera o espírito de Spinoza, que havíamos consultado.

Ao pedir-lhe que me dissesse algo mais, não apenas repetiu a mesma sentença, como acrescentou: “Esta noite.”

Não creio no espiritismo, mas as ideias e mesmo as alusões à morte me impressionam profundamente. Não se pode postergar ou prescindir da morte; mas, apesar de tudo, ela é uma ideia que nossa natureza repele. Então, ao encontrar-me no meio das trevas, enquanto a chuva caía sem cessar e o vento uivava lastimosamente, quando em meu redor não se via um ser vivo, não se ouvia uma voz humana, minha alma estava dominada por um terror incompreensível. Eu, homem sem superstições, corria a toda pressa, temendo olhar para trás. Tinha medo de que, ao voltar-me, a morte aparecesse diante mim sob a forma de um fantasma.

Panuhidin suspirou e, tomando um gole d’água, continuou:

— Aquele medo infundado, mas irreprimível, não me abandonava. Subi quatro andares de meu prédio e abri a porta do meu quarto. Meu modesto cômodo estava escuro. O vento gemia na chaminé, como a queixar-se por ficar lá fora.

A se crer nas palavras de Spinoza, a morte viria esta noite, acompanhada deste gemido: “brrrrr!”... Que horror!... Acendi um fósforo. O vento aumentou, convertendo o gemido num uivo furioso. Os postigos debatiam-se como se alguém os golpeasse.

“Pobre dos desabrigados numa noite desta”, pensei.

Não pude prosseguir em meus pensamentos. À chama amarela do fósforo, que iluminava o quarto, um espetáculo inverossímil e horrendo sucedeu diante dos meus olhos. Infelizmente, uma rajada de vento não alcançou o meu fósforo. Se alcançasse, evitaria a visão que me eriçou os cabelos... Gritei, dei um passo à porta, e, louco de terror, de espanto e de desespero, fechei os olhos.

No meio do quarto havia um ataúde.

Embora o fósforo tivesse permanecido aceso por pouco tempo, o aspecto do ataúde ficou gravado em minha mente. Era de brocado rosa, com galão dourado sobre a tampa. O brocado, as alças e os pés de bronze indicavam que o defunto havia sido rico; a julgar pelo tamanho e cor do ataúde, o defunto devia ser uma jovem de alta estatura.

Sem pensar ou deter-me, saí como um louco e me lancei escadas abaixo. No corredor e na escada, tudo era escuridão. Meus pés se enredavam no sobretudo. Não entendo como não caí e quebrei os ossos. Na rua, apoiei-me a um poste e procurei acalmar-me. Meu coração pulsava. A garganta estava ressequida. Não me assustaria se encontrasse em meu quarto um ladrão, um cão raivoso, um incêndio... Não me assustaria se o teto tivesse desmoronado... Tudo isto é natural e concebível. Mas, como um caixão de defunto foi parar no meu quarto? Um ataúde caro, evidentemente destinado a uma jovem rica. Como havia ido parar no pobre cômodo de um empregado insignificante? Estaria vazio, ou haveria um cadáver em seu interior? E quem seria a infeliz que me fez tão terrível visita? Mistério!

Era um milagre ou um crime. Eu perdia a cabeça com conjecturas. Em minha ausência, a porta estava sempre trancada, e somente sabiam  o lugar onde escondia a chave os meus melhores amigos. Mas eles não iriam enfiar um ataúde em meu quarto. Era possível presumir que o agente funerário o tivesse trazido por equívoco. Mas, em tal caso, não iria fazê-lo sem cobrar o preço, ou, pelo menos, um sinal.

Os espíritos haviam profetizado a minha morte. Acaso haviam me dado o esquife?

Eu não acreditava — e continuo sem crer — no espiritismo. Mas semelhante coincidência era capaz de desconcertar qualquer um. Era impossível. Sou um medroso, um frouxo. Fora uma alucinação. Ao voltar para casa, estava tão sugestionado que acreditei ver o que não existia. Claro! O que mais poderia ser?

A chuva me encharcava; o vento sacudia-me o gorro e rodopiava-me o sobretudo. Eu estava pingando... Sentia frio... Não podia ficar ali. Mas para onde iria? Voltar ao quarto e encontrar-me outra vez em frente do ataúde? Isto era impensável. Enlouqueceria se voltasse a ver aquele féretro, que provavelmente continha um cadáver. Decidi passar a noite na casa de um amigo.

Panihidin, secando a fronte banhada de suor frio, suspirou e continuou a sua narrativa:

 — Meu amigo não estava em casa. Depois de chamar várias vezes, convenci-me de que ele estava ausente. Procurei a chave detrás da viga, abri a porta e entrei. Apressei-me em tirar o sobretudo molhado, lançando-o ao chão. Deixei-me desabar no sofá. As trevas eram completas. O vento rugia com mais força. Na torre do Kremlin soou o toque das duas. Peguei um fósforo e acendi. Mas a luz não me tranquilizou. Ao contrário: o que vi me encheu de horror. Vacilei um momento e fugi como um louco daquele lugar. Na sala de meu amigo, vi um caixão de defunto... Duas vezes maior que o outro.

A cor marrom conferia-lhe um aspecto lúgubre... Por que se encontrava ali? Não havia dúvida: era uma alucinação... Era impossível que em todos os cômodos houvesse ataúdes. Evidentemente, onde quer que eu fosse, a todo lugar eu levaria comigo a visão da última morada.

Pelo visto, eu padecia de uma enfermidade nervosa, em razão da sessão espírita e das palavras de Spinoza.

“Estou ficando louco”, pensava, segurando a cabeça. “Meu Deus, o que posso fazer?”

Sentia vertigem. As pernas dobravam. Chovia a cântaros. Estava molhado até os ossos, sem gorro e sem sobretudo. Impossível voltar para apanhá-los. Estava seguro de que tudo aquilo era uma alucinação. Entretanto, o terror me aprisionava, tinha a face inundada de suor frio, os cabelos em pé...

Eu estava ficando louco e me arriscava a pegar uma pneumonia. Por sorte, recordei que, na mesma rua, vivia um médico conhecido meu, que havia assistido também à sessão espírita. Dirigi-me à sua casa. À época, era solteiro e morava no quinto andar de uma casa grande. Meus nervos tiveram de suportar um novo abalo... Ao subir a escada, ouvi um ruído atroz. Alguém descia correndo, fechando violentamente as portas e gritando com todas as forças: “Socorro, socorro! Porteiro!”.

Momentos depois via aparecer uma figura sombria, que descia quase rolando as escadas.

 — Pagostof! — exclamei, ao reconhecer meu amigo médico. — É você? O que houve?

Detendo-se, Pagastof agarrou-me a mão convulsivamente. Estava lívido, respirava com dificuldade, tremia... e tinha os olhos desfocados, extremamente abertos...

 — É você, Panihidin? — perguntou-me com voz rouca. — É você mesmo? Você está pálido como um morto... Meu Deus! Não é uma alucinação? Você me dá medo!...

 — Mas, o que aconteceu? — perguntei, lívido.

 — Meu amigo, graças a Deus é você realmente! Como estou feliz em vê-lo! A maldita sessão espírita transtornou os meus nervos. Imagine o amigo o que apareceu em meu quarto, quando voltei? Um ataúde!

Não pude crer e lhe pedi que repetisse o que dissera.

 — Um ataúde, um ataúde mesmo! — disse o médico, extenuado, na escada. — Não sou covarde. Mas o próprio diabo se assustaria encontrando um caixão no quarto, depois de uma sessão espírita.

Então, balbuciando e gaguejando, contei ao médico que eu também havia visto dois ataúdes. Por uns instantes, ficamos mudos, olhando-nos fixamente. Depois, para nos convencermos de que tudo aquilo não era um sonho, começamos a nos beliscar.

 — Os beliscões doem em nós — disse finalmente o médico. — Isto significa que não estamos dormindo e que os ataúdes — o meu e os seus — não são fenômenos óticos, mas que existem realmente. O que faremos?

Passamos uma hora entre conjecturas e suposições. Estávamos gelados e, por fim, resolvemos dominar o terror e entrar no quarto do médico. Avisamos ao porteiro, que subiu conosco. Ao entrar, acendemos uma vela e vimos um ataúde de brocado branco com flores e borlas douradas. O porteiro se persignou com devoção.

 — Vamos verificar — disse o médico, tremendo — se o ataúde está vazio ou ocupado.

Depois de muito vacilar, o médico se aproximou e, travando os dentes de medo, levantou a tampa. Lançamos um olhar e vimos que... o ataúde estava vazio. Não havia cadáver, mas apenas uma carta, que dizia:

“Querido amigo:

Sabe você que o negócio do meu sogro vai em bancarrota: tem muitas dívidas. A qualquer dia, virão penhorar-lhe os bens. Isto nos arruinará e desonrará. Assim, decidimos esconder as coisas de maior valor, e como a fortuna de meu sogro consiste em ataúdes — os mais afamados em nossa cidade —, procuramos pôr a salvo os melhores. Estou certo que você, como um bom amigo, me ajudará a defender a honra e a fortuna, e por isto lhe envio um caixão, rogando ao amigo que o guarde até que passe o perigo. Precisamos da ajuda de amigos e conhecidos. Não nos negue este favor.

 

O ataúde ficará apenas uma semana em sua casa. A todos que se consideram amigos meus, mandei caixões como este, contando com nobreza e generosidade de todos vocês.

Seu amigo,

Tchelustin.” 

Depois daquela noite, tive de submeter-me a um tratamento dos nervos por três semanas. Nosso amigo, o genro do fabricante de ataúde, salvou sua fortuna e honra. Agora tem uma funerária e vende mausoléus. Mas seu negócio não prospera, e às noites, ao retornar a casa, temo encontrar junto à minha cama um catafalco ou um mausoléu.

 

 Versão em português (tradução indireta) de Paulo Soriano.

 


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